Uma alteração radical


José Maria Gui Pimentel,

A propósito da proposta do Governo de eliminar quatro feriados, ocorreu-me partilhar uma ideia que povoa o meu espirito há algum tempo, que se poderia aplicar não só a Portugal mas a qualquer país do mundo. Admito que possa ser polémica.

Um trabalhador português conta, hoje em dia, com pelo menos 37 dias de descanso anual (22 dias de férias, que podem chegar a 25, e, tipicamente, 15 feriados). Significa isto que o trabalhador não tem direito de escolha sobre a calendarização de mais de metade dos dias de descanso que lhe são alocados. Esta realidade tem diversas desvantagens. Por um lado, a concessão de descanso a todos os trabalhadores ao mesmo tempo impede a diminuição de custos possível através da coordenação das férias dos empregados de uma empresa. Por outro lado, feriados perto do fim-de-semana incentivam a realização de pontes, dentro ou, por vezes, fora dos dias legais de férias. Finalmente, e não menos importante, creio que os próprios trabalhadores prefeririam, em muitos casos, outros dias de “férias”, que não aqueles designados pelo Governo como feriados. Na grande maioria das vezes os feriados são meros dias de férias, muitas vezes ocorrendo a meio da semana, dando pouco usufruto ao trabalhador e quebrando rotinas de trabalho. Na verdade, considero, admitindo que isto possa ser polémico, que não é necessariamente preciso determinado dia ser feriado para que se assinale uma data importante (muitas há que não têm direito a feriado, embora, vendo bem, também não beneficiem da comemoração correspondente). Assim sendo, proporia uma diminuição radical do número de feriados, substituindo a maioria por férias, passando o critério de designação de feriado a ser – salvo numa ou noutra excepção (25 de Abril, por exemplo) – a vontade do trabalhador de o gozar, por oposição à visão paternalista do Estado. Feriados como o Natal ou o dia de ano novo provavelmente manter-se-iam.

Em relação à proposta do Governo, para a eliminação de quatro feriados, acho que faz algum sentido. Mas apenas isso: algum. Isto porque em Portugal no papel até se trabalha muito, em muitos sítios bastante mais do que na maioria dos países europeus. O nosso problema diz sim respeito à produtividade. Aumentar a produção por outros meios pode resultar mas acarreta consequências sobre a qualidade de vida (já das mais baixas da UE) que não são despiciendas. 

Reflexão do dia


José Maria Gui Pimentel,

Throughout much of the twentieth century, the “German Problem” — the fact that Germany was too strong, too powerful, and too economically dynamic for the rest of Europe — bedeviled European elites. “Keeping Germany down” through NATO and European integration was seen as the solution. The problem today is not German strength but German weakness — a reluctance to take up its hegemonic role. It is not too late for Germany to change course. Even though they have profited handsomely so far from the current arrangement, they must realize by now that its model was always based on shaky foundations, cannot be generalized to all states, and has reached the limits of its sustainability. If the euro ends up collapsing — and the European Union with it – Germany will clearly be much worse of. Many of its markets will disappear while the new deutschmark soars to unknown heights. In such a world, the ‘old’ German problem would be back at the heart of the ‘new’ Europe.

 

Why Only Germany Can Fix the Euro, Matthias Matthijs and Mark Blyth, Foreign Affairs

Reflexão do dia


José Maria Gui Pimentel,

The markets are not the enemy of European politicians. They are their friends. In fact, they are all that stands between political leaders and angry citizens. If the markets will not lend money to governments, politicians can only get it from one other place – the voters. 

(…) It is a huge misconception to believe that people in the financial markets are willing on the break-up of the euro. On the contrary, it is financiers who are often the most keenly aware that euro break-up would be enormously disruptive – and could well lead to the failure of many banks and financial institutions. That would mean lost jobs in the City and on Wall Street – as well as in the wider society as a whole.

(…) There are many misunderstandings embedded in the common belief that the markets are somehow out to destroy the euro. The first is that financial markets are a single-minded entity, rather than a balance of opinion between buyers and sellers. 

