Série: Um podcast por dia, nem sabe o bem que lhe fazia


José Maria Gui Pimentel,

 

Já há 7 ou 8 anos que sou um ávido consumidor de programas de rádio, na conveniente forma de podcasts. Este hábito tem essencialmente duas razões. Por um lado, os podcasts permitem-me escolher o que oiço, à semelhança do que faço também com a televisão. Por outro lado, uma das coisas que mais gozo me dão é conseguir momentos “dois-em-um” – ou, como prefiro pomposamente chamar-lhes, os meus Óptimos de Pareto (sim, no sentido lato) –, em que junto a uma tarefa necessária (deslocações rotineiras, tarefas domésticas, etc) outra útil ou agradável.

 

À custa das largas centenas de horas de auricular nos ouvidos que já acumulei, fui durante estes últimos anos descobrindo que se faz boa rádio, tanto cá como lá fora (com algumas excepções: Espanha, por exemplo, se faz, disfarça muito bem).

 

Durante as próximas três semanas, diariamente, partilharei um podcast que costumo ouvir – mais ou menos regularmente –, juntamente com um curto comentário.

 

Espero que gostem.

Blogue da Semana


José Maria Gui Pimentel,

Num período em que a evolução estrutural da sociedade e a conjuntura económica se juntam para fazer as pessoas trabalhar cada vez mais, aumentar os níveis de stress e criar distracções nocturnas, a privação de sono torna-se cada vez mais comum*. No blogue Em busca do sono perdido, Teresa Paiva e colegas ajudam a pesar as causas e encontrar possíveis soluções.

 

* veja-se, aliás, a notícia citada pelo Luís Menezes Leitão a propósito da privação de sono provocada pela mudança de hora. 

 

 

Por que é que alguns restaurantes escolhem não converter longas filas em maiores lucros?


José Maria Gui Pimentel,

 

Todos conhecemos restaurantes que têm, de uma forma persistente, longas filas (às vezes todos os dias da semana). Esse fenómeno traduz um excesso de procura face à oferta e implica, à partida, que o restaurante esteja a perder lucro, pois poderia servir o mesmo número de clientes a um preço mais alto, ou, alternativamente, servir um maior número de clientes (sem alterar o preço) se optasse por expandir. Há, no entanto, alguns restaurantes que claramente escolheram não pôr em prática nenhuma dessas opções, e que têm há vários anos longas filas. Trata-se de uma peculiaridade curiosa deste tipo de negócio. Repare-se que seria o mesmo do que termos persistentemente dificuldade em comprar um determinado bem de consumo, sem que a empresa que o produz optasse por aumentar o preço ou a quantidade produzida.

 

Mas poderá este comportamento ser racional? Talvez, se o restaurante retirar algum benefício deste excesso de procura ou, alternativamente, se o aumento do preço ou a expansão do espaço puderem provocar uma queda abrupta na procura.

 

Uma possibilidade é que os clientes “fixem” a sua noção de preço-justo ao preço inicial que lhes é apresentado, o que poderia gerar um êxodo de clientes se os preços fossem aumentados, mesmo que gradualmente.

 

Outra hipótese é que o nível de procura esteja dependente do nível original de oferta, isto é, da dimensão inicial do restaurante. Este fenómeno pode ocorrer por vários motivos, seja porque um restaurante que opte por aumentar a lotação pode perder a sua aura de autenticidade, e até qualidade (criando a percepção de um serviço indiferenciado), seja porque a frequência de um restaurante pequeno, e portanto de serventia limitada, confere uma sensação de exclusividade a clientes preocupados com a diferenciação face aos demais.

