O comentário da semana


Pedro Correia,

 

«Tapar e segregar as mulheres para não distrair os homens?! O véu integral pode ser bom porque protege as mulheres? Protege-as dos homens? Se assim é, porque não prender os homens, esses seres perigosos, prontos a desrespeitar as mulheres? Porque não afastar da oração os homens que se distraem? Eles que vão para uma sala à parte, se quiserem. O véu não protege as mulheres, pelo contrário, torna-as mais vulneráveis, porque invisíveis. Piropos, qualquer uma aguenta. Não ter rosto, não ter voz. É isso que está em causa.

Deixe-me só salientar alguns aspectos:
1. Não referi o Islão, nem mesquitas, uma única vez, falei de véus.
2. Não interessa nada se a separação de faz ao lado, atrás, em cima ou em baixo. A questão é haver segregação e o argumento ser tão rasteiro: não perturbar os homens.
3. Este argumento já o ouvi em Israel, é verdade, e aqui mesmo em Lisboa a sinagoga segrega homens e mulheres. Um mal não resolve o outro.
4. Seguindo o seu raciocínio, suponho que os cristãos tenham uma qualidade espiritual superior uma vez que conseguem rezar com mulheres ao lado.
5. O que me preocupa não é o foro religioso, nem o que se passa durante as orações. Ainda bem que o Islão dá valor às orações das mulheres(!). Pena é que no campo dos direitos civis e na vida corrente isso não aconteça na maior parte dos países muçulmanos. É disso que se trata. Ser menor à face da lei uma vida inteira, a palavra da mulher valer menos que a do homem (não poder ser taxista, por exemplo, porque os homens depois não pagavam e a palavra deles se sobrepunha sempre – história real ouvida na Egipto), não poder ir ao banco sozinha porque não me atendem ou os homens todos me passam à frente (história real, mais uma vez), etc, etc.
6. Por fim, parece-me claro que a proibição do véu integral não é mais do que a consequência dos direitos, liberdades e garantias que muito arduamente foram conquistados no Ocidente. Na Europa, uma mulher não deve andar tapada, mesmo que a cultura do seu país de origem o imponha, pela simples razão que na Europa, regra geral e por lei, não somos consideradas meros objectos (sexuais ou outros). Proíba-se porque, de outra forma, os abusos e violações de direitos disfarçados de prática religiosa vão continuar. É para isso que existem as proibições. E por vezes são necessárias para defender os nossos valores mais queridos.»

 

Da Marta Costa Reis. Reagindo a um comentário a este texto dela publicado no DELITO DE OPINIÃO, a nosso convite.  

5 comentários em “O comentário da semana”

  1. A vida em sociedade tem regras, tem leis. Algumas consagram proibições, implícitas ou explícitas. Na nossa cultura, é suposto que todas elas contemplem os direitos humanos, promovam a igualdade.

    Excelente comentário na sequência do que já era um excelente texto da Marta.

    1. É com textos como este e o que lhe deu origem que se vai avançando e aceitando as tiranias.

      Veja-se só o ponto de partida: « Podemos argumentar com a liberdade de escolha… pois! Não acredito nisso.»

      A tal incapacidade de aceitar o óbvio, que cada um seja livre para se vestir como lhe apetecer, leva a tais preconceitos. Tão bons ou tão mais como os que aparentemente pretende combater.

      Em lado nenhum se explicita o único ponto base aceitável numa sociedade livre: ninguém pode ser obrigado ou proibido de utilizar a indumentária que entenda.
      Quando alguém imponha uma obrigação de indumentária ou a pretenda proibir, deve a sociedade proteger o direito à livre opção de cada cidadão e sancionar o abusador.

      As excepções a tais princípios dizem respeito a normas de segurança (sobrepondo-se ao direito individual por visarem proteger direitos de terceiros) que mesmo assim apenas deverão ser de aplicação pontual, em locais onde estejam em causa elementos de segurança (aeroportos, centros de comunicações, identificação civil, etc.) e não devem em caso algum invadir o espaço privado, nem o espaço público de forma generalizada.

      A proibição de burkas, véus e outras tretas que alguns países europeus tentam impor é tão violador da liberdade individual como o seu contraponto que é a obrigação de utilizar tais artefactos que certos países impõem.
      O principio é o mesmo: uns auto-proclamados clarividentes que se acham no direito de dizer como os outros devem conformar a sua vida.
      Piedosa e abusiva intenção que como se sabe é a origem de todas as imposições e proibições próprias das tiranias: sem excepção, nenhuma deixa de autojustificar a perda da liberdade individual com a protecção da liberdade dos outros.

    2. Acho paradoxal qando os defensores da proibição da burka vêm com o argumento “vivemos numa sociedade com regras e as leis devem reflectir os nossos valores” (mais palavra, menos palavra) – será que perdem um minuto para pensar que EXACTAMENTE o mesmo argumento pode ser feito pelos defensores da obrigatoriedade da burka (ou do hijab, ou do que for) nos seus respectivos países?

  2. “É para isso que existem as proibições.”

    A razão poque existem as proibições é para impedir que um individuo, com as suas acções, prejudique outros individuos?

    Quais são os outros indivíduos que são prejudicados por uma mulher usar véu integral?

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