Romanticídio


lauraramos,

 

Neste dia tão parvo, estou com o Miguel Esteves Cardoso:

 

«Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em “diálogo”. O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam “praticamente” apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do “tá bem, tudo bem”, tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A “vidinha” é uma convivência assassina. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.»

14 comentários em “Romanticídio”

      1. Talvez, Laura. Mas hoje senti umas saudades enormes da Ali McGraw. Além disso o cavalheiro arménio que canta essa canção (inspirada na nossa Amália) surgirá aqui não tarda muito.

  1. Ora aí está! Romanticídio puro, o MEC tem toda a razão. Como diz o meu amigo Sabina “Os amores que matam, nunca morrem. Os amores que morrem, nunca matam.”

    1. Ana,
      Se o MEC viesse a Macau e lhe pedissem 900 “mocas” (90 euros) por um ramo de rosas (uma só vendem amanhã!!!), percebia que não há romantismo que resista!!!

      1. Ah, Pedro, mas isso é romantismo preguiçoso… lindo, lindo, é arriscar roubar uma flor num jardim qualquer e oferecer à namorada! E não custa um tostão, a não ser em advogados, se a coisa correr mal.
        🙂

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