“The markets are not the monster“, Gideon Rachman, Financial Times

Reflexão do dia


José Maria Gui Pimentel,

“German history has shown how disastrous monetary financing of public debts can be, but that lesson is more subtle than just saying “no”. Hyperinflation was the consequence of continuing monetary financing of the budget deficit, with no end in sight. Today we are talking about dealing with the existing stock of debts that cannot be refinanced on the market anymore. We need a one-off guarantee by the ECB that sets a floor on these bond prices, and of course defaults to eventually regain market access. A guarantee does not mean actual purchases; most likely very little will be needed, and that can be sterilised. The German precedent simply does not apply to the current situation.”

An Open Letter to Dr Jens Weidmann, Charles Wyplosz, VOX

Seria possível em Portugal?


José Maria Gui Pimentel,

Quase 7 anos e 2 derrotas em eleições legislativas foi quanto aguentou Mariano Rajoy ao leme do PP. Em Portugal, o país onde a regra, e não a excepção, é os governos não terminarem a legislatura, e onde o PSD, desde as eleições de 2005, conheceu 5 (cinco!) líderes diferentes, seria tal situação possível? Receio bem que não. Não quero com isto defender a estabilidade de liderança como panaceia. Mas que ajuda muito…!

Impressões da China (II)


José Maria Gui Pimentel,

Seguem-se, com algum atraso, mais impressões deste país em rápida – talvez demasiado rápida – evolução.

 

É muito interessante observar o efeito do rápido desenvolvimento da última década sobre a disparidade de rendimentos, com a frota automóvel maioritariamente nova por oposição às sempre presentes ebikes, substancialmente mais acessíveis, porém, na sua maioria, aparentando levar já largos anos de labuta. Muitas vezes, ademais, carregando mais passageiros do que o permitido e nas posições mais estrambólicas, como ilustram as imagens abaixo e o post recente do João Carvalho.

 

 

Mais do que novos, os carros são muitas vezes espampanantes, com um claro objectivo exibicionista, sendo porventura o expoente máximo da procura crescente de bens de marca como sinal exterior de riqueza e, por conseguinte, evidência de estatuto. Observe-se, a esse propósito, a fotografia abaixo. Se o leitor tivesse um orçamento ilimitado para comprar o carro mais espampanante do mercado, em que modelo e cor recairia a sua opção? Um Lamborghini verde-alface, pois claro. E se, com esse mesmo objectivo em mente, o leitor tivesse de entrar num hotel, onde deixaria o bólide? À frente do dito, claro está, para toda a gente reparar.

 

 

Esta ostentação estende-se à roupa, óculos (mesmo sem lentes!), relógios etc. No fundo, todo o tipo de acessórios visíveis, capazes de evidenciar uma posição social real ou desejada. Isso explica que muitos desses bens – particularmente a roupa – sejam mais caros do que nos países ocidentais. A electrónica, de boa ou má qualidade, é um omnipresente, com qualquer estudante a almejar a aquisição de um iPhone. Os asiáticos parecem, definitivamente, ter um fraco por tecnologia.

 

Outro exemplo da exibição do luxo observa-se no sector imobiliário, onde os receios da formação de uma bolha especulativa já duram há cerca de 2 anos. Depois de anos confinado ao campo ou, em alternativa, a apartamentos de dimensões reduzidas, o chinês subitamente endinheirado quer, o que é em certa medida compreensível, alcançar o paradigma americano ao jeito da MTV ou do E!.   

 

O mais recente boom no mercado chinês diz respeito à procura por um bem, aliás, serviço, aparentemente efémero, mas com um efeito no status social muito persistente: o casamento, claro está. As lojas de organização deste tipo de eventos brotam de todos os cantos, sendo invariavelmente as mais bem apresentadas das redondezas. Nestas, mais do que o serviço, vende-se o Sonho: desde a marcha nupcial à entrada dos noivos, ao bolo enorme, não descurando, evidentemente, exuberantes vestimentas, o fato para o noivo e o vestido para a noiva. Muitas vezes, segundo consta, a noiva usa vários vestidos ao longo da cerimónia, qual apresentadora dos Oscars.