 

Um outro conjunto de soluções é aventado por Gary Becker (prémio o Nobel em Economia em 1992), que põe a hipótese de que “a procura individual seja positivamente relacionada com a procura de outros consumidores”, uma vez que a subida desta faz aumentar a percepção do valor do restaurante em questão, seja por torná-lo popular, seja por atestar a sua qualidade (ou ainda, acrescentaria, por fazer aumentar a probabilidade de os alimentos serem frescos). Becker vai mais longe e sugere uma hipótese ainda mais heterodoxa: que a procura possa estar positivamente relacionada com o próprio excesso de procura (neste caso: a dimensão da fila), designadamente com a utilidade que a permanência na fila possa conferir. Por um lado, a espera em fila pode ser útil por aumentar o benefício da exclusividade, seja pela possibilidade extra para os clientes de se mostrarem em determinado restaurante, seja pelo facto de a necessidade de esperar ajudar a conferir uma aura de exclusividade que está normalmente associada a preços elevados. Por outro lado, a mesma espera em fila possibilita a camaradagem entre quem espera, o que pode ser agradável, por exemplo, para clientes do mesmo extracto social ou com outro tipo de afinidades pré-definidas. Uma outra possibilidade ainda é que o excesso de procura seja directamente benéfica para o restaurante, na medida em que ajuda a alimentar a publicidade (“boca-a-boca”) e, consequentemente, a aumentar a procura agregada.

 

Qualquer destas explicações – ou mesmo o conjunto delas – é provavelmente curta. Mas isso, acho, só torna o fenómeno mais curioso.

Incentivos


José Maria Gui Pimentel,

Costumo comentar que a economia, mais do que a ciência que estuda a “alocação eficiente dos recursos escassos”, é a ciência que estuda os impacto dos incentivos. É esse o seu maior contributo para o conhecimento. E o texto abaixo ilustra não só um belo exemplo disso mesmo, como um que vemos aplicado inúmeras vezes no dia-a-dia:

 

Adam Smith’s celebrated theory of the invisible hand is the idea that individual pursuit of self-interest promotes the greatest good for all. When reward depends primarily on absolute performance – the standard presumption in economics – individual choice does indeed turn out to be remarkably efficient. But when reward depends primarily on relative performance, as in hockey, the invisible hand breaks down.

 

Because a “good” school is an inescapably relative concept, each family’s quest to provide a better education for its children has much in common with the athlete’s quest for advantage. Families try to buy houses in the best school districts they can afford, yet when all families spend more, the result is merely to bid up the prices of those houses. Half of all children will still attend bottom-half schools.

 

(…) individuals can often increase the odds of promotion by working longer hours, but when others follow suit, everyone’s promotion prospects remain roughly as before. The result is often a rat race in which all must work until 8 o’clock each evening merely to avoid falling behind.

 

 

Justamente


José Maria Gui Pimentel,

It is true that the answers to many “big picture” macroeconomic questions — like the causes of recessions or the determinants of growth — remain elusive. But in this respect, the challenges faced by economists are no different from those encountered in medicine and public health. Health researchers have worked for more than a century to understand the “big picture” questions of how diet and lifestyle affect health and aging, yet they still do not have a full scientific understanding of these connections. Some studies tell us to consume more coffee, wine and chocolate; others recommend the opposite. But few people would argue that medicine should not be approached as a science or that doctors should not make decisions based on the best available evidence.

Um biorritmo peculiar


José Maria Gui Pimentel,

Lembro-me de ter lido um artigo na Sábado – um raro bom artigo, hoje em dia – sobre as especificidades do sistema político português. Havia várias muito curiosas. Ficaram-me três na retina. A primeira o surgimento – e o rápido crescimento nos últimos anos – de ex-políticos (sendo que o prefixo “ex” é, naturalmente, questionável) como comentadores políticos, retirando protagonismo a jornalistas, politólogos, etc… A segunda dizia respeito à predisposição dos governantes portugueses para prestarem declarações sempre que fazem uma aparição pública, algo que não é normal no resto da Europa.

