Honestidade intelectual


José Maria Gui Pimentel,

É por esta, e por outras que o Daniel Oliveira é o cronista de esquerda (esquerda mesmo, não me refiro ao centro-esquerda) que mais aprecio. Numa palavra — aliás, em duas — honestidade intelectual, algo tão raro quanto valioso.  

 

“A ver se nos entendemos: um deputado não é um exemplo de tudo o que nós devíamos ser e não somos. É um representante. Se usar o seu cargo para proveito próprio – e tantos usam – deve abandoná-lo. Assim como qualquer trabalhador corrupto ou funcionário desonesto. Se tentar que as leis que aprovou não lhe sejam aplicadas também não pode ser legislador. Falta-lhe autoridade. Não foi o caso. A deputada violou a lei e será julgada como qualquer cidadão. A lei não estipula, nem deve estipular, que ser deputado é uma agravante. Não estipula, nem deve estipular, que conduzir alcoolizado é razão para perda de emprego, de cargo político ou de função da administração pública. A lei estipula que a senhora, que não conheço, deve ser julgada. E caso seja condenada pode ser punida com pena de prisão até um ano ou com pena de multa até 120 dias. Por mim, defendo que os deputados, os ministros, os secretários de Estado ou os autarcas não podem estar acima da lei. Mas não defendo que devem estar abaixo da lei.”

É, ou não, mérito do Governo o regresso aos mercados?


José Maria Gui Pimentel,

Embora concorde genericamente com a estratégia seguida, a verdade é que a resposta objectiva é: não. Desde o início de Setembro, o spread da dívida portuguesa face à alemã tem diminuido bastante, mas tem-no feito grosso modo paralelamente ao das dívidas dos restantes “periféricos” (na verdade a queda do spread da dívida grega foi bem mais pronunciada, tendo começado a descolar depois das decisões de novembro do Eurogrupo).

 

Daqui se percebe que a súbita queda do spread — que se encontra já em quase metade dos valores de início de Setembro — não resultou de nenhum factor específico de Portugal. Isto não invalida, ainda assim, que o Governo possa com alguma propriedade argumentar que as suas políticas — nomeadamente a relativa acalmia conseguida, apesar de tudo, nos últimos meses e a aprovação do Orçamento — permitiram que os factores externos que beneficiaram a dívida portuguesa pudessem actuar.

 

A propósito, ao contrário do que tem sido dito, esta pronunciada diminuição da pressão dos mercados não se deveu exclusivamente aos comentários de Mario Draghi — afirmando estar disposto a fazer tudo quanto necessário para salvar o euro — e às subsequentes medidas do BCE. Resultou também da determinação demonstrada, finalmente, pelos líderes políticos europeus (particularmente Angela Merkel) em manter o euro unido, e, mais do que isso, ao facto de os chamados países core terem tomado medidas que os levaram a um ponto praticamente de não retorno. Em suma, Portugal encontra-se subitamente no caminho de regresso aos mercados essencialmente devido ao facto de os decisores europeus terem empenhado capital, político e monetário na sobrevivência da moeda-única.   

Austeridade vs Reforma


José Maria Gui Pimentel,
Ouvia há pouco uma peça noticiosa que retratava a suposta incoerência de um dos autores do polémico relatório do FMI. Este “técnico”, que há poucos meses se havia manifestado veementemente contra as medidas de austeridade aplicadas na Europa, vinha agora, despudoradamente, argumentava a reportagem da TVI, defender precisamente mais austeridade.

Não é assim.

O que o relatório do FMI defende não é austeridade: é reforma do Estado. Embora o efeito de ambas no curto-prazo seja o mesmo — recessão — não são de todo a mesma coisa. Austeridade são as medidas temporárias que o Governo entende tomar para fazer face a um ciclo adverso; disto são exemplo os “brutais” aumentos de impostos, ou os cortes nos subsídios (se se admitir que são temporários). Já Reforma são as medidas de reestruturação do Estado: permanentes e, mais importante do que isso, inevitáveis. Isto porque se toma essas medidas com a noção de que o Estado, tal como está, é insustentável. 