 

 

Por contraste, a alimentação, acaso por ser menos visível do que acessórios e carros – continua aser bastante acessível, mesmo nos restaurantes melhores. Isto embora o conceito chinês de restaurante ainda divirja, na minha opinião, bastante do nosso, não deixando nunca (a não ser, imagino, nos espaços topo de gama) de ter um certo ambiente de cantina. Por outras palavras, continua a não existir, quanto a mim, o conceito de jantar como mais do que uma simples refeição. O conceito de entrada, por exemplo, foi claramente introduzido à força nas ementas, pois não existe na cultura local. A existir estou convicto que representa a ideia oposta, isto porque muitas vezes as entradas aparecem no fim da lista, por um lado, e, por outro, são invariavelmente o último prato a chegar à mesa (o que é particularmente arreliante). Um pormenor interessante é o facto de cadeias como o McDonalds, ou o KFC (este, aparentemente, com mais sucesso do que aquele) serem aqui consideradas de média gama (com refeições por cerca de 2€, por oposição a 1€ nos locais mais baratos), com a Pizza Hut a praticar preços idênticos aos dos restaurantes de gama média-alta.

 

Toda a ostentação relatada acima contrasta, ainda, com aspectos menos agradáveis. Ao pôr o pé numa movimentada rua de uma cidade chinesa, os nossos sentidos podem passar por maus momentos. O nosso nariz sofrerá inevitavelmente o impacto da forte poluição. Ao afastarmo-nos do trânsito, teremos uma forte probabilidade de encontrar uma das omnipresentes tendas de comida, e uma real possibilidade de receber o choque do indescritível cheiro a tofu cru. Os nossos ouvidos, por seu lado, entrarão, numa primeira fase, em contacto com o coro das buzinas dos veículos, correndo posteriormente o grande risco de detectar o inconfundível som do escarro de um (ou de uma!) qualquer transeunte. Isso mesmo, um escarro, por vezes na pessoa mais insuspeita, e de uma profusão que chega a ser intrigante. Além do mais, parece existir na China uma ideia lógica apenas na aparência, que pode ser resumida na seguinte máxima: o que é para ser sujo não tem por que parecer limpo. É por isso que os caixotes do lixo (não me refiro apenas aos contentores de rua, mas também aos cestos dos restaurantes ou lojas) são muitas vezes tão sujos por fora como por dentro. É também por isso que é preciso ir a um restaurante de gama média alta para se encontrar uma casa de banho com mínimas condições. Aliás, e para terminar este tema pouco agradável, a China deve ser o único país do mundo onde as casas de banho das mulheres cheiram pior do que as dos homens, uma vez as senhoras têm apenas direito a uma espécie de buraco no chão, que (acabo de descobrir pela Wikipedia) dá pelo nome de retrete turca.

 

Ao fim de algum tempo de frequência de lojas ou restaurantes na China há dois aspectos que se vão progressivamente tornando evidentes, um positivo outro negativo. O primeiro é a abundância de trabalhadores. Dificilmente se vive num supermercado chinês aquela sensação irritante de ter o tempo contado e não se ver um único funcionário no horizonte. Esta realidade tenderá, naturalmente, a inverter-se assim que os custos do trabalho aumentem. O aspecto negativo prende-se com a falta de cuidado com os pormenores. Mesmo nos espaços supostamente mais cuidados, como restaurantes, casas de chá ou lojas de casamentos (à falta de melhor expressão), a mesa mais composta tem a poucos metros uma parede semi rebocada ou um cesto do lixo com mau aspecto.

Co-autoria: Diana Gui

Estou a ler “China: its History and Culture” (3)


José Maria Gui Pimentel,

 

Qualquer jogador de futebol sabe que não se deve desaproveitar uma bola passada sem querer, e por isso aproveito o esférico que o jaa me enviou, tabelando no José Gomes André.

