O comentário da semana


Pedro Correia,

 

«Isto lembra-me aquele princípio que diz “Se roubas 500 € ao banco, estás lixado, se roubas 500 milhões quem está lixado é o banco.” Certo é que no meio destas tropelias transparece para a opinião pública, vulgo cidadão comum, pagante, eleitor, trabalhador por necessidade de pôr qualquer coisa no prato lá de casa e pôr os filhos na escola pública mais próxima de casa, uma impunidade maliciosa de fulanos que passam pela política arrotando seriedade, isenção, imparcialidade e transparência e eis que, quando damos por eles estão confortavelmente instalados numa série de órgãos directivos de uma série de grandes empresas e afins, com uma série de cargos, alguns ditos não executivos mas que não deixam de lhes proporcionar chorudas verbas por presenças em reuniões e outros truques para quiçá ainda evitarem o martelo, não da justiça, mas do fisco.

A agravar a situação, verificamos ainda que esta gente tem, e faz questão de lembrar isso, grandes “amigos” nos órgãos do poder. Pergunto: quando se fala tanto que há grandes lobbies – construção, futebol, autarquias, farmacêuticas, bancos manhosos, políticos manhosos e sei lá mais o quê – quantos casos foram analisados, quantos levados a tribunal, quantos condenados, sobretudo se estiverem bem arregimentados a partidos políticos? Qual a responsabilidade da classe política pelos erros que ela própria comete? Quantos afinal estão dentro desta grande panela? Que favores se trocam (mesmo e sobretudo entre partidos rivais) para serem cobrados conforme se está no poder ou na oposição?

Se gastarmos alguns momentos do nosso tempo e meditar um bocadinho só sobre este tipo de coisas, nós, só nós, sem a ajuda dos 325.000 fazedores de opinião com que a nossa muito medíocre imprensa (que também tem uma parte bem mais importante do que parece neste processo) talvez se comece a fazer luz nestes cérebros encascados em programas de televisão que são pouco mais que um nojo chamados reality shows (eu sei, eu sei que aquilo vem lá das américas mas eles também não são exemplo para ninguém, até votaram duas vezes num atrasado mental). Os quase 50 % (salvo erro) de abstenção nas últimas eleições podem já ter sido um sinal. A minoria silenciosa já cresceu, qualquer dia já é uma maioria mas aí é tarde porque só votam os arregimentados.

A educação cívica que se devia dar nas escolas desde o princípio tinha que estar mais virada para ensinar as pessoas a pensar por si, a raciocinar e não a “marrar”. Talvez assim já não fôssemos tão amorfos e acomodados. O nosso espírito comunitário é um zero enorme e enquanto não trabalharmos nesse sentido não vamos a lado nenhum e é pena porque potencialmente somos tão bons como os melhores. Que não se pense que há coisas que “só neste país”: em muitos outros, e bem mais desenvolvidos economicamente, a festa é igual. Temos muito para melhorar como cidadãos, como pessoas, como seres humanos. Pode ser que então talvez nos comecem a levar mais a sério.

Tantos apertos estamos a levar, sem sequer gritar em nome da quantidade de “buracos” que diariamente aparecem à luz do dia, nem tempo temos para digerir e de que ninguém sabia – os governos não sabiam, a AR não sabia, as Comissões de Fiscalização não sabiam, o Banco de Portugal não se apercebeu e ainda hoje veio dizer que não tinha forma de controlar o problema da Madeira. Note-se que toda esta corja é paga principescamente para estar, pelo menos atenta, não? Uma coisa é certa: o tuga é manso, mas palpita-me que não vai aguentar isto por muito mais tempo.»

 

Do nosso leitor Xikitito. A propósito deste texto da Ana Vidal.

2 comentários em “O comentário da semana”

  1. E o Xikitito não sabe ainda outra coisa. São as jornalistas que são tão cronistas, tão cronistas, tão cronistas que até fazem crónicas nos Ministérios… a pagantes, claro!

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