O que realmente me interessa


jmmcc,

Estou-me nas tintas para os segredos de alcova. Nada me atrai do que seja da vida privada de qualquer um. Nem quero duvidar das decisões judiciais sobre a ausência de matéria criminal deste ou daquele. Mas interessa-me muito tudo o que diga respeito à gestão da coisa pública feita atrás da porta. Mesmo que isso se esconda numa falsa privacidade interceptada. Interessa-me como interessa aos que recorrem às escutas institucionalizadas. Interessa-me para que eu possa fazer o meu próprio juízo. De carácter também.

Interessa-me que se faça justiça. Interessa-me que as escutas institucionalizadas sirvam para fazê-la. Interessa-me saber em que medida elas permitem culpar alguém. Interessa-me ajuizar por e para mim próprio. Por isso é que pode interessar-me o mesmo nos casos inversos. O meu juízo sobre o carácter de alguém que gere a coisa pública atrás da porta não é jurídico nem incriminatório. Apenas me interessa para participar com mais consciência na vida colectiva e no exercício individual da cidadania como parte do todo.

Isto interessa pelo menos a um: a mim.

Carnaval ignorado (1)


jmmcc,

Só falamos do Carnaval do Rio de Janeiro, de raspão do Carnaval com samba que importamos parolamente do Rio, a correr do Carnaval ainda mais parolo que copiamos mal do Rio, timidamente de um ou outro resquício do nosso velho Entrudo (o Carnaval pobre que é nossa tradição popular) e ignoramos completamente um festejo dos mais famosos e antigos do mundo: o Carnaval de Veneza.

O Carnaval rico, o Carnaval do Teatro e da Ópera, o Carnaval do Barroco e da Renascença, o Carnaval das máscaras e dos trajes, esse, passa totalmente em branco. É sempre a mesma coisa. Nem um apontamento sobre a…

… Festa della Marie, dos Bambini…

… dos Nobili, dos Insoliti…

… ou das gôndolas.

Nada. Se fosse um jogo Milán-Juventus ou Parma-Florentina não faltariam enviados especiais…

O candidato ‘déjà vu’


jmmcc,

Aguiar Branco e Paulo Rangel não abdicam das suas candidaturas à liderança do PSD (agravando o fim da amizade que os unia, como na objectiva de Adriano Miranda/Público). Com um congresso extraordinário (e de utilidade misteriosa) pela frente, nada disto é necessariamente definitivo. Parece-me, no entanto, que há uma diferença entre os dois. Se Aguiar Branco vier a desistir, ainda poderá dizer-se que o fará em nome de interesses superiores, que não os dele. Já se for Paulo Rangel a deixar a corrida, a história é déjà vu: Rangel também garantia abespinhado que não seria candidato, horas antes de anunciar a sua candidatura.

Também déjà vu é a viragem de 180 graus três meses após ter declarado com pompa que cumpriria o mandato no Parlamento Europeu para que foi eleito. Mais? Sacrificar uma amizade a uma candidatura é outro caso déjà vu. «A minha candidatura é de ruptura» – diz o ainda eurodeputado. É capaz de ser: de uma só penada, a ruptura foi na lealdade que devia ao amigo.

Pela parte que me toca ao olhar a vida pública, estou esclarecido sobre as qualidades do candidato. Tudo isto começa a ser demasiadamente semelhante a outros políticos em diversos momentos, aqueles que não deixaram saudades. É tão semelhante que até pode pensar-se que, de ruptura, é tudo: ruptura do mandato europeu, ruptura no distanciamento da eleição partidária e ruptura com o seu velho amigo.

Acabaram aqui as rupturas, talvez, porque este modus faciendi de Rangel é tão semelhante ao de tantos outros que não se encontram diferenças para uma desejável viragem. Palavras inflamadas, promessas juradas, o-dito-por-não-dito – é tudo o que o País está cansado de ver e ouvir.

 

P.S. — Depois do congresso se saberá se o candidato que começou mal e que Pacheco Pereira apoia (na rota do seu habitual feeling) opta por uma derradeira ruptura com esta corrida. Ou se o seu ex-amigo desiste ou não. Se nenhum sair, Passos Coelho agradece.

A sucata do regime sucateiro


jmmcc,

O vocabulário político incluiu uma expressão curiosa: "empresas do regime". De cada vez que ouço o primeiro-ministro falar na importância das pequenas e médias empresas e nos apoios que está a pensar destinar-lhes, vem-me logo à cabeça um rol de "empresas do regime", que são as que não exportam, nem sequer produzem, mas são as maiores, com cotação na Bolsa e tudo. Vivem ricamente à custa do Estado, a desafiar o governo a lançar mais e mais obras públicas, que é o sector que as encanta e a que a política não resiste.

Por estes dias, que tanto se tem dito sobre a queda da economia do País e da ética dos políticos, volta-me de novo à ideia a mesma expressão, que me ocorre por confirmar o quanto descemos fundo. Qual é, afinal, a mais recente e tentacular "empresa do regime"? Uma sucateira, senhores. Coisa nunca antes vista: uma sucateira. Sintomático, não é?

A lei e a ética


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Em Almonda, para os lados de Torres Novas, há três escolas: duas com vários anos e sinais de degradação e uma construída em 2002 que custou cerca de um milhão de euros. As duas primeiras para lá estão e hão-de estar, mas a escola mais recente vai ser demolida para dar lugar a outra mais nova ainda.

