O comentário da semana


Pedro Correia,

 

«”Viver para contá-la”, escreveu García Márquez. “Sentir para escrevê-lo”, poderia dizer-se relativamente a este texto.
Quem sou eu, ligeiramente adepto das touradas, apesar de leigo (ou diria aficionado…), para negar a componente bárbara deste espectáculo?
Parece que na Califórnia se protege o dorso do touro com uma almofada de velcro da cor da pele do animal, para evitar o sangramento.
Mas as touradas não são propriamente massacres, uma vez que os toureiros, por vezes, também sofrem acidentes gravíssimos e até mortais.
Os forcados, então, levam pancada até mais não…
Seja como for, os seres humanos são os animais mais cruéis, destrutivos e gananciosos que a Natureza criou. Nenhum outro animal, para além do Homem, passa fome nas condições naturais de vida. A fome é possível, sim, em caso de doença, ferimento grave ou catástrofe natural, mas nunca, como no caso dos humanos, acontece haver alguns (muitos!) a passarem fome e outros a morrerem com excesso de fartura, passe o pleonasmo.
Enquanto os homens matarem outros homens por causa do poder e do dinheiro, enquanto os homens criarem animais em espaços minúsculos para depois os comerem, enquanto os homens exibirem animais em jaulas para seu prazer pessoal, hei-de sempre considerar que a questão das touradas é secundária.»

 

Do nosso leitor Mário Pereira. A propósito deste texto da Teresa Ribeiro.

15 comentários em “O comentário da semana”

  1. “Seja como for, os seres humanos são os animais mais cruéis, destrutivos e gananciosos que a Natureza criou. Nenhum outro animal, para além do Homem, passa fome nas condições naturais de vida.”

    isto é um autêntico disparate. A mistura de moral e psicologia humana barata com um video estragado do