Sendo esta Reforma inevitável, deve sem dúvida  haver uma discussão séria e detalhada sobre como a levar a cabo. Mas “pintá-la” como um aperto de cinto temporário e evitável é ignorância ou, pior, pura desonestidade intelectual*.

*A não ser que se acredite, com a extrema-esquerda, que existe um método indolor de reestruturar o Estado (atacando o “grande capital”, etc…). Nesse caso é apenas ignorância. 

Peculiaridades


José Maria Gui Pimentel,

O debate em torno da extensão óptima do papel do Estado na economia é antigo e complexo, e é difícil avaliar em cada caso específico qual a melhor solução a adoptar. Há, porém, um sinal em particular que me faz sempre suspeitar de que algo não está como devia: quando os trabalhadores de uma empresa pública se manifestam contra a sua privatização. Os empregados têm, naturalmente, todo o direito a ter uma opinião sobre essa medida, mas quando vejo uma larga maioria a opor-se ruidosamente não consigo evitar ficar desconfiado. Afinal, a decisão de privatizar uma empresa do Estado pode ser boa ou não para a economia e para os contribuintes, mas para os trabalhadores dessa mesma empresa – sobretudo sem saberem quem a comprará – custa-me compreender tanta aversão a priori a mudar de patrão. A não ser, claro, que o patrão actual seja muito bondoso. Porventura demasiadamente bondoso. 

Idiossincrasias


José Maria Gui Pimentel,

A Esquerda – a Extrema-Esquerda – tem uma característica identitária tão irritante quanto perversa: coloca a antipatia à frente da empatia. Por outras palavras, para a Esquerda conta mais “o que nos separa” do que “o que nos une”. Daí ser normalmente tão faccionada.
Por isso não hesita em defender ditaduras horrendas desde que estas se oponham aos EUA, que veem como a personificação da sociedade capitalista, não percebendo que, mais importante do que isso, é a democracia, que nesses países é normalmente uma miragem. Do mesmo modo, no recente episódio protagonizado por Isabel Jonet, a Esquerda não hesitou em atirar-se àquilo que viu como a defesa de uma sociedade salazarenta, ignorando aquela que era a essência das declarações da presidente do Banco Alimentar: uma crítica ao capitalismo. 


Boas notícias


José Maria Gui Pimentel,

À margem das previsões de Outono, a Comissão Europeia (CE) – ou mais precisamente Olli Rehn, o Comissário Europeu dos Assuntos Económicos e Monetários – afirmou que se irá focar no défice orçamental estrutural, e não no défice nominal, do Estado espanhol. Rehn argumentou que estão a trabalhar no sentido de “medir se foram tomadas medidas concretas, em termos de esforço estrutural, para reduzir o défice orçamental”. Esta é precisamente a postura que a troika deveria adoptar face a Portugal, como defendi aqui. Note-se, de resto, que enquanto Espanha, segundo as previsões da CE, apresentará défices estruturais de 6.0%, 4.0% e 5.3%, em 2012, 13 e 14, respectivamente – ultrapassando os valores acordados em Julho com os Ministros das Finanças do Euro –, Portugal deverá registar défices estruturais de 3.1%, 2.5% e 0.9%, respectivamente. Estes valores são, de resto, mais optimistas do que as previsões do Governo (4.0%, 2.4% e 1.1%, respectivamente), e significam, a confirmar-se, que Portugal ficará já em 2012 virtualmente sobre o limite de 3% pretendido. Por outras palavras, Portugal tem todo o direito de exigir a utilização face ao Estado português da regra que Olli Rehn afirma aplicar-se a Espanha, a qual permitiria ao Governo concentrar-se em reformas estruturais, em detrimento de aumentos de impostos apenas para fazer face ao ciclo económico. O busílis da questão é, evidentemente, a falta de vontade política da troika (à qual Espanha ainda não está sujeita). Não obstante, são notícias como estas que me tornam cada vez mais apreensivo em relação à determinação do Governo em obter da troika condições mais favoráveis.

