Depois do bisanço da ficção científica, segue-se – naturalmente, pois – um livro de História.
Esta História de Portugal não esconde ao que vem, pretendendo assumidamente constituir uma nova obra de referência na historiografia portuguesa, incorporando “os resultados das pesquisas e reflexões das mais recentes gerações de historiadores”. Como tal, e embora se procure um “texto legível e claro”, existe sempre uma primazia do conteúdo sobre a forma, o que pode tornar a sua leitura menos aliciante para algum público. Mas não poderia ser de outra forma.
Ao longo da obra (que ainda estou a ler – apenas para não fugir ao espírito da série, claro está) são evidentes várias “marcas” da abordagem que os autores pretenderam utilizar.
Antes de mais, é clara a intenção dos autores não só de fornecer uma análise imparcial mas – mais do que isso – de dar ao leitor os elementos necessários para este elaborar a sua própria opinião; estando assim praticamente ausentes conclusões definitivas em relação à acção de determinada personagem histórica. Claro que esta opção faz-se em parte sacrificando a atracção do interesse do leitor, mas numa obra com este propósito não poderia ser de outra forma. Na mesma linha, os autores procuram de um modo muito claro fugir aos episódios mais romanceados da História portuguesa, dando exclusividade ao valor intrínseco de cada evento. Fazem-no de um modo, porventura, exagerado, passando ao lado de episódios cuja referência viria completamente a propósito e em que se gastaria não mais do que meia dúzia de palavras. Acresce que há episódios e detalhes que, pelo seu carácter simultaneamente representativo e inusitado (aos olhos contemporâneos), constituiriam exemplos perfeitos para determinadas ideias expostas, ao mesmo tempo que ajudariam a manter o interesse do leitor (o que, não sendo o objectivo primário do livro, não deixa de ser importante).
Outro aspecto em que me teria agradado outra perspectiva diz respeito à comparação internacional. Um livro deste tipo teria muito a ganhar em dar maior relevo a uma perspectiva mais relativa da nossa História face à História da Europa e do Mundo. Claro que tal implicaria um livro mais espesso, mas determinadas análises extensivas que o livro contém tornam-se, sem essa contextualização, relativamente espúrias. Em todo o caso, imagino que na análise da idade contemporânea (a cargo de Rui Ramos) esse tipo de comparações seja mais frequente.
Finalmente, é perceptível a dificuldade dos autores ao longo do texto em conciliar uma linha necessariamente cronológica com o objectivo declarado de expor as dimensões “política, económica, social e cultural” da História de Portugal. Por vezes, essa gestão torna-se algo confusa, quando o texto se concentra durante longas páginas numa dessas dimensões (ou mesmo a diferentes frentes dentro de cada uma) em detrimento do fio condutor cronológico.
Em suma, e apesar de algumas vertentes em que é porventura menos feliz, trata-se de uma obra inegavelmente completa – a vários níveis – e, sobretudo, fresca, na medida em que possibilita uma apreciação simultaneamente esclarecida e imparcial, dentro dos dados verdadeiramente fidedignos que nos chegaram até hoje, os quais, particularmente na idade média, estão longe de ser abundantes e claros.
Siga a série, com o José Navarro de Andrade.