A propósito deste excerto de reportagem da revista Veja que o Pedro Correia nos trouxe, vale a pena assinalar a qualidade da escrita que nela se encontra, número após número, do editorial à última página. Serve isto para dizer que uma publicação brasileira, como todos os brasileiros com escolaridade, usa a língua portuguesa de modo fluido e esmerado.
Sem necessidade de qualquer acordo linguístico, o Brasil dá-se muito bem com o idioma que nos une. Com um ou outro reflexo a anteceder o verbo e uns quantos gerúndios a mais do que nós, salpicados por raras traduções fonéticas aportuguesadas, a Veja é um exemplo corrente de uma qualidade na escrita que nem em Portugal encontramos facilmente.
Se a agência Lusa (entre outros meios) pusesse os olhos nestes casos que nos chegam do lado de lá do Atlântico e caprichasse mais no uso da língua, depressa concluiria que não precisa de andar a perder tempo com «corretores» pró-acordo – basta-lhe escrever com esmero.

Escreve-se mal na comunicação social, mas é um reflexo do que se passa no país. É assustadora a expressão escrita de alguns alunos no Secundário. Maistarde serão licenciados, entrarão no mercado de trabalho e continuarão alegremente cometendo erros.
De palmatória. É geral, sim. Pelo que tanto faz ser em Portugal como no Brasil: é um problema de escolaridade e do ensino.
Fora isso, entendemo-nos perfeitamente sem precisarmos de nos expressar em acordortografiquês.
Não tenho a menor dúvida que é um problema do Ensino.
No Secundário, Leonor? A coisa vem de trás… e na Universidade é um desastre.
Ainda ontem discutia o tema do (des)Acordo com uma amiga, via Facebook. Acho que é uma inutilidade. Há povos que partilham idiomas comuns que não precisam de acordos para se entenderem. Enfim, burocracias feitas por políticos que não têm mais nada para fazer. Pessoalmente, até poderei vir a trabalhar num meio que, editorialmente, siga as normas do acordo ortográfico, e nesse campo terei de me sujeitar, com mais ou menos resistência… mas a título pessoal, esse será um peditório para o qual não contribuirei.
Claro, João, se saem do Secundário a escrever mal chegam ao Superior da mesma forma. Gostava de saber o que é que se passa até chegarem ao Secundário. Tendo em conta que as crianças não são mais burras do que antes, pelo contrário, são muitíssimo mais estimuladas, algo está muito mal. Concordo com a Ministra da Educação em acabar com uma série de disciplinas do 3ºCiclo. Há que investir na Língua Portuguesa urgentemente.
Vou mais longe que tu: devia escrever-se tão bem português em muitas publicações portuguesas como se escreve na Veja. Por lá escreve-se português do melhor – e utiliza-se o idioma comum, enquanto técnica jornalística, de forma exemplar. A ‘Veja’ destruiu o conceito de que é difícil titular em português, ao contrário do que sucede com línguas maioritariamente monossilábicas, como o inglês. “Haiti – do caos à esperança”, título de capa desta edição, é perfeito na forma como conjuga informação e concisão. Outro título exemplar: “O país que nunca foi” (referindo-se ao Haiti). Ou este: “A maçã que mudou o mundo” (sobre Newton). Ou ainda este: “Bonitinho mas ordinário” (sobre o ex-candidato presidencial dos EUA John Edwards).
Tens toda a razão e não vais mais longe que eu, que não deixo e já te apanho: a ‘Veja’ é o exemplo acabado do bom português e da boa técnica jornalística. Devia (por infeliz necessidade) fazer hoje parte dos nossos cursos de comunicação.
A verdade é que até a titulação, que já foi exigente entre nós, vai de mal a pior e já ninguém põe cobro aos maiores descalabros que se vêem a servir de títulos (manchetes e primeiras páginas inteiras incluídas) na imprensa dita “de referência”.
Toda a razão, João. A Veja é um exemplo de boa escrita, em bom português. Sem te ter lido ainda, já tinha dito o mesmo lá atrás no post do Pedro.
É realmente indiscutível, Ana. Para nosso mal, é difícil encontrarmos hoje um periódico português de informação geral com o nível da escrita da ‘Veja’ brasileira.
Exactamente João. É caso para dizer Vejam isto e aprendam…
Claro que sim, mas há um problema: além de ler, é preciso saber interpretar e ter sentido crítico…
Isso já é mais complicado João, os indígenas são mais dados à maledicência , sentido critico implica frontalidade e responsabilidade.
E leitura, muita leitura. E interpretação, muita interpretação. E boa expressão, muito boa expressão.
Isto é o diabo, é o que é.