Ironias da memória


José Maria Gui Pimentel,

Embora não seja a minha primeira memória política, aquela longa madrugada de novembro de 2000 é, espantosamente, a minha primeira memória de uma noite eleitoral (não me recordo das eleições legislativas de 1999). Com 12 anos e o rádio ligado na TSF às 2h da madrugada, segui entusiasmado o desenrolar daquela que, ademais, ficou para a história como uma das mais frenéticas noites eleitorais, com a contenda entre Bush e Gore a terminar com resultado indeterminado. Pergunto-me o que me terá feito trocar o sono, ou um entretenimento mais convencional, por horas de comentários em relação a umas eleições de que eu pouco percebia e que diziam respeito a um país que não era o meu, mas a verdade é que aquilo me entusiasmou brutalmente. Desde então, tenho seguido as noites eleitorais americanas com o mesmo entusiasmo, pelo que representam, pelas suas características decididamente curiosas para um europeu e, não o escondo, por aquele cheiro a noite de Oscars, que faz daquela mais do que uma noite normal. Hoje, infelizmente, não vou conseguir ficar até ao fim.

Ora…


José Maria Gui Pimentel,

…sejamos francos e cinjamo-nos ao que interessa.

 

A responsabilidade do Governo no estado a que as coisas chegaram é essencialmente uma, que terá uma gravidade tão grande que ficará para a História, se se confirmar, mas deixará o Governo numa posição de bode expiatório se não se comprovar.

 

Refiro-me à acusação de que o governo Governo (leia-se, Passos e Gaspar) é de uma ortodoxia obstinada, um “lacaio” da Alemanha. Por outras palavras, a ideia de que o Governo não faz ver à troika quão contraproducente é obrigar o país a tomar medidas pró-cíclicas que não sejam de carácter estrutural porque não quer, e não porque não pode.

 

Infelizmente, a questão de se o Governo tem, ou teve alguma vez, latitude para persuadir as instituições internacionais a mudar de rumo, é algo que permanece (quiçá permanecerá para sempre) envolto em incerteza. Sobretudo, não se percebe se esta ortodoxia aparentemente convicta é um disfarce, no sentido de ganhar leverage sobre os credores, ou antes a própria pele da ideologia do Governo. De uma coisa podemos estar certos: se o Governo tem tentado, de facto, tomar passos nesse sentido, disfarça-o muito, muito bem.

 

Regressando à premissa (oculta) inicial, a culpa do Governo seria/será apenas esta na medida em que, um, a situação actual não lhe é imputável, dois, um ano e quatro meses não são suficientes para fazer mudanças estruturais na economia, e três, as dificuldades que têm surgido na execução do plano derivam muito mais do modo deficiente como este foi arquitectado pela troika (e da própria conjuntura externa) do que da ineficiência do Governo em cumpri-lo.

 

Começando pelo último ponto, o plano, como o próprio FMI reconheceu recentemente (antes de, esquizofrenicamente, ter feito ouvidos de mercador em vez de tomar a posição que se impunha), pressupunha que o impacto da austeridade sobre a actividade económica seria muito mais moderado do que aquilo que efectivamente se observou. Esta divergência levou, como se sabe, automaticamente a um aumento  da despesa e a uma diminuição da receita do Estado, deitando consequentemente por terra os objectivos estabelecidos no programa.

