Passado presente (CCCXXVIII)
lauraramos,
Facto: – Fernando Nobre perdeu a eleição para a presidência da AR.
Leitura pseudo-especializada: – Passos Coelho perdeu e Paulo Portas ganhou, numa grande demonstração de força.
Sentença dos cérebros privilegiados (e bem pagos) da nossa praça:
– Primeiros indícios da previsível fragilidade da coligação (hurrah!)
Blá blá, bá blá.
Pois bem:
– Ninguém percebeu?
O PP prestou o seu primeiro grande serviço ao PSD.
E siga a democracia.
Magnífico: em Mirandês e sem desenhos
. O Ministro X é uma 2ª ou 3ª escolha –> Os jornais não conseguiram acertar na composição do governo
. É um ministro sem peso político –> O cavaquismo morreu
. É um governo inexperiente –> É um governo que nunca faliu um país
. O ministro da Saúde não é médico –> Quem é que agora vai receitar os antibióticos?
. É um governo de tecnocratas –> Temo que saibam fazer contas
. O ministro é um teórico –> Acho que não se formou na Independente, e consta que percebe a lei da oferta e da procura
The right man, in the right place.
– At the right moment ?
Pois… Mas aqui se mede a coragem.
– Bom trabalho! (disso tenho a certeza).
Sem um pingo de solidariedade blogosférica.
A Cultura é a nossa alma. E (ainda) não precisamos de Sforza.
Considero que está muito bem entregue.
Via Pordata, chegou-me o artigo da ‘Visão’ As Mulheres fazem a diferença.
Não gosto do título, mas interessam-me os dados, que revelam o que afinal já todos sabemos, empiricamente:
Se repararmos – agora acrescento eu – a representação feminina em lugares de direcção e chefia é escassa. E também neste caso é substancialmente maior na Administração Pública do que na actividade privada. Não porque o Estado-produtor seja menos misógino e mais esclarecido do que o produtor privado… mas apenas porque a igualdade de oportunidades de acesso a esses cargos está realmente protegida (sujeita ao princípio da legalidade e ao controlo dos interessados).
– Então, o que é vai perpetuando a ausência das mulheres do poder?
O dever de garantir a vida dos outros: as crianças (cada vez menos); os ascendentes a cargo; as tarefas em casa.
O eterno papel supletivo.
A obrigação de realmente fazer.
Já sabíamos.
Gosto de o comprovar assim, em artigos de fundo.
E não gosto de ouvir isto em hino; inscrito em aventais invisíveis de loja maçónica; ou cacarejado durante o brushing.
Qualquer consciência de classe fundamentalista me tira do sério.
E não é que não a tenha.
É a servidão total.
Não, já não falo da escravidão tácita, aquela que caracteriza os consumidores do séc. XXI e os leva às abdicações mais absurdas de liberdade.
Falo de pura servidão humana, com direito a todos os matadores: correntes, cárcere, fome, espancamento, doença.
Passa-se aqui e agora, em plena Beira Baixa, com compatriotas nossos.
Passa-se 37 anos depois do 25 de Abril.
Passa-se quando o país discutia, ainda há dois dias, se vale a pena a 3ª ponte sobre o Tejo, o novo aeroporto, o TGV.
E discutia a eficácia do rendimento social de inserção (para onde foi ele?)
Haverá sempre cara e coroa no mundo em que vivemos.
Mas isto ultrapassa tudo quanto é admissível num país da UE.
Como é possivel termos chegado a tanto, debaixo do nosso nariz?
Durão Barroso, apelando ao voto, disse que as eleições de hoje eram as mais importantes desde o 25 de Abril de 1974.
Exagero estratégico, ou crua lucidez?
Tendo a concordar.
Isso, se no histórico das primeiras incluirmos as que serviram para emendar Março de 1975 e legitimar as forças do 25 de Novembro, quando esteve em jogo a subsistência do regime democrático e os rottweilers comunistas se apropriaram do poder, com recurso ao único expediente que conhecem: a força das armas.
Então, o que temos hoje em mãos?
Os resultados de uma democracia que abdicou da virtude?
A ressaca do poder exercido por incompetentes?
São anos negros aqueles que, mais uma vez, vamos julgar.
Tão negros quanto aqueles que nos esperam – dizem (et pour cause).
Se não for agora, num momento crucial como este, que nos manifestamos maciçamente, que direito ao silêncio nos restará?
Nenhum.
