Do sempre iminente fim do malogrado comércio tradicional


José Maria Gui Pimentel,

Foi ontem transmitida, no Jornal da Noite da SIC, uma reportagem sobre os antigos comerciantes de Lisboa, na qual foi amplamente vendida a tese, que já não é nova, de que as grandes superfícies comerciais (esses demos!) têm vindo estragar o negócio aos pequenos comerciantes. Implícita nesta tese está a ideia de que a culpa, por assim dizer, é também dos consumidores (esses vendidos!) que desprezaram o comércio tradicional e acorreram aos centros comerciais, apenas por razões de conveniência, esquecendo as fidelidades antigas. Este tipo de postura sempre me irritou profundamente. E se é relativamente compreensível nos comerciantes mais velhos, já não o é nas gerações mais novas, que deveriam ter uma mente mais aberta, mas que também patrocinam essa ideia.

A respeito desta questão, importa ter em mente, fundamentalmente, dois aspectos. Por um lado, a ideia de concentrar os diferentes comércios num espaço comum, não tendo existido sempre, já não é propriamente nova. Aliás, estes agora denominados antigos comerciantes (ou algo do género) já representam essa escola. Toda a zona comercial compreendida entre a Baixa e o Bairro Alto é (ou era) exemplo disso. Por outro lado, bastaria a estes comerciantes tradicionais da baixa (e de outros bairros circundantes) subir a Rua do Carmo em direcção ao Chiado para ver lojas permanentemente cheias, beneficiando das inúmeras pessoas que ali trabalham ou passam durante a semana. De resto, até bastaria andarem alguns metros para verem aquelas lojas na baixa que – tendo-se adaptado à mudança dos hábitos – têm hoje uma clientela regular. Com efeito, se os centros comerciais têm algumas vantagens evidentes, as zonas comerciais tradicionais têm também os seus atractivos, que, se bem capitalizados, podem render até mais, como creio que o futuro próximo vai demonstrar.

Para isso é preciso que as pessoas procurem os clientes, em vez de se refugiarem numa postura reactiva, e que tenham a humildade de perceber que, se calhar, o serviço que oferecem não é superior, mas sim inferior, ao da concorrência.

7 comentários em “Do sempre iminente fim do malogrado comércio tradicional”

  1. É engraçado como esta conversa é muito mais usual no nosso país.
    Trabalhei alguns anos em Badajoz, cidade com alguns bons centros comerciais (o El Corte Ingles dá uma banhada ao de Lisboa) e o comércio tradicional não se queixa de semelhantes ameaças. Basta visitar, ou tentar, a famosa Calle Menacho num qualquer fim de semana para perceber que é ali, bem no centro da cidade, que está o grande centro comercial. Talvez porque os interessados inovam e modernizam-se tentando nunca perder competitividade. Veja-se que até têm site (http://www.menacho.org/) e página no facebook (http://www.facebook.com/pages/Calle-Menacho/116684435090124). Já no outro lado da fronteira só se podem queixar de si próprios, mas isso são contas de outro rosário e dão pano para mangas.

    1. pois claro ! quer então o Sr. a Lojinha aberta ás horas que passa por lá , muito bem . e já pensou que a pessoa que está atrás do balcão tb tem família ? que tb tem direito a fazer, já não digo 8 horas diárias de trabalho, mas, umas 9 e a seguir ir para casa ? pode dizer-me que tem que arranjar outro empregado para poder estar mais horas aberto … pois … só falta o melhor ! o pilim para lhe pagar ao fim do mês !!! e com os hábitos dos portugueses, que preferem ir pavonear-se aos fins de semana para um qualquer centro comercial do que ir a uma praça e estar um pouco com os amigos ( como os nossos vizinhos tanto gostam de fazer ) está de ver que não será fácil o Sr. . ter a sua Lojinha aberta…

  2. Comércio tradicional são aquelas lojas onde um gajo entra e, se não nos conhecem, olham com um ar avaliador e hostil, a partir dos sapatos?

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