Quase-famosos por um dia (o último)


José Maria Gui Pimentel,

Todos conhecemos quem conheça um amigo que tem um primo que esteve pouco antes, ou esteve para estar no próprio dia mas não esteve, nas Torres Gémeas, em Nova Iorque. Pois bem, eu próprio posso afirmar com bravata que estive, com a minha Namorada, em Shanghai, na linha 10 do metro, dois míseros dias antes do acidente que hoje ocorreu. Mais a sério, este acidente, somando-se ao que ocorreu recentemente num dos comboios de alta-velocidade do país, faz temer pela eficácia da técnica avançada dos caminhos-de-ferro chineses. Por outro lado, embora sem a mínima validade teórica, vai valendo aquela célebre teoria de que “não podem” ocorrer dois acidentes semelhantes seguidos…

A falsa ingenuidade…


José Maria Gui Pimentel,

Ontem, no Jornal da Noite da SIC, discutia-se a proibição das corridas de toiros na Catalunha. Miguel Sousa Tavares (MST), na sua tribuna semanal, discordava, no seu direito. Depois de uns tantos argumentos laterais, gerou-se o seguinte diálogo.

 

Clara de Sousa: “A morte do animal na arena é o que choca basicamente as pessoas que fazem a defesa dos direitos dos animais.”

MST: “E os combates de boxe, quando saem de lá todos a sangrar, não chocam muita gente? E então, vamos proibi-los? E as corridas de automóveis, onde morre muita gente e até espectadores, vamos proibi-las?”

 

As corridas de toiros são uma instituição defensável, com argumentos lógicos. Porém, fingir que não se percebe a questão, valendo-se de comparações despropositadas, não tem outro nome senão desonestidade intelectual. É profundamente irritante o modo como alguns dos poucos comentadores que têm o privilégio de apenas ter como adversário um jornalista mais concentrado na condução da emissão do que no debate do tema em questão desbaratam esse capital utilizando constantemente argumentos falaciosos.

É impressão minha…


José Maria Gui Pimentel,

… ou o Futre (“vão vir charters”) e o Hélio (“sai da frente Guedes”) foram, em Portugal, os dois primeiros exemplos (sim, porque haverá outros de certeza) de alguém que faz uma imbecilidade inadvertida e acaba por ganhar dinheiro com isso? De imbecilidades propositadas já havia casos, mas disto, que me lembre, não. Já merecia um capitulo nos livros de auto-ajuda sobre “como enriquecer”.

As aparências iludem


José Maria Gui Pimentel,

A SIC fez uma emissão especial do programa “Alta Definição” sobre o 11 de Setembro. Para tal convidou Luís Costa Ribas (LCR), uma escolha sensata, visto que o jornalista cobriu o evento de perto. Embora tenha logo achado estranho o Alta Definição fazer uma reportagem daquele tipo, a verdade é que, durante 20 dos 35 minutos que durou a emissão, o entrevistador e LCR vão fazendo uma análise muito interessante àquele dia fatídico. Porém, a partir dos 20 minutos de emissão, e sem qualquer pré-aviso, o programa transfigura-se, passando ao habitual registo, com uma entrevista sentimental a LCR, na qual este fala da sua vida preenchida, da família, etc. A conversa até foi, diga-se, interessante, mas talvez fosse de inserir noutro contexto, não?

Impressões da China


José Maria Gui Pimentel,

Antes de mais, um alerta, sendo a China um país gigante, ademais congregando culturas muito diversas, importa salientar que este comentário se baseia apenas naquilo que foi observado na zona oriental do país, abaixo de Shanghai. Se tratar minhotos e alentejanos como iguais seria um erro grosseiro, um juízo equivalente feito em relação a um país imensamente maior tem tudo para ser ainda mais arriscado. Ainda assim, e na impossibilidade de conhecer todas as realidades, resta-nos inevitavelmente, e mesmo conscientes do erro provável, tomar o todo pela parte.

 

Porventura a realidade mais interessante na China actual é a emergência de uma nova classe média, e sobretudo o ritmo a que ela se vai estabelecendo, não apenas nas grandes cidades mas também nas cidades de segunda linha. Este fenómeno acarreta efeitos curiosos, como a construção de um fosso evidente entre os pais, ainda presos à China tradicional, e os filhos, nos quais se observa claramente já o culto da individualidade, característica distintiva das sociedades capitalistas. A esta diferenciação individual junta-se um evidente fascínio pela cultura ocidental, muito particularmente pela cultura americana.

