Um europeu notável


lauraramos,

 

Berlim, 28 Novembro de 2011

(palavras de um Ministro dos Negócios Estrangeiros da UE):
« Mr Presidents, Minister – dear Guido, Ladies and Gentlemen:
Let me start with a story.
20 years ago, in 1991, I was a reporter, visiting what was then the Federal Republic of Yugoslavia. I was interviewing the chairman of the Republican Bank of Croatia when he received a phone call with an obscure piece of news. Namely, that the parliament of another Yugoslav republic, Serbia, had just voted to print unauthorized amounts of dinars, the common currency.

Putting down the phone the banker said: “This is the end of Yugoslavia.”
He was right. Yugoslavia collapsed. So did the ‘Dinar zone’. We know what followed. Issues of money can be issues of war and peace, the life and death of federations.
(…) ».

Ando a seguir distraidamente, como qualquer europeu, a actual presidência do Conselho da UE, que pertence à Polónia até ao final de 2011. Confesso duas coisas: primeiro, trata-se de um país e de um povo que me merecem uma imensa consideração, para não dizer um quase-afecto, sem qualquer razão especial para isso que não seja o efeito de uma visita marcante que ali fiz, em trabalho, há mais de uma década; segundo, interessa-me sentir o pulso desta coisa abstracta chamada União Europeia e conhecer o pensamento dos países membros que não pertencem à ‘ala dos tubarões’. Pensamento, sim, ainda vai havendo disso em política, pasmem.

Este discurso do Ministro dos Negócios Estrangeiros polaco, Radek Sikorski, que podem seguir aqui e recomendo vivamente, é uma das mais notáveis intervenções proferidas no âmbito das oficialidades europeias que tenho podido ler.

Este ex jornalista, que sabe falar de Kant sem preciosismos, faz uma alocução de homem culto e não-politicamente correcto, desmontando mitos (that, of course, includes Germany) usando de um pensamento enxuto, directo e contundente que me deixa de alma limpa. Fazem-nos falta homens e mulheres assim na política do velho continente.

Resta, como escreve um comentador suíço, aqui,  «Let’s all pray he is heard and understood by his audience».

13 comentários em “Um europeu notável”

  1. Um excelente discurso, de facto.

    Eu também tenho apreço e simpatia pelos polacos, mas devo notar que é um povo bastante paranoico em matéria de religião (católica) e de nacionalismo. Isto é, levam essas duas coisas demasiado a sério. Varsóvia está cheia de monumentos à revolta de 1944, até cansa. E de igrejas porta sim, porta não, parece Salamanca.

    1. Não acho o povo polaco ‘paranóico’, se as palavras ainda significam o significante. Pelo contrário, são um povo imensamente aberto, manso e sofrido.
      – Se são declaradamente católicos? Sim, mas isso não me choca rigorosamente nada. Também os portugueses são, em versão menos lúcida. E será que isso constitui algum obstáculo à racionalidade? Nenhum, na minha óptica. São dimensões humanas distintas.
      Eu sei do que fala… também eu fui forçada a visitar 35 igrejas só nos primeiros 2 dias, em Varsóvia: os anfitriões faziam absoluta questão de mostrá-las. Um massacre, até porque a esmagadora maioria não tinha qualquer interesse arquitectónico ou artístico. Esqueci-me de quase todas, mas pouco importa. Ficou-me o principal: que foi reter a imensa simpatia, cultura e sensibilidade dos meus acompanhantes. E perceber que as ditas e descartáveis igrejas eram o seu refúgio de identidade, numa Varsóvia sovietizada e quase sem marcas físicas do período anterior às sucessivas ocupações estrangeiras, desde os nazis aos comunistas. É preciso entender isto: foi tudo bombardeado… E depois vieram coisas como o horrendo ‘bolo de noiva’ que Stalin ofereceu à cidade.
      – As igrejas? Apenas a sua libertação.

      1. Eu não fui forçado a visitar nada, andei sozinho por Varsóvia. E por todos os lados tropeçava em placarts postos a lembrar, ou qualquer coisa religiosa, ou (mais frequentemente) qualquer coisa relacionada com a revolta da cidade em agosto de 1944 contra os ocupantes alemães. Achei que era um exagero, tanto do ponto de vista de um nacionalismo exacerbado e irracional, como do ponto de vista de uma religiosidade com as mesmas caraterísticas.

        1. Se calhar caiu lá na celebração de alguma efeméride, daí os outdoors e placards, não? Eu não encontrei nada disso. E também não fui ‘forçada’ a fazer nada, era o que faltava. Limitei-me a corresponder com civilidade ao programa que os anfitriões nos tinham preparado.

          1. Como estive lá em agosto de 2011, e agosto de 1944 foi o mês da revolta, é possível que tenham posto os placards para comemorar o mês de agosto… mas não creio. Eram placards escritos em polaco, em ferro ou pedra, que pareciam destinar-se a recordar cada local da cidade em que cada companhia polaca tinha combatido durante a revolta.
            Os meus anfitriões também nos prepararam um programa de visitas, mas eu tive o cuidado de declinar participar, e parece que fiz bem porque, segundo me disse quem participou, aquilo era uma chachada.

  2. Patetices. A guerra na Jugoslávia não teve nada que ver com impressão de moeda ou não.

    Tem que ver com Poder sobre o outro.
    Como sempre todas as guerras.

    1. Para melhor manifestar a sua discordância, Luck, modere a linguagem quando falar com uma senhora. Se lhe dá jeito para desabafar, deixe as suas “patetices” para mim, por exemplo.

      1. Se não se quer dominar o outro é sempre possível a separação sem problemas. Checos e Eslovacos separaram-se não só monetariamente mas como país depois de estarem muito mais unidos e durante mais tempo que a União Europeia.
        Qualquer dos lados pode sempre fazer outra Moeda.

        Igualdade.

  3. “The entire practice of lending money presupposed at least the honest intention to repay. If this condition were universally ignored, the very idea of lending and sharing wealth would be undermined. For Kant, honesty and responsibility were categorical imperatives: the foundation of any moral order. For the European Union, likewise, these are the cornerstones.”

    De facto é um discurso extraordinário (e nao apenas para a Alemanha).

    1. Para todos, é verdade. Mas o facto de incluir expressamente a Alemanha é que é especialmente corajoso, vindo de um país cuja política externa tem sido de aproximação aos germânicos. Uma intervenção de um homem livre e ao mesmo tempo comprometido na acção pública: eis duas coisas raríssimas, porque normalmente ou se é crítico de sofá, ou se é político e se acaba a abdicar da perspectiva.

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