Foto AFP
É, desde já, uma das imagens mais terríveis deste ano ainda no início: um homem queimado vivo dentro de uma jaula onde estava preso como se fosse um animal selvagem.
Foi outra vítima do autoproclamado Estado Islâmico, o mais sanguinário movimento terrorista contemporâneo, que recua no terreno – como sucedeu há dias, em Kobane, numa batalha ganha pelas forças curdas – mas vai progredindo nos circuitos mediáticos. Porque cada vídeo com estes homicídios difundido nas redes sociais constitui um marco na estratégia de propaganda do fundamentalismo islamita que injecta nas sociedades contemporâneas aquilo a que o poeta mexicano Octavio Paz chamava “o veneno do medo”.
Vídeo após vídeo, fotografia após fotografia, somos inoculados pelo veneno do medo ministrado pelas bestas totalitárias. Que no Iraque, na Síria, no Níger, na Nigéria, no Iémene e em tantos outros países lapidam mulheres, desmembram homossexuais, crucificam cristãos, enterram crianças vivas. Com um ódio letal que nenhuma crença religiosa autoriza, nenhuma ideologia justifica, nenhuma doutrina é capaz de explicar.
O homem, um piloto jordano, chamava-se Moaz al Kasasbeh. Foi assassinado da forma mais bárbara – “executado”, como lhe chamaram os cultores de sofismas. E morto milhares de vezes depois disso nas redes sociais que reproduziram aquela cena macabra com a tranquila frivolidade utilizada dias mais tarde para difundir imagens do aniversário de Cristiano Ronaldo. Como se o culto da morte e a festa da vida fossem a mesma coisa.

![1783456776[1].jpg 1783456776[1].jpg](http://0.fotos.web.sapo.io/i/B16119ba3/18043506_NiaDZ.jpeg)
Quanto mais escandaloso for o vídeo maior é a certeza para os terroristas de que ele vai ser exibido em larga escala no ocidente. A escalada do horror com motivos de propaganda deve-se à necessidade de garantir divulgação em grande escala e de borla.
Já nenhum ocidental se escandaliza com imagens de um fuzilamento, de um atentado bombista, de uma lapidação…
Exatamente.
Aliás, parece que os europeus apreciam deveras a morte pelo fogo, a avaliar pela avidez com que vão à procura do vídeo. Os europeus estão, claramente, carentes daqueles belos espetáculos públicos que em séculos passados a Inquisição promovia. Agora tem que ser o Estado Islâmico a satisfazer a necessidade dos europeeu de emoções fortes e bárbaras.
O piloto jordano morreu lá longe e, tudo visto, pertencia “àquela gente” que afinal não se entende entre si e que “morre que nem tordos”. Para quem tem por horizonte a distância entre o subúrbio onde mora e a cidade onde trabalha, e “viajar” significa trocar por uns dias o subúrbio e o caos urbano de uma Brandoa, pelo subúrbio e caos urbano de uma Praia da Rocha, o mediterrâneo é uma fronteira longínqua e segura, e tudo é muito distante e irrelevante perante as “incidências” do mais recente “derby”.
Essas ou as de Cristiano Ronaldo, esse um verdadeiro modelo da ambição nacional e o seu bem-estar e devaneios carnais uma verdadeira preocupação nacional, e que você, caro Pedro Correia, invocou sem fazer anteceder ou seguir da litúrgica locução “o melhor do mundo”. E isso, bem vê, não se faz.
O resto é tudo muito longe. Até ao dia…
Costa
O longe se faz perto mais cedo do que muitos imaginam, meu caro. Estas bestas já estão na margem sul do Mediterrâneo, nas costas da Líbia. A poucas centenas de quilómetros de Itália. E já matam em Paris e Copenhaga.
Aquilo que fizeram ao piloto jordano foi, basicamente, o mesmo que o marquês de Pombal fez aos Távoras. E o mesmo que a Inquisição fez a múltiplos judeus. Nada mais do que isso…
Com a diferença, enfim, de que os Távoras estavam consabidamente inocentes (do atentado contra D. José) e que a maioria dos judeus não o era. Enquanto que o piloto jordano, segundo julgo, estava naquela jaula por culpa própria – tinha andado a bomberdear as posições do EI.
