A crise dos ricos e a crise dos pobres


José Maria Gui Pimentel,

A crise europeia afecta todos os países da região, todavia de dois modos altamente distintos. Nos países pobres, naqueles em que há uma crise a sério, o voto de protesto faz-se, como seria de esperar, nos partidos extremistas, de esquerda ou de direita. Nos países ricos, naqueles em que a crise é branda, esse mesmo voto é, hoje em dia, tendencialmente atraído pelos partidos capazes de abrir uma janela para lá do tédio da política tradicional. Por um lado aqueles que representam uma rejeição simplista aos políticos tradicionais (considerados aborrecidos, previsíveis, mentirosos). Por outro, em alguns casos (como a Holanda), partidos extremistas de direita, que culpam os incomodativos imigrantes. Por outro ainda aqueles que apresentam um leque de propostas assaz reduzido, centrado nas preocupações de uma classe média incomodada, mas bem instalada (disso é exemplo o Partido Pirata).

 

Os países do centro e norte da europa vivem, cada vez mais, a segunda realidade. Na Grécia, a primeira começa a instalar-se, com consequências ainda imprevisíveis. Portugal, se excluirmos o “candidato Coelho”, tem escapado relativamente incólume a qualquer um daqueles casos. O futuro, porém, não é garantido, e um adensar da crise pode dar força aos partidos dos extremos, mesmo no centro e norte da Europa.

 

Quem tem fome não vota em partidos de protesto, vota em partidos de acção. 

Teimosos como… touros


José Maria Gui Pimentel,

 

A controvérsia em relação às corridas de touros / touradas já dura há alguns anos, e promete (assim passada a crise) intensificar-se. Trata-se, provavelmente, do tema fracturante por excelência. Talvez não tanto na extensão da fractura (arriscaria que há uma significativa fatia da população para quem o tema ainda é irrelevante), mas na intensidade da mesma. Com efeito, quem é contra as touradas acha-as um resquício medieval, de uma brutalidade animalesca completamente desfasada dos dias de hoje, preservado por uma antiga aristocracia e praticado em localidades interiores. Quem defende as corridas de touros, por seu lado, é visceralmente incapaz de entender os argumentos dos opositores. Considera-os um bando de anarcas que não conhecem as tradições e a vida rural.

 

Esta total clivagem tem levado a que alguns anos de polémica não tenham resultado em nenhuma alteração significativa no sistema, nenhuma cedência de qualquer parte. Na maioria dos temas fracturantes que têm sido discutidos nos últimos anos (e mesmo em tempos mais remotos), ainda que não deixando nunca de haver confrontação verbal, foram sendo feitas cedências de parte a parte. O motivo é simples, os defensores de cada posição não estavam aquartelados. Quando se discutiu a lei do aborto, por exemplo, todos nós conhecíamos pessoas próximas que defendiam a posição contrária à nossa. Mais, era comum haver várias posições intermédias entre os dois extremos. Na questão das touradas, tal não acontece: são duas tribos completamente distintas e sem qualquer relação que se enfrentam.

 

Dito isto, a solução para esta questão até é, paradoxalmente, muito simples, comparativamente com o que sucede com outras questões em que o consenso é virtualmente impossível. Sabe-se que os dois extremos jamais cederão um milímetro. No entanto, uma grande fatia da população, arrisco dizer, identifica-se facilmente com alguns dos argumentos de cada parte: aqueles onde reside o bom senso. Por um lado, o modo como os touros são tratados antes e após a lide é absolutamente inadmissível nos dias de hoje. É medieval e praticamente não supervisionado. Por outro lado, é evidente que as corridas de touros são uma tradição antiquíssima, com um papel cultural e identitário fortíssimo em algumas regiões (não falando sequer do seu significado económico). A lide implica algum sofrimento do animal, é verdade. Mas (quase) todos comemos carne, que não nasce propriamente no supermercado. E práticas como a matança do porco são bem mais cruéis e mantidas nos dias de hoje. Acresce ainda que os maiores maus tratos sofridos pelo touro acontecem, frequentemente, antes e depois da lide, e não durante esta.

 

A escalada de confrontação que certamente ocorrerá nos próximos anos acordará a opinião pública para o assunto, e esta começará a exigir alterações no sistema. Nessa altura, a bola estará essencialmente do lado dos defensores das corridas de touros, que se arriscam a ser vistos como incompreensivelmente inflexíveis e desfasados da realidade. Deverão, assim, capacitar-se de que a aceitação de alguma intromissão externa e a admissão de algumas regras civilizadas consistem numa pena manifestamente leve, se comparada com uma potencial proibição daquela prática.

 

Num país (urbano) tão pouco dado às tradições, é melhor não arriscar.