 

Observando os outfits dos jovens, é visível a importância dada às t-shirts, às calças e, principalmente, ao calçado. Um pormenor interessante, reflexo do dito deslumbramento pela cultura americana, é o facto de não se ver uma única t-shirt com caracteres chineses, com os jovens a procurarem-nas de marcas americanas (ou pelo menos com o logótipo destas inscrito na frente) e com longas frases em inglês. Muitas vezes, é inevitável questionarmo-nos, porventura de significado desconhecido para quem as ostenta.

 

No sexo feminino, em particular, é evidente a preocupação com o calçado. É engraçado vê-las, alguma ainda com pouca prática, alçadas em saltos compridos, mesmo quando têm de percorrer distâncias longas. As que mais capricham são as que, tendo de vestir fardas, não possuem direito de escolha sobre a roupa acima dos tornozelos. As marcas ocidentais, em particular, claro está, as americanas, aperceberam-se há muito da emergência de um mar de potenciais consumidores, e vão inundando o mercado com produtos, uns absolutamente iguais àqueles que já comercializavam no ocidente, outros já adaptados à cultura local. Aliás, e isto não esperávamos, praticam, particularmente na roupa, preços pouco diferentes (em algum caso juraríamos mesmo serem superiores) aos que cobram no ocidente, o que leva a crer que a classe média (neste caso média alta) já joga plenamente neste campeonato. Para aqueles que ainda não o fazem, existem, naturalmente, as inevitáveis imitações, que se exibem a poucos metros de distância das originais.

 

Um pormenor curioso é que algumas marcas já apostam também nos produtos locais, particularmente ao nível da culinária, em que os chineses parecem ser mais apegados à tradição. Exemplo desta simbiose é o inevitável Starbucks que vende os omnipresentes Bolos Lunares em caixas bem decoradas.

 

Outro valor tradicional de que os chineses – em particular as chinesas – parecem não abdicar é o culto da brancura da pele. E também este, como não poderia deixar de ser, já mereceu respostas das marcas ocidentais, com as lojas de cosmética a dedicarem várias prateleiras a produtos de branqueamento da pele, numa curiosa oposição com os bronzeadores que se vendem no ocidente.

No que diz respeito às convenções sociais, os beijos e abraços, de que nós tanto gostamos, não são práticas comuns. Na verdade, talvez nós, latinos, não deixemos de exagerar um pouco, quando não hesitamos em dar dois beijos (ou um, vá…) nas bochechas de alguém que nunca vimos (e, em muitos casos, não voltaremos a ver).

 

Para terminar, fica aqui mais um testemunho do sucesso dos pastéis de nata além fronteiras. Para além do KFC, que parece definitivamente tê-los incluído no menu, pelo menos uma cadeia de pastelarias vende-os, em lugar de destaque e não escondendo a sua origem.

 

Créditos (fotografias): Diana Gui

Desplantes


José Maria Gui Pimentel,

Sei que já vem tarde, mas só agora li as sequelas da famosa altercação entre Teresa Caeiro e Alfredo Barroso, que começou quando aquela tratou este por “senhor Alfredo”. Durante o debate, Mário Crespo protagonizou uma moderação em que conseguiu a habilidade de simultaneamente evidenciar a sua larga experiência (não perdendo a calma) e a sua tendência para o ridículo (tentando, qual educador, que os seus pupilos fizessem as pazes em directo). Dias depois, no Expresso (o segundo palco do combate) lançou, no seu estilo sempre diplomático, uma ferroada a Alfredo Barroso: “o surpreendente é que um homem deste calibre tenha consentido em se deixar ofender por não ter sido interpelado por um título académico”. Crespo, na sua candura não percebe, ou finge não perceber, que o que interessa não é o meio por que o insulto é feito, mas sim o objectivo de insultar. A maioria dos insultos pode ser quase um elogio se dito amigavelmente, e aposto que, por exemplo, se Teresa Caeiro tivesse tratado o seu adversário pelo aparente mais simples “Alfredo”, este não se teria indignado. Por outro lado, se Barroso tivesse respondido ao artigo de Mário Crespo tratando este, por exemplo, por “o gordo” Crespo ter-se-ia logicamente indignado, não obstante tratar-se meramente de um juízo de facto.

