É muito engraçado deambular por uma cidade chinesa, pelas ruas, pelos jardins, pelas lojas, e observar o comportamento dos nativos (exceptuando o daqueles que não estão a olhar para nós embasbacados, retribuindo o nosso espanto a observá-los). Uma das experiências mais desesperantes, mas, ao mesmo tempo, divertida é tentar encontrar quem fale inglês. O resultado vai-se tornando previsível, variando apenas com a idade do receptor: Abordamos um adulto/velho na rua: do you speak English? Atitude imediata: fuga (por vezes acompanhada por um sorriso zombeteiro). Abordamos um jovem (presumivelmente estudante): do you speak English? O jovem olha à sua volta (“como é que em me safo desta?”), seguidamente olha para baixo (“será que eles vão desaparecer?”), finalmente encara os temíveis estrangeiros e, simpaticamente balbucia: “yes…a little…”. E “a little”, há que reconhecê-lo, não é normalmente falsa modéstia, apesar da proliferação de escolas de inglês. Na verdade, atendendo a que o estudante típico tem poucas oportunidades para treinar a língua, o esforço é louvável.
A propósito, importa notar que a atitude envergonhada de baixar a cabeça não surge por acaso, reflectindo uma cultura asiática em que se evita a todo o custo a perda da honra. Poderá parecer exagerado aplicar a palavra honra a esta situação, mas a verdade é que a coisa aqui é tão importante quanto isso. É difícil encontrar uma palavra ocidental que resuma completamente este aspecto cultural, só compreensível à luz da visão intrinsecamente colectivista da cultura asiática. São famosos (embora, provavelmente, algo exagerados) os relatos dos japoneses que se suicidam por perder o emprego. Inicialmente é muito difícil identificar este aspecto cultural, o que pode levar a que se seja inadvertidamente grosseiro, neste nosso à vontade europeu (imagino, ainda assim, que os americanos se vejam em piores lençóis). Aconteceu-nos, a este respeito, um episódio engraçado. Um rapaz chinês, amigo de um nosso recém-conhecido (também ele local), veio instalar-nos um programa no computador, tendo ficou atrapalhadíssimo ao não ser bem sucedido. Naturalmente, tendo o problema sido ainda assim resolvido e sendo além do mais a coisa de pouca importância, apressei-me a assegurá-lo de que não havia problema nenhum. A tentativa de o acalmar falhou, todavia, redondamente, e o rapaz pôs-se a sete pés tão rápido quanto pode, mal nos encarando à saída (cá está). Passado cerca de vinte minutos ligou-nos o nosso conhecido que o tinha recomendado muito atrapalhado, perguntando receosamente se ele tinha resolvido o problema, o que nós, logicamente, confirmámos com veemência. Desde então, noutras ocasiões de contacto connosco, o rapaz tem revelado sempre uma enorme timidez, porventura, é inevitável pensá-lo, traumatizado ainda por aquele episódio, para um ocidental, de somenos importância, mas para um asiático extremamente embaraçoso. Numa sociedade onde, tradicionalmente, o pior dos infortúnios é a perda da face, há naturalmente um enorme cuidado nas relações sociais. É por isso muito comum, ao falarmos com um chinês, este salpicar as frases de “talvezes”, sobretudo as afirmações, com o intuito de não ofender o interlocutor. O cúmulo quase hilariante desta receita é quando nos é transmitido um facto evidente (perfeitamente observável) associado à expressão “talvez”. Por exemplo, perante a evidência da chuva: “talvez esteja a chover”. Outra manifestação desta peculiaridade da cultura chinesa é a pouca atracção por bebidas alcoólicas (embora, mais uma vez, esta tendência se esteja a inverter). Com efeito, os chineses não vêem com bons olhos a perda de controlo causada pela embriaguez, o que não deixa de ser bem visto. Um amigo contou-nos uma história elucidativa. Em certa ocasião ao passear com um grupo de chineses, reparou surpreendido num grupo de bêbedos ruidosos uns metros adiante, tendo comentado ser a primeira vez que via chineses ébrios. A isto um dos elementos do seu grupo apressou-se a replicar, não obstante a evidência do facto: eles não são chineses.

A visão que a sociedade tem do Eu é, assim, na cultura chinesa, muito mais importante do que a visão que o Eu tem de si mesmo. Com efeito, o individualismo europeu moderno opõe-se ao colectivismo que ainda subsiste na Ásia, não obstante as enormes modificações sofridas a partir do século XX. Curiosamente, há uma faceta que poderá ser chamada individualista na qual, em virtude da grande densidade populacional e dos baixos rendimentos, os chineses são um exemplo paradigmático: o “salve-se quem puder”.
O instinto de sobrevivência facilmente observável nas filas dos supermercados, nas bilheteiras de comboio e no trânsito caótico. O tráfego merece atenção especial aqui, pois é, sem dúvida, a mais impressionante destas realidades, para um ocidental imprevidente, desconhecedor do ainda pior trânsito (ao que parece) de outras cidades asiáticas.
De qualquer modo a regra parece-me ser a mesma: a ausência desta. Conduzir pela direita é apenas uma vaga referência, apenas útil em avenidas largas, o mesmo acontecendo em relação aos semáforos. Se os carros, fruto da sua dimensão, são obrigados a seguir algumas destas regras, as motas sofrem menos limitações, além de parecerem poder esgueirar-se por qualquer fresta. Se se tiver em conta que muitas destas não requerem carta de condução, é fácil entender o potencial de perigo nas estradas chinesas. Ainda assim, as coisas fluem surpreendentemente bem. O rácio acidente iminente/acidente materializado parece ser aqui bastante inferior ao paradigma ocidental.
Co-autoria: Diana Gui

Não percebo porque diz que é uma visão colectivista a vergonha do chinês que falhou. A mim parece-me uma história de responsabilidade individual. iaogang-journal-village-of-small-farmers-m arks-own-great-leap.html?pagewanted=all&src=pm
É ele o culpado.
Aliás isso é que é interessante, a recusa dos chineses usarem a sociedade como desculpa e aceitarem as responsabilidade individuais.
Nos EUA são o grupo com melhores resultados escolares e com o maior rendimento per capita.
Tanto que têm de mentir na raça para não serem prejudicados.
Na China ainda temos a famosa história dos agricultores de Xiaogong que decidiram partir uma propriedade colectiva em propridade privada em tempo de fome. Isto secretamente contra o partido que só mais tarde aceitou a mudança e agora já faz parte da história oficial aceite.
Se fosse cá seriam apelos à união total e única bla bla bla. Não admira que a história de Xiaogong nunca tenha aparecido por cá.
http://www.nytimes.com/1998/09/19/world/x
Mais uma boa história essa, lucklucky. Quanto à visão colectivista, é a minha interpretação, mas admito perfeitamente que possa estar errado.