Contextualizar


José Maria Gui Pimentel,

  1. O que o primeiro-ministro disse é um lugar-comum hoje em dia quando se fala de desemprego.
  2. Porém, é um lugar-comum que se ajusta mais a uma pessoa que fica desempregada numa conjuntura económica normal, não num período de recessão em que a procura interna contrai.
  3. Importa, ainda assim, contextualizar a declaração: esta aconteceu aquando da tomada de posse do Conselho para o Empreendedorismo e a Inovação, e pretende instar o país, que os números mostram ser muito pouco empreendedor, a melhorar nesse campo. Tendo em conta que este problema estrutural existe, comprovadamente, julgo ser difícil discordar de que se aconselhe alguns desempregados a arregaçarem as mangas e fazerem algo sozinhos.
  4. A política de comunicação do governo é, de facto, fraquíssima. Já as célebres afirmações da “pieguice” seriam mais compreensíveis se devidamente contextualizadas.

Idiossincrasias nacionais


José Maria Gui Pimentel,

Somos um povo engraçado. Vivemos num país peculiar, único numa espécie de limbo muito seu. Por um lado estamos alojados na Europa ocidental — um dos centros do mundo desde pelo menos o século XVI –, temos uma história rica e uma cultura quase milenar. Por outro, somos quase irrelevantes política e economicamente e a nossa história…bom, digamos que, no mínimo, não tão rica que valha por si só (como a da Grécia, por exemplo).

A esta combinação peculiar junta-se o facto de a nossa localização geográfica e a nossa dimensão nos tornarem imensamente permeáveis à cultura estrangeira, antigamente à francesa, agora à americana. Por isso, pelamo-nos por que nos visitem. Adoramos observar a reacção dos estrangeiros, o modo como, incautos, se vão surpreendendo crescentemente com a nossa história, cultura e gastronomia. E, como geralmente ninguém nos liga nenhuma, gostamos de receber bem (convenhamos que a reacção poderia bem ser a oposta), de impressionar e, por vezes, até de provocar com as nossas peculiaridades e pequenas proezas (algumas delas algo exageradas, nomeadamente aquelas que dizem respeito ao consumo de álcool). Por isto tudo, uma das coisas que mais delicia um português é ver um estrangeiro que vive ou visitou Portugal elogiar aquelas coisas que, sabemos, são boas e das quais, estamos convictos, ninguém no exterior tem ideia. Numa altura de crise, este pequeno prazer torna-se quase uma necessidade primária para o ego nacional. Isso explica a segunda, e desproporcionada, leva de entusiasmo com Anthony Bourdain e o seu “No Reservations”, agora que o programa foi transmitido nos EUA.

Eu vi. E gostei. Também gostei de ler num jornal dos EUA um artigo de um americano que vive em Cascais. Redescobri a nossa história pelas palavras generosas de Martin Page. E, eu que nem gosto de café, li deleitado este artigo do El País que não só elogia o café português, como, mais importante, fá-lo em detrimento do dos nossos vizinhos. Resumindo, não há como negá-lo, sou português.

Cadáver esquisito (12)


José Maria Gui Pimentel,

1. UM LIVRO, 2. CA…… SARKIS G……..N, 3. OLHOS, 4. ESCAVAR, 5. IN VINO VERITAS, 6. TO THE LEFT, AS PERNAS DE STELLA, 7. O MEDALHÃO, 8. O SEGREDO, 9. LABIRINTOS, 10. FRAGMENTOS DE HISTÓRIA, 11. UMA VIAGEM

12

REVELAÇÕES E MAIS DÚVIDAS 

 

— 1937… cinco anos antes, portanto – reflectiu Helena Portas durante uns segundos, e o sorriso que deixou escapar antecipou a pergunta que Valerya temia. — Oiça – tornou a inspectora encarando a criada — A senhora nasceu em Portugal?

Valerya sentiu o chão fugir-lhe debaixo dos pés. Tantos anos a aperfeiçoar a sua personagem, e de repente todos os seus pontos fracos começavam a sobressair. Mas que raio de ideia deixar o livro sobre a cama de João, indagava-se, embora não conseguisse, ainda, encontrar uma ligação entre esse acto e os eventos subsequentes, outra que não fosse a ligação ao seu passado escondido.

Porém, antes que a criada tivesse tempo de, em vão, procurar um meio de fintar a pergunta da inspectora, João Cosme, instintivamente, interveio para a salvar.

— Nossa, cara – rugiu Cosme, deixando, como lhe acontecia frequentemente quando ficava nervoso, transpirar uma expressão absorvida numa qualquer telenovela brasileira. — Senhora inspectora, com todo o respeito, julgo que antes das suas perguntas merecemos uma contextualização. Que assassínio está a investigar? E o que tem isso a ver com Os Freixos?

Helena Portas pareceu aperceber-se do modo desordenado como a conversa se havia desenrolado e decidiu aceder ao pedido.

