O menor de todos os males


José Maria Gui Pimentel,

Confesso que mudei de opinião recentemente – como não sou político, posso felizmente admiti-lo à boca cheia. Se antes pensava que um governo de bloco central não era uma solução desejável, era até mau para a democracia, agora penso justamente o contrário.

 

O tipo de medidas que o governo tem que tomar serão inevitavelmente impopulares. Tão impopulares que ameaçam, e estão a ter esse efeito, deixar o governo sozinho, abandonado não só pelo PS, que também assinou o memorando, mas também pelos próprios partidos que o sustentam.

 

Passos e Gaspar, mal ou bem, estão-se mesmo “nas tintas para as eleições”. Estão genuinamente determinados em fazer cumprir o seu programa e pouco importados com as consequências colaterais. Já os partidos que sustentam o governo estão verdadeiramente aterrorizados, principalmente o PSD (visto que o CDS poderá até, em última análise, sair beneficiado). O PSD extra-governo olha para um futuro não muito distante e rapidamente percebe que um falhanço do governo, e sobretudo a tomada de medidas como a da TSU, poderão apagar o PSD do mapa já nas próximas eleições. Já o PS de Seguro está numa encruzilhada, da qual se vai tentando desenvencilhar. Preso ao memorando, vai procurando escapes para se indignar, aproveitando o facto de o acordo estabelecer os fins, mas não (ou nem sempre) os meios, sendo estes por conseguinte criticáveis (embora fazê-lo sem apresentar alternativas seja mais difícil). A TSU foi, neste quadro, como água no deserto para um Seguro sedento, na medida em que, pela primeira vez, o governo deu um passo além-memorando. Temos, portanto, um quadro em que ao barulho inevitável dos partidos da extrema-esquerda se junta o burburinho cada vez mais ensurdecedor do CDS, do PSD e do PS, com cada vez mais vozes destes partidos – históricas ou não históricas – a virem a terreno mostrar o seu afastamento do governo. Este resultado tem causas relativamente evidentes: o PS está na oposição, e por isso tem todos os incentivos para sublinhar as suas diferenças face ao governo, por mais constrangido que esteja; o PSD, por seu lado, tem cada vez mais incentivos para não ficar quieto, não só como resposta ao PS, mas também porque vê o seu governo trilhar caminhos altamente perigosos para o futuro do partido.

 

A única solução para evitar o fim que se adivinha, dentro da esfera da democracia, é um bloco central. Claro que esta opção teria sido impossível em 2011, porque Sócrates nunca a aceitaria (embora Cavaco pudesse ter intervindo mais vigorosamente no pós-eleições, depois da demissão de Sócrates). Agora, porém, numa altura em que se confirmou que o caminho traçado é mais difícil do que os mais optimistas previam, com o governo a ter que tomar medidas que os eleitores já não entendem ter sido sufragadas, é do interesse de todos os partidos do “arco do poder” optar por esta solução. A sua recusa poderá implicar uma queda do governo e subsequentes novas eleições, em que figurarão um PSD em pedaços e um PS sem capacidade para explicar aos eleitores como fará diferente dos últimos governos. Embora, mesmo nestas condições, possa vir a sair, à tangente, um derradeiro governo moderado, haveria um enorme risco de que os eleitores, e com toda a legitimidade, entregassem o poder a quem, para todos os efeitos, ainda não lhes falhou. 

11 comentários em “O menor de todos os males”

  1. “A TSU foi, neste quadro, como água no deserto para um Seguro sedento, na medida em que, pela primeira vez, o governo deu um passo além-memorando.”

    Além?
    Atendendo ao grau de mentira da campanha eleitoral o próximo grau, bloco central é inevitável e para o regime que não é mais que uma democracia populista
    depois desse passo que obviamente não vai resultar não será só bloco central… quer o PCP ou BE serão chamados.

    1. Além sim, as medidas anteriores eram necessárias para cumprir o memorando, a TSU – ou parte dela, devido ao estímulo às empresas – não era.

      O resto que escreveu não percebi bem, mas PCP e BE num bloco central é impossível.

      1. Enquanto o PCP mantiver o Marxismo Leninismo na Gaveta não há praticamente diferenças entre o PCP e o CDS, os “extremos” do regime.

        Vejamos SNS, Escola Publica, Sistema de Pensões, CGD, RTP, quantidade de ministérios…
        Diga-me onde o CDS discorda do PCP?

  2. Às vezes fico a pensar que o pessoal não leu o memorando e suas atualizações.

    Se as pessoas não gostam, é mau; porque foi o que elas “gostaram” durante 20 anos que nos fez caír na bancarrota.
    Sim, as pexoas…esqueceu-se a elite que numa economia sem indústria/agricultura o que é bom para as pexoas é mau para o contribuinte, porque este é assaltado para dar.

    Foi o joguete Social-demo/socialista democrático (ao nível de ideias a mesma coisa, tirando umas palermices, as caras sao diferentes) que fez o lodaçal em que estamos.