As águas não são cálidas nem bonançosas. São frias, como gelo, e agitadas.
Mas ainda vamos a tempo de emendar Setembro.
It has always seemed strange to me that things we admire in men — kindness and generosity, openness, honesty, understanding, and feeling — are the concomitants of failure in our system. And those traits we detest — sharpness, greed, acquisitiveness, meanness, egotism, and self-interest — are the traits of success.
And while men admire the quality of the first, they love the produce of the second.
(Steinbeck, «Cannery Row»)
Eis um paradoxo que se mantém.
– Irresolúvel?
Não me reconheço nele mas, em contrapartida, confirmo os seus efeitos.
– Como é possível que as qualidades que mais admiramos nas pessoas sejam as que sistematicamente desvalorizamos, quando chega a hora de escolher um destino para o país?
Grande Steinbeck: se há um escritor a reler neste momento da história, é ele mesmo, que escreveu em plena Grande Depressão.
Escandalizam-se com Fernando Nobre.
E com este, não?!
Co-fundador do CDS (secretário-geral e vice-presidente da Comissão Política Nacional e presidente da Mesa do Congresso).
Deputado à Assembleia Constituinte e à Assembleia da República
Ministro do Comércio e Turismo nos II e VI Governos
Ministro de Estado no VII Governo
Ministro da Agricultura, Comércio e Pescas no VIII Governo
Vice-presidente da Assembleia da República
Conselheiro de Estado
Candidato à Presidência da República
Representante permanente de Portugal na OCDE.
Presidente do Conselho de Administração da AICEP
Agora, 400 milhões de saldo negativo de investimento estrangeiro depois…
é cabeça de lista pelo PS em Leiria.

O ruído de fundo do banal, do acessório e do efémero, parece distrair-nos da reflexão fundamental sobre uma virtude que hoje se usa quase com vergonha: o patriotismo.
Que sentido fará este conceito no século XXI?
O meu conceito é simples: é ter orgulho em ser português em Portugal.
Assumir publicamente, como cidadãos livres e independentes, uma escolha.
A escolha de um futuro, num tempo em que ele surge, na imaginação do nosso povo, como sombrio e incerto.
A esperança só é robusta quando surge da construção solidária de um povo, na conjunção de todas as áreas de intervenção.
Pelo contrário, o desalento é uma profecia que automaticamente se cumpre.
(João Lobo Antunes, 27/10/2005)
«Será possível ter eleições em silêncio? Sem políticos?»
(lido no facebook)
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Na Moda Lisboa 2011, duas colecções antagónicas: Nuno Gama (Testocracia) e Ricardo Dourado (A Girl Like A Boy like A Girl). Decidam-se, consumidores conspícuos. Se o dress code não enganar – e engana… oh, se engana… – levo comigo os delitos do primeiro. |
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Olhava-o e ficava siderada. Por tudo o que via. Mas sobretudo por tudo o que não via. Arrancava-a do sério. De um lado era a aparência, a charla, o encanto; e os olhos atlânticos. Do outro, o impossível crivo de virtudes mentais, o intangível nervo da racionalidade, a eficiência instantânea, mas discreta. O longo treino no ser, a mestria no estar.
Passar ao estádio seguinte parecia obrigatório. Sentia-se avocada.
Mas seria tão curto.
Não, era melhor assim:
Ir descobrindo, lenta, as imperfeições dele. Enredar-se nalgumas, de tão harmoniosas que acabavam por ser, numa contradição melódica. E fixar-se noutras que a levassem a ver. Ver como numa TAC, reveladora e crua.
Detestava a cegueira. Era este o caminho.
Por isso mesmo, quando ainda cedia à tentação tremenda dos sentidos, voltava à tona da água daquele mar revolto e respirava fundo, aliviada, por tudo não passar de um risco imaginário. Fugia da entrega, o que é dizer, do logro. E depois, já sabia que a clareza é dúbia: pode bem ser magnífica, mas também pode ser pródiga em vulgaridade. Depende de quem lê e ninguém merece tanto, porque a vida inteligente, em fim de contas, não assiste os humanos em todas as matérias.
Largar, abrir os olhos e ficar vigilante. Doravante, era assim.
Apagou o programa. Fechou as ligações.
“Sim, quero sair!” – respondeu, irritada.
Cancelar tudo. Voltar atrás. Matar.
Era esse o caminho, até tudo passar.
(Sabia que o melhor só viria depois).