— Bom… Como dizia há pouco, foi encontrado um corpo, não longe daqui. O homem em causa parecia ser estrangeiro e estava estranhamente despojado de pertences, exceptuando dois pequenos objectos. O primeiro um papel amarfanhado onde se podia ler a direcção d’Os Freixos. Logicamente não conhecia a propriedade, mas conhecia o relato do incêndio, e numa terra pequena como esta não demorei muito a chegar a vossa casa.

— Mas é o segundo objecto que mais me intriga – prosseguiu a inspectora — Isto diz-vos alguma coisa? – inquiriu, enquanto arrancava do bolso um medalhão de São Rafael Arcanjo, em tudo idêntico ao que havia causado tanto sobressalto minutos antes.

Sem que ninguém tivesse tempo de responder, ouviu-se uma voz aguda.  

— Meu Deus, nunca pensei voltar a ver esse medalhão em vida – lançou sorrindo a inefável madrinha de João Cosme, irrompendo silenciosamente pela cozinha. Valerya já não a ouviu, caída, de novo, desta feita no chão da cozinha.

 

(Este é o décimo segundo capítulo do nosso ‘cadáver esquisito’, explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é a do José Navarro de Andrade.)

Blogue da semana


José Maria Gui Pimentel,

Depois do amplo sucesso do livro Freakonomics, surgiu um blogue, no qual outros economistas se juntam a Steven D. Levitt (e ao co-autor do livro, Stephen J. Dubner). Vale a pena ver, sobretudo para se perceber como pensa um economista, algo especialmente importante numa altura em que esse ofício anda tanto por baixo.

 

Nota: Já agora, existe também o podcast, muito recomendável apesar do excesso de publicidade.  

Sinais inquietantes


José Maria Gui Pimentel,

 

Quem, como eu, acredita nos benefícios de uma economia de mercado, está disposto a consentir algum aumento das desigualdades económicas numa economia pujante. Com efeito, numa economia em crescimento é normal que aqueles mais capazes usufruam em maior proporção dos benefícios. É um mal menor.

 

Numa economia em ajustamento, todavia, dever-se-ia observar o oposto. Sobretudo numa economia marcada por um nível de desigualdade económica elevadíssimo entre as economias avançadas, como é o caso de Portugal, uma realidade confirmada através de vários indicadores.

À já existente desigualdade dos rendimentos do trabalho vêm juntar-se o aumento do desemprego e a perda de outros direitos. Algumas destas medidas, nomeadamente no mercado laboral, são, entenda-se, necessárias. Todavia o mínimo que se pode exigir ao Governo é que mais do que as compense com medidas e incentivos no sentido de corrigir o rendimento dos mais ricos. É imprescindível fazer diminuir a promiscuidade entre o Estado e o sector privado (um mal bem português), criar mais incentivos à iniciativa privada, melhorar a educação, reduzir a burocracia, aumentar a eficácia da máquina tributária… A lista é infinita, e, por necessárias que sejam algumas medidas que incidem sobre os mais pobres, é nas verdadeiras medidas estruturais que está a chave para contornar a crise.

 

Nada está, em todo o caso, perdido: é sabido que as reformas estruturais demoram a fazer efeito e o Governo (ou a Troika) tem tomado medidas corajosas. Porém, é desde já pouco animador o facto de, segundo um estudo (relativamente) recente da Comissão Europeia, Portugal ser o “único país (dos seis analisados) onde as medidas de austeridade foram mais fortes para os mais pobres do que para os mais ricos”. A isto juntam-se alguns sinais preocupantes, entre os quais a recente questão pouco edificante da EDP.

 

Exemplos destes fazem deste Governo parecer muito pouco liberal. E isto não é um elogio.

A maldição do caminho único


José Maria Gui Pimentel,

 

Tenho a tentação de simpatizar com a corrente de opinião que defende que Passos Coelho deveria procurar contrariar a postura pró-austeridade defendida pelo governo alemão, no fundo deixando a posição irritante de cachorrinho mor de Angela Merkel. No mínimo, como pede Daniel Oliveira, que se junte ao manifesto pró-crescimento económico encabeçado por David Cameron. Pessoalmente, não concordando com a visão de Daniel Oliveira, nem com as propostas vagas de Seguro (“austeridade inteligente”), tenho todo o apreço por aquilo que o referido documento defende. Todavia, não creio que o Primeiro-Ministro tenha, neste momento, verdadeiramente alternativas. A iniciativa para um abrandamento das medidas de austeridade terá sempre que vir alternativamente da parte destes países ou da própria Alemanha (e França). Portugal deve limitar-se a uma diplomacia cautelosa, à espera de uma brecha (que aparentemente, embora se desconheça a sua dimensão, poderá ocorrer). Foi a este caminho único de curto-prazo que, bem ou mal, nos condenámos quando pedimos ajuda externa. Numa altura em que a Grécia sepulta cada vez mais a cabeça no chapéu do aluno mal comportado, Portugal não tem outra solução senão tentar a todo custo ser o totó bem comportado da turma. Sim, reconheço que é uma postura irritante, sobretudo num país que se tem colocado nessa posição muitas vezes nos últimos anos. Porém, a alternativa é o país afundar-se agarrado à Grécia. E isso, parece-me, é algo que ninguém deseja. É pois apenas prosseguindo o caminho actual que se poderá chegar a um plano estável em que, aí sim, as diferentes perspectivas para o país podem e devem (a bem da democracia) ser equacionadas. 