 

Foi há pouco – muito pouco – tempo que assimilei por completo um facto de que me vinha apercebendo lentamente nos últimos anos, designadamente a dimensão da Civilização Chinesa, e o facto de esta ter sido, até aos Descobrimentos, não só garantidamente rival como, muito possivelmente, mesmo superior àquilo a que simplisticamente chamarei Civilização Ocidental. Por um lado – decerto – por culpa própria, por outro também devido a um sistema de ensino enviesado, o meu olhar perante a História foi sempre eurocêntrico (bem sei que este termo já é usado para outro fim). O Livro “China: its History and Culture”, de W. Scott Morton e Charlton M. Lewis (este último creditado apenas na 4ª edição, visto que escreveu essencialmente a parte de História contemporânea) é uma concisa e eficaz introdução à enorme História da China. Uma História que, embora não deixe de ser fragmentada, é bastante mais unida do que a nossa, em virtude de factores muito específicos: China throughout its history has been comparatively isolated owing to geographical barriers. The vast Pacific Ocean on the east, the impassable gorges of the Burma border and the inhospitable plateau of Tibet to the south and west, and the arid and sparsely populated lands of Central Asia and Mongolia to the northwest and north have caused China to have less than average contact with other major civilizations and to develop its own way of life in relative isolation (pp.5).


O livro tenta, até ver com algum sucesso, contar de um modo simultaneamente apelativo e organizado as várias componentes da História – política, religiosa, económica, social, cultural, artística, etc – realçando o facto de os períodos bons num determinado aspecto não o serem necessariamente noutras vertentes. As diferenças nos campos da Religião e da Arte são as mais evidentes, até porque, designadamente no primeiro caso, continuam a manifestar-se hoje em dia, quando a China é considerada por alguns inquéritos o país mais ateu do mundo, uma categorização que, aplicada àquela cultura, é claramente desadequada. In China there was no creation myth, no source of divine law outside nature. Nature thus partook of the divine, and moral law was securely fixed in human authority, as represented by the sage kings, the Zhou founders, and Confucius. Religion for the Chinese has a practical rather than a highly mystical concern; likewise, Chinese philosophy has to do primarily with ethics and conduct in actual life, and not to any great degree with abstract questions such as are dealt with in Western metaphysics. There are notable exceptions: Buddhism, coming from India, is both mystical and intellectually complex, while Daoism does deal with Being and Nonbeing. But the practical, this-worldly tendency is inherent in Chinese religion and philosophy and finds its fullest expression in the dominant school of Confucius (pp.32). Mais à frente, Morton destaca outro factor importante: the Chinese have never felt that to hold one belief it is necessary to exclude others (pp.65)


No campo da Arte, embora a pintura tenha, tal como no Ocidente, lugar de destaque, é na paisagem e não no retrato que esta atinge o seu expoente máximo, uma realidade a que não é estranha a referida ligação do Divino à natureza. Deste modo, while the eye of the Western artist takes in the scene from the level of the average man five or six feet above the ground, the Chinese artist works from a raised viewpoint, on a hillside opposite the scene, as it were, so that he is delivered from too much teasing detail in the foreground and can obtain an overview of the whole.


