Food for thought (2)


José Maria Gui Pimentel,

Partilhei aqui, recentemente, um retrato dos EUA enquanto “post-genocidal society“, uma análise muito útil à compreensão da reemergência do racismo na América contemporânea.

 

Mas há outro tema, tangencial a essa questão, que me tem invadido cada vez mais o espírito: as novas ameaças à liberdade de expressão. Se, historicamente, o inimigo por excelência da liberdade de expressão era a censura activa imposta pela minoria no poder, actualmente a manifestação livre das opiniões encontra-se ameaçada por um fenómeno mais suave, mas crescente: uma maioria – ou minoria ruidosa – politicamente correcta, cada vez mais vocal, sobretudo, nas redes sociais. Têm sido recorrentes episódios, mais ou menos triviais, de comentários que suscitam a indignação geral, desde a piada de Jose Cid* sobre os transmontanos, ao comentário de Quintino Aires sobre os ciganos, passando pelas inenarráveis diatribes de Pedro Arroja, entre outros.

 

É uma questão que tem gerado mais debate no mundo anglo-saxónico, mas que reencontrei a propósito de um debate que juntou Fernanda Câncio, Daniel Oliveira (o que não ouve olhos) e Ricardo Araújo Pereira, a propósito do livro Trigger Warning: Is the Fear of Being Offensive Killing Free Speech?, de Mick Hume. Um debate tão acalorado – o que é particularmente interessante dada a presença de três incontestáveis esquerdistas – que de uma primeira versão na Feira do Livro gerou um encore na Antena 3. 

 

Ricardo Araújo Pereira defendia (apaixonadamente, diga-se) a posição do autor, jornalista britânico, que vem insurgir-se nesta polémica essencialmente contra a percepção crescente da existência de um direito à indignação maciça contra afirmações consideradas “ofensivas” proferidas por um indivíduo. Argumenta Hume que esse direito à ofensa extravasa aquilo que a legislação que protege a liberdade de expressão prevê, podendo, por conseguinte, ao mesmo tempo que impede a disseminação dos 9 em cada 10 comentários imbecis e ofensivos, coarctar o debate livre de problemas e ideias, bem como a própria criatividade.

 

O efeito da mordaça identificada por Mick Hume não é, evidentemente, comparável com a situação da liberdade de expressão noutros tempos e, mesmo actualmente, noutras geografias. No entanto, o autor identifica uma tendência – agudizada pela conspicuidade das redes sociais – que não deixa de dar que pensar.

 

Finalmente, vejo nesta questão uma ramificação mais premente: a emergência de políticos radicais, como Donald Trump nos EUA (daí a tangente deste tema ao primeiro). Com efeito, a ditadura do politicamente correcto vinha forçando, nos últimos anos, os candidatos a um discurso artificial e redondo. Trump veio contrariar abertamente esse discurso, com uma retórica sem freio mas que é vista por muitos apoiantes como genuína.

 

* Cid tem, ironicamente, pouco de que se queixar; há anos que diz as maiores enormidades à frente de microfones (lembro-me de um comentário semelhante sobre os chineses, povo felizmente menos dado a protestos). 

0 comentários em “Food for thought (2)”

  1. Este em crer, e a querer, que a liberdade de expressão deve ser precisamente isso, isto é, sair dos parâmetros de todos os micro-modelos que se pretende sobrepôr a todos os demais modelos.
    Uma das questões que se colocava na falta de liberdade de expressão, segundo os anteriores parâmetros, residiu precisamente na dominação de um modelo sobre todos os demais.

    A sociedade actual, imbuída que está do sentimento de predominância, cujo conservadorismo à esquerda e à direita é reflexo disso mesmo, mas que deve aceitar-se enquanto expressão de pensamento, continua impreparada para gerir a velocidade de informação que foi conferida a essa liberdade. Significa isto que o nosso cérebro, viciado que está em modelos, não está capaz, mas pode ser capaz, de responder a esses velozes impulsos.

    O que observo permite-me reflectir sobre o que necessito. E o que necessito não significa falta, porque também necessito do que tenho. E estou em crer que temos capacidade para viver com fenómenos que dizem respeito ao eu circunstancial.
    Porém, em matéria de liberdade cada um deve perceber sobre que pode e o que convém, ainda que o que convém possa contrariar o(s) modelo(s) dominante(s).

  2. Um assunto tão importante e tão poucos comentários, é um terrível sinal. No entanto, seja esta tentativa de acabar com a liberdade de expressão como muitos outros sintomas, são todos originados pela mesma fonte que, com mais de 62% da riqueza mundial, tem vindo, paulatinamente, a concentrar o seu Poder para, assim, poder governar (escravizar) globalmente. E, essa pequena elite, sabe tão bem, não só comprar políticos como usar e manipular quem não pensa, essa gente que colabora, não só no seu próprio aprisionamento, como no aprisionamento de nós todos.
    Aquilo que se vê aqui, poderia nem ser perigoso mas, quando se espalha a nível global, é sinal que a elite está a conquistar e a concentrar, cada vez, mais Poder e, os estúpidos estão a dar-lhes uma grande ajuda.
    Por todo o lado, já se sabe para onde se caminha, a Europa é assunto encerrado, até nas pesquizas da net, há omissão de resultados, pelas novas normas europeias e, agora, só falta o resto do Mundo ainda livre ou em vias de já não o ser.
    O meu interesse, anda mais sobre o que se passa lá fora (nos últimos redutos de liberdade) e naqueles que, vão tentando, num último esforço, acordar os que “dormem” ou, mais difícil, tentar explicar o óbvio, aos idiotas do outro lado do Atlântico. O meu maior receio é… ser demasiado tarde.
    Exemplos, há muitos mas, posso deixar um dos últimos que ouvi. No mínimo, as pessoas podiam não acreditar em ninguém e tentar pesquisar por conta própria mas, até isso, está em vias de ser vedado e, quando estiverem dependentes, apenas, da informação dessa elite, é sinal que viraram animais domesticados.

    https://www.youtube.com/watch?v=44cwKhuC0L0
    The New World Order’s Secret Global Court Will Rule Over The People & Governments – Episode 1065b

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *