Lembro-me de ter lido um artigo na Sábado – um raro bom artigo, hoje em dia – sobre as especificidades do sistema político português. Havia várias muito curiosas. Ficaram-me três na retina. A primeira o surgimento – e o rápido crescimento nos últimos anos – de ex-políticos (sendo que o prefixo “ex” é, naturalmente, questionável) como comentadores políticos, retirando protagonismo a jornalistas, politólogos, etc… A segunda dizia respeito à predisposição dos governantes portugueses para prestarem declarações sempre que fazem uma aparição pública, algo que não é normal no resto da Europa.
A terceira, e talvez mais curiosa, dessas particularidades portuguesas prendia-se com o peculiar biorritmo da nossa atividade política. Enquanto nos restantes países europeus – mesmo incluindo os chamados “países mediterrânicos” – os grandes anúncios políticos são feitos normalmente da parte da manhã, ficando o resto do dia para a análise dos comentadores, as reações dos vários intervenientes e até a reflexão dos cidadãos, em Portugal o prime time político ocorre já após o dia normal de trabalho, perto ou sobre a abertura dos telejornais. Lembro-me sempre desta peculiaridade do sistema quando surgem já ao fim do dia intervenções importantes do Primeiro-Ministro, da Ministra das Finanças, dos juízes do Tribunal Constitucional (da última vez que me lembro já passava das 20h30m), do Presidente da República ou, como foi o caso de hoje, do Vice-Primeiro-Ministro. Como se fosse às 20h que, qual coruja, o país tivesse o seu pico de actividade. É um sistema curioso, algo perverso, e que merecia um estudo sociológico Curiosamente, as únicas excepções a esta norma de que me recordo no passado recente são as avaliações da troika…et pour cause…
