A virtude da coerência


José Maria Gui Pimentel,

 Um amigo meu conta um episódio caricato ocorrido no primeiro dia de trabalho num fundo de investimento. À chegada, o novo chefe deu-lhe um conselho invulgar: “neste negócio, tu ou és vendedor ou comprador; quando optares por uma postura, mantém-te sempre nessa linha”.

Este adágio improvisado adapta-se a vários campos da vida e é especialmente válido numa sociedade que dá extremo valor à ‘coerência’, como um fim em si mesmo. No fundo, a receita é esta: é preferível defender um erro disfarçável do que rever uma posição assumida. Lembro-me, inevitavelmente, dos profusos elogios à coerência de Álvaro Cunhal, aquando da sua morte.

Ora, o Governo português parece ter incorporado integralmente esta táctica. Tendo abraçado, logo de início, e de corpo e alma, a narrativa germânica para explicar (e solucionar) a crise do euro, não mais a largou, mesmo quando a realidade justificava uma postura mais proactiva. E é essa mesma táctica – creio – que explica a postura exageradamente belicosa assumida pelo Governo em relação ao novo governo grego. Já era, de facto, tarde para voltar atrás, pelo que mais vale escolher uma equipa e esperar que esta ganhe – pensarão. E assim sucedem-se declarações: contra o Governo grego, a favor da posição alemã e – é aqui que a coerência começa a dar de si – até enjeitando a inesperada solidariedade do anterior presidente do Eurogrupo e actual presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker.

Sucede que a partida pode ser decisiva e, no caso de a equipa defendida pelo Governo se ver forçada a ceder de alguma forma, Passos Coelho terá bastante dificuldade durante a campanha eleitoral em explicar a postura assumida. Seja como for, a táctica não é, de facto, despropositada: dificilmente o Governo ganharia alguma coisa – qualquer que fosse o desfecho – se tivesse revisto a sua posição no início da telenovela grega ou se, num meio termo, tivesse optado por uma posição neutra. Esperemos pelo final do jogo.

0 comentários em “A virtude da coerência”

  1. Quanto ao senhor Juncker, aplica-se-lhe que nem uma luva a frase “fala agora ou fica calado para sempre”. Como não falou — e tempo foi coisa que não lhe faltou –, fez figura de con chapado.

    Obviamente que as declarações de Marques Guedes não foram muito felizes. A muita gente (eu incluido, mas isso não é relevante) fez impressão que governo, AR, etc, andassem a lidar com meros funcionários das instituições da Troika…

  2. Passos Coelho já mostrou quem é e o que quer fazer ao seu país. Pequeno ditador, cego e surdo que nada vê porque nada sabe, a não ser, fazer o que a Alemanha manda. Esse senhor, afirmou que o seu povo, foi tratado com dignidade. Quando alguém, afirma isto ou não quer ver o que fez ou tudo o que fez, foi pura maldade. Espero que tudo o que tem feito, pela dignidade dos portugueses e as tristes afirmações de hoje o atirem para a derrota eleitoral que tanto merece.

  3. Na neutralidade está a virtude.

    Caso contrário, esquerda ao lado da Grécia direita ao lado da Alemanha.

    No fim ficamos todos ao lado de quem ganhar.

  4. Analisando os numeros, só os números, tudo justifica que o governo diga friamente que a narrativa syrizica é uma brincadeira de crianças.
    Falando em solidariedade de claques tipo clubistas aí já sou obrigado a concordar que deviamos apoiar os gregos:
    Na eficiencia, na governação, nas dívidas, no sonhar com o eldorado do euro nos ia trazer sem precisar de ser eficiente, nos desbaratar dos milhoes dados(dados mesmo) para nos aproximarmos dos restantes da UE somos mesmo syriza.

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