 

Relativamente ao segundo ponto, importa compreender que, enquanto as medidas do lado da receita são extremamente fáceis de levar a cabo (basta “primir um botão”, se descontarmos a dificuldade, nao despicienda, em diminuir a fuga ao fisco), as políticas de diminuição da despesa do Estado sao extremamente difíceis de implementar. Senão vejamos: i) os contratos das PPP têm que ser renegociados; ii) as fundações estão quase na sua totalidade na prática fora das mãos do Estado; iii) institutos, centros regionais e outros organismos estão, muitas vezes, protegidos constitucionalmente; iv) não são permitidos despedimentos no sector público. Trata-se apenas de alguns exemplos que não consideram sequer o facto de o sector Estado ser hoje uma estrutura mastodôntica, cujas peças é dificílimo mover.

 

Em suma, é ainda muito cedo para avaliar a capacidade reformadora deste Governo. O escrutínio público deveria concentrar-se, isso sim, em perceber se o Governo está a fazer tudo o que pode no sentido de persuadir as instituições internacionais a estabelecer condições mais razoáveis, que assegurem, sim, a tomada de medidas de carácter estrutural, contudo escudando-as de uma conjuntura que é por inerência exógena.

Medidas estruturais vs Medidas conjunturais


José Maria Gui Pimentel,

Muito se tem escrito (e dito) desde que foi vertida a primeira gota de austeridade, com muitos a oporem-se a essas medidas difíceis, clamando, ao invés, por mais “crescimento”. Como se sabe, o governo está à partida limitado pelas metas acordadas com a troika na negociação feita ainda pelo governo PS. Desconheço se o governo tem ou teve alguma vez capital político para persuadir a troika a aligeirar as metas estabelecidas, como é muitas vezes sugerido. A verdade é que dá poucos sinais de querer em alguma ocasião tomar esse caminho. Seja qual for o caso, não impede que se faça um exercício académico sobre aquela que deveria ter sido, desde o início, a sugestão da própria Troika e a bandeira do Governo. 

 

Para este exercício é necessário distinguir dois tipos de medidas apenas aparentemente semelhantes. Um aumento do IVA ou a eliminação do 13º mês, por exemplo, não estão na mesma gaveta de um corte no pessoal da administração pública ou de uma diminuição nos gastos da saúde (já para não falar nas poupanças com as PPP e com as fundações, mas essas parecem ser agora consensuais). É que se estas são medidas que visam alterar a estrutura do Estado (e já deveriam ter sido tomadas há muitos anos), aquelas resultam essencialmente da actual conjuntura, que obriga o Estado a tomar medidas extraordinárias para conter o crescimento automático do défice.

 

Acontece que estes dois tipos de medidas têm sido tratados como iguais, tanto pela oposição como pela troika, estando ambas as partes interessadas apenas (com visões diversas, naturalmente) nos fins, ignorando as diferenças nos meios. Assim, do lado do governo (que é como quem diz, do PSD), que segue a Troika, temos uma ortodoxia plena (postiça ou não), enquanto da parte dos partidos da extrema-esquerda (aos quais o PS se junta sempre que pode) vemos uma oposição permanente a qualquer tipo de medida.

 

Ora, a medida agregada para o défice orçamental que tem sido usada permite que se confundam, na argumentação política, os dois tipos de medidas elencados acima. Existe, todavia, uma medida do défice que, embora com limitações, permite distinguir as medidas estruturais daquelas apenas conjunturais, dando possibilidade, consequentemente, de dirigir esforços apenas para as primeiras, ignorando aquelas que se tornam necessárias apenas pela conjuntura económica (e que, pior, se vão auto-alimentando). Trata-se do défice primário estrutural: primário porque não contabiliza o serviço da dívida; e, mais importante, estrutural porque é ajustado do ciclo (ao assumir o PIB potencial, estando expurgado, mas palavras do próprio Ministério das Finanças “de medidas com efeito temporário quer do lado da receita quer do lado da despesa”).

 

Para clarificar a diferença que a adopção desta medida de défice faria, repare-se que na conjuntura actual, o governo não só não está a intervir com uma política orçamental expansionista (contra-cíclica) para compensar a retracção da procura interna privada, como defenderiam os keynesianos, como nem sequer fica inerte: está, isso sim, activamente a retrair a própria procura do Estado e a penalizar ainda mais a procura privada, ajudando à queda do produto. Acresce que, como referido acima, este caminho torna, mais cedo ou mais tarde, necessárias medidas adicionais, uma vez que ao provocar uma diminuição do rendimento e do emprego, o Estado gera uma diminuição das suas próprias receitas (com impostos) e a um aumento das despesas (com subsídios de desemprego, por exemplo), forçando, como aconteceu, o governo a tomar mais medidas de austeridade, as quais, por seu turno, tenderão a perpetuar um ciclo vicioso.

 

Era, portanto, sobre o défice primário estrutural que deveria incidir o objectivo da Troika, uma vez que permitiria ao governo seguir imperturbado um caminho as alterações estruturais necessárias no funcionamento do Estado (e da própria economia), sem se desviar para uma estrada que conduz ao atrofio da economia e que, em última análise, prejudica aos objectivos das próprias instituições internacionais.

Para ilustrar essa realidade, note-se que a consolidação orçamental tem sido relativamente bem-sucedida à luz desta medida: depois de défices de 5.6% e 2.2% em 2010 e 2011, respectivamente, o Governo prevê (admitindo que desta vez não se engana) um superavit de 0.5% este ano, seguido de outros de 2.3% e 3.5%, em 2013 e 2014, respectivamente.

 

Em suma, o Estado necessita, forçosamente, de ser reformado, de molde a assegurar a sustentabilidade das próximas gerações e a dar condições ao sector privado para ocupar o seu espaço natural, fomentando a concorrência e o fazendo cumpria a lei. Todavia, ao tomar essas medidas urgentes a par de outras que não beneficiam ninguém (como por exemplo a subida do IVA na restauração, que diminuiu simultaneamente as receitas dos restaurantes como as do Estado), o governo arrisca-se seriamente a projectar o país num precipício, dando razão justamente àqueles que pretendem evitar que sejam tomadas as reformas necessárias. 

O menor de todos os males


José Maria Gui Pimentel,

Confesso que mudei de opinião recentemente – como não sou político, posso felizmente admiti-lo à boca cheia. Se antes pensava que um governo de bloco central não era uma solução desejável, era até mau para a democracia, agora penso justamente o contrário.

 

O tipo de medidas que o governo tem que tomar serão inevitavelmente impopulares. Tão impopulares que ameaçam, e estão a ter esse efeito, deixar o governo sozinho, abandonado não só pelo PS, que também assinou o memorando, mas também pelos próprios partidos que o sustentam.

 

Passos e Gaspar, mal ou bem, estão-se mesmo “nas tintas para as eleições”. Estão genuinamente determinados em fazer cumprir o seu programa e pouco importados com as consequências colaterais. Já os partidos que sustentam o governo estão verdadeiramente aterrorizados, principalmente o PSD (visto que o CDS poderá até, em última análise, sair beneficiado). O PSD extra-governo olha para um futuro não muito distante e rapidamente percebe que um falhanço do governo, e sobretudo a tomada de medidas como a da TSU, poderão apagar o PSD do mapa já nas próximas eleições. Já o PS de Seguro está numa encruzilhada, da qual se vai tentando desenvencilhar. Preso ao memorando, vai procurando escapes para se indignar, aproveitando o facto de o acordo estabelecer os fins, mas não (ou nem sempre) os meios, sendo estes por conseguinte criticáveis (embora fazê-lo sem apresentar alternativas seja mais difícil). A TSU foi, neste quadro, como água no deserto para um Seguro sedento, na medida em que, pela primeira vez, o governo deu um passo além-memorando. Temos, portanto, um quadro em que ao barulho inevitável dos partidos da extrema-esquerda se junta o burburinho cada vez mais ensurdecedor do CDS, do PSD e do PS, com cada vez mais vozes destes partidos – históricas ou não históricas – a virem a terreno mostrar o seu afastamento do governo. Este resultado tem causas relativamente evidentes: o PS está na oposição, e por isso tem todos os incentivos para sublinhar as suas diferenças face ao governo, por mais constrangido que esteja; o PSD, por seu lado, tem cada vez mais incentivos para não ficar quieto, não só como resposta ao PS, mas também porque vê o seu governo trilhar caminhos altamente perigosos para o futuro do partido.

