Diz-se cada coisa


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A vida pública caiu tão fundo que tudo o que se ponha a circular já ninguém estranha: rapidamente se propaga e logo começa a constar como verdade. Vejam bem que várias pessoas, em poucos dias, me fizeram chegar que há uma deputada pelo PS que, por ter residência em Paris, não só recebe passagens aéreas de ida-e-volta uma vez por semana como ainda anda a receber ajudas de custo diárias da Assembleia da República. Diz-se cada coisa por aí.

Cabalas e contextos: os medricas


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Tenho andado a tentar entender e cheguei a algumas conclusões. Ele há as cabalas e os contextos. Sempre achei que eram coisas muito diferentes, mas agora sei que não é bem assim: as cabalas são respostas reservadas a gente de topo e os contextos são respostas permitidas aos outros que estão perto do topo sem estar no topo.

No fundo, cabalas e contextos não diferem muito, excepto na pose teatral que acompanha ambas e, sobretudo, no tempo do arremesso. As cabalas têm de ser mais rápidas, têm de estar na ponta da língua, ao passo que os contextos podem surgir mais tarde, mais reflectidos e menos indignados.

Já só me falta entender por que raio as cabalas servem para umas vezes e são postas de lado outras vezes, enquanto os contextos estão sempre aí na crista da onda. Vou continuar a procurar a explicação, mas confesso que me sinto perdido com estas modernices. É que eu sou do tempo em que a difamação só tinha uma saída: luva ao chão para um duelo. Nem cabalas nem contextos, que são respostas medricas próprias de quem virou a cara para não ver a luva atirada.

Quem deve perceber disto é o Carlos Queiroz. Não quer calar a imprensa nem tem espada, mas abafa opiniões não autorizadas e distribui uns safanões. Não há cá cabalas ou contextos.

Liverpool & Beatlemania (11)


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Há um célebre Rolls-Royce Phantom V, de 1965, que foi despachado a 3 de Junho desse mesmo ano para John Lennon e que, como tal, chegou a circular pelas ruas de Liverpool.

Uma dúvida parece estar ainda por esclarecer: Lennon teve um ou dois Rolls? Para uns, o carro começou por ser preto e passou a branco pouco tempo depois. Para outros, era branco de origem. Para alguns, foram dois carros: o que teve a matrícula FJB111C (originalmente preto ou branco, ou preto e depois branco) e um que foi matriculado como EUC1000 (o Pantom V branco que aparece repetidamente neste vídeo dos Beatles Ballad of John and Yoko).

Branco (ou já branco), o Rolls FJB111C recebeu um rádio-telefone Sterno ainda em Dezembro do primeiro ano e, em 1966, um equipamento de som com microfone e amplificador, um televisor Sony, um telefone e uma caixa frigorífica, ao mesmo tempo que o assento traseiro era modificado para poder converter-se em cama dupla.

Por essa altura, o motorista e o carro foram para Espanha, onde Lennon participava na filmagem de How I Won the War (de Richard Lester), e há quem garanta que o Rolls estava pintado de preto baço, grelha e restantes cromados incluídos. Estaria? O certo é que o luxuoso Phantom V estava para ser alterado profundamente. Os Beatles estavam a braços com um trabalho de fôlego (o Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, logo seguido do Magical Mystery Tour) e John deixava-se contagiar pela pop art da época que também marcava a imagem musical dos Fab Four: que tal o carro ser psicadélico?

Da ideia à realidade foi um passo. Em 1967, uma limousine de prestígio transformava-se neste brinquedo de ricos. Os ingleses não acharam graça ao resultado e Lennon, magalómano e sempre a dar nas vistas, foi afrontado por uma Lady de tradição na Baixa londrina, segundo se conta, que esmurrou o carro ao atirar-lhe um guarda-chuva, revoltada por aquele atentado a um símbolo britânico: «You swine! You swine! How dare you do this to a Rolls-Royce!?»

Nesse ano de 1967, John tinha apresentado a ideia à firma J.P. Fallon, que se dedicava à transformação de carroçarias e que levou por diante o desenho de Steve Weaver e a habilidade de Marijke Koger (conhecido como "O Louco", homem de origem cigana da Holanda e pintor de motivos psicadélicos). O trabalho custou duas mil libras para uns e 290 libras para os outros – a pintura ficou a cargo dos ciganos artistas.

Os Beatles utilizaram o carro no seu período de maior popularidade, entre 1966 e 1969. Em 1970, John e Yoko embarcaram-no para os EUA. Após várias peripécias, foi doado ao Cooper-Hewitt Museum, que que só o expôs algum tempo pelo elevado custo do seguro.

Já em 1985, o museu nova-iorquino decidiu leiloá-lo através da Sotheby’s, que apontava para 200 mil ou 300 dólares e que viu o carro sair por 2,299 milhões de dólares para Jim Pattison, o patrão da Ripley International Inc. e fundador do Ripley’s "Believe It Or Not" Museum, que conseguiu registá-lo na Carolina do Sul com a matrícula LENNON e o juntou à colecção de insólitos.

