
Um amigo meu conta um episódio caricato ocorrido no primeiro dia de trabalho num fundo de investimento. À chegada, o novo chefe deu-lhe um conselho invulgar: “neste negócio, tu ou és vendedor ou comprador; quando optares por uma postura, mantém-te sempre nessa linha”.
Este adágio improvisado adapta-se a vários campos da vida e é especialmente válido numa sociedade que dá extremo valor à ‘coerência’, como um fim em si mesmo. No fundo, a receita é esta: é preferível defender um erro disfarçável do que rever uma posição assumida. Lembro-me, inevitavelmente, dos profusos elogios à coerência de Álvaro Cunhal, aquando da sua morte.
Ora, o Governo português parece ter incorporado integralmente esta táctica. Tendo abraçado, logo de início, e de corpo e alma, a narrativa germânica para explicar (e solucionar) a crise do euro, não mais a largou, mesmo quando a realidade justificava uma postura mais proactiva. E é essa mesma táctica – creio – que explica a postura exageradamente belicosa assumida pelo Governo em relação ao novo governo grego. Já era, de facto, tarde para voltar atrás, pelo que mais vale escolher uma equipa e esperar que esta ganhe – pensarão. E assim sucedem-se declarações: contra o Governo grego, a favor da posição alemã e – é aqui que a coerência começa a dar de si – até enjeitando a inesperada solidariedade do anterior presidente do Eurogrupo e actual presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker.
Sucede que a partida pode ser decisiva e, no caso de a equipa defendida pelo Governo se ver forçada a ceder de alguma forma, Passos Coelho terá bastante dificuldade durante a campanha eleitoral em explicar a postura assumida. Seja como for, a táctica não é, de facto, despropositada: dificilmente o Governo ganharia alguma coisa – qualquer que fosse o desfecho – se tivesse revisto a sua posição no início da telenovela grega ou se, num meio termo, tivesse optado por uma posição neutra. Esperemos pelo final do jogo.

Quanto ao senhor Juncker, aplica-se-lhe que nem uma luva a frase “fala agora ou fica calado para sempre”. Como não falou — e tempo foi coisa que não lhe faltou –, fez figura de con chapado.
Obviamente que as declarações de Marques Guedes não foram muito felizes. A muita gente (eu incluido, mas isso não é relevante) fez impressão que governo, AR, etc, andassem a lidar com meros funcionários das instituições da Troika…
Disso não posso discordar, de facto.
Passos Coelho já mostrou quem é e o que quer fazer ao seu país. Pequeno ditador, cego e surdo que nada vê porque nada sabe, a não ser, fazer o que a Alemanha manda. Esse senhor, afirmou que o seu povo, foi tratado com dignidade. Quando alguém, afirma isto ou não quer ver o que fez ou tudo o que fez, foi pura maldade. Espero que tudo o que tem feito, pela dignidade dos portugueses e as tristes afirmações de hoje o atirem para a derrota eleitoral que tanto merece.
Na neutralidade está a virtude.
Caso contrário, esquerda ao lado da Grécia direita ao lado da Alemanha.
No fim ficamos todos ao lado de quem ganhar.
Analisando os numeros, só os números, tudo justifica que o governo diga friamente que a narrativa syrizica é uma brincadeira de crianças.
Falando em solidariedade de claques tipo clubistas aí já sou obrigado a concordar que deviamos apoiar os gregos:
Na eficiencia, na governação, nas dívidas, no sonhar com o eldorado do euro nos ia trazer sem precisar de ser eficiente, nos desbaratar dos milhoes dados(dados mesmo) para nos aproximarmos dos restantes da UE somos mesmo syriza.
A realidade é muito complicada. O Governo não tinha necessidade de a pintar a preto-e-branco. Fê-lo, julgo, porque já seria difícil voltar atrás.
Excelente análise, José! Nem eu diria melhor. Cmp, MJ
Obrigado, MJ!
Este Governo coerente?! è só menos incorente que todos os outros incluíndo o autor.