 

A única solução para evitar o fim que se adivinha, dentro da esfera da democracia, é um bloco central. Claro que esta opção teria sido impossível em 2011, porque Sócrates nunca a aceitaria (embora Cavaco pudesse ter intervindo mais vigorosamente no pós-eleições, depois da demissão de Sócrates). Agora, porém, numa altura em que se confirmou que o caminho traçado é mais difícil do que os mais optimistas previam, com o governo a ter que tomar medidas que os eleitores já não entendem ter sido sufragadas, é do interesse de todos os partidos do “arco do poder” optar por esta solução. A sua recusa poderá implicar uma queda do governo e subsequentes novas eleições, em que figurarão um PSD em pedaços e um PS sem capacidade para explicar aos eleitores como fará diferente dos últimos governos. Embora, mesmo nestas condições, possa vir a sair, à tangente, um derradeiro governo moderado, haveria um enorme risco de que os eleitores, e com toda a legitimidade, entregassem o poder a quem, para todos os efeitos, ainda não lhes falhou. 

A verdade é que…


José Maria Gui Pimentel,

…estou-me positivamente nas tintas para a maioria das gafes dos políticos, sejam estes de que partido forem.

 

90% são meros faits divers. Como meio de avaliar a qualidade de um político enquanto tal são, na melhor das hipóteses, irrelevantes, na pior, contraproducentes. E, se umas vezes dão para rir, outras nem isso. Numa altura em que o mediatismo é levado ao extremo e os políticos são constantemente chamados a fazer declarações perante perguntas – por vezes disparatadas – sem preparação, seria de esperar que se percebesse que as calinadas são inevitáveis e que pouco reflectem a opinião de quem as diz. É muito fácil nessas circunstâncias qualquer um de nós dizer um disparate não reflectido ou uma frase mal articulada.  

O bode expiatório


José Maria Gui Pimentel,

 

Faz-me alguma impressão assistir aos protestos recentes e ver as pessoas chamar todos os nomes possíveis a Passos Coelho, e restantes membros do Governo (para já não falar da troika, que só está cá porque foi chamada). Embora perceba que se está numa situação muito difícil, custa-me que não se perceba que os criticados são apenas o bode expiatório de um problema com (muitos) outros responsáveis. O Governo actual tem feito menos do que o esperado em algumas frentes, é certo, e poderá estar a ser demasiadamente rígido noutras. Porém, é preciso ter em conta que o caminho está, na melhor das hipóteses, a um terço do percurso de uma legislatura de quatro anos. Este governo está em funções, por exemplo, há apenas 13% do tempo que o actual presidente da república passou como primeiro-ministro. Quer se acredite que o país começou a cavar a cova em que se encontra no guterrismo, no cavaquismo, no 25 de Abril, em 1910 ou até em 1143, é preciso entender que o actual terço de legislatura representa uma fina lasca do bolo de má governação que deu origem ao momento actual. Este governo não pode falhar, e por isso é legítimo ter expectativas altas. Mas é preciso não esquecer que as contas só se fazem no fim. É legítimo e desejável que se pressione o governo a cortar a sério na despesa e a arrepiar caminho na redução da TSU às empresas. Mas os protestos do último fim-de-semana procuram, e podem alcançar, muito mais do que isso.

