Melancolia


José Maria Gui Pimentel,

Inspirado pelos posts da Claudia e da Ana, decidi ver o Melancolia. Acabo de o fazer, e tenho que confessar: foram duas horas penosas, achei uma chachada completa. Desculpem-me a franqueza. Os filmes afinal são isto, subjectividade.

Ao contrário do Anticristo, um filme algo exagerado (com algumas cenas de violência gratuita) mas profundamente diferente da regra, esse sim um quadro fabuloso, o Melancolia, na minha opinião, é, à parte da excelência visual e auditiva, assaz banal. Lars von Trier juntou habilmente duas técnicas recorrentes no cinema alternativo, numa receita perfeita. Colocou em cima da mesa uma mão cheia de referências do paradigma intelectual e juntou-lhe um som e imagens irrepreensíveis. Em jeito de brinde, deixou ainda de parte a violência de Anticristo. E, voilà, aí temos o regresso do filho pródigo. Resumindo, ao filme falta-lhe o rasgo para cativar e a arte para angustiar o espectador. Já agora, a própria lógica do isolamento daquela família deixa muito a desejar. Posso estar a afastar-me da essência do filme, mas a iminência do embate de um planeta com a Terra não liga muito bem com aquela aparente abstracção geral, nem com uma família rica que parece viver numa casa onde não existe uma única televisão (mas telescópios topo de gama). Lars Von Tier está maluco, como se sabe. Se este é o seu regresso à normalidade (e não acho que seja), prefiro a versão demente.

4 comentários em “Melancolia”

  1. Ah, Zé Maria, o que há de mais fascinante em nós, humanos, é a diversidade, apesar de termos todos um genoma comum! 🙂
    Cada ponto de vista depende afinal da idade, do sexo, do momento temporal, das vivências de cada um, do estado de espírito, sei lá que mais. Onde tu viste banalidade, eu vi uma angústia e uma densidade enormes. Não há violência explícita (física, pelo menos) mas há um grau de sofrimento altíssimo, quase insuportável. Mas talvez isto seja porque me impressiona sempre mais o panorama íntimo das personagens – e tens de admitir que a representação é soberba! – do que as circunstâncias exteriores, que aliás achei o menos importante neste filme. Com ou sem choques de planetas, com ou sem lógica, não há abismos mais profundos do que os que existem dentro de nós. E nesse sentido há ali muita demência…

    1. Sem dúvida, Ana. Aliás, os filmes são das formas de arte mais subjectivas, ao contrário do que pode parecer à primeira vista. Duas horas de acção deixam inevitavelmente muito à interpretação do espectador. Por isso é que me irrita aquela postura de quem não admite que alguém adore/odeie um filme que aquela pessoa odiou/adorou (por muito que eu próprio tenha às vezes essa tentação!). Costumo dizer que há duas franjas de filmes claramente bons e obviamente maus, mas há um meio nebuloso muito grande de filmes que serão bons ou não na medida em que apelarem a cada um, e na medida em que determinados aspectos sejam interpretados como incoerências, ou, opostamente, como mensagens.

      Dito isto, em relação ao Melancolia: curiosamente, não achei o desempenho da actriz principal nada de extraordinário (embora bom, sem dúvida). A única parte que de facto achei interessante foi a evolução dela: mal quando todos estavam bem, e depois bem quando todos estavam mal. O que me impediu de “mergulhar” no filme foi a brutal dose de incoerência, em vários aspectos. Confesso que sou “picuinhas” nessa matéria. Já depois de ter escrito este post deu comigo a pensar que só conseguiria encaixar o filme se aquele “quadro” fosse apenas um sonho, pois os sonhos são por natureza desconexos e incongruentes. Porém, não acho que seja esse o objectivo do Lars Von Trier, com todas aquelas referências culturais, e uma suposta crítica social. Por outro lado, não evito pensar que se enquadrava bem na demência evidente do realizador. 🙂

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