Contextualizar


José Maria Gui Pimentel,

  1. O que o primeiro-ministro disse é um lugar-comum hoje em dia quando se fala de desemprego.
  2. Porém, é um lugar-comum que se ajusta mais a uma pessoa que fica desempregada numa conjuntura económica normal, não num período de recessão em que a procura interna contrai.
  3. Importa, ainda assim, contextualizar a declaração: esta aconteceu aquando da tomada de posse do Conselho para o Empreendedorismo e a Inovação, e pretende instar o país, que os números mostram ser muito pouco empreendedor, a melhorar nesse campo. Tendo em conta que este problema estrutural existe, comprovadamente, julgo ser difícil discordar de que se aconselhe alguns desempregados a arregaçarem as mangas e fazerem algo sozinhos.
  4. A política de comunicação do governo é, de facto, fraquíssima. Já as célebres afirmações da “pieguice” seriam mais compreensíveis se devidamente contextualizadas.

8 comentários em “Contextualizar”

  1. Em abstracto, tudo muito certo. Mas façamos um esforço, de facto, de contextualização. E o que temos?

    Temos um fisco de uma voracidade insaciável, verdadeira rapina, que sufocará o novel “empreendedor” em pagamentos por conta e presunções de toda a espécie, ainda nem a primeira factura foi emitida; bem como num sem fim de obrigações declarativas que exigem, para que sejam minimamente cumpridas (e nunca se está verdadeiramente “em dia” quanto a elas) a afectação de recursos humanos e materiais verdadeiramente desproporcionados.

    Temos uma infernal máquina de licenciamentos, autorizações, alvarás, fiscalizações, que se impõe como obrigatória e se sustenta a taxas e outros custos de verdadeiro assalto.

    Temos uma banca que manifestamente não está interessada em conceder crédito ou, concedendo-o, o faz em condições leoninas.

    Temos uma economia em contracção, com expectativas de consumo bem pouco entusiasmantes (e modero aqui a linguagem). O facto, suponho, que mais tem contribuído precisamente para que surja esta legião de desempregados e que nem na mais optimista mente – salvo ocasionais excepções, em regra “necrófagas” (veja-se a multdão de lojas de compra de ouro) – constitui o ambiente ideal para começar um negócio.

    Conceder-me-á que isto que escrevo são factos, independentes de ideologias professadas. Donde, pensará o nosso primeiro-ministro que todos os desempregados têm vocação empresarial (e, perdoe-me, que eu saiba ainda não é crime não a ter), robustos capitais próprios (e, perdoe-me, que eu saiba ainda não é crime não os ter), e capacidade de resistência, material e psicológica, para suportar longamente o que decerto seriam longos anos a perder dinheiro e a trabalhar para o juro e a coima (e, perdoe-me, que eu saiba ainda não é crime não a ter)?

    Impressiona, sim – aterroriza, mesmo – é ver a quantidade de gente que se transforma em “empreendedor” não por vocação, não por oportunidade de mercado solidamente avaliada, mas sim por desespero. Do desespero do desemprego lançam-se no desespero de ficarem nas mãos do fisco e da banca, da penhora, da falência, da honra manchada, das notificações, dos editais, de nem uma camisa poder ter em seu nome.

    Coisas que o nosso PM nem imagina (e não só ele, como a imensa maioria dos nossos políticos, de esquerda ou direita, aboletados nas garantidas prebendas estatais)…

    Costa

    1. Gostei muito do seu comentário. Trouxe aqui pontos de vista muito pertinentes.

      1. Quanto ao fisco e à burocracia, reside provavelmente aí a chave do problema. Nesta, como em muitas das dores nacionais, nunca consigo perceber o que nasceu primeiro, se o ovo (o pouco empreendedorismo) ou a galinha (o fisco e a burocracia; ou vice-versa, já agora!).

      2. Nem o PM nem ninguém pensa que toda a gente reúne essas condições. Mas mesmo que pensasse também não quereria que de repente todos se tornassem empresários por conta própria. Ou seja, julgo que isso é distorcer um pouco a ideia.

      3. Dito isto, não faria mal ao PM amparar com a outra mão. Confesso que ainda não percebi se ele não o faz porque pressente que tal pouco adiantaria (e por vontade de contrastar com o estilo choroso do anterior governo), com o que tenderia a concordar; ou se não o faz por pura insensibilidade. Em todo o caso é, pelo menos em termos de imagem e de comunicação, mal gerido.

      1. Grato pelas suas palavras. Note que, quanto ao fisco, a situação é bem simples no que concerne à resolução da aparente ambiguidade que invoca: é afinal o PM quem admite a insuportabilidade da carga fiscal e, no contexto da relação com o fisco, o uso de conceitos falseados – que não foram criados por este governo, claro – define imediatamente a falta de boa fé que radica na acção fiscal (a quem interessa cobrar o máximo, sendo esse o critério único). É assim que somos “contribuintes”, quando uma contribuição é um acto voluntário e um imposto algo a que se é obrigado; é assim que somos “sujeitos passivos”, uma qualificação humilhante e que bem consagra a nossa dominante impotência perante o fisco.

        E é assim que vigora largamente o demoníaco princípio “solve et repete”, na relação com o fisco. Que cobra implacavelmente juros, mas devolve o indevidamente cobrado quando quer e sem qualquer compensação. Ou que, no campo dos impostos, a retroactividade da lei é paulatinamente imposta.

        Por mim, e quanto à questão do ovo ou da galinha, estamos conversados. Não, não foi este governo quem “começou” com estas iniquidades. Elas são historicamente sólidas. Digamos apenas que tem delas tirado o proveito possível.

        Quanto à distorção de ideias, permita-me que invoque o que invocou: contextualize-se, em favor da bondade das minhas palavras, o que eu escrevi.

  2. Concordo, parecendo-me que o PM não disse nada de especial. Portanto, custa-me a entender esta campanha contra não sei o quê, onde está a alinhar gente que eu subjugava com capacidade para ver mais longe. Que não é o seu caso.

  3. Claro que eu queria escrever “gente que eu julgava com capacidade para ver mais longe”. As minhas desculpas.

  4. o país, que os números mostram ser muito pouco empreendedor

    Falso!!! Portugal é um dos países mais empreendedores da OCDE. Só o México e a Turquia têm maior percentagem de empresários individuais.
    O José Maria já viu, por exemplo, a quantidade inacreditável de restaurantes que há em Portugal? Todos eles são fruto do enorme empreendedorismo lusitano!
    Em geral, os países subdesenvolvidos são aqueles em que há maior empreendedorismo. É que, à falta de grandes empresas (tipo Autoeuropa ou Efacec), as pessoas empreendem e criam-nas pequenas (tipo restaurantes familiares).

    1. O que diz é bem visto, reconheço. O problema de Portugal é, contudo, faltar-lhe outro tipo de empreendedorismo, fora desse campo mais “tradicional”. E é aí que entram, entre outras coisas, os entraves impostos pelo Estado referidos acima.

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