
…não foi a vitória da coligação, mas antes o resultado estrondoso do Bloco de Esquerda (BE).
Vejamos bem: o resultado de ontem – a escala da subida de votação – é muito difícil de explicar à luz do que se sabe e do que tem sido discutido.
Sabe-se que a conjuntura dos últimos anos favorece partidos de protesto, mas isso já acontecia – e em maior grau – nas eleições europeias. E, sim, é verdade que Catarina Martins se revelou durante a campanha – num misto de firmeza, empatia e frescura idêntico ao que Jerónimo de Sousa trouxe ao PCP em 2004 – e é também verdade que a presença de Mariana Mortágua permitiu chamar ao Bloco os louros da prestação da deputada na comissão de inquérito ao caso BES/GES. Acresce a tudo isto que o PS fez uma campanha reconhecidamente fraca.
Mas estas explicações, conquanto relevantes, são insuficientes para explicar o resultado de ontem. Seriam provavelmente suficientes para explicar uma melhoria moderada do resultado eleitoral do Bloco, mas acho francamente pouco como causa para aquilo a que assistimos ontem: um crescimento de virtualmente 100% (10.2% vs 5.2% em 2011), levando o BE ao melhor resultado de sempre.

O Bloco era, relembre-se, um partido acossado no início da (pré-)campanha, com sondagens repetidamente desfavoráveis a sobreporem-se a resultados francamente maus nas eleições Europeias de 2014 e nas Legislativas de 2011. A isto somava-se uma liderança com dificuldade em afirmar-se. Saíra enfraquecido das eleições de 2011, num efeito que parecia dever-se, por um lado, à desatenção aos eleitores de esquerda não-marxista e, por outro, ao esgotamento das causas fracturantes capazes de cativar o seu eleitorado tipicamente urbano e jovem. Sofrera em 2012, como o Pedro lembra, a saída do líder carismático – que tinha sido capaz de lançar o único partido verdadeiramente novo desde o pós-25 de abril –, seguida da sua substituição por uma peregrina liderança bicéfala mal-sucedida. Como se isso não bastasse, alguns dos seus mais mediáticos membros – que, tudo indicava, eram bem queridos pelos eleitores – tinham não só deixado o partido, como também tomado a iniciativa de formar novas forças políticas, potenciais ‘canibalizadoras’ do voto no Bloco. Paralelamente, o PCP tivera 12.7% nas eleições europeias e parecia capitalizar o grosso do descontentamento da ‘esquerda-esquerda’.
Ainda há pouco mais de um ano, jornais e articulistas entretinham-se a analisar ‘crise do Bloco de Esquerda’, prevendo o seu declínio inevitável.
Em julho do ano passado, num Observador a querer ganhar espaço, João Marques de Almeida sentenciava:
<Para todos os efeitos, o projecto político do Bloco de Esquerda acabou. O partido ainda existe, não desaparecerá de um dia para o outro, mas o fim será penoso, e os ódios tribais causarão certamente vítimas.>
E prosseguia para explicar a origem da doença:
<O Bloco foi um fenómeno político de tempos de prosperidade. O seu eleitorado foi a burguesia urbana, intelectual e liberal nos costumes, que estava disposta a apoiar causas sociais quando tudo lhes corria bem. Os salários cresciam, as pensões e, para muitos, os subsídios do Estado estavam garantidos, e a vida corria sem sobressaltos de maior. Estavam disponíveis para umas campanhas a favor de causas fracturantes, o que de resto fazia muito bem ao ego de quem de identifica como moderno e progressista. Mas a última coisa que desejavam era grandes mudanças e muito menos revoluções. Um partido de líderes revolucionários tinha no essencial um eleitorado satisfeito com a sua vida. Tal como no caso do PSD, também o Bloco de Esquerda tem membros à direita dos líderes, e eleitores à direita do partido.>

Foi neste cenário que, mais recentemente, caiu sobre o Bloco aquela que aparentava ser a estucada final: o Syriza – partido ‘irmão’ e com um percurso semelhante – mostrou ao Mundo o que significa para um partido de extrema-esquerda ter de governar num ambiente fortemente condicionado e enfrentar a necessidade de fazer compromissos.
Partindo para estas eleições sob o espectro de uma profecia auto/realizável, com sondagens persistentemente desfavoráveis, o Bloco decidiu reincidir na estratégia que parecia condenada ao fracasso: colar-se à extrema-esquerda. À luz das sondagens e das eleições mais recentes, o resultado parecia certo: o Bloco, de uma assentada, entregava o centro ao PS e a esquerda ao PCP (entre o original e a cópia, qual tendemos a escolher?).
E, no entanto, o Bloco obteve os referidos 10% de votos.
Perante isto, sobram-me muitas questões contraditórias:
(i) Como conseguiu o Bloco, o partido que mais cavalgou a ‘onda Syriza’, imunizar-se face ao embate com a realidade do partido grego, profusamente utilizado pela direita durante a campanha? Como conseguiu segurar – ou até atrair – parte do centro?
(ii) Será que, ao contrário do que muito boa gente – eu incluído – pensava, o potencial do Bloco não gerar a ‘auto-determinação’ da ala esquerda do PS, mas antes sedimentar-se como partido de protesto? Esta é uma das conclusões possíveis da votação de ontem, em que o promissor Livre ficou aquém da eleição e o PTP-MAS com escassos 20 mil votos.
(iii) Será possível o Bloco ter atraído votantes do PS através de uma postura marcadamente de esquerda, quando um discurso demasiadamente longe do centro é precisamente um dos factores apontados como causa da derrota socialista?
(iv) Terá o Bloco efectivamente conseguido diferenciar-se do PCP, partido cujo discurso por vezes parece quase mimetizar? Por que não foi o PCP o escolhido por quem rejeita a austeridade?
(v) Ou terá antes, como indica a análise possível dos números, parte significativa da votação de ontem provindo da própria coligação (ie, de quem em 2011 votou PSD ou CDS)? E o que significa isso em termos da base eleitoral dos partidos?