Ainda os Oscars


José Maria Gui Pimentel,

 

Nesta “época festiva” reemerge sempre quem se revele completamente alheio ao frenesim dos Oscars e restantes prémios do cinema americano. Os argumentos são variados, mas desembocam quase invariavelmente no facto de a Academia ter como fim último o lucro e a promoção dos seus filmes, tornando, assim, as escolhas previsíveis e redutoras. Outra razão mais mundana é o facto de a Academia ter uma composição muito enviesada, com preponderância de elementos do sexo masculino (77%), brancos (94%), idade superior a 60 anos (54%) e sem qualquer nomeação para um Oscar (64%). Ainda outro motivo invocado prende-se com a obrigação de os filmes nomeados serem americanos, o que restringe substancialmente o mercado disponível. Quanto a isso, nada a fazer. Quanto às restantes duas críticas, embora pertinentes, a verdade é que o seu efeito (particularmente o da primeira) não é tão grande quanto poderia ser. Com efeito, se é verdade que as escolhas da Academia são perfeitamente discutíveis (caso qualquer um de nós fizesse um top dos filmes de um ano, dificilmente este se intersectaria com as escolhas dos jurados), também é verdade que não se pode afirmar que sejam completamente previsíveis, muito menos mono-temáticas. Os filmes deste ano eram muito diversos entre si, e mais diferentes ainda de outros nomeados em anos anteriores (e.g. Slumdog Millionaire, O Cisne Negro, Este país não é para velhos, Juno, Babel, só para citar exemplos recentes). Sim, os dramas do tipo As Serviçais e Milk costumam ser beneficiados, e os filmes biográficos também. Mas, fora disso não há tanta previsibilidade assim. É isso que mantém as pessoas interessadas no evento. Só com a red carpet não iam lá.

“(…) não percebeste bem o filme!”


José Maria Gui Pimentel,

Afortunados os cientistas que não têm de se preocupar senão com os do próprio meio. Já os artistas são obrigados a tolerar uma horda de chicos-espertos a comentar o seu trabalho, como se percebessem verdadeiramente da poda. Como a arte, contrariamente à ciência, é subjectiva, não é difícil a um leigo fazer parecer que tem algo para dizer. Pior que isso: não é difícil a um leigo pensar que tem algo para dizer. Mesmo consciente desse facto, não resisto em enveredar pela quinta-essência dessa chico-espertice aplicada ao cinema: uma (parcial e desajeitada) análise dos filmes nomeados para os Oscars (e de um que não está, mas devia).

 

 “O Artista” – 4.5 estrelas.

 

É um filme absolutamente fantástico, pela história, pela ideia de fazer uma película muda na época do 3D, mas, principalmente, pela realização. Michel Hazanavicius transforma com mestria uma aparente escassez de recursos numa vantagem, enfatizando magistralmente as funções da representação física e da banda-sonora (que aqui recupera a razão do seu nome). Jean Dujardin faz um enorme papel, com uma expressividade insuperável. Bérénice Bejo está também muito bem.

 

 

“Hugo” – 3.5 estrelas

 

Junta uma boa ideia a uma história razoável. Não pude ver em 3D, mas Martin Scorsese faz o habitual uso magistral das câmaras, mesmo em 2D. Todavia, confesso que o filme não me seduziu muito. A história poderia ter descolado mais do género em que se insere e algumas personagens poderiam ter sido mais bem exploradas. Em todo o caso, tem alguns trunfos: Cativaram-me por exemplo, as várias pequenas histórias que se vão desenrolando, (aparentemente) em paralelo à trama principal, apenas para depois se interceptarem, num final feliz conjunto. É um truque habitual, mas que aqui foi especialmente bem empregue.

 

“O Artista” e “Hugo” são os dois favoritos para o Oscar de melhor filme. É curioso o facto de ambos abordarem o mesmo período da história do cinema, o fim do cinema mudo. Mais curioso ainda é o facto de um o fazer recorrendo à técnica de então, enquanto o outro faz uso do 3D. Nesse aspecto, um golpe brilhante de Scorsese, que, duma penada, reconcilia o público com a tecnologia moderna e faz a devida homenagem aos primórdios do cinema.