Emprestado para a Expo’86 em Vancouver, o Rolls foi transferido para a participada canadiana Jim Pattison Industries, após o que foi para o Transportation Museum of British Columbia e, finalmente, para o Royal British Columbia Museum, em Victoria, onde foi restaurado e é mantido sob alçada do Canadian Conservation Institute.

Liverpool nunca mais viu a limo psicadélica. Mas foi pior nunca mais ter visto Lennon.

Lacão esquecido


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De hora a hora, ouço repetidamente na SIC-Notícias Jorge Lacão a perorar sobre a consciência e as preocupações e as boas intenções e a boa governação que se contrapõem às maldades que andam por aí a dizer-se. Acho notável o exercício e fluidez de Lacão, que só peca por não se ter lembrado de aproveitar o tempo de antena para esclarecer a sua posição no caso recente em que foi dado como um dos protagonistas.

‘Artitectura’: os mal-amados (13)


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Doris’s Place, em Hackney (Grã-Bretanha)

O Dori’s Place é uma pequena moradia recente, projectada pela Peter Barber Architects, que teve em vista o aproveitamento integral e maximizado de uma área minúscula. A construção assenta numa base cujas frentes opostas rondam os 4,5 metros e ergue-se em três pisos: rés-do-chão e dois andares, sendo o de cima parcial e descontínuo.

Embora lhe chamem "arte grega", tem todo o ar contemporâneo de uma casa urbana, com a sua fachada branca, cobertura elíptica e janelas irregulares. Possui um terraço descoberto ao nível do segundo andar interrompido, onde Doris (com Marian Lewis) junta os amigos quando pode. Estranhamente, a varanda avançada no andar de cima tem um piso transparente, o que não pode seguramente transmitir conforto a quem a utiliza e que deve constrastar com o mobiliário, descrito como quente e acolhedor.

 

Esta casa constitui uma espécie de unidade-cobaia a servir de exemplo para a criação de moradias numa zona urbana de grande densidade e que precisa de ser regenerada, de modo a integrar 650 quartos por hectare para agregados familiares numa área residencial, precisamente em Hackney, que fica a norte de Londres e tem fama de grande criminalidade.

Sejamos francos quanto ao projecto: o resultado é inovador, aproveita o espaço como um bem precioso nos meios urbanos e possui um certo charme. Por isso, seria injusto chamar-lhe um mal-amado típico. Apenas a vizinhança, nas suas casinhas tradicionais de bairro antiquado, ainda olha de soslaio para o que insiste em considerar uma aberração, um vírus intrometido.

Portanto, é muito capaz de se justificar que esteja na curta lista de candidaturas aos Prémios RIBA, instituídos pelo prestigiado Royal Institute of British Architects. Mesmo com os sérios inconvenientes que a descontinuidade da habitação implica… 

A oportunidade


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O Tribunal de Contas exigiu a devolução das verbas indevidamente gastas pelos partidos na Madeira, destinadas ao funcionamento do Parlamento regional. São uns 5,7 milhões de euros, abusivamente desviados do objectivo exclusivo e utilizados em cartazes e campanhas partidárias, bem como para pagar a empregados dos partidos e a pessoas que frequentaram comícios.

Convenhamos que, se é manifestamente inoportuno o problema da alteração da Lei das Finanças Regionais, esta cobrança a bem do rigor das contas madeirenses é de uma oportunidade indesmentível.

Sentemo-nos


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Há por aí um caso que promete aquecer. Normalmente, o melhor é esperarmos sentados. Mas, já agora, aguardemos num confortável sofá — como este modelo jornal-de-sexta —  por causa das demoras.

Mais conhecida pela tradução…


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Este bronze de Alberto Giacometti (1901–1966), datado de 1961, foi ontem levado a leilão pela Sotheby’s, em Londres, e mudou de mãos pelo (inesperado) valor mais alto alguma vez atingido por um trabalho artístico: cerca de 65 milhões de libras (equivalente a mais de cem milhões de euros), preço este que ficou um tudo-nada acima do Garçon à la Pipe, assinado por Pablo Picasso em 1905, que foi leiloado em 2004 e detinha o valor-recorde entre as obras de arte transaccionadas.

O lado curioso da notícia é o imenso ego britânico retratado pelo modo como referem o título desta obra: «Alberto Giacometti’s L’Homme Qui Marche I, better known as ‘Walking Man’».

Não fosse a nossa cultura geral andar um pouco por baixo e a escultura também seria "muito conhecida" como ‘O Homem Que Anda’…

Lisboa já paga sem saber quanto é


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A Câmara de Lisboa já aprovou a corrida Red Bull Air Race, com os votos do PS e aliados e contra os partidos da oposição. Na verdade, o financiamente foi posto a voar, mas não se sabe onde irá aterrar. É que ainda ninguém conhece o custo final a suportar pela autarquia lisboeta. Ou melhor: se alguém conhece, ainda não o disse. Cá estaremos na linha de chegada.