Ao nível da História política, mais do que as diferenças, são as semelhanças que impressionam face à Civilização ocidental, uma vez que até aos Descobrimentos (e, mesmo depois destes, até ao século XIX) não houve praticamente contacto entre os dois mundos. É especialmente curioso e, em certo sentido, desconcertante, o modo como duas grandes civilizações como a chinesa e a romana coexistiram sem praticamente qualquer contacto, porém, em ambos os casos, atingindo um desenvolvimento civilizacional espantoso. It is evident that the Chinese knew more about Rome than the Romans knew about China. The dynastic histories of the Later Han and subsequent shorter dynasties contain these statements in their summary accounts: The people of Ta Ts’in (Rome) have historians and interpreters for foreign languages as the Han have. The walls of their cities are built of stone. They cut their hair short, wear embroidered garments, and ride in very small chariots. Their rulers only govern for a short time and are chosen from among the most worthy men. When things go badly they are changed. [An anachronism at this point, referring to the consuls under the Republic—C.P.F.] The people of Ta Ts’in are big men. . . . They dress differently from the Chinese. Their country produces gold and silver, all kinds of precious goods, amber, glass and giant eggs (ostrich eggs). From China by way of An Hsi (Parthia) they obtain silk which they re-spin into fine gauze. (…) The Ta Ts’in are honest. Prices are fixed and grain is always cheap. The granaries and public treasury are always full. (…) The Ta Ts’in first sent envoys to us (in 166 a.d.).

 

Termino com uma pequena história, que nunca destacaria não fosse a sua inegável graça: A famous scholar at court, Dong Fangsuo, was more fortunate. He was discovered to have drunk a potion of an elixir of immortality prepared for the emperor. Wu Di (importante Imperador da dinastia Han: 156 AC-87 AC) was furious and ordered him to be killed, to which Dong Fangsuo, with admirable presence of mind, saved himself by replying, “If the elixir was genuine, your Majesty can do me no harm; if it was not, what harm have I done?


Morton, W. Scott and Lewis, Charlton M. – China: Its History and Culture, 4th ed (2004)

McGraw-Hill

 

E agora chuto a bola ao João Campos.

Blogue da semana


José Maria Gui Pimentel,

Falemos de comida, para variar.

 

Tento evitar ir às compras (de víveres) em horas de apetite, pois sei que a parte do cérebro responsável pela minha carteira e aquela responsável pelo estômago se vão digladiar, numa luta torturante. No blogue As Minhas Receitas aconselho, a quem padeça da mesma enfermidade, uma regra semelhante. Se a pessoa em causa estiver, como nós, fora de Portugal, e dos encantos (por vezes exagerados, mas não por isso falsos) da nossa cozinha, a regra deverá ser seguida com especial precaução. Voltando ao blogue em si, com uma receita por dia, há pano para mangas.

 

Agradecimento: Diana Gui

Uma crise diferente


José Maria Gui Pimentel,

Vem este texto a propósito de mais um interessante vídeo do TED Talks, desta vez com a intervenção de Richard G. Wilkinson, cientista-social britânico autor do livro “The Spirit Level: Why More Equal Societies Almost Always Do Better”. Wilkinson traça uma interessantíssima – e dificilmente negável – causalidade entre a desigualdade de rendimentos nas economias avançadas e os mais diversos problemas sociais, desde a saúde, à violência, passando até pela confiança que temos uns nos outros. Posto isto, há um factor adicional torna este vídeo particularmente importante para nós, portugueses, principalmente numa altura em que o país pretende sair por cima da crise. Wilkinson nem sempre – felizmente – o realça, mas em quase todos os gráficos que vão sendo apresentados, ilustrando a relação da desigualdade de rendimentos com várias medidas de desenvolvimento humano, Portugal aparece invariavelmente na cauda das economias avançadas. Bem na cauda. Somos, por exemplo, penúltimos (apenas atrás dos EUA) num índice de problemas sociais e de saúde, e somos também aqueles que menos confiam uns nos outros. Não constamos num gráfico sobre mobilidade social, mas não acho difícil adivinhar o resultado, num país onde o principal meio de mobilidade social é a política.

 

São, em suma, dados que deveriam estar mais presentes no debate do estado do país, pois não são nada animadores. Tratam-se, note-se, de valores relativos, pelo que a nossa condição de economia pequena em nada influi. Importa, pois, alterar o senso comum. Não somos “os pobres dos ricos”, fado facilmente associável à nossa reduzida dimensão – demográfica e populacional -, mas sim os desiguais dos ricos. E isso é um problema que urge corrigir.

 

Enfiar a carapuça


José Maria Gui Pimentel,

Maria Flor Pedroso: “Foi preciso passar para a oposição para o ver da quinta fila da bancada do Partido Socialista a aplaudir Francisco Louçã?”