Benjamin Franklin – um homem invulgar


José Maria Gui Pimentel,

“I conceiv’d the bold and arduous project of arriving at moral perfection. I wish’d to live without committing any fault at any time; I would conquer all that either natural inclination, custom, or company might lead me into. As I knew, or thought I knew, what was right and wrong, I did not see why I might not always do the one and avoid the other. But I soon found I had undertaken a task of more difficulty than I had imagined.”


A Autobiografia de Benjamin Franklin é um livro algo ingrato, encontrando-se praticamente em bruto, escrito fraccionadamente e terminando antes da parte mais importante da vida do autor: a Revolução Americana. Apesar destes defeitos, oferece um testemunho raro de viva voz da vida de uma das maiores figuras da sua era, um relato razoavelmente honesto (tanto quanto uma autobiografia pode ser), que permite seguir a evolução do seu pensamento e a construção da sua figura como homem da causa pública. Benjamin Franklin foi um homem verdadeiramente fascinante, representando como ninguém o arquétipo daquilo que viria a ser o cidadão americano, combinando, nas palavras de Henry Steele Commage, “as virtudes do Puritanismo, sem os seus defeitos, e o brilho do Iluminismo sem a sua intransigência”.

O livro permite perceber como, partindo de baixo mas beneficiando de toda a liberdade que a América do século XVIII proporcionava, Franklin foi literalmente construindo a sua pessoa, auxiliando-se principalmente da sabedoria recolhida dos livros (onde cedo percebeu estar o segredo), num trabalho contínuo e paulatino ao longo da vida, até ser reconhecido como a segunda maior figura da revolução americana (apenas atrás de George Washington). A quantidade e a diversidade das empresas que levou a cabo durante a vida fazem perder o folgo, tanto mais que se trata de um homem que viveu numa era em que, por exemplo, uma viagem transatlântica demorava cerca de um mês e meio.

Um filósofo na verdadeira acepção do termo, Franklin deixou à humanidade um legado vasto. Deixou no “Sermão do Padre Abraão” uma série de aforismos que hoje fazem parte da cultura mundial (e.g. “não deixes para amanhã o que podes fazer hoje”). Ademais, fundou a Universidade da Pensilvânia, a Sociedade Filosófica Americana e um dos primeiros grupos de Bombeiros Voluntários na América, contribuindo também para a implantação em Filadélfia do primeiro hospital dos EUA. Paralelamente, foi um dos primeiros defensores da união das colónias, deslocando-se a Londres para lutar pelos direitos dos americanos contra a família Penn, que detinha a Pensilvânia. Na ciência, fez progressos no estudo da Electricidade, demonstrando a natureza eléctrica dos raios, o que lhe permitiu inventar diversos utensílios, dos quais o pára-raios é um exemplo notável (permanecendo actual ao longo dos séculos seguintes), granjeando um enorme reconhecimento internacional.

Já com uma idade avançada (em 1776 tinha 70 anos), teve o papel que se conhece na Revolução Americana, assegurando o crucial apoio da França e sendo o único signatário dos quatro documentos principais da fundação dos EUA: a Declaração de Independência, o Tratado de Paris, o Tratado de Aliança com a França e a Constituição dos Estados Unidos. Regressado de França, ainda foi, aos 79 anos, Governador da Pensilvânia, tendo ainda tempo, posteriormente, para se tornar um activo abolicionista, dando ao mundo uma derradeira evidência do seu carácter de homem à frente do seu tempo.

Pela negativa, desta biografia destaca-se o facto de haver partes da sua vida que Franklin claramente passa em claro, ficando, por exemplo, omissa a questão nunca esclarecida da proveniência do seu filho ilegítimo, William, com quem tinha grande proximidade, mas que acabou por ficar do lado inglês durante a revolução.

 

* O retrato, que se encontra no Metropolitan Museum of Art, corresponde ao período em que Franklin frequentou a corte francesa, que encantou com a sua sagacidade e com o seu estilo que, nas palavras de hoje, corresponderia a algo como um “rústico chique”.

Cá está


José Maria Gui Pimentel,

Na linha do que diagnostiquei aqui, o Bloco planeia, segundo o semanário Sol, trazer à baila a derradeira questão fracturante: a eutanásia. É uma opção inteligente, o Bloco precisa urgentemente de se afastar da imagem de PC de segunda categoria.

Mau sinal


José Maria Gui Pimentel,

Parece que a privatização da RTP 1 vai ser adiada. A minha esperança ingénua começa a desvanecer-se.

