Ontem, no Jornal da Noite da SIC, discutia-se a proibição das corridas de toiros na Catalunha. Miguel Sousa Tavares (MST), na sua tribuna semanal, discordava, no seu direito. Depois de uns tantos argumentos laterais, gerou-se o seguinte diálogo.
Clara de Sousa: “A morte do animal na arena é o que choca basicamente as pessoas que fazem a defesa dos direitos dos animais.”
MST: “E os combates de boxe, quando saem de lá todos a sangrar, não chocam muita gente? E então, vamos proibi-los? E as corridas de automóveis, onde morre muita gente e até espectadores, vamos proibi-las?”
As corridas de toiros são uma instituição defensável, com argumentos lógicos. Porém, fingir que não se percebe a questão, valendo-se de comparações despropositadas, não tem outro nome senão desonestidade intelectual. É profundamente irritante o modo como alguns dos poucos comentadores que têm o privilégio de apenas ter como adversário um jornalista mais concentrado na condução da emissão do que no debate do tema em questão desbaratam esse capital utilizando constantemente argumentos falaciosos.

Não gosto e nunca assisti a uma tourada.
(Refiro-me, evidentemente, às que incluiem touros, toureiros, etc., porque das “outras”…)
Quem gosta, gosta! Quem não gosta, condena que continuem a existir.
Perdir uma opinião sobre a sua proibição a quem gosta de touradas não deve esperar outra que não seja a que MST deu.
Alguma vez foi feito um debate sobre este assunto, sem que a paixão assoberbada de ambos os lados impedisse que se chegasse a um final equilibrado?
Porque consensual nem pensar. Água e azeite não se misturam.
Ainda bem que o mundo não funciona bem assim.
“É profundamente irritante o modo como alguns dos poucos comentadores que têm grande o privilégio de apenas ter como adversário um jornalista mais concentrado na condução da emissão do que no debate do tema em questão desbaratam esse capital utilizando constantemente argumentos falaciosos.”
Na mouche!
Obrigado, Hugo.
Os comentadores mais in da nossa praça, refiro-me àqueles que são convidados para comentar (e comentam, que é o mais patético) tudo o que lhes meterem à frente, de futebol a política, passando pela questão da velocidade dos neutrinos e pela decadência cultural que representa o programa Casa dos Segredos, e já agora se o pasteleiro tem ou não hipótese… esses egomaníacos, já nem se dão ao trabalho de estudar as questões. Formam as opiniões “on the fly” à medida que ouvem a pergunta, juntam-lhe uns acessos de raiva e umas linhas de desprezo e arrogância, e está feito.
A partir do momento em que o Ricardo Araújo Pereira pertence a um painel de comentadores da noite de eleições da SIC, está tudo dito.
Verdade!
No meio das justificações malucas que o mst arranjou, esperava que a jornalista contrapusesse com o argumento principal: defesa do animal. Não uma coisa genérica ““A morte do animal na arena é o que choca basicamente as pessoas que fazem a defesa dos direitos dos animais”. E a tortura a que está sujeito? O mst preocupa-se com o fim da espécie? de uma espécie que existe APENAS para proporcionar espectáculo bárbaro? desculpem, não consigo separar o gozo com um animal em sangue da barbárie. Se o fim da tortura significar o fim da espécie, acabe-se com ela, não venham com conversa de merda de que acabamos com uma espécie animal.
Que o mst defenda, com os seus argumentos ridículos, as touradas, não surpreende ninguém. Que a jornalista não estivesse à altura, rebatendo as justificações e comparações ridículas do mst , é que me deixou espantada.
Inicialmente também me inclinei para isso, mas a verdade é que é muito difícil para o jornalista ter a presença de espírito que a pessoa tem em casa, relaxada no sofá. A função principal do pivot é coordenar a emissão, por isso digamos que se perdoa a atitude complacente da Clara de Sousa. O mesmo está sempre a acontecer com outros jornalistas. Se calhar deviam desabituar estes “comentadores de púlpito” de falar sozinhos…
A Catalunha não se orgulha somente do Futebol Clube de Barcelona de Lionel Messi, das melhores estações de esqui de Lérida e Girona, nos Pirenéus, das grandiosas obras arquitectónicas de Gaudí, das inúmeras telas pintadas por Dalí e Miró, das fantásticas praias da Costa Brava e Dourada, do glorioso passado histórico de Tarragona. Juntamente com as Canárias, orgulha-se de ser a segunda região da Península Ibérica a proibir as corridas de touros. Ontem, como hoje, a modernidade catalã faz a distinção entre a tradição cultural e o abjecto ritual de sangue desrespeitador da dignidade animal a que chamam “espectáculo”.
Os piores inimigos das touradas parecem ser os seus defensores. Argumentar contra o imperante pieguismo dos “direitos dos animais” e da “mãe natureza”, com tiradas de marialva saudoso do ancien regime e anti-urbano, é puro suicídio. Mas se calhar o debate também não pode ir muito longe porque os anti-tourada têm como axioma que os aficionados são umas bestas sádicas e estúpidas.
Zé Maria, eu que sou uma amante confessa de corridas de toiros – vá lá, crucifiquem-me – digo-te convictamente que te enganas: elas não são uma instituição defensável, com argumentos lógicos. Eu, pelo menos, não conheço nenhum para além dos irracionais.
Creio todavia que existem duas justificações racionais para o fim das touradas em Barcelona: a vontade de afirmar a diferença face a Madrid; o facto de, ao que sei, a exploração da praça não ser rentável. A primeira justificação racional fará com que não acabe a tradição local dos correbous.
Barcelona sempre quis afirmar essa diferença, e a sua superioridade cultural em relação a Madrid. Não me espanta que a praça de Barcelona seja pouco rentável. Mas para acabar com as touradas não faltam argumentos lógicos. Difícil é encontrá-los para mantê-las.
Ana, e vão duas: sou aficionada confessa e não sou ribatejana. E por acaso considero que a dramatização em torno da corrida de toiros é, também ela, falaciosa. Mas num país onde o Partido pelos Animais teve o dobro da expressão do que o MEP, por exemplo, está tudo dito.
Esta é uma daquelas questões com “camadas”.
Do lado dos “anti”, não é por acaso que o tema tem tanta preponderância. Ou seja, não é só pelos direitos dos animais. É também pela oposição ao estilo do meio tauromáquico, tipicamente de direita e marialva. Há outros exemplos menos mediáticos em que os animais são muito mal tratados e não se vê tanta oposição.
Do lado dos “pró”, Ana, a verdade é que pode haver argumentos racionais. No entanto poucos os utilizam, o que, na minha opinião, só dá razão aos “anti”: o meio tauromáquico é, de facto, imensamente conservador muito fechado.
Um argumento perfeitamente racional (embora eu o considere insuficiente):
– As corridas de toiros são uma instituição centenária, fazendo parte essencial da cultura de algumas regiões. Assim, pode-se argumentar, o animal sofre, é um facto, mas não tanto assim (há quem defenda). Ademais, não se deve cometer a demagogia de associar os direitos dos animais aos dos seres humanos, sendo que os daqueles são, evidentemente, menores.
O principal problema de toda esta questão é que o conjunto dos “anti” e do os “pró” (mais por culpa dos últimos), ao contrário do que sucede noutros temas supostamente fracturantes (como o aborto), não se tocam. Por isso não há razoabilidade. Percebo a lógica da tradição, mas seria assim tão difícil estabelecer alguns parâmetros mínimos de respeito pelos animais nas corridas de toiros? Parece-me que não.