Da janela para o postigo


José Maria Gui Pimentel,

Com ou sem descida da TSU às empresas – mas principalmente com ela – o destino do Governo está cada vez mais ligado a factores externos e incontroláveis. O principal diz respeito à crise do euro, cuja evolução aquém do esperado (mesmo?) foi grandemente responsável pela queda da procura interna acima do esperado. A qual, por sua vez, fez diminuir a receita e aumentar a despesa (devido à subida do desemprego) do Estado. A não resolução da crise do euro contribuiu para que o crédito à economia permanecesse muito restrito, penalizando o investimento das empresas, a compra de casas e o consumo privado, nomeadamente em bens duradouros. Além disso, penalizou a economia mundial, com especial intensidade sobre alguns dos nosso principais parceiros comerciais. Finalmente, teve ainda o efeito indirecto de redirecionar a procura dos investidores para activos financeiros alternativos como o petróleo. Isto contribuiu para a manutenção dos combustíveis em preços elevados, numa conjuntura interna (e mesmo externa) que deveria ditar uma forte queda dos preços dessas mercadorias.

Boa notícia


José Maria Gui Pimentel,

Os resultados do Bloomberg Global Poll – um inquérito realizado a utilizadores dos terminais Bloomberg, representando “elite group of decision makers in finance, markets and economics” – revelaram que 50% dos participantes acreditam que o Estado português vai falir.

Embora seja uma figura considerável, trata-se de um mínimo desde janeiro de 2011. Espanha, por exemplo, que ainda não pediu ajuda internacional, aparece com 47% de participantes a prognosticar a sua entrada em falência (e a Grécia 92%). Assim, para além do efeito moralizante da recente postura do BCE – que, de resto, terá beneficiado principalmente Espanha e Itália – Portugal parece estar realmente a capitalizar o cumprimento do programa da Troika. Independentemente da bondade do mesmo – que já foi muito discutida – este resultado (que, de resto, já era perceptível pela evolução dos juros da dívida) é mais um argumento para que seja concedido mais tempo a Portugal para corrigir as contas públicas.

Nova xenofobia


José Maria Gui Pimentel,

 

Durante muitos anos, Portugal, um país habituado a receber bem (bem demais) os europeus que via como superiores, desdenhou os emigrantes das ex-colónias africanas (os pretos). Não que isso tenha acabado, longe disso, mas novas vagas de imigração vêm trazer novos tipos de xenofobia.

A mais recente diz respeito aos imigrantes chineses. Não sei – honestamente, gostaria de saber – se a impressão é só minha, mas noto uma crescente má vontade generalizada em relação aos imigrantes chineses.

Confesso que tenho dificuldade em enquadrá-la completamente. Ao contrário de outros grupos de imigrantes, os chineses são ordeiros (porventura demasiadamente) e não estão associados a crimes de qualquer tipo (ou, por outra, estão, mas injustificadamente. Mas já lá vamos).

Uma explicação parcial para esta má vontade está relacionada com o espaço que as lojas de chineses vão tirando ao tão malogrado comércio tradicional. O português, avesso à mudança, estranha ver chegar hordas de chineses para montar lojas nos locais anteriormente habitados pelos ditos comerciantes tradicionais – tão pouco acarinhados no activo (daí falirem) mas tão amparados na desgraça. Ainda recentemente, numa edição das Conversas Improváveis, um programa da SIC, José Cid (que, quanto a mim, já tinha bebido uns copos…mas ainda assim) começou por gracejar que “os chineses são pequeninos e amarelos, não têm interesse nenhum”, para depois afirmar aquilo que muitos portugueses pensam: “eu acho que a invasão dos supermercados de chineses (…) veio destruir a vida de muitas famílias portuguesas que viviam na loja da esquina”.