A terceira, e talvez mais curiosa, dessas particularidades portuguesas prendia-se com o peculiar biorritmo da nossa atividade política. Enquanto nos restantes países europeus – mesmo incluindo os chamados “países mediterrânicos” – os grandes anúncios políticos são feitos normalmente da parte da manhã, ficando o resto do dia para a análise dos comentadores, as reações dos vários intervenientes e até a reflexão dos cidadãos, em Portugal o prime time político ocorre já após o dia normal de trabalho, perto ou sobre a abertura dos telejornais. Lembro-me sempre desta peculiaridade do sistema quando surgem já ao fim do dia intervenções importantes do Primeiro-Ministro, da Ministra das Finanças, dos juízes do Tribunal Constitucional (da última vez que me lembro já passava das 20h30m), do Presidente da República ou, como foi o caso de hoje, do Vice-Primeiro-Ministro. Como se fosse às 20h que, qual coruja, o país tivesse o seu pico de actividade. É um sistema curioso, algo perverso, e que merecia um estudo sociológico Curiosamente, as únicas excepções a esta norma de que me recordo no passado recente são as avaliações da troika…et pour cause…

Livros de cabeceira (4)


José Maria Gui Pimentel,

 

Com todas as vantagens que lhe saliento, uma mesa-de-cabeceira virtual tem inegavelmente muito menos que se lhe diga do que uma mesa física. Quase tenho vergonha de a colocar aqui. Mas, enfim, são os trade-offs, a que qualquer um com formação em Economia está habituado. Destes quatro volumes, o Asterix é um dos três ou quatro da série que re-re-reli recentemente. Sempre agradável, embora continue a preferir Tintin. O Great Gatsby e Dreams of Joy foram deixados a meio, nem sei bem por quê, mas serão certamente recuperados, até porque qualquer um dos dois vale a pena. O primeiro por motivos óbvios, o segundo por ser irresistível para quem andou pelo Oriente. La cultura – Todo lo que hay que saber, de Dietrich Schwanitz, polémico professor universitário alemão, é o livro que agora estou a ler. Tem, aliás, uma história engraçada nas minhas mãos, visto que o tentei ler pela primeira vez quando tinha 15 anos, com muita boa vontade mas pouco sucesso. Estamos agora a ajustar contas e, para já, recomendo.

 

Adeus “Reforma do Estado”?


José Maria Gui Pimentel,

Começam a ser demasiados os indícios para ignorar o que se vai tornando evidente: o Governo não consegue cortar a despesa do Estado, nomeadamente no que diz respeito àquela poupança que não poderia ser obtida simetricamente através de aumentos de impostos.

Em março, o ainda Ministro das Finanças Vítor Gaspar anunciou o ajustamento orçamental planeado para 2014: 1.5% do PIB. Cinco meses volvidos, e mesmo perante uma conjuntura económica um pouco melhor, esse ajustamento aumentou para 2.3% (e pode não ficar por aqui), segundo os números divulgados ontem pela Ministra das Finanças. Deste incremento de 0.8 %, 0.3% resultam da derrapagem orçamental ocorrida em 2013 (o défice sem receitas extraordinárias vai ficar este ano acima dos 5.5% acordados com a troika) e 0.5% de uma rúbrica descrita sucintamente como “pressões em 2014”, que é parcialmente compensada pela referida melhoria do cenário macroeconómico. Note-se, também, que embora desta vez o grosso das medidas de austeridade esteja — finalmente — concentrado do lado da despesa, a verdade é que os cortes nos consumos intermédios correspondem apenas a 0.3% do PIB; ou seja, uma pequena parte dos 2.3% do ajustamento total. Isto, claro, admitindo que o Governo os consegue realizar, algo que, tendo em conta o passado recente, parece difícil. Por outras palavras, a dita Reforma do Estado, aquela para a qual se esperava que o Governo tivesse engenho, fica grandemente na gaveta, pois a maioria do ajustamento vem de “medidas de computador”:  despedimentos, cortes de salários e reduções de subsídios.

