Há um célebre Rolls-Royce Phantom V, de 1965, que foi despachado a 3 de Junho desse mesmo ano para John Lennon e que, como tal, chegou a circular pelas ruas de Liverpool.
Uma dúvida parece estar ainda por esclarecer: Lennon teve um ou dois Rolls? Para uns, o carro começou por ser preto e passou a branco pouco tempo depois. Para outros, era branco de origem. Para alguns, foram dois carros: o que teve a matrícula FJB111C (originalmente preto ou branco, ou preto e depois branco) e um que foi matriculado como EUC1000 (o Pantom V branco que aparece repetidamente neste vídeo dos Beatles Ballad of John and Yoko).
Branco (ou já branco), o Rolls FJB111C recebeu um rádio-telefone Sterno ainda em Dezembro do primeiro ano e, em 1966, um equipamento de som com microfone e amplificador, um televisor Sony, um telefone e uma caixa frigorífica, ao mesmo tempo que o assento traseiro era modificado para poder converter-se em cama dupla.
Por essa altura, o motorista e o carro foram para Espanha, onde Lennon participava na filmagem de How I Won the War (de Richard Lester), e há quem garanta que o Rolls estava pintado de preto baço, grelha e restantes cromados incluídos. Estaria? O certo é que o luxuoso Phantom V estava para ser alterado profundamente. Os Beatles estavam a braços com um trabalho de fôlego (o Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, logo seguido do Magical Mystery Tour) e John deixava-se contagiar pela pop art da época que também marcava a imagem musical dos Fab Four: que tal o carro ser psicadélico?
Da ideia à realidade foi um passo. Em 1967, uma limousine de prestígio transformava-se neste brinquedo de ricos. Os ingleses não acharam graça ao resultado e Lennon, magalómano e sempre a dar nas vistas, foi afrontado por uma Lady de tradição na Baixa londrina, segundo se conta, que esmurrou o carro ao atirar-lhe um guarda-chuva, revoltada por aquele atentado a um símbolo britânico: «You swine! You swine! How dare you do this to a Rolls-Royce!?»
Nesse ano de 1967, John tinha apresentado a ideia à firma J.P. Fallon, que se dedicava à transformação de carroçarias e que levou por diante o desenho de Steve Weaver e a habilidade de Marijke Koger (conhecido como "O Louco", homem de origem cigana da Holanda e pintor de motivos psicadélicos). O trabalho custou duas mil libras para uns e 290 libras para os outros – a pintura ficou a cargo dos ciganos artistas.
Os Beatles utilizaram o carro no seu período de maior popularidade, entre 1966 e 1969. Em 1970, John e Yoko embarcaram-no para os EUA. Após várias peripécias, foi doado ao Cooper-Hewitt Museum, que que só o expôs algum tempo pelo elevado custo do seguro.
Já em 1985, o museu nova-iorquino decidiu leiloá-lo através da Sotheby’s, que apontava para 200 mil ou 300 dólares e que viu o carro sair por 2,299 milhões de dólares para Jim Pattison, o patrão da Ripley International Inc. e fundador do Ripley’s "Believe It Or Not" Museum, que conseguiu registá-lo na Carolina do Sul com a matrícula LENNON e o juntou à colecção de insólitos.
Emprestado para a Expo’86 em Vancouver, o Rolls foi transferido para a participada canadiana Jim Pattison Industries, após o que foi para o Transportation Museum of British Columbia e, finalmente, para o Royal British Columbia Museum, em Victoria, onde foi restaurado e é mantido sob alçada do Canadian Conservation Institute.
Liverpool nunca mais viu a limo psicadélica. Mas foi pior nunca mais ter visto Lennon.





Incrível, João… Gostei da história.
(Não sou Beatlemaníaca, mas é ainda a minha banda preferida, por uma questão simbólica e afectiva.)
Um bom domingo!
Obrigado, Ana. Bom resto de domingo e bom início de semana.
O desenho da imagem de cima e o formato de “almofada de porta” lembra os antigos coches. Seja como for, fazer isto a um Rolls é uma prova inequívoca de liberdade!
Ou de libertinagem, segundo a fleuma mais ‘british’.
De ambas, então. 🙂
Ok. Liberdade de ricos também. Hehe…
Essa é o caso, sem dúvida.
Estes posts que o Joao publica sao brilhantes.Sinceros parabens.
Agradeço-lhe, Mário.
Ora cá está o famosíssimo Rolls de que já falamos por diversas vezes e que sempre acabou por ser ‘desalfandegado’. É claro que já não tem a graça nem o impacto que teve quando apareceu em meados de 60, mas ainda assim é uma curiosidade interessante.
E já que, como dizes, é ‘um brinquedo de ricos’, “orricos” que paguem os RRRolls-RRRoyces…
Vejo que gostas deles, ‘dorrolls’…
«O assento traseiro era modificado para poder converter-se em cama dupla.» Hum… Nada mal pensado, não senhor.
Nada mesmo. Eles eram quatro. Pelo menos.