Se um dia as bestas do EI meterem as vítimas num recinto à mercê de leões, o Luís Lavoura escreverá, com essa simplicidade, que não fizeram mais do que os romanos. Sem esquecer a diferença da culpabilidade, claro está. Há que evitar quaisquer equívocos.
“o mais sanguinário movimento terrorista contemporâneo”
Porquê o mais? Agora existem gradações para o mal?
Há uma relatividade moral que leva a considerar como piores os casos que são mediatizados e aqueles onde morrem ocidentais e seus aliados.
Sim existem graduações para o Mal. Não me diga que que descobriu finalmente o preto e o branco – a acusação que Esquerda gosta de fazer à Direita, confundido tons de cinzento e a necessidade de agir e não agir(também é uma acção) porque só se olha ao espelho para ver o que brilha.
Há quem negue a existência do bem e do mal, pondo no mesmo saco vítimas e carrascos. Nada mais inaceitável do que isso.
Claro que existem gradações para o mal, Jo. Se não fosse assim, o código penal teria uma alínea única.
Recomendo-lhe, a propósito, a leitura atenta de uma obra fundamental do pensamento ético e político do século XX: ‘As Origens do Totalitarismo’, de Hannah Arendt.
É uma obra que nos abre os olhos para esse fenómeno não confundível com qualquer outro que é o totalitarismo – ponto culminante do Mal. Estabelendo distinções com escalões menores do mesmo fenómeno.
Escreve ela (tradução minha):
«O assassino que mata um homem (…) permanece confinado aos limites de um espaço que nos é familiar – o da vida e da morte. O assassino deixa um cadáver atrás de si mas não pretende que a sua vítima jamais tenha existido.»
A lógica de um sistema totalitário é diferente:
«Os dissidentes desaparecem da face da terra, e apenas subsiste a recordação deles em que os conheceu e os amou. Uma das tarefas mais complexas da polícia secreta consiste em certificar-se de até essas recordações desapareçam juntamente com os condenados.»
A necessidade de adjectivar o terrorismo para o “traduzir” para que os ignorantes percebam bem, assim como a repetição pelos mass media mundiais de certas frases e imagens, náo pode deixar descansado quem gosta de não ser papado como tolo e aflora uma possivel agenda que serve uns “interesses” não revelados.
Mesmo assim terrorismo é mesmo terrorismo, seja na Afeganistao, Praquistão ou Charlie. Já na Dinamarca a genese é inspirada mas trata-se mais do preço a pagar pela liberdade que todos adoramos, do que um ataque dos “islamitas”.
A dificuldade de aceitar o contrário sabemos bem, os trolls de serviço, como se manifesta irracionalmente.
Até os “profissionais” em debates, perdem a compostura e não deixam os participantes terminar as frases.
O terrorismo não tem de ser adjectivado. Mas há termos comparativos que não são escusados mesmo quando nos referimos a terrorismo. Pelo contrário, esses termos induzem elementos informativos adicionais que me parecem úteis.
Há movimentos terroristas que só matam soldados ou polícias. Outros só matam adversários políticos. Outros matam civis indiscriminadamente. Mas não conheço nenhum como este. Que não se limita a matar: viola, decepa, tortura, decapita, lapida, crucifica. Homens, mulheres, crianças.
Há gradações para o mal. Não conheço nada pior no mundo contemporâneo. Isto deve ser dito e repetido as vezes que forem necessárias.
Concordo a 99% e para me especificar melhor peço que se ponha no lugar dum muçulmano que vê o seu “territorio” sucessivamente invadido por força estrangeiras que determinam sem escrutinio quando há ou deixa de haver armas d.ma. deixam o país roubado e despedaçado Libia, Iraque Iemen e ainda prendem os seus terroristas e os matam ou levam para interrogar com armamento impossivel de ser igualado, os seus países com oitocentas vezes mais mortes por terrorismo e os terroristas deles a serem acarinhados. Como classifica o adjectivar o terrorismo? inocente , justo? esclarecedor? ou redutor e ofensivo a acoantonar as tropas entre eles e nós? precisamnente o que nunca deve ser feito. Há terrorrismo ponto.
Ponho-me no lugar de um muçulmano que vê o seu “território” ser invadido pelos assassinos do movimento terrorista que se denomina ‘estado islâmico’. A esmagadora maioria das vítimas destes terroristas professa a religião islâmica.
A resposta era para exemplificar porque acho contraproducente e adjectivar o terrorismo. Injusto, enganador precisamente porque as maiores vitimas são os adjectivados. Terroristas são terroristas ponto.
