Teimosos como… touros


José Maria Gui Pimentel,

 

A controvérsia em relação às corridas de touros / touradas já dura há alguns anos, e promete (assim passada a crise) intensificar-se. Trata-se, provavelmente, do tema fracturante por excelência. Talvez não tanto na extensão da fractura (arriscaria que há uma significativa fatia da população para quem o tema ainda é irrelevante), mas na intensidade da mesma. Com efeito, quem é contra as touradas acha-as um resquício medieval, de uma brutalidade animalesca completamente desfasada dos dias de hoje, preservado por uma antiga aristocracia e praticado em localidades interiores. Quem defende as corridas de touros, por seu lado, é visceralmente incapaz de entender os argumentos dos opositores. Considera-os um bando de anarcas que não conhecem as tradições e a vida rural.

 

Esta total clivagem tem levado a que alguns anos de polémica não tenham resultado em nenhuma alteração significativa no sistema, nenhuma cedência de qualquer parte. Na maioria dos temas fracturantes que têm sido discutidos nos últimos anos (e mesmo em tempos mais remotos), ainda que não deixando nunca de haver confrontação verbal, foram sendo feitas cedências de parte a parte. O motivo é simples, os defensores de cada posição não estavam aquartelados. Quando se discutiu a lei do aborto, por exemplo, todos nós conhecíamos pessoas próximas que defendiam a posição contrária à nossa. Mais, era comum haver várias posições intermédias entre os dois extremos. Na questão das touradas, tal não acontece: são duas tribos completamente distintas e sem qualquer relação que se enfrentam.

 

Dito isto, a solução para esta questão até é, paradoxalmente, muito simples, comparativamente com o que sucede com outras questões em que o consenso é virtualmente impossível. Sabe-se que os dois extremos jamais cederão um milímetro. No entanto, uma grande fatia da população, arrisco dizer, identifica-se facilmente com alguns dos argumentos de cada parte: aqueles onde reside o bom senso. Por um lado, o modo como os touros são tratados antes e após a lide é absolutamente inadmissível nos dias de hoje. É medieval e praticamente não supervisionado. Por outro lado, é evidente que as corridas de touros são uma tradição antiquíssima, com um papel cultural e identitário fortíssimo em algumas regiões (não falando sequer do seu significado económico). A lide implica algum sofrimento do animal, é verdade. Mas (quase) todos comemos carne, que não nasce propriamente no supermercado. E práticas como a matança do porco são bem mais cruéis e mantidas nos dias de hoje. Acresce ainda que os maiores maus tratos sofridos pelo touro acontecem, frequentemente, antes e depois da lide, e não durante esta.

 

A escalada de confrontação que certamente ocorrerá nos próximos anos acordará a opinião pública para o assunto, e esta começará a exigir alterações no sistema. Nessa altura, a bola estará essencialmente do lado dos defensores das corridas de touros, que se arriscam a ser vistos como incompreensivelmente inflexíveis e desfasados da realidade. Deverão, assim, capacitar-se de que a aceitação de alguma intromissão externa e a admissão de algumas regras civilizadas consistem numa pena manifestamente leve, se comparada com uma potencial proibição daquela prática.

 

Num país (urbano) tão pouco dado às tradições, é melhor não arriscar.

8 comentários em “Teimosos como… touros”

  1. É de facto um tema completamente irrelevante, tal como o post bem sugere numa das primeiras frases.
    Tantos temas fraturantes da mais alta relevância, como a eutanásia, a co-adoção, a prostituição, as drogas, o jogo, e vai uma pessoa perder cartuchos com touros!

      1. As condições em que os touros de lide são tratados são, em geral, privilegiadas. Vivem a vida toda à solta no meio do campo, a comer comidinha natural. Tomara a ampla maioria dos animais serem tratados tão bem como eles.
        A morte deles não é agradável, de facto, mas mesmo assim são uns animais sortudos comparados com a maioria.

  2. Vivemos tempos em que ,quem não é adepto das causas fracturantes,o melhor que tem a fazer é ficar”em tábuas”.

  3. Sem dúvida. Observo, com muita pena, os desgraçados dos cães confinados a espaços exíguos em apartamentos pequenos ao calor e a ladrar todo o dia. À noite ou de manhã os seus donos reservam-lhes uns escassos minutos pelos passeios (e não só) deixando estes emporcalhados de forma irresponsável e imunda. E os pássaros engaiolados que ao calor e ao de frio permanecem em varandas e marquises? Duma insensibilidade que dá dó.

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