 

Este é um caso prático – claro como poucos – de que, ao contrário do que defende muita Esquerda, Portugal não é vítima do liberalismo (neo ou não), mas sim de uma promiscuidade público/privado enraizada, consequência do excesso de peso do Estado num país latino. Esta protecção de determinados agentes não é liberalismo, mas sim a antítese deste, pois não é de livre concorrência que falamos. Num ponto, pelo menos, concordo com essa Esquerda, e partilho a sua preocupação: esta promiscuidade prejudica o Estado, ou seja, prejudica-nos, contribuintes.

Ainda o Bloco de Esquerda


José Maria Gui Pimentel,

A perda de expressão eleitoral do Bloco de Esquerda (BE) é, sem dúvida, um fenómeno intrigante. Os motivos invocados são variados, porém, creio, provêm de uma matriz única. Julgo que o principal problema do BE não deriva da natureza das posições tomadas, mas sim do simples facto de as ter tomado. O BE é, desde o início, um partido de protesto, mais do que o PCP e, contrariamente a este, com um eleitorado muito volátil. Os seus eleitores foram mal habituados desde o início – numa estratégia numa primeira fase muito proveitosa – a ouvir apenas críticas ao sistema, as quais, como se sabe, juntam. Das propostas e tomadas de posições, que, como se sabe, cindem, pouco se ouviu ao longo da primeira longa frase da vida do BE.

 

Nos últimos dois anos, Louçã – numa atitude inicial que elogio – tentou dar início a uma segunda fase no partido, sob uma legitima ambição de tornar o BE num partido normal. Louçã percebeu que um partido de protesto tinha um potencial de crescimento limitado. Porém, não compreendeu que a conduta passada do partido impossibilitava esse caminho. O apoio à candidatura de Manuel Alegre era – concorde-se ou não – perfeitamente racional dentro da lógica de um partido da “esquerda grande”, que almeja disputar a ala esquerda do PS. Todavia, sendo uma tomada de posição, divide o eleitorado. Foi o que sucedeu. Tivesse o percurso do BE sido distinto e o afastamento do eleitorado de protesto seria compensado pela atracção do eleitorado dito normal. Todavia, como se sabe, tal não se verificou. Posto isto, Louçã assustou-se, e aqui é caso para dizer que foi bem pior a emenda que o soneto. Numa tentativa de recuperar o eleitorado de protesto, o BE lançou uma patética moção de censura ao Governo e, não contente, juntou-se (num acto de ingenuidade espantosa) ao PCP recusando-se a reunir com a Troika (uma posição que nem a CGTP tomou). Este golpe de teatro, não só não logrou reconquistar o eleitorado perdido como afastou o eleitorado mais moderado, da ala esquerda socialista, que votava BE a pensar que poderia residir ali a verdadeira social-democracia. Esta triste história mostra que o BE se condenou conscientemente a nunca passar de um partido de protesto. De resto, este não é o primeiro episódio: veja-se o episódio Sá Fernandes na Câmara de Lisboa.

 

No entanto, creio ter havido dois factores suplementares responsáveis pela perda de expressão eleitoral do BE.

 

O voto no BE, talvez mais do que um protesto contra as condições económicas, representou sempre um protesto social, muito ligado às questões de costumes. Ora, neste aspecto, Sócrates conseguiu inutilizar duas das principais bandeiras do BE: o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Essa manobra, associada à crise económica, fez os dirigentes do BE, provavelmente sem consciência de que o faziam, centrar o seu discurso nas questões económicas, tornando-se num partido bastante menos cool e, sobretudo, muito parecido com o PCP. Este factor, juntamente com o radicalismo pós presidenciais, terá ditado a fuga de muitos eleitores para o PS.

 

O segundo factor a considerar é bastante menos óbvio: o BE deverá ter perdido algum (se bem que pouco) eleitorado para o PSD. Esta interessante entrevista do Pedro Magalhães (PM) tem uma frase inesperada que o justifica: “(…) quando perguntamos às pessoas sobre o peso específico do Estado na economia. Qual é o eleitorado mais liberal? Espantosamente, é o do Bloco de Esquerda (…). É uma coisa muito curiosa porque mostra que, quando Louçã fala de economia, pura e simplesmente nem estão a ouvir o que ele diz.”. As posições economicamente liberais tomadas pelo PSD, associadas à substituição de uma Manuela Ferreira Leite conservadora por um Pedro Passos Coelho progressista (embora essa faceta possa ter sido posta em causa pelo episódio do aborto durante a campanha) terão, assim, atraído algum eleitorado do BE para o PSD.

