Antes de mais, um alerta, sendo a China um país gigante, ademais congregando culturas muito diversas, importa salientar que este comentário se baseia apenas naquilo que foi observado na zona oriental do país, abaixo de Shanghai. Se tratar minhotos e alentejanos como iguais seria um erro grosseiro, um juízo equivalente feito em relação a um país imensamente maior tem tudo para ser ainda mais arriscado. Ainda assim, e na impossibilidade de conhecer todas as realidades, resta-nos inevitavelmente, e mesmo conscientes do erro provável, tomar o todo pela parte.
Porventura a realidade mais interessante na China actual é a emergência de uma nova classe média, e sobretudo o ritmo a que ela se vai estabelecendo, não apenas nas grandes cidades mas também nas cidades de segunda linha. Este fenómeno acarreta efeitos curiosos, como a construção de um fosso evidente entre os pais, ainda presos à China tradicional, e os filhos, nos quais se observa claramente já o culto da individualidade, característica distintiva das sociedades capitalistas. A esta diferenciação individual junta-se um evidente fascínio pela cultura ocidental, muito particularmente pela cultura americana.
Observando os outfits dos jovens, é visível a importância dada às t-shirts, às calças e, principalmente, ao calçado. Um pormenor interessante, reflexo do dito deslumbramento pela cultura americana, é o facto de não se ver uma única t-shirt com caracteres chineses, com os jovens a procurarem-nas de marcas americanas (ou pelo menos com o logótipo destas inscrito na frente) e com longas frases em inglês. Muitas vezes, é inevitável questionarmo-nos, porventura de significado desconhecido para quem as ostenta.
No sexo feminino, em particular, é evidente a preocupação com o calçado. É engraçado vê-las, alguma ainda com pouca prática, alçadas em saltos compridos, mesmo quando têm de percorrer distâncias longas. As que mais capricham são as que, tendo de vestir fardas, não possuem direito de escolha sobre a roupa acima dos tornozelos. As marcas ocidentais, em particular, claro está, as americanas, aperceberam-se há muito da emergência de um mar de potenciais consumidores, e vão inundando o mercado com produtos, uns absolutamente iguais àqueles que já comercializavam no ocidente, outros já adaptados à cultura local. Aliás, e isto não esperávamos, praticam, particularmente na roupa, preços pouco diferentes (em algum caso juraríamos mesmo serem superiores) aos que cobram no ocidente, o que leva a crer que a classe média (neste caso média alta) já joga plenamente neste campeonato. Para aqueles que ainda não o fazem, existem, naturalmente, as inevitáveis imitações, que se exibem a poucos metros de distância das originais.
Um pormenor curioso é que algumas marcas já apostam também nos produtos locais, particularmente ao nível da culinária, em que os chineses parecem ser mais apegados à tradição. Exemplo desta simbiose é o inevitável Starbucks que vende os omnipresentes Bolos Lunares em caixas bem decoradas.
Outro valor tradicional de que os chineses – em particular as chinesas – parecem não abdicar é o culto da brancura da pele. E também este, como não poderia deixar de ser, já mereceu respostas das marcas ocidentais, com as lojas de cosmética a dedicarem várias prateleiras a produtos de branqueamento da pele, numa curiosa oposição com os bronzeadores que se vendem no ocidente.
No que diz respeito às convenções sociais, os beijos e abraços, de que nós tanto gostamos, não são práticas comuns. Na verdade, talvez nós, latinos, não deixemos de exagerar um pouco, quando não hesitamos em dar dois beijos (ou um, vá…) nas bochechas de alguém que nunca vimos (e, em muitos casos, não voltaremos a ver).
Para terminar, fica aqui mais um testemunho do sucesso dos pastéis de nata além fronteiras. Para além do KFC, que parece definitivamente tê-los incluído no menu, pelo menos uma cadeia de pastelarias vende-os, em lugar de destaque e não escondendo a sua origem.
Créditos (fotografias): Diana Gui






A China é, hoje em dia, um autentico cadinho de transformação socio-cultural . Um processo que tenho imensa pena de não poder ter experiência na primeira pessoa. Como tal, agradeço-lhe imenso estas interessantes notas que aqui deixou. Bem-haja
Obrigado, Hugo, é muito engraçado, de facto, não pára de nos surpreender.
José Maria, este post tem de ser o primeiro de uma série. Um abraço (espero que esteja a correr tudo bem por aí).
É essa a ideia! Está a correr muito bem. Um abraço
Subscrevo a ideia de um série! Fico na expectativa.
Se te perguntarem por mim não fiques admirado: sou um cliente (!) de Xangai há muitos anos.
Ahah, já nada me espanta.
É série, só pode. Se não, ficamos de água na boca 🙂
Pode ser que o próximo tenha precisamente a ver com água na boca!
observado na zona ocidental do país
Tem a certeza de que não queria dizer oriental?
Bem visto, obrigado.
Hum. That little guy reminds me of something (or someone).
Este não, só se for por estar a comer uma nata!
Boa, Zé Maria! Ficamos à espera de mais notícias do “nosso homem na China”. Que tudo te corra bem por aí.
Obrigado!
Muito bem. Boa estadia, Zé Maria.
Obrigado!
Na minha modestissima opinião…
O novo modo de vestir(etc) à americana… soa mais como um protesto contra à tirania passada (timidamente aligeirado no presente ), do que propriamente a uma adesão consciente ao Way of life made in USA …
Mas então, porquê com os EUA e não com outro país?
Deixei-me levar pelo que escreveu no post: – “Muito particularmente pela cultura americana”…
Assim, como mais propriedade, devia ter escrito: “Ocidental”
Reafirmo que é uma modesta opinião… Gostaria de oscular a sua, um vez que está no “terreno”.
Melhores cumprimentos
A minha também é bem modesta, meu caro, até porque para além daquilo que digo no início do post, isto é só a perspectiva de um ocidental…!
“No sexo feminino, em particular, é evidente a preocupação com o calçado. ” É uma característica universal da mulher, portanto.
De facto!
“Aliás, e isto não esperávamos, praticam, particularmente na roupa, preços pouco diferentes (em algum caso juraríamos mesmo serem superiores) aos que cobram no ocidente, o que leva a crer que a classe média (neste caso média alta) já joga plenamente neste campeonato.”
Shangai tinha um nível de rendimento igual a Lisboa há 2 ou 3 anos. Provavelmente hoje já é superior.
Bem sei. Mas atenção, não se trata de Shanghai, mas sim de uma cidade de segunda linha.
Post muito interessante caro José. Saudações desde Macau