Pedro Silva Pereira: “…não…vamos lá ver…bom…sim, numa situação pontual”

(…)

MFP: “Mas há uns meses seria inimaginável ver PSP a aplaudir Francisco Louçã.”

PSP: “Não, desculpe, eu aplaudi nesse debate, como faço sempre, o Secretário-Geral do Partido Socialista…”

MFP: “Claro que sim, não estou a dizer que não aplaudiu…”

 

in Maria Flor Pedroso, edição de 7 de Outubro, Antena 1

Antes que o tema submirja de vez, na sua relativa insignificância


José Maria Gui Pimentel,

Agora que terminou oficialmente o centenário da República, valerá porventura a pena analisar a questão em torno do regime uma derradeira vez. Confrontado com a inevitável desconfiança em relação aos benefícios da nossa República, por parte dos poucos portugueses que se deram ao trabalho de reflectir sobre o assunto, e nomeadamente depois de o país ter chegado a este impasse, um republicano honesto terá forçosamente, creio, para consigo próprio, que se refugiar numa de três posturas: a) afirmar que, ainda assim, o país está muito melhor do que estaria com outro regime, o que, sejamos francos, colhe pouco (até pode ser verdade, mas, na actual conjuntura, e tendo como comparação a restante Europa ocidental, a pessoa em questão não deixará de ter muitas dúvidas); b) afirmar que, na verdade, o resultado é o mesmo face a outro regime, o que, sejamos sinceros, não abona muito em favor do republicanismo, e, ainda menos, da premência da sua comemoração. c) afirmar que, para sermos verdadeiros, a República não chegou nunca a ser aplicada de facto em Portugal, sempre subjugada aos interesses do capital, etc etc. Esta última versão sendo, claramente, o porto seguro.

 

Há, nesta discussão, um ponto que me parece evidente: a questão do regime tem um impacto limitado no desempenho de um país, imensamente inferior a um valor bem superior: a democracia. Com efeito, olhando para os vários governos democráticos existentes no mundo, dificilmente se poderá relacionar consistentemente o sistema de governo em vigor com qualquer variável de referência, como o PIB ou o IDH. Antes, poder-se-á dizer, diferentes realidades nacionais beneficiam mais de diferentes regimes em detrimento de outros. Deste modo, justifica-se a dispensa de algumas linhas com o tema (talvez não o dinheiro que foi gasto em ano de crise, mas isso são contas de outro rosário). Avancemos, portanto.

Basta uma análise supérflua à nossa República para perceber que o seu desempenho nunca foi o melhor, e que a sua apologia será sempre, na melhor das hipóteses, frágil. Depois de uma Primeira República para esquecer, veio uma Segunda República em que o Chefe de Estado era apenas figura de corpo presente, seguindo-se o modelo actual, paradoxalmente o mais bem sucedido, mas em que, ainda assim, o custo de oportunidade de ter um semi-semi-Presidente aprisionado nos seus parcos poderes continua a parecer muito elevado por comparação com um regime mais equilibrado ou, pragmaticamente, mais simples. O nosso modelo é, na verdade, uma invenção peregrina, e que quase contrapõe o que afirmei acima: dificilmente traria valor acrescentado em alguma parte do mundo. Não é carne nem é peixe, ou seja, não é bem parlamentarista, mas também está longe de ser semi-presidencialista. Com efeito, dentro das alternativas possíveis, o exemplo nacional nada traz de novo, sendo, em meu entender, apenas superado (pela negativa) pela figura do Presidente no modelo republicano parlamentarista puro, do tipo italiano ou alemão (dois casos, particularmente este último, demonstrativos da democracia como factor primário).