 

“Os Descendentes” – 3 estrelas

 

Apenas mediano, com uma complexidade mais aparente do que real. Ademais, continuo sem achar George Clooney um grande actor. É um papel diferente, de facto, mas que não achei particularmente bem desempenhado.

 

“As Serviçais” – 4 estrelas

 

É um tipo de narrativa relativamente comum, o que é uma desvantagem, mas bem conseguida. Compensa essa previsibilidade com a qualidade da história, que inevitavelmente cativa o espectador. Viola Davis e Emma Stone têm notáveis desempenhos. O da primeira trazendo muitas subtilezas a um papel aparentemente simples. A segunda revelando aqui uma polivalência inesperada (tanto é capaz de fazer de miúda gira da escola como, pelos vistos, de maria-rapaz). Por fim, descobri no filme um pormenor interessante. Numa indústria incrivelmente machista como é a de hollywood (hei-de escrever aqui sobre isso), é admirável o sucesso alcançado por um filme quase sem homens.

 

“Meia Noite em Paris” – 3 estrelas

 

Este filme que, como não poderia deixar de ser (sendo de Woody Alen), saiu fora de época de Oscars, já aqui foi discutido profusamente no nosso espaço: aqui, aqui e aqui. Mantenho que é um filme agradável, e com uma mensagem interessante, mas com pouco sumo, cheio de clichés. Pareceu-me mais uma ode a Paris do que um filme amadurecido.

 

“Moneyball” – 4 estrelas

 

Tal como “The Help” é um género de narrativa algo gasto, porém igualmente bem gizado, ademais possivelmente superando aquele em originalidade da trama e em qualidade de filmagens (um bom trabalho de Bennett Miller). Acresce que é um filme sobre desporto, o que é sempre um handicap. Para quem, como eu, nada percebe de basebol, torna-se por vezes difícil de acompanhar, mas o essencial está lá. Brad Pitt mostra, mais uma vez, ser, ao contrário do “homólogo” citado acima, mais do que um sex symbol, confirmando a sua grande versatilidade. Ainda assim, não me parece suficiente para privar Jean Dujardin do prémio.

 

“Cavalo de Guerra” – 3 estrelas

 

Não há muito a dizer sobre este filme. Visualmente muito bem realizado e com uma boa banda sonora, cortesia da parelha habitual Steven Spielberg / John Williams. Mas muito atrás das obras-primas de Spielberg. Mesmo tendo em conta o género em que se abertamente, não achei que merecesse a nomeação.

 

“Os Homens que Odeiam as Mulheres” – 4 estrelas

 

Um policial de qualidade, realizado por David Fincher (não sei se bem ou mal adaptado, pois nunca li o livro). Daniel Craig cumpre e Rooney Mara revela-se, embora não deva ser suficiente para levar o Oscar.

 

“A Melhor Despedida de Solteira” – 3,5 estrelas

 

Uma comédia romântica de um estilo de que não sou grande fã. Ainda assim, consegue ser relativamente original. Pelo menos meia estrela deve-se ao desempenho de Melissa McCarthy. Lembro-me duma entrevista do Herman em que ele dizia que nenhum tipo de humor é mau, desde que seja bem feito. Melissa McCarthy prova isso mesmo.

 

“A Dama de Ferro” – 3,5 estrelas

 

É uma fita difícil de avaliar. Sendo um filme, e não um documentário, justifica-se perfeitamente a opção por uma narrativa diferente, neste caso focada no sofrimento da personagem principal, Margaret Thatcher, após morte do marido. A ideia é boa mas não especialmente bem executada, com o realizador a parecer não ter a certeza em relação a de que perspectiva adoptar. Ainda assim, é muito hábil o modo como são geridas as sempre polémicas políticas de Thatcher, sem juízos de valor. Estes vêm sempre das personagens, e não do realizador, cada uma representando os vários pontos de vista existentes. Acresce o desempenho notável de Meryl Streep, que confirma ser das únicas atrizes (quiçá a única) a conseguir sobressair num mundo em que os papéis de relevo são quase sempre masculinos.

