Comentários nocivos, batalhas a ganhar


Patrícia Reis,

Quando comecei a trabalhar tinha 17 anos, pouco depois fiz 18. Era O Independente. Respondi a um anúncio e entrei por provas. Fui a única que entrou assim. Aprendi muito, esfolei-me, ri e chorei e ouvi coisas que achei impossíveis. As redacções de jornal não são lugares de grande elevação moral, portanto era muito fácil maldizer a rapariga que por ali trabalhava que nem uma moira. Fui enfiada em várias camas. Várias de pessoas que nem conheço. Homens e mulheres. Quando assumi a minha primeira relação amorosa digna desse nome, alguém me disse, um jornalista do Expresso: não percebo o fascínio que as raparigas têm com os homens cuja sexualidade é duvidosa. Nada me podia doer mais, estava apaixonada. Passou.

Fui aprendendo a defender-me até ao momento em que, passados 26 anos de trabalho activo e muito produtivo  (bom e mau, evidente), tenho de explicar aos meus filhos como é que podem ofender ou insinuar coisas sobre mim que não são reais, próximas da verdade. Não sou – nem de perto, nem de longe – a única mãe nestas condições e, felizmente, não sou uma figura que aparece nas revistas ou na televisão dia sim, dia não.

E vem tudo isto a propósito do quê? Muito simples: comentários sem sentido, cheios de uma hostilidade que me faz pensar que o grande elixir da felicidade para algumas pessoas é mesmo o dizer mal, é ser mesquinho, é não saber o significado da palavra empatia. Pior: há pessoas que, por não concordarem connosco, limitam-se a atacar e, muitas vezes (a maioria) sem procurar fundamentos para o tal ataque. São gratuitos na sua brutalidade e estupidez. Ora, é muito saudável concordar que discordamos. É muito bom discutir ideias e não atacar simplesmente. Alguns dos comentários deixados neste blogue, no meu blogue pessoal, no meu mural do Facebook são tão desprezíveis que me envergonham.

Claro que haverá sempre quem não tenha vergonha na cara ou tento na língua. As redes sociais são maravilhosas como forma de partilha. Como arma de ataque são uma cobardia se forem apenas isso: ataque. Posso perder esta batalha e continuar a insistir em algo incrível que é a minha ingenuidade e crença nas pessoas, mas, caramba, a guerra é feita de muitas batalhas e, no fim, não vou estar sozinha. 

11 comentários em “Comentários nocivos, batalhas a ganhar”

  1. Não sei do que falas, não sei, em concreto, nem quero saber, do que falas. Tenho do alto, desta já um pouco avançada idade, assistido a muito coisa feia, muita inveja, muito ciúme e, muitas, muitas vezes, maldade. A condição humana às vezes cheira mal, tresanda a crueldade e, não poucas vezes, tenho sentido vergonha de alguns comportamentos, de alguns dichotes, de alguns insultos, por isso, entendo o teu grito. Ora, assim sendo, não poderemos estranhar que, escudados por esta rede virtual de afectos e amizades, amparados por lacinhos,gatinhos e sábias palavras do Mestre Paulo Coelho, a condição humana revelasse o seu lado mais escuro e sórdido. Mas não podemos deixar passar, encolher os ombros. E, se as redes sociais ainda são formas rudimentares de partilha e conhecimento, a condição humana,ainda está longe, não digo da perfeição, porque seria redundante,muito longe de acreditar que somos todos iguais, também na nossa diferença, e mortais. Pois é, este texto poderá estar pejado de lugares-comuns, mas foi a forma que encontrei para dizer à Patrícia Reis que conheço e respeito há muitos anos (muito antes do Expresso e de tudo isso…) que as guerras não se conjugam no singular e em muitas – as suficientes – não está sozinha.
    Pois é…

  2. Em Portugal espanto-me sempre com a quantidade de tempo e energia que as pessoas gastam a falar dos outros.
    A marcação social que se faz ao outro é impiedosa.
    Ataca-se a pessoa, insinua-se, alguém está sempre metido na cama com a/o amante e para coisa ficar mais picante a partir aí dos anos 80 90 passou a ter de ser do mesmo sexo. É tudo ad hominem.
    Os Portugueses preferiram gastar mais tempo a falar da licenciatura de Sócrates do que da Dívida que Sócrates fez no nome desses próprios Portugueses!

  3. É mesmo, Patrícia. O comportamento das pessoas na net causa-me muita estranheza. Pessoas que julgo serem perfeitamente afáveis no dia-a-dia tornam-se de repente amargas, rancorosas e rudes, não perdendo uma oportunidade para destilar veneno, na maioria das vezes gratuitametne.
    Mas, diga-se em abono da verdade, esta maleita afecta também aqueles que opinam, fazendo-o muitas vezes com uma arrogância intelectual desnecessária, que contribui muito para atrair esse tipo de comentários.

    1. O que não é o caso da Patrícia, sempre frontal mas afável e educada com todos. E mesmo assim é muitas vezes alvo de comentários maldosos e cruéis. As pessoas descarregam, sob a capa do anonimato, muitas das suas frustrações. E a net é um paraíso para esse exercício cobarde.

  4. Olhe Patrícia, só a conheço virtualmente, mas gosto imenso de si. Identifico-me consigo em várias coisas: Moura e o Alentejo, começar a trabalhar aos 17 anos, essa necessidade – que muita gente acha estranha! – de que os nossos filhos tenham orgulho na nossa dignidade e tantas outras coisas mais que já a ouvi (ou li) dizer.

    Apesar da virtualidade deste conhecimento, não posso deixar de falar consigo como se de uma pessoa próxima se tratasse, porque tenho uma grande estima por si, por todas estas razões. Por isso, pergunto-lhe: Quando reflecte sobre todas essas coisas, alguma vez se questionou sobre se terá feito o que era correcto? E alguma vez a resposta foi não?

    Então, eu sei que estas manobras de gente medíocre custam – oh se sei! – mas não perca com elas mais tempo do que o estritamente necessário para arrumar o assunto. Defenda-se, argumente, desabafe ou simplesmente chore, se isso lhe lava a alma, e depois siga em frente, porque nada nem ninguém é superior ou tem mais força ou poder, do que a consciência de ter feito o que é correcto.

    Um abraço do Alentejo, e se alguma vez lhe puder ser útil, seja no que for, conte comigo.

  5. Obrigada a todos, àqueles que me conhecem melhor ou pior, os que andaram comigo ao colo e ainda os que não me conhecendo compreendem ou fazem um esforço nesse sentido. Para responder à pergunta feita, se já fiz coisas que tenha concluído serem erradas, a resposta é sim. Muitas vezes. Infelizmente metemos a pata na poça, se as coisas correrem de feição aprendemos e limamos arestas. É assim a vida. Compreendi há muito que a exposição da minha vida deve ser feita por mim e não pelos outros, daí a minha facilidade em falar dos males que afectam, dos comentários nocivos ao facto de ter uma pequena empresa num país como este etc e tal. A vida não é bela? Tem dias. Beijos a todos

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