Um tiro na cabeça


Ana Vidal,

Entristece-me assistir à morte de alguém, seja ela real ou metafórica. Mais, ainda, à de um homem por quem já tive admiração. Fernando Nobre foi, em tempos, alguém que criou e desenvolveu uma obra meritória e pioneira em prol dos mais desfavorecidos. Mas isso não lhe bastava, sabemo-lo agora. A tentação da ribalta falou mais alto e ele deixou-se armadilhar pela própria ambição, sabiamente manipulada, muito provavelmente, por outros muito mais experientes nessas artes. E assim disse e se desdisse continuamente, descendo a pulso na vida política e na imagem que dele tínhamos. Fernando Nobre não precisou que ninguém lhe desse um tiro na cabeça – nesse dramatismo de novela mexicana que era, afinal, premonitório – para morrer aos olhos de todos nós. No caso, para suicidar-se. Ele próprio agarrou na arma, encostou-a à têmpora e premiu o gatilho. E fê-lo aos poucos, lenta e dolorosamente. Tão altas expectativas para acabar assim, tristemente, sem nobreza nem dignidade. Cai o pano sobre uma figura triste, que ultimamente só tem feito tristes figuras.

11 comentários em “Um tiro na cabeça”

  1. Um “herói” nunca se conforma com o anonimato… E depois, a falta de cultura política que sempre revelou enquanto candidato a PR é justamente o que agora não lhe permitiu entender o que se esperava dele.

    1. Ele não entendeu nada, Laura… mas prestou-se. E prestou-se pelos piores motivos, que ficaram bem claros quando anunciou pomposamente “ou presidente ou nada”. E de novo agora, quando esclareceu todas as dúvidas que pudéssemos ainda ter.

  2. Devo dizer que o primeiro comentário que ouvi, há bastantes anos já, sobre Fernando Nobre (para justificar a origem da AMI como sucedâneo dos Médecins Sans Frontères, se bem me lembro), foi que era um pavão, com um ego do tamanho duma casa.

    E por falar em egos do tamanho duma casa, fiz a tal pergunta sobre a Gabriela Canavilhas a quem conhece não sei quem que conhece não sei quem, e a resposta foi qualquer coisa como: “É mesmo dela”. 😉

    1. Provou ser vaidoso, sim. E também ingénuo, o que apesar de tudo é uma atenuante.

      Quanto à ex-ministra, Isabel, foi isso mais ou menos o que ouvi também.

      1. Não sei se é uma atenuante. Se é verdade o que se diz, que ele estava convencido de que a Maçonaria o ia pôr onde ele queria, eu não chamo a isso ingenuidade embora talvez pudesse fazê-lo.

  3. Não discuto que seja uma ingenuidade. O que discuto é que se trate de uma atenuante. É como chamar simplesmente ingénuo a alguém que não está à espera de ir de cana por motivo de corrupção porque, na ideia dele, é o trivial e croquetes…

    Quem sabe, talvez isto seja algum minúsculo sinal de mudança 😉

  4. Era uma figura que sempre admirei, ao longo dos anos.
    Fez um grande trabalho, rodeou-se de quem sabe, criou uma obra de que nos orgulhamos e esteve sempre na linha da frente.
    Internacionalmente reconhecido o seu mérito, em prol dos mais necessitados, qualquer que fosse o cenário.
    Era um ídolo.
    Fez com que eu fosse sócia da AMI e tencionasse terminar a minha vida numa missão em qualquer parte do mundo.

    Se me questionei sobre a sua opção política, pela sua falta de preparação, sobre o mediatismo a que subiu num ápice e de que pareceu gostar, decidi pensar na atenuante de ser um independente, um impreparado politicamente, o que até poderia ser uma virtude, se o víssemos como uma personalidade sem vícios.
    Mas não era assim e tal não lhe bastou, como vimos.
    Deu vários tiros no pé, mas, acima de tudo, via-se ali uma ânsia de poder que não lhe reconhecia.
    Depois, seguiram-se os “diz que disse mas não disse” ou simplesmente “não era bem isso o que queria dizer”, que de ingenuidade não têem nada. E sempre a reboque de alguém mais preparado politicamente.
    Só faltava o remate final, que no caso, foi um tiro certeiro.
    Afinal, era mesmo o topo ou nada. Se já não havia dúvidas, o mito caiu por terra.
    Incapaz de se alhear das câmeras, só lhe faltou viver a sua própria fantasia e imaginar o seu próprio sucesso:
    All riht, Mr. DeMille, I’me ready for my close-up…
    Ao que pode chegar a miséria de um ser humano!

    Deixei de ser sócia da AMI, o que, provavelmente, não tem nada a ver com o assunto.

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