Blogue da Semana


José Maria Gui Pimentel,

Mainly Macro é um dos melhores blogues sobre macroeconomia. Mesmo com um nome tão específico, o autor não deixa de tentar descansar os leitores, afirmando que se trata de um blogue também para “não economistas”. A escrita é, de facto, clara. Já os temas abordados poderão interessar a uma minoria.

O que estou a ler (3): ” História de Portugal”, por Bernardo Vasconcelos e Sousa, Nuno Gonçalo Monteiro e Rui Ramos


José Maria Gui Pimentel,

Depois do bisanço da ficção científica, segue-se – naturalmente, pois – um livro de História.

 

Esta História de Portugal não esconde ao que vem, pretendendo assumidamente constituir uma nova obra de referência na historiografia portuguesa, incorporando “os resultados das pesquisas e reflexões das mais recentes gerações de historiadores”. Como tal, e embora se procure um “texto legível e claro”, existe sempre uma primazia do conteúdo sobre a forma, o que pode tornar a sua leitura menos aliciante para algum público. Mas não poderia ser de outra forma.

 

Ao longo da obra (que ainda estou a ler – apenas para não fugir ao espírito da série, claro está) são evidentes várias “marcas” da abordagem que os autores pretenderam utilizar.

Antes de mais, é clara a intenção dos autores não só de fornecer uma análise imparcial mas – mais do que isso – de dar ao leitor os elementos necessários para este elaborar a sua própria opinião; estando assim praticamente ausentes conclusões definitivas em relação à acção de determinada personagem histórica. Claro que esta opção faz-se em parte sacrificando a atracção do interesse do leitor, mas numa obra com este propósito não poderia ser de outra forma. Na mesma linha, os autores procuram de um modo muito claro fugir aos episódios mais romanceados da História portuguesa, dando exclusividade ao valor intrínseco de cada evento. Fazem-no de um modo, porventura, exagerado, passando ao lado de episódios cuja referência viria completamente a propósito e em que se gastaria não mais do que meia dúzia de palavras. Acresce que há episódios e detalhes que, pelo seu carácter simultaneamente representativo e inusitado (aos olhos contemporâneos), constituiriam exemplos perfeitos para determinadas ideias expostas, ao mesmo tempo que ajudariam a manter o interesse do leitor (o que, não sendo o objectivo primário do livro, não deixa de ser importante).

 

Outro aspecto em que me teria agradado outra perspectiva diz respeito à comparação internacional. Um livro deste tipo teria muito a ganhar em dar maior relevo a uma perspectiva mais relativa da nossa História face à História da Europa e do Mundo. Claro que tal implicaria um livro mais espesso, mas determinadas análises extensivas que o livro contém tornam-se, sem essa contextualização, relativamente espúrias. Em todo o caso, imagino que na análise da idade contemporânea (a cargo de Rui Ramos) esse tipo de comparações seja mais frequente.

 

Finalmente, é perceptível a dificuldade dos autores ao longo do texto em conciliar uma linha necessariamente cronológica com o objectivo declarado de expor as dimensões “política, económica, social e cultural” da História de Portugal. Por vezes, essa gestão torna-se algo confusa, quando o texto se concentra durante longas páginas numa dessas dimensões (ou mesmo a diferentes frentes dentro de cada uma) em detrimento do fio condutor cronológico.

 

Em suma, e apesar de algumas vertentes em que é porventura menos feliz, trata-se de uma obra inegavelmente completa – a vários níveis – e, sobretudo, fresca, na medida em que possibilita uma apreciação simultaneamente esclarecida e imparcial, dentro dos dados verdadeiramente fidedignos que nos chegaram até hoje, os quais, particularmente na idade média, estão longe de ser abundantes e claros. 

 

Siga a série, com o José Navarro de Andrade.