Porquê? Porque as obras de adaptação, segundo o Ministério da Educação, «tornariam a requalificação do imóvel uma opção desvantajosa, sendo preferível a construção de uma nova escola». E que obras de adaptação seriam essas que tornam preferível a demolição de uma escola com oito anos? O ministério diz que ela não obedece (e precisa de obedecer?!) às imposições legais destinadas aos edifícios públicos desde há quatro anos.

Por outras palavras: vai ser demolida uma escola construída em 2002 para obedecer às normas legais que vigoram desde 2006. Digam-me cá: é esta história que está muito, mas mesmo muito mal contada, ou é um sinal de que também têm de ser deitados abaixo os políticos em exercício que não obedecem às normas éticas exigíveis desde sempre?

 

Adenda — Uma notícia sobre um facto, mas  que veicula uma informação institucional dúbia e não questiona a fonte para cabal esclarecimento da dúvida óbvia que levanta, é o exemplo da notícia que não devia ser publicada por não estar acabada e, como tal, exemplo de mau jornalismo.

Sabia que… (10)


jmmcc,

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cartão do Dia de S. Valentim, de 1883 (EUA): já era indispensável um anjinho preto de carapinha, mas só na proporção de um para cinco!

… o Dia dos Namorados é apenas mais uma data importada dos EUA, que foram impondo ao mundo um calendário mercantilista imparável, desde a adopção do Pai Natal criado pela Coca-Cola?

Pois é isso mesmo. Contudo, o costume tem raízes antigas de séculos e os norte-americanos, afinal, estão longe de ter lançado a ideia, que nasceu na Europa.

A data da morte do mártir católico, 14 de Fevereiro, considerava-se na Idade Média que era o primeiro dia de acasalamento das aves (ou, pelo menos, dos pássaros). Namorados franceses e ingleses começaram a celebrar o dia pela tradição associada aos pássaros, coisa que nos EUA só começou um século mais tarde, com a alusão explícita a São Valentim.

Já o Brasil interessou-se tanto por esta influência norte-americana como pelo acordo ortográfico: o Dia dos Namorados continua a ser 12 de Junho, véspera da celebração de Santo António, o santo casamenteiro português.

Passado presente (extra)


jmmcc,

 

Suzuki SW-1 (Japão, 1991)*

 

* — Série especial limitada (‘jubileu’ comemorativo dos 50 anos de exportações) destinada a coleccionadores do mercado interno. Raras unidades exportadas (só conheço a exportação de cinco para Hong Kong) e nenhuma vendida na Europa. Por isso é que disto já não há. Até porque esta é minha (com quase 20 anos e menos de 10 mil quilómetros, continua como estava no primeiro dia).

Somos de uma só palavra


jmmcc,

Um dos títulos grandes desta sexta-feira é inesperado: «Constâncio vai mandar na supervisão do Banco Central  Europeu». Nem-mais-nem-menos. Podem os europeus dormir descansados a partir de agora, que a crise financeira fica em boas mãos. É que nem tentem desistir dele e mandá-lo de volta. Os portugueses são pessoas de palavra: a gente dispensou-o, está dispensado. Boa sorte, europeus.

Os termos de um ‘contratualito’


jmmcc,

É através deste post mais abaixo, do Sérgio de Almeida Correia, que ficamos a perceber melhor como as coisas funcionam para Paulo Rangel. «Agora contratualizei com os portugueses fazer este serviço em Bruxelas e é isso que eu quero fazer» – garantia Rangel em finais de Outubro, em jeito que parecia confirmar a promessa de cumprir o mandato para que fôra eleito.

Vejamos bem: ele disse que tinha acabado de contratualizar esse mandato. Afinal, o que vem a ser contratualizar? É o mesmo que contratar, só que é mais longo. O que significa que, se ele tivesse contratado em vez de contratualizado, a coisa seria mais curta e ele até podia muito bem ter dado a promessa por cumprida ao fim de 48 horas, digamos.

Afinal, nós é que precisamos de estar atentos às letras pequeninas dos contratos…

Não é minha nem é Tua…


jmmcc,

… É de quem a apanhou. «Infelizmente o prometido pelos nossos governantes já teve início. Destruir o Tua e tapá-lo com cimento. São estas as grandes obras de "estado". Estragar aquilo que a natureza ofereceu em prol de grandes negócios, como se a construção desta barragem viesse dar algum lucro ao país quando o caudal anunciado é miserável. A destruição é contínua. Ainda há dias foi encerrada a Linha Férrea de Miranda do Corvo-Coimbra, ao fim de 103 anos! O que irá a seguir?»

 

As fotos são daqui, tiradas por António José Lourenço há poucos dias.

Entrega


jmmcc,

Após (mais) uma derrota das antigas e se bem percebi, o treinador do Sporting apareceu a dar aquelas explicações repetidas à exaustão que já toda a gente conhece e, mais ainda, a elogiar «a entrega dos jogadores». Fiquei sem saber se ele estava a referir-se à entrega aos adversários, mas não tenho nada com isso.

Neve e nostalgia


jmmcc,

Washington acaba de apanhar um nevão como não há memória. A 14 de Janeiro de 1939, a limpeza do manto de neve na escadaria do Capitólio fazia-se com a paciência e o vagar de outros tempos. Por isso é que tem hoje o sabor nostálgico das memórias.

Feliz aniversário


jmmcc,

Estás como o Baudelaire: os anos não passam por ti.

Parabéns a Você,

Nesta data querida

lá-lá-lá-lá… Feliz aniversário, Ana.

 

Adenda — Trata-se de uma antecipação infeliz. Enquanto uns fazem anos de frescura, outros há a quem a idade não perdoa. Sorry. A propósito, Ana: parabéns por mais estes 363 dias…