Será que percebi bem?


José Maria Gui Pimentel,

Os dirigentes das duas televisões privadas (quem diria) queixam-se da entrada da RTP 1 no mercado, sob o argumento de que “não há espaço” para um terceiro canal privado, o qual fará repartir o bolo das receitas publicitárias, já de si diminuto, por mais um conviva. Isto porque a RTP 1 não compete livremente com os outros canais, uma vez que está limitada pelas regras a intervalos de 7 minutos.

Não o manifestando abertamente, estes dirigentes estão, se bem percebo, a defender que a RTP 1 permaneça na esfera estatal não porque o considerem do interesse público, mas sim por interesse próprio, porque não querem perder espaço no mercado. Trocado por miúdos, o argumento é o seguinte: os senhores não querem ter de repartir o mercado com a RTP 1 e, por conseguinte, defendem que o contribuinte deverá continuar a financiar os prejuízos da televisão pública. Mas, claro, dito assim não soava tão bem nas televisões.

O facto de ser necessário recorrer a este argumento falacioso demonstra, já de si, um reconhecimento implícito da bondade da medida. Com efeito, nada na programação da RTP 1 justifica que o canal continue a ser financiado pelos contribuintes (ao contrário do que sucede com a RTP 2).

Os cargos públicos e as redes sociais


José Maria Gui Pimentel,

 

 

Dentro em breve (eu diria uma década, mas a prudência obriga-me a ser menos preciso) começarão a chegar a cargos públicos (particularmente aos cargos políticos) jovens que já viveram plenamente a era das redes sociais. Esses incautos jovens adultos verão os jornais pejados daquilo que foram colocando nas redes sociais durante os seus anos de anonimato: fotografias de bebedeiras ou em posturas menos ortodoxas, comentários com palavrões, racistas, homofóbicos… Enfim, a antítese da postura politicamente correcta que esses jovens políticos quereriam passar. Esta primeira leva será a principal, porém também a única vítima do efeito das redes sociais: os mais desprevenidos verão as suas ambições políticas coarctadas, ou, mesmo, impossibilitadas. Já com as levas seguintes, a situação tornar-se-á tão transversal e comum que passará a ter tanta atenção quanto as fotografias de políticos em calções de banho, que há umas décadas eram impensáveis e hoje são indispensáveis no Verão.

José Saramago 1922-2010


José Maria Gui Pimentel,

“Pensando bem, não há um princípio para as coisas e para as pessoas, tudo o que um dia começou tinha começado antes, a história desta folha de papel, tomemos o exemplo mais próximo das mãos, para ser verdadeira e completa, teria de ir remontando até aos princípios do mundo, de propósito se usou o plural em vez do singular, e ainda assim duvidemos, que esses princípios princípios não foram, somente pontos de passagem, rampas de escorregamento, pobre cabeça a nossa, sujeita a tais puxões, admirável cabeça, apesar de tudo, que por todas as razões é capaz de enlouquecer, menos por essa.”

A Jangada de Pedra, 1986

Vítor Gaspar


José Maria Gui Pimentel,

É claramente uma segunda escolha. Tem a seu favor a dita “capacidade técnica” e a experiência europeia. Tem contra si a falta de conhecimento da máquina das finanças. Poderá surpreender, porém há um facto inexorável: não disporá de tempo para conhecer os cantos à casa. Continuo ingenuamente a crer que poderia ter sido considerada a hipótese de manter Teixeira dos Santos. Aliás, perante um governo tão verde – no bom e no mau sentido – considero-a ainda mais pertinente.

 

Nota: Percebeu-se pelo que foi sendo ventilado na comunicação social durante a semana que Passos Coelho viu rejeitados alguns convites para a pasta das Finanças, tendo certamente pesado nessas decisões o downgrade salarial que os convidados iriam sofrer. A esse propósito, recorde-se que Teixeira dos Santos, ao deixar a Comissão de Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) para assumir o Ministério das Finanças, viu reduzida a sua remuneração mensal, que ascendia a 16 mil euros, para cerca de 4500 euros. A História não dará certamente razão a Sócrates. Também não deverá dar a Teixeira dos Santos (se tudo correr bem, será escrita pelos vencedores), mas devia.