 

Sobram assim, genericamente, três hipóteses. Um modelo semi-presidencialista ofereceria a vantagem de haver verdadeiramente um poder repartido, embora pudesse também manter parte da ambiguidade do actual sistema. Já um modelo presidencialista poderia ter a vantagem de repartir o poder com Parlamento, podendo, por conseguinte, trazer o poder para mais perto dos eleitores. Todavia, num país pequeno e, para todos os efeitos, coeso como Portugal, as vantagens advindas desse factor poderiam não ser elevadas.

 

Por fim, sobra a hipótese de optar por uma monarquia democrática (sob várias formas). Nas discussões habituais sobre a nossa República a alternativa sugerida é invariavelmente a Monarquia e não foi, assim, por acaso que deixei esta hipótese para o final. Considero a Monarquia, de todos os tipos de regime democráticos, aquele mais arriscado, mas porventura ao mesmo tempo (e, de certa maneira, consequentemente), poderá ser também, se bem sucedido, o mais frutuoso. A discussão República-Monarquia (na qual, invariavelmente, não são abordados outros modelos de República, como se o nosso fosse o único ou, pior, o melhor) tende a ser demasiadamente extensa e a perder-se por becos sem saída. Na minha opinião, o principal (e revelador) erro de estratégia dos monárquicos portugueses assenta numa visão errada (exagerada) das vantagens do regime, e num não reconhecimento das suas óbvias limitações. Por exemplo, ao invés de tentar provar como seria fácil substituir um monarca incapaz ou de salientar a preparação que desde a nascença será dada ao futuro monarca para exercer as funções a que está fadado, creio que a posição pró-monárquica deveria começar por admitir um facto simples e inegável: o monarca, numa Democracia, não tem praticamente poder real/directo. Ponto. E ainda bem que assim é. Claro que para dizer semelhante coisa de ânimo leve será necessário reconhecer a evidência que o efeito directo da escolha do regime sobre o desempenho de um país democrático é diminuto. Mais importante é o efeito indirecto de um Rei, que constitui o principal risco ascendente. E esse efeito, nos países onde as monarquias são bem sucedidas, é inegável, designadamente o propalado simbolismo patriótico do monarca, factor que, num país como o nosso, com mais de novecentos anos de História, não é despiciendo. Posto isto, o sistema monárquico não deixa de apresentar importantes e inegáveis riscos descendentes, inerentes à dependência de única família para aquele desígnio. Isto, claro está, não falando do sacrifício dessa mesma família a uma tarefa que não pôde escolher.

 

Concluindo, não é fácil descortinar o melhor sistema de governo para Portugal. Mais fácil, quanto a mim, é rejeitar a validade do modelo actual, o que, só por si, já deveria ser o ponto de partida para uma discussão alargada. A questão do regime pode ter pouco impacto no destino do país, mas não deixaria de ter bem mais impacto do que outras questões às quais dedicamos uma maior parte do nosso tempo.

 

Nota: E foi assim, com uns a rezarem para que o tema não fosse discutido em profundidade e outros mais preocupados com matérias mais prementes, que a República centenária passou incólume ao julgamento que a História sobre ela exigia.

Um programa pouco Contraditório


José Maria Gui Pimentel,

Já sigo há uns anos (ou seguia, até há uns meses) o programa Contraditório da Antena 1, starring Ana Sá Lopes, Carlos Magno e Luís Delgado. Achava-o inicialmente razoavelmente arejado, que nos brindava com opiniões válidas e, sobretudo, diferentes, fazendo jus ao seu nome. Porém, com o tempo, os intervenientes – porventura fruto da endogamia intelectual criada pelo programa – foram convergindo nas suas opiniões e (consequentemente) perdendo qualquer sentido crítico em relação às suas posições. O resultado disto é quase uma hora semanal de conversa entediante (ou, opostamente, profundamente irritante), em que as intervenções de cada um começam quase invariavelmente com uma qualquer vulgaridade, evoluindo, na ausência de contraditório e na resultante crescente autoconfiança do opinador, para as maiores baboseiras.

 

Para concluir, pergunto-me se este tipo de programa não deveria ver o seu plantel renovado mais frequentemente, sob pena de confluir para este dificilmente evitável fim. Na verdade, tudo aponta para que tal venha a acontecer num futuro breve, por força de outras circunstâncias. 

