Nada de confusões


lauraramos,

 

Não sei se este é, ou não, um caso de mau jornalismo.

O que sei, com toda a certeza, é que um acontecimento destes é absolutamente normal em democracia e assim deveria ser interpretado.

Por isso, apresentá-lo com contornos de escândalo seria, de facto,  um péssimo serviço à pedagogia crítica que os jornalistas deverão ser os primeiros a exercer numa sociedade evoluída (se não for esta a exigir-lo deles).

 

Num estado de direito, o facto de um cidadão ser penhorado pelo fisco – muito provavelmente, assaltado pelo fisco, a coberto do privilégio de execução prévia -, não é notícia: é o cão morder o dono.

 

O que nos devia preocupar não é que o fisco exerça o seu papel e o cidadão se defenda, recorrendo aos meios legais que tem ao seu dispor. Estão em causa actos do quotidiano normal, eticamente neutros, contabilisticamente relevantes, em que a soberania do estado gera uma enorme desproporção de forças entre a administração e o contribuinte.

 

O que nos devia preocupar, sim, são os casos em que o cidadão assalta o Estado, longe dos nossos olhos tapados, quando o império da lei e da nação,  subitamente e como por milagre, desaparece.
O que nos devia preocupar é que possam, eventualmente, voltar a acontecer casos como este, e este.
E este, e este e este e este.

 

Isso sim, deverá ser notícia. O dono a morder o cão.

5 comentários em “Nada de confusões”

  1. Sem dúvida, Laura.
    O seu post diz tudo, está perfeito.
    Mas há quem se entretenha a encher páginas, certo?

    1. É mesmo… O que impressiona, como marca geral, é a sanha desvairada de criar notícias ‘contra’ as pessoas, raramente ‘a favor’. Salvo honrosas excepções (e outras desonrosas, quando as loas têm moeda de troca…), anda tudo à cata de escândalo. E se não há escândalo, fabrica-se. O espírito crítico da comunicação social parece que não “cresceu”… anda muito próximo do adolescente que bate em tudo quanto vê pela frente ;.)

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