 

 

“J. Edgar” – 4 estrelas

 

Discordando do Pedro Correia (até nestas matérias se discorda neste blogue!), acho o filme bem conseguido. Confesso-me: Leonardo Dicaprio é, provavelmente, o meu actor americano preferido. O homem não sabe fazer maus filmes: escolhe os guiões a dedo, e interpreta-os quase sempre com mestria. Não compreendo como ainda não ganhou sequer um Oscar. Tal como o filme sobre Margaret Thatcher, o realizador (Clint Eastwood neste caso) tenta seguir uma linha diferente, afastando-se do filme biográfico tradicional. Não acho, Pedro, que o objectivo tenha sido narrar uma novela gay, o próprio Eastwood numa entrevista antes de o filme ser divulgado parecia pouco interessado em seguir esse caminho. Na verdade, os rumores sobre a vida privada de Hoover teriam, caso o realizador quisesse ir por aí, dado para muito mais do que aquela relação casta que é retratada no filme (os boatos incluíam cross-dressing e orgias homossexuais). Posto isto, o filme adopta, propositadamente, uma ênfase no lado pessoal de Hoover, não deixando de contar a história da sua carreira pública, mas deixando esta em função daquela. É uma perspectiva lícita para um filme, e aqui, na minha opinião, mais bem conseguida do que na “Dama de Ferro”.

 

Mesmo tendo presente não ter conseguido ver todos os filmes, apontaria para os seguintes vencedores (não são previsões, são opiniões):

 

Melhor Filme: “O Artista”

Melhor Realizador: Michel Hazanavicius (“O Artista”)

Melhor Actor Principal: Jean Dujardin (“O Artista”)

Melhor Actriz Principal: Meryl Streep (“A Dama de Ferro”)

Melhor Actor Secundário: *

Melhor Actriz Secundária: Melissa McCarthy (“A Melhor Despedida de Solteira”)

*só vi um dos filmes seleccionados

Phi Phi


José Maria Gui Pimentel,

 

Situadas na Tailândia, as ilhas Phi Phi (lê-se Pipi) são de uma beleza natural irresistível, dentro do possível relativamente imune ao impacto humano. Até desembarcar mantinha uma impressão inconfessável de alguma desilusão com as praias supostamente paradisíacas que já tinha visto. Não me satisfaziam completamente e culpava a minha bruteza por continuar a achar que, excepção feita à translucidez e à temperatura da água, em pouco (ou nada) ficavam à frente do “nosso” Algarve e, sobretudo, do Alentejo. As ilhas Phi Phi fizeram-me perder a vergonha, pois justificam plenamente o epíteto. Trata-se de um pequeno arquipélago, ao largo da costa tailandesa, sendo que, das seis ilhas, apenas uma é habitada permanentemente. Dessa, destaca-se um pequeno istmo central de areia (devastado pelo Tsunami de 2004, mas já praticamente reconstruido graças ao trabalho incansável da HI Phi Phi), ladeado por dois altos blocos cobertos de montanhas e vegetação. Uma diversidade harmoniosa. De resto diversa será porventura o adjectivo que caracteriza melhor o local, em ambos os sentidos da palavra.

 

 

Começando logo pela variedade de espécies que habitam os mares, cuja água, quase transparente (excepto no porto, inevitavelmente sobrepovoado de barcos), permite observar nitidamente o fundo a 3-4 metros de distância. É, assim, excelente para a observação sub-aquática, mesmo para a pessoa mais inexperiente. A calma vivida debaixo de água – a quase ausência de som, aliada ao movimento vagaroso dos peixes – faz da experiência, quanto a mim, superior a qualquer observação sobre-aquática. Deve ser do contraste que desperta a nós, seres de terra; fossem os homens seres aquáticos e certamente sucederia o contrário.

 

 

Em terra, o ambiente nas Phi Phi está longe de coincidir com o retrato de uma ilha (quase) deserta, não obstante mantém alguns traços que a diferenciam dos seus (supostos) pares. Porventura o principal destes é o facto de não se vislumbrarem carros, ficando o transporte terrestre praticamente restrito aos membros inferiores e às bicicletas e o marítimo a barcos-táxis (long-tail boats). Isto contrasta com a realidade na irmã mais velha, Phuket, cujas praias são igualmente estéticas, mas cujas ruas estão imersas na poluição atmosférica, auditiva e visual de um trânsito incessante.

 

 

Outra diferença das Phi Phi está no facto de o caudal de turistas ainda não ter atingido o pico, a que se junta uma população, mesmo que (na sua maioria) de passagem, diferente da que normalmente invade estas paragens. Descontando os inúmeros barcos turísticos que se deslocam dos territórios vizinhos durante a manhã (regressando a seguir ao almoço), a população turística das Phi Phi é na sua maioria composta por jovens backpackers, no global civilizados e interessados em preservar em alguma medida a ilha (muitos vêm pelo mergulho ou pelo montanhismo). De novo, uma realidade ligeiramente diferente do que se observa em destinos mais mainstream, sobretudo em Patong (uma praia de Phuket), onde a beleza da praia contrasta com o mau aspecto das ruas, que se apinham (principalmente à noite) do típico turista ocidental bêbedo, envergando uma t-shirt com uma qualquer piadola sexual básica, confiante de assim ser facilmente bem-sucedido. Se não conseguir, tem à sua volta várias prostitutas asiáticas, atraídas por uma procura consistente.

