Participações à GNR, à PSP, devoluções postais à Segurança Social, consultas em cartórios e conservatórias concelhios, telefonemas, deslocações, esperas de vária natureza, consideráveis doses de fleuma para lidar com o descaso – quando não insolência – de quem representa o Estado, tal como com o fatalismo dos familiares. Podemos, está visto, calcular quantas horas e euros D. Aida Martins aplicou na tentada descoberta do paradeiro da sua vizinha. Não podemos é estimar o valor do seu fazer mais do que está previsto na lei, mais do que o bem visto, mais do que o esperado. De um a outro vai a diferença entre o cidadão qualquer e o cidadão como ele deve ser.
Elogio de Dona Aida
Ana Cláudia Vicente,


‘Roubaste-me’ o texto que eu tinha há vários dias na cabeça, Ana Cláudia. E fizeste muito bem. Justíssima homenagem à D. Aida. Assim mesmo: D. Aida. Com nome próprio. Não «a vizinha» a que fazem referência certos órgãos de informação. Tal como a falecida D. Augusta também merece ser tratada pelo nome em vez da «idosa» a que é reduzida nas notícias que a matam nove anos depois de ter morrido.
Exactamente, Cláudia. Donas Aidas é que vai havendo cada vez menos.
Era só uma velhota chata, senil.
E ninguém lhe deu importância.
Eu gostava de lhe dar uma grande beijoca!!
A D. Aida é uma grande mulher. Merece todo o nosso carinho e respeito.
O problema da D. Aida não ter sido ouvida é ser uma idosa.
Ninguém ouve os idosos. Desprezam a sua sabedoria.
Esta própria sociedade, mesquinha e controlada, mediocrizante e bufa, convive muito mal com esses “assomos” de solidariedade e diria mesmo, de civilidade. Criou-se a ilusão dum Estado dito “social”, enquanto se matava a sociedade verdadeiramente real e concreta, a golpes de regulações, proibições, legislações e aberrações afins, substituindo-a por uma artificialidade que pouco mais serve que os seus próprios interesses.
Um GRANDE bem-haja (e eu nunca utilizo esta expressão). Espero que haja mais Donas Aidas por aí, e que não se deixem perder com o corropio desenfreado e a individualização crescentes da sociedade.
Muito bem lembrado!
Há no nosso tempo e espaço – e não só no urbano, diga-se – um certo desmerecimento das relações de vizinhança e do papel central dos mais velhos nessas relações; ouço muitas vezes confundir a civilidade cuidadora de um vizinho com “metidice” e “falta do que fazer”. Há algo terrivelmente errado nisso, bem como naquela instrumentalização que alguns fazem destes cidadãos mais disponíveis e que se preocupam com os outros: são bons para deixar as chaves ou o periquito, mas depois agradecer e conversar um pouco é que não, credo.