Blogue da Semana


José Maria Gui Pimentel,

A China é, porventura, o país do Mundo que maior choque cultural provoca aos imigrantes ocidentais, o que faz dos blogues que relatam as suas experiências uma mina de histórias inesperadas. De entre os vários exemplos, o Peking Duck é, sem dúvida, uma boa escolha. 

 

Recentemente, tem sido muito discutido se é possível a um estrangeiro adaptar-se completamente à sociedade chinesa, uma polémica que foi espoletada pela decisão de dois expatriados — Mark Kitto, primeiro, e Charlie Custer, depois — de deixar o país, ou, melhor dizendo, pelos motivos que invocaram para o fazerem.

Ainda a propósito do aumento do salário mínimo


José Maria Gui Pimentel,

É, curiosamente, um assunto que está também a ser discutido do outro lado do Atlântico. A propósito disso, vale a pena ler este artigo. Apenas uma advertência, a análise é boa, mas importa ter algo em conta: o caso português é de uma economia em profunda recessão, não de uma economia americana em recuperação (lenta, mas real), e muito menos de uma economia saudável (que compõe grande parte da amostra dos estudos efectuados).

Uma pobreza…


José Maria Gui Pimentel,

Sou o primeiro a defender que uma sociedade democrática e capitalista deve conceder a ricos e pobres os mesmos direitos. E reconheço que em Portugal, se é verdade que na maioria das vezes os pobres são grosseiramente ignorados, também o é que os endinheirados, uma vez caídos nas bocas do mundo, se vêem muitas vezes privados de alguns direitos, olhados com um misto de asco “savonarolesco” e de inveja pelo povo (como é típico nas sociedades de tradição católica), como se ser rico fosse sinónimo de ser desonesto.

 

Por isso, encarei com naturalidade, apesar do nome caricato, o movimento dos reformados indignados (MRI), encabeçado por Filipe Pinhal. Como o próprio disse, trata-se de pessoas que descontaram toda a vida “a contar com determinados rendimentos e que agora não podem contar com eles.” De facto, e se outros argumentos não bastassem, se não queremos que os ricos fujam, ou que depositem o seu dinheiro no estrangeiro, temos que lhes aplicar as mesmas regras e conceder os mesmos direitos dos restantes cidadãos.

 

Mas a minha benevolência teve um fim prematuro ao assistir hoje à conferência de imprensa de Filipe Pinhal, em que este não resistiu a apoderar-se de um jargão que, se na boca de alguns já soaria a demagogia, utilizado pelo ex-presidente do BCP parece mesmo uma piada de mau gosto. Pinhal falou dos “pobres dos reformados” que representa, acrescentando que se trata de pessoas “indefesas”. Como quer Filipe Pinhal que reaja um reformado efectivamente pobre e verdadeiramente indefeso perante palavras tão desadequadas, senão com a mesma indignação que este faz sua? Enfim, uma pobreza…de argumentação.

 

Com ricos destes, o que podemos exigir da nossa (já decadente) classe-média? É este tipo de episódios, assim como outros reveladores desta e de outras idiossincrasias nacionais, que me faz questionar, o que terá nascido primeiro: o ovo (o autismo dos ricos) ou a galinha (a presunção de desonestidade que os pobres lhes atribuem)? 

 

Sinais positivos


José Maria Gui Pimentel,

Nos tempos que correm é particularmente difícil que um candidato às eleições internas de um partido nos entusiasme: se já lhe conhecíamos a cara, não passa de “mais do mesmo”; se nunca o tínhamos visto, então é certamente alguém à procura de protagonismo, sem ideias nem tino.

 

João Nogueira Santos, o quarto candidato à liderança do PS, e que reconhece à partida não ter hipóteses, cai facilmente na segunda categoria. Talvez até o mereça, a ver vamos, mas as suas ideias merecem um pouco de atenção.