 

 

Esta população peculiar das Phi Phi produz, assim, um ambiente distinto, mais agradável, com a noite a trazer à ribalta um entrançado de ruelas de areia, alternando restaurantes e lojas. Os primeiros são, na sua maioria, relativamente básicos (comida local, pizas e massas, adaptadas a um orçamento backpacker), excepção feita ao peixe e marisco fresquíssimos e aos restaurantes situados literalmente à beira do mar. Por seu lado, as lojas revelam uma graça, também ela inesperada, pondo (quase) de lado os irritantes recuerdos cliché, e substituindo-os por produtos mais originais, alguns deles locais.

Em suma, um destino que recomendo. O difícil, neste caso, é mesmo (só) chegar.

 

Reflexão do dia


José Maria Gui Pimentel,

Nowadays, a candidate must believe not just some but all of the following things: that abortion should be illegal in all cases; that gay marriage must be banned even in states that want it; that the 12m illegal immigrants, even those who have lived in America for decades, must all be sent home; that the 46m people who lack health insurance have only themselves to blame; that global warming is a conspiracy; that any form of gun control is unconstitutional; that any form of tax increase must be vetoed, even if the increase is only the cancelling of an expensive and market-distorting perk; that Israel can do no wrong and the “so-called Palestinians”, to use Mr Gingrich’s term, can do no right; that the Environmental Protection Agency, the Department of Education and others whose names you do not have to remember should be abolished.

 

“The Right Republican“, The Economist

 

Melancolia


José Maria Gui Pimentel,

Inspirado pelos posts da Claudia e da Ana, decidi ver o Melancolia. Acabo de o fazer, e tenho que confessar: foram duas horas penosas, achei uma chachada completa. Desculpem-me a franqueza. Os filmes afinal são isto, subjectividade.

Ao contrário do Anticristo, um filme algo exagerado (com algumas cenas de violência gratuita) mas profundamente diferente da regra, esse sim um quadro fabuloso, o Melancolia, na minha opinião, é, à parte da excelência visual e auditiva, assaz banal. Lars von Trier juntou habilmente duas técnicas recorrentes no cinema alternativo, numa receita perfeita. Colocou em cima da mesa uma mão cheia de referências do paradigma intelectual e juntou-lhe um som e imagens irrepreensíveis. Em jeito de brinde, deixou ainda de parte a violência de Anticristo. E, voilà, aí temos o regresso do filho pródigo. Resumindo, ao filme falta-lhe o rasgo para cativar e a arte para angustiar o espectador. Já agora, a própria lógica do isolamento daquela família deixa muito a desejar. Posso estar a afastar-me da essência do filme, mas a iminência do embate de um planeta com a Terra não liga muito bem com aquela aparente abstracção geral, nem com uma família rica que parece viver numa casa onde não existe uma única televisão (mas telescópios topo de gama). Lars Von Tier está maluco, como se sabe. Se este é o seu regresso à normalidade (e não acho que seja), prefiro a versão demente.

Impressões da China (III)


José Maria Gui Pimentel,

É muito engraçado deambular por uma cidade chinesa, pelas ruas, pelos jardins, pelas lojas, e observar o comportamento dos nativos (exceptuando o daqueles que não estão a olhar para nós embasbacados, retribuindo o nosso espanto a observá-los). Uma das experiências mais desesperantes, mas, ao mesmo tempo, divertida é tentar encontrar quem fale inglês. O resultado vai-se tornando previsível, variando apenas com a idade do receptor: Abordamos um adulto/velho na rua: do you speak English? Atitude imediata: fuga (por vezes acompanhada por um sorriso zombeteiro). Abordamos um jovem (presumivelmente estudante): do you speak English? O jovem olha à sua volta (“como é que em me safo desta?”), seguidamente olha para baixo (“será que eles vão desaparecer?”), finalmente encara os temíveis estrangeiros e, simpaticamente balbucia: “yes…a little…”. E “a little”, há que reconhecê-lo, não é normalmente falsa modéstia, apesar da proliferação de escolas de inglês. Na verdade, atendendo a que o estudante típico tem poucas oportunidades para treinar a língua, o esforço é louvável.

