Austeridade vs Reforma


José Maria Gui Pimentel,
Ouvia há pouco uma peça noticiosa que retratava a suposta incoerência de um dos autores do polémico relatório do FMI. Este “técnico”, que há poucos meses se havia manifestado veementemente contra as medidas de austeridade aplicadas na Europa, vinha agora, despudoradamente, argumentava a reportagem da TVI, defender precisamente mais austeridade.

Não é assim.

O que o relatório do FMI defende não é austeridade: é reforma do Estado. Embora o efeito de ambas no curto-prazo seja o mesmo — recessão — não são de todo a mesma coisa. Austeridade são as medidas temporárias que o Governo entende tomar para fazer face a um ciclo adverso; disto são exemplo os “brutais” aumentos de impostos, ou os cortes nos subsídios (se se admitir que são temporários). Já Reforma são as medidas de reestruturação do Estado: permanentes e, mais importante do que isso, inevitáveis. Isto porque se toma essas medidas com a noção de que o Estado, tal como está, é insustentável. 

Sendo esta Reforma inevitável, deve sem dúvida  haver uma discussão séria e detalhada sobre como a levar a cabo. Mas “pintá-la” como um aperto de cinto temporário e evitável é ignorância ou, pior, pura desonestidade intelectual*.

*A não ser que se acredite, com a extrema-esquerda, que existe um método indolor de reestruturar o Estado (atacando o “grande capital”, etc…). Nesse caso é apenas ignorância. 

15 comentários em “Austeridade vs Reforma”

  1. Caracterizar as ideias diferentes como “extrema esquerda” e afirma que pretendem uma solução indolor, creio que cai na categoria de “straw man”.

    O que os que não acreditam nesta política defendem é uma solução mais justa, no sentido em que não doa sempre aos mesmos e só a esses, e que leve a uma via de crescimento e revitalização da economia, e não a uma depressão sem fim.

    Pode discutir se as receitas são válidas ou não, mas se vai criticar, não invente um homem de palha.

    Quanto à reforma do Estado. Talvez haja uma reforma inevitável. E há certamente uma desejável. Mas não é esta que nos querem enfiar pelo cólon acima.

    1. Oiça, não é que não se deva “aleijar” também os outros, é necessário fazê-lo. Simplesmente isso por si só é insuficiente. Ou seja, uma reforma do Estado terá inevitavelmente que passar por “aleijar” também os mesmos, e vender a ideia contrária é ignorância ou desonestidade.

    2. “doa sempre aos mesmos e só a esses”

      Está dizer que os impostos devem baixar drasticamente para a maioria que os paga?

      Bem me parecia que não.
      A falta de vergonha aliada a tácticas que Orwell nos demonstrou continua de boa saúde.

  2. Pois… Diga-me se o corte de 7% nos salários do Estado e de 15% nas pensões é austeridade ou reforma?

    Quanto ao “indolor”: a grande questão não é saber se é ou não indolor, mas sim saber em quem mais dói! A Uns defendem os mais fracos, outros defendem outros…

      1. Resumindo: austeridade temporária mata a economia, mas se for definitiva (reforma) é uma boa solução! Ou, dito de outra forma, morte temporária não é bom, mas definitiva é ótimo!

        E se sentir que a austeridade lhe vai entrar como reforma (definitiva) no seu bolso, também pensa assim? É que soluções penosas para os outros também eu aponto muitas e extremamente eficientes!

  3. Das duas uma: ou esse técnico é colega do Artur Baptista da Silva ou o é o jornalista que produziu a notícia…

  4. “disto são exemplo os “brutais” aumentos de impostos, ou os cortes nos subsídios (se se admitir que são temporários)”

    Não são temporários, são permanentes. Mais virão.
    E ainda estamos a aumentar a dívida por isso não há austeridade alguma. O Estado ainda paga ordenados de FP, etc com dinheiro emprestado.
    Se o défice for 5% então 10% do que o Estado gasta é pedido emprestado ou seja mais de um mês de ordenado.

  5. Pena, pena, é esse relatório vir com algumas décadas de atraso. (Se o tempo tudo cura, também será caso para dizer que igualmente, e continuamente, traz mágoa.)

    Quantas vezes não cheguei à inevitável conclusão que apenas haveria uma solução viável e prática, ainda que a médio-longo prazo, quando uma entidade externa (res)estruturasse toda esta Politeia descaracterizada e desgovernada; cabendo às entidades nacionais o ‘real’ zelo pelo cidadão mas, na mesma prática, deixando a quem –supostamente– não se contamina numa panóplia de lobbies a “governação” de pastas especificas.
    É que sejamos francos, de nada serve uma soberania orçamental quando continuamente dá provas da sua “soberana incapacidade”.

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