 

Foi há poucos meses que o ouvi expor as suas propostas e achei-as desde logo um bálsamo, uma perspectiva diferente, realista e ao mesmo tempo positiva, para o futuro da democracia. Nogueira Santos formou um movimento, “Adere vota e intervém dentro de um partido”, no qual desafia os cidadãos a fazerem mais do que esperar passivamente as mudanças que entendem dever ocorrer. Esta ideia poderá parecer simples – quiçá simplista – mas identifica com precisão aquela que é a maior falha da nossa democracia: nós. Este diagnóstico vai mais longe do que a avaliação simplista que afirma que os nossos políticos são a nossa imagem. É mais específico, e sobretudo mais irrefutável. Nas últimas décadas, uma vez findas as paixoes de Abril, os cidadãos foram-se progressivamente alheando da actividade partidária (e da cidadania), deixando os partidos (designadamente os do Centrão) vazios de ideias novas, a saque dos chamados políticos profissionais que agora vemos a controlar a actividade partidária. E este comportamento foi-se auto-alimentando. À indiferença dos cidadãos para com os partidos, assim que começou a jorrar o dinheiro de Bruxelas, seguiu-se o desencanto, quando a torneira fechou, assim deixando os partidos controlados por uma minoria não representativa da sociedade-civil. Tudo isto perante o beneplácito passivo dos eleitores, que, embora cada vez mais descontentes, optaram por intensificar, em lugar de inverter, o êxodo dos partidos e da cidadania. A pergunta que o João Nogueira Santos coloca resume-se assim: como podemos criticar os candidatos que nos apresentam, como podemos afirmar que nenhum presta, se nos recusamos a levantar do sofá e intervir? É uma pergunta a que é difícil ficar indiferente.

É, ou não, mérito do Governo o regresso aos mercados? (2)


José Maria Gui Pimentel,

Em resposta ao gráfico bem trazido pelo jaa, e aos restantes comentários feitos aqui, vê-se no gráfico acima que os spreads dos periféricos estão, de facto, em queda desde o início de 2012. Uma queda que se tornou mais pronunciada, e sobretudo mais significativa, a partir do final de novembro. O que nos traz àquilo que eu estava a querer dizer: as palavras e as acções de Draghi tiveram, sem dúvida, um efeito importante, mas foi o facto de os líderes do euro, particularmente Angela Merkel, terem juntado o seu destino ao da Grécia e dos restantes periféricos que capacitou os investidores de que se havia alcançado um ponto de não retorno.

Dito isto, e fazendo uma cronologia breve, ainda no início do ano o BCE concedeu pela 2ª vez elevados montantes em fundos de longo-prazo aos bancos, enquanto a Alemanha e restantes países ditos core se começaram a comprometer com medidas no sentido de maior integração orçamental. No início de março, os mesmos países core comprometeram-se mais com o destino da Grécia ao concederem um novo empréstimo. Ainda na Grécia, o governo reestruturou a dívida detida por privados. Em meados do ano, a coisa começou irreversivelmente a inverter-se. No Conselho Europeu de final de junho, os países anunciaram medidas para aprofundar a integração. No final de julho, Draghi proferiu as famosas declarações, afirmando que “o euro é irreversível”, levando a que no início de setembro anunciasse que o BCE estava disponível para intervir no mercado secundário de dívida pública, no sentido de auxiliar os países sob pressão. Finalmente, no início de dezembro, na reunião do ECOFIN chegou-se a um acordo para a formação do mecanismo único de supervisão (MUS), que tinha sido acordado em traços gerais na cimeira de final de junho.

Paralelamente, é verdade que se verificou um alargamento das políticas monetárias expansionistas dos principais bancos centrais, o que ajudou a redireccionar fundos para os activos de maior risco (e, por isso, maior retorno).

Note-se, ainda, o caminho divergente da dívida espanhola, cujo spread é o único que se mantém acima dos níveis do início de 2012, uma vez que aos problemas orçamentais e do sistema financeiro se alia a dimensão problemática do país (que dificultará um resgate externo).