A isto soma-se a enorme diferença civilizacional que nos separa, que faz com que os chineses mantenham um quase afastamento da sociedade em que, para todos os efeitos, estão inseridos. Além disso, revelam um trato, hábitos e até uma alimentação que impressionam pela diferença, causando estranheza e, não poucas vezes, desconfiança. Compreendo que isso aconteça, mas é preciso perceber que esta diferença é igualmente sentida por um ocidental na china, e que a nossa reacção ao isolamento deles cá é a mesma que eles mostram ao isolamento dos ocidentais em cidades como Shanghai.

A última explicação que encontro é a mais intrigante, pois baseia-se num mito antigo. Ainda um destes dias recebi um email, destes cujo conteúdo se adivinha logo pelo prefixo “Fwd” e pelo título em capitais (“CUIDADO – Lojas Chinesas-URGENTE LER”). Resumindo, era uma destas correntes de emails especialmente direccionadas a pessoas que conheceram a informática enquanto adultas e que, incautas e bem-intencionadas, reencaminham aquilo que lhes parece ser um aviso legítimo. Mas, como muitas vezes, não o era. O dito email relatava dois casos de rapto por parte funcionários (chineses) de lojas de chineses. A polícia era chamada por pais em pânico e salvava in extremis a jovem que “já tinha o corpo marcado perto de alguns órgãos vitais e o destino dela seria ser MORTA PARA TRÁFICO DE ÓRGÃOS”. Claro que, a ser verdade, um caso destes abriria os telejornais, por isso (e por outras razões) é fácil comprovar a falsidade deste relato. Desde e de outros semelhantes, que todos já ouvimos. Não obstante, numa leitura rápida e desatenta facilmente o leitor acredita na história e a faz passar, com mais um fwd e, quem sabe, no dia seguinte com os colegas de trabalho ao café.

Mais recentemente ainda contaram-me algo inacreditável que se passou na caixa do supermercado. Um chinês provavelmente recém-chegado tentou apresentar, num português macarrónico, um qualquer talão de desconto para comprar carne. A caixa não reconheceu a promoção e o dito chinês, perdido na tradução, decidiu desistir e pagar o total. Nisto, numa mistura entre falta de profissionalismo e racismo, a caixa atira cumplicemente a uma colega: “estes também… só sabem comprar carne”.

Era provavelmente um preconceito semelhante que inspirava uma imagem que vi partilhada recentemente no Facebook. Nesta, em letras grandes, perguntava-se ao ministro das finanças se também iria pedir facturas aos ciganos, às prostitutas, aos traficantes de droga e…aos chineses“ (note-se que pretos não figuravam na lista, sinal, bom, dos tempos). “Ou esses [todos] vão continuar a ser beneficiados?”, terminava o repto. Não é que os ciganos e as prostitutas mereçam ser ostracizados, todavia é verdade que são grupos associados a criminalidade. Já os chineses, malgrado os mitos que se vão espalhando, não têm esse proveito.

 

Concluindo, a má vontade em relação aos chineses que vai grassando é completamente infundada (para mais exemplos ver, por exemplo, este artigo). É verdade que os hábitos deles ainda nos são muito estranhos, porventura se-lo-ão sempre. Mas os nossos também lhes são. Por outro lado, é preciso perceber que não são os chineses que expulsam os portugueses do comércio tradicional, é o mercado que o faz, ou seja, são os comerciantes que se deixam ultrapassar. Se são os chineses que aproveitam, é apenas por falta de competência dos portugueses. Sobretudo – como dizem os sociólogos – é preciso calçarmos sapatos dos outros, perceber como seria se fôssemos ganhar a vida para um país estranho, com uma língua difícil (que, não obstante, lográvamos aprender), e em que nos olhavam de lado, como invasores a remexer numa decadência acarinhada. 

Reflexão do dia


José Maria Gui Pimentel,

The euro zone’s problem is not the debt’s size, but its fragmented structure. Taken as a whole, the stock of euro-zone public debt is 87% of GDP, compared with over 100% in America. Similarly, the banks are not too big for the continent as a whole, just for individual governments. To survive, Europe has to become more federal: the debate is how much more.

 

The Economist