    Mergulhados em dezenas de direitos escritos que nada mais serão que despesa com “toner” de impressão, e só!, pois não há dinheiro para os pôr de pé e com corpo, temos a ilusão “Tribunal Constitucional”.
    A Constituição foi construída por PS/PSD. Acreditava-se que nao havia limites ao crescimento. Era a moda pós-guerra (1945).

    Era gastar. ( paleio estrutural, pós-modernista, marcuse, keynes, derrida, o outro planeta, Terra2, o “id” pode ser realizado por todos).
    O dinheiro viria…com o crescimento sob dinheiro emprestado.

    Então, era a “escalada do desenvolvimento”, a “sociedade para o conhecimento”, “paixão e educação”,”janela de oportunidades”, “investimento sustentado”, “livre desenvolvimento das gerações”, “estruturas que nos ligam à Europa”, …etc etc..

    Mais camionetas, mais escolinhas, mais hospitais, mais doces, metros e borlas, mais carreiros de ouro, mais bola, mais vielas douradas, mais diplomas, mais diplomados, mais direitos de contraditório e recurso, apoio judiciário, mais tira-boi-mete-vaca, ora disto e daquilo, mais disto e daquilo, e…o habermasiano fastio com a completa indiferença do contribuinte e a inconsciência dos governantes.

    País de tanga, bramiu um dos últimos tiranetes. (O anterior tinha fugido.)
    O povo, esse, quando ouvia os pessimistas, os velhos do restelo, os reaças, esses malvados, fugia e vociferava….queriam “todos era “um carrinho novo”, andar no shopping forrados, e uma ida ao restaurante de luxo, pois já éramos ricos, nesta Europa que cheira a fedor de ódios.

    O CDS de Adriano Moreira, de Manuel Monteiro, de Portas I (o II não percebeu ainda), ainda avisava…mas o povo, esse, queria era borlices, e não votaria nunca naqueles que queriam mais ricos para Portugal, mais bate pé pela nossa agricultura, …logo menos treta ou coisinhas estatais, logo menos ataque ao esforçado, ao que não vive à sombra da mama estatal, …votava nos que os põe imediatamente, no momento, felizes, “ricos”…

    Ainda querem PSD-PS????

  3. mmmm, pois, parece-me bem, tudo bem, excepto não ter aí uma parte que diga que o governo português, a estrutura democracia nacional, desde a entrada da troika é uma treta, uma farsa, uma ilusão que só mantêm o “teatrinho” para aguentar a temperatura social, porque não são eles que governam, como prova disso é essa mesma despreocupação com eleições, que você menciona.
    Palhaçada, ouvi-los e vê-los a dizer Portugal bla bla bla , Portugal bla bla bla , mais parecem moribundos de um hospício delirando sobre uma memoria passada, talvez do tempo da Expo ou do Europeu.

      1. Só acho que, ou aceitamos Europa a 100% ou aceitamos soberania a 100%. Isto do empurra para o lado que melhor desembaraça, não tem pernas para andar muito mais.
        Esta mais do que visto que não somos soberanos, o governo paga as favas mas outro que lá estivesse pagava na mesma. Chegamos ao ponto do ridiculo.
        Uma luz, procura-se uma luz. Não há politico que a consiga dar porque a única que temos neste momento (na minha opinião) é esta:

        http:/ http://www.publico.pt /Mundo/ministro-das-financas-alemao-defende-eleicao-directa-de-presidente-da-comissao-europeia–1566124

  4. Desde que Seguro disse que “de um lado estava o governo e a troika, e do outro o PS”, e o PCP, a Inter, o Bloco de Esquerda, digo eu, que defendo que Passos Coelho deve aprovar o OE/2013, e a seguir apresentar a demissão ao Presidente da Républica. Depois, eleições lá para janeiro do proximo ano.
    Como é previsivel o PSD ficará nos 20-25%, haverá uma maioria de esquerda muito signifivativa que é anti-troika, e é essa maioria que deve governar, e quem liderar o PSD, seja Passos Coelho ou outro qualquer, deve deixar bem claro aos portugueses que não contribuirá para nenhuma solução de governo que não seja a actual, porque o que está em causa é a escolha entre a troika que nos está a financiar, ou em alternativa, o caminho anti troika que ninguem sabe onde é que vai buscar o dinheiro, e se os portugueses maioritáriamente escolherem esta solução, é por aí que o país deverá seguir.
    Bloco Central, NÃO! muito obrigado.

  5. Propõe-se:

    –que os melhores de cada partido avancem, sob a égide do PR, e não se fiquem pelos bastidores do comentário. Chega de choninhas, betos de meia-tigela, …precisa-se gente com vida ativa, com profissao cá fora.

    –que se trabalhe; isto é, não basta abanar por detrás de balcão ou numa sala de aula, ou numa enfermaria;

    –justificar o ordenado: produzir.

    –proíbir a criação de comissões, comités, estudos. Ou se sabe, ou nao se sabe. Neste último caso, rua.

    –nao fazer politica sob o compasso mediático;

    p. ex..

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