 

A propósito, importa notar que a atitude envergonhada de baixar a cabeça não surge por acaso, reflectindo uma cultura asiática em que se evita a todo o custo a perda da honra. Poderá parecer exagerado aplicar a palavra honra a esta situação, mas a verdade é que a coisa aqui é tão importante quanto isso. É difícil encontrar uma palavra ocidental que resuma completamente este aspecto cultural, só compreensível à luz da visão intrinsecamente colectivista da cultura asiática. São famosos (embora, provavelmente, algo exagerados) os relatos dos japoneses que se suicidam por perder o emprego. Inicialmente é muito difícil identificar este aspecto cultural, o que pode levar a que se seja inadvertidamente grosseiro, neste nosso à vontade europeu (imagino, ainda assim, que os americanos se vejam em piores lençóis). Aconteceu-nos, a este respeito, um episódio engraçado. Um rapaz chinês, amigo de um nosso recém-conhecido (também ele local), veio instalar-nos um programa no computador, tendo ficou atrapalhadíssimo ao não ser bem sucedido. Naturalmente, tendo o problema sido ainda assim resolvido e sendo além do mais a coisa de pouca importância, apressei-me a assegurá-lo de que não havia problema nenhum. A tentativa de o acalmar falhou, todavia, redondamente, e o rapaz pôs-se a sete pés tão rápido quanto pode, mal nos encarando à saída (cá está). Passado cerca de vinte minutos ligou-nos o nosso conhecido que o tinha recomendado muito atrapalhado, perguntando receosamente se ele tinha resolvido o problema, o que nós, logicamente, confirmámos com veemência. Desde então, noutras ocasiões de contacto connosco, o rapaz tem revelado sempre uma enorme timidez, porventura, é inevitável pensá-lo, traumatizado ainda por aquele episódio, para um ocidental, de somenos importância, mas para um asiático extremamente embaraçoso. Numa sociedade onde, tradicionalmente, o pior dos infortúnios é a perda da face, há naturalmente um enorme cuidado nas relações sociais. É por isso muito comum, ao falarmos com um chinês, este salpicar as frases de “talvezes”, sobretudo as afirmações, com o intuito de não ofender o interlocutor. O cúmulo quase hilariante desta receita é quando nos é transmitido um facto evidente (perfeitamente observável) associado à expressão “talvez”. Por exemplo, perante a evidência da chuva: “talvez esteja a chover”. Outra manifestação desta peculiaridade da cultura chinesa é a pouca atracção por bebidas alcoólicas (embora, mais uma vez, esta tendência se esteja a inverter). Com efeito, os chineses não vêem com bons olhos a perda de controlo causada pela embriaguez, o que não deixa de ser bem visto.  Um amigo contou-nos uma história elucidativa. Em certa ocasião ao passear com um grupo de chineses, reparou surpreendido num grupo de bêbedos ruidosos uns metros adiante, tendo comentado ser a primeira vez que via chineses ébrios. A isto um dos elementos do seu grupo apressou-se a replicar, não obstante a evidência do facto: eles não são chineses.

A visão que a sociedade tem do Eu é, assim, na cultura chinesa, muito mais importante do que a visão que o Eu tem de si mesmo. Com efeito, o individualismo europeu moderno opõe-se ao colectivismo que ainda subsiste na Ásia, não obstante as enormes modificações sofridas a partir do século XX. Curiosamente, há uma faceta que poderá ser chamada individualista na qual, em virtude da grande densidade populacional e dos baixos rendimentos, os chineses são um exemplo paradigmático: o “salve-se quem puder”.

O instinto de sobrevivência facilmente observável nas filas dos supermercados, nas bilheteiras de comboio e no trânsito caótico. O tráfego merece atenção especial aqui, pois é, sem dúvida, a mais impressionante destas realidades, para um ocidental imprevidente, desconhecedor do ainda pior trânsito (ao que parece) de outras cidades asiáticas.

De qualquer modo a regra parece-me ser a mesma: a ausência desta. Conduzir pela direita é apenas uma vaga referência, apenas útil em avenidas largas, o mesmo acontecendo em relação aos semáforos. Se os carros, fruto da sua dimensão, são obrigados a seguir algumas destas regras, as motas sofrem menos limitações, além de parecerem poder esgueirar-se por qualquer fresta. Se se tiver em conta que muitas destas não requerem carta de condução, é fácil entender o potencial de perigo nas estradas chinesas. Ainda assim, as coisas fluem surpreendentemente bem. O rácio acidente iminente/acidente materializado parece ser aqui bastante inferior ao paradigma ocidental. 

Co-autoria: Diana Gui

Ou vai ou racha


José Maria Gui Pimentel,

A actual crise da dívida soberana é um infeliz exemplo da mentalidade “meias tintas” da burocracia europeia. Mais de ano e meio depois, os políticos europeus continuam presos na armadilha de temerem o fim do euro e de recusarem ao mesmo tempo tomar as medidas necessárias para o evitar. Embora a considere muito arriscada, vejo com simpatia a ideia de que um sistema capitalista tem forçosamente de deixar falir as empresas/bancos que falham. A ser aceite, este princípio teria sido aplicado logo no início, quando os elevados custos de protecção da banca ainda eram inexistentes. Não tendo tal sucedido, é evidente (embora os políticos europeus o queiram encobrir) a aceitação implícita do princípio oposto: salvar a banca, para salvar o euro. Procrastinar, neste caso, tem custos crescentes, e insuportavelmente elevados.