No essencial, estou de acordo consigo. O substantivo é tão forte e tão inequívoco que dispensa adjectivos.
Uma coisa inimaginável, como tudo o que o EI tem feito. Parece que estão num crescendo, tentando cada vez ir mais longe. Pergunto-me, talvez com alguma ignorância, como é possível que, com a tecnologia militar de que dispomos, ainda não tenham sido travados, eliminados.
(Ao lado: «consultor de informação»? Pensava que uma vez jornalista, sempre jornalista. Como é que o Pedro, quando pensa na sua profissão, se vê? Aposto que se vê como jornalista. 🙂 )
Um abraço.
Meu caro, essa sua questão final dá pano para mangas.
Quem, como eu, exerceu durante 30 anos a profissão de jornalista sentir-se-á sempre jornalista, raciocinará sempre como jornalista, escreverá sempre como jornalista. Mesmo que não a exerça temporariamente, como é o meu caso actual.
Sim, uma vez jornalista para sempre jornalista. Tal como não há “ex-médicos”, por exemplo, Ou “ex-arquitectos”. Além disso trinta anos é muito tempo. Entranha-se, como diria Pessoa.
Um dia destes hei-de desenvolver este tema aqui.
Um forte abraço.
Começa agora a perceber-se que a posse do petróleo árabe (o poder de manipular as decisões da OPEP) é muito mais que uma arma energética. É que, manipulando o preço do mesmo, através de decisões irracionais de extrair em excesso face à procura, é possível anular a vantagem competitiva que alguns países pensavam que tinham, por terem petróleo no seu subsolo (porém com elevados custos de produção). Cabinda, Rússia, Mar do Norte.
Estamos a assistir a mais uma guerra do petróleo, desta vez usando a abundância como arma. Nos anos 70 a arma foi a escassez…
Quem manda esses países apostarem na “monocultura” do petróleo em vez de investirem noutros sectores da economia? Refiro-me a países tão diversos como a Rússia ou a Venezuela, sem esquecer Angola.
Muito poucos são os que ganham a sorte grande e conseguem manter o bem-estar material que ela lhes proporciona por mais de uma geração.
É assim, é natural.
Essa realidade não tem nada a ver com o poder de controlar o preço do petróleo de que falei.
Outra ilação que eu retiro da atual situação de baixa de preço é que os países menos desenvolvidos não parecem estar a tirar partido da situação para expandirem as suas economias. Parece, portanto, que a tão propalada desculpa que os países pobres não se desenvolvem porque não têm acesso a petróleo barato parece ser uma desculpa esfarrapada…
Já me perdi. Que tem isto a ver com as atrocidades cometidas pelo movimento terrorista que se intitula ‘estado islâmico’?
O tempo é este, o da insensibilidade, da mecanização dos dias, do pensamento condicionado, do deixa andar. O espaço , é grande o espaço que nos separa de”lá” , do lugar onde acontecem as coisas más, os holocaustos, os infernos com bestas à solta, o medo, os dramas humanos e sociais, o horror. A acção, a acção que deve dispor- se sempre em gradação crescente, terminando num clímax, essa desapareceu num mar de inacção, de petrificação, de gelada frieza. Perdeu-se no marasmo, na omissão de valores, na trivialidade que a violência atribui à morte Imoderada. A morte é o fim. O fim desilude de banal que se tornou.
É a clássica tragédia de sempre.
A desumanização processa-se em dois passos, Dulce.
Primeiro na pulverização do sistema de valores tal como sempre o conhecemos – a vida como valor absoluto, o direito à diferença, o respeito pelas minorias, a igualdade de género, o repeito intocável pela crença alheia.
Depois pela banalização do mal, dando-lhe uma aparência inócua de tanto se repercutir em imagens forjadas pela propaganda totalitária.
Podemos pouco no primeiro passo: o combate contra a besta, armada até aos dentes, é profundamente desigual. Mas cada um de nós pode alguma coisa no segundo, evitando repercutir o “veneno do mal” e torná-lo quase aceitável, como se fosse um filme de terror a que assistimos por desfastio na televisão.
Gostei realmente muito deste seu texto, Pedro.
Muito obrigado, Cristina. Há muito que a elegi como “delituosa” honorária.
Parece-me um excelente “título” 😀