Dúvidas existenciais


José Maria Gui Pimentel,

Nos cerca de quatro meses que dura esta legislatura, o Governo mostrou apenas uma qualidade: coragem. Um Governo com coragem é, admitamos, importante – caso raro na nossa democracia – todavia é também escasso para o período em questão. Para se operar uma reestruturação da economia, Portugal necessita de tomar medidas estruturais, de fundo. Essas sim porão à prova o engenho e arte do executivo. As medidas tomadas, começando no aumento dos impostos e terminando nos vastos cortes na despesa, são relativamente evidentes, qualquer tecnocrata as tomaria. A grande dúvida assenta, assim, na capacidade do governo para tomar medidas estruturais, o corte cirúrgico na despesa do Estado, eliminando despesa inútil ou mesmo contraproducente, sem desbaratar aquela que é produtiva. Aqui se jogará o destino do país. Sobra, todavia, uma questão inquietante: em tão pouco tempo, é sequer possível?

Do sempre iminente fim do malogrado comércio tradicional


José Maria Gui Pimentel,

Foi ontem transmitida, no Jornal da Noite da SIC, uma reportagem sobre os antigos comerciantes de Lisboa, na qual foi amplamente vendida a tese, que já não é nova, de que as grandes superfícies comerciais (esses demos!) têm vindo estragar o negócio aos pequenos comerciantes. Implícita nesta tese está a ideia de que a culpa, por assim dizer, é também dos consumidores (esses vendidos!) que desprezaram o comércio tradicional e acorreram aos centros comerciais, apenas por razões de conveniência, esquecendo as fidelidades antigas. Este tipo de postura sempre me irritou profundamente. E se é relativamente compreensível nos comerciantes mais velhos, já não o é nas gerações mais novas, que deveriam ter uma mente mais aberta, mas que também patrocinam essa ideia.

A respeito desta questão, importa ter em mente, fundamentalmente, dois aspectos. Por um lado, a ideia de concentrar os diferentes comércios num espaço comum, não tendo existido sempre, já não é propriamente nova. Aliás, estes agora denominados antigos comerciantes (ou algo do género) já representam essa escola. Toda a zona comercial compreendida entre a Baixa e o Bairro Alto é (ou era) exemplo disso. Por outro lado, bastaria a estes comerciantes tradicionais da baixa (e de outros bairros circundantes) subir a Rua do Carmo em direcção ao Chiado para ver lojas permanentemente cheias, beneficiando das inúmeras pessoas que ali trabalham ou passam durante a semana. De resto, até bastaria andarem alguns metros para verem aquelas lojas na baixa que – tendo-se adaptado à mudança dos hábitos – têm hoje uma clientela regular. Com efeito, se os centros comerciais têm algumas vantagens evidentes, as zonas comerciais tradicionais têm também os seus atractivos, que, se bem capitalizados, podem render até mais, como creio que o futuro próximo vai demonstrar.

Para isso é preciso que as pessoas procurem os clientes, em vez de se refugiarem numa postura reactiva, e que tenham a humildade de perceber que, se calhar, o serviço que oferecem não é superior, mas sim inferior, ao da concorrência.

Larguem o osso!


José Maria Gui Pimentel,

A oposição, da esquerda à direita, ciosa de uma oportunidade palpável para atacar AJJ, agarrou-se com unhas e dentes à questão do buraco financeiro. Mas fê-lo de uma maneira que – particularmente nos partidos de esquerda – não creio ser a melhor, pois dá a entender que, nos mais de 30 anos de governação, a má conduta de AJJ se resume ao sobre-endividamento do arquipélago. Com este método, não demorará muito (se é que já não acontece) até o povo adaptar o célebre adágio “aldraba mas faz”, para “endivida mas faz”. Sobretudo se, como parece ser o caso, os encargos vierem a ser partilhados com os portugueses do continente (e dos Açores, já agora).