Avião-mergulhador bom para Portugal


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Chama-se Nymph e foi apresentado há poucos dias no mar das Caraíbas. Os responsáveis pelo projecto descrevem-no como um avião que voa submerso. Debaixo de água, as asas aproveitam a pressão da água para se mover desembaraçadamente em diferentes profundidades e o seu cockpit transparente permite que os ocupantes tenham uma visão de 360 graus. Trata-se, portanto, de um aparelho com características de avião e de submersível.

A experiência parece que correu bem, lá para as bandas das ilhas Virgens. A confirmar-se, poderá originar uma interessante parceria com Portugal: os investidores no Nymph têm um avião-submarino, nós temos um submarino-voador. Talvez até dois, mas enquanto o vôo durar não conseguimos ter a certeza.

Constâncio a frio


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Vítor Constâncio está imparável. Com mais tempo agora para falar e o jeito que apanhou para tentar chegar ao Banco Central Europeu, já ninguém o segura. «Quando se fala e dramatiza em excesso este problema, é fácil passar por optimista» – disse ele sobre o endividamento da economia portuguesa. «Não é este o meu caso. Apenas não partilho de um certo pânico. Temos de situar estas questões com frieza.»

Ou seja: o endividamento da economia ficou na mesma, mas o País ficou muito mais feliz por saber que Constâncio não só situa estas questões (?) como até o faz com frieza. Já quanto ao nosso pânico, esse é só porque o drama do endividamento ficou na mesma.

Português: o exemplo de fora


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A propósito deste excerto de reportagem da revista Veja que o Pedro Correia nos trouxe, vale a pena assinalar a qualidade da escrita que nela se encontra, número após número, do editorial à última página. Serve isto para dizer que uma publicação brasileira, como todos os brasileiros com escolaridade, usa a língua portuguesa de modo fluido e esmerado.

Sem necessidade de qualquer acordo linguístico, o Brasil dá-se muito bem com o idioma que nos une. Com um ou outro reflexo a anteceder o verbo e uns quantos gerúndios a mais do que nós, salpicados por raras traduções fonéticas aportuguesadas, a Veja é um exemplo corrente de uma qualidade na escrita que nem em Portugal encontramos facilmente.

Se a agência Lusa (entre outros meios) pusesse os olhos nestes casos que nos chegam do lado de lá do Atlântico e caprichasse mais no uso da língua, depressa concluiria que não precisa de andar a perder tempo com «corretores» pró-acordo – basta-lhe escrever com esmero.

Saudades de malhar


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Para Augusto Santos Silva, que já teve a tutela da comunicação social no anterior Executivo, «não merece nenhum crédito» a ideia de que o primeiro-ministro e dois ministros tenham tecido críticas ao jornalista Mário Crespo: «Não sei como é que se consegue fazer informação a partir de intromissão em conversas privadas».

Fica por saber por que motivo aquilo não há-de merecer crédito, mas presume-se que as conversas só são privadas quando os envolvidos as conservam na privacidade. Fica também por saber o que leva o actual ministro da Defesa a prestar informação sobre créditos que desconhece, mas igualmente se presume que Santos Silva já andava com saudades de sair do seu retiro para malhar em qualquer coisa que visse mexer.

RTP cheia de contras


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Esta noite, "o sítio do costume" está cheio de contras. A mais dura da noite acaba de ser proferida pelo insuspeito Henrique Neto, depois de ter comparado Sócrates a um vendedor de automóveis: estamos num país em que os empresários se reúnem para ouvir o primeiro-ministro dar umas prédicas e dizer-lhes o que devem fazer, em vez de ser o primeiro-ministro a querer reunir-se com os empresários para saber como é que eles podem investir mais e não sair do país.*

Até agora, nem Medina Carreira, nem Silva Lopes nem qualquer dos restantes conseguiram melhor.

 

* — Se algumas palavras não foram exactamente estas, foram quase.

Só sucateiro a tempo inteiro


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Nós é que talvez andássemos distraídos, mas ser sucateiro tem sido uma actividade de sucesso neste país. Desta vez são dois sucateiros portuenses (perdão: duas empresas de sucata, que a coisa actualmente pia mais fino) a braços com uma acusação múltipla que envolve 17 pessoas e uma possível fraude fiscal próxima dos cinco milhões de euros.

Entre os acusados está uma vereadora da câmara do Porto, com o pelouro do Conhecimento e Coesão Social e, ao mesmo tempo, accionista e administradora das duas empresas sucateiras. Percebe-se a vantagem de dominar o conhecimento e a coesão social, mas sempre me pareceu aconselhável ser sucateiro a tempo inteiro. Nunca devemos sujar as mãos em duas actividades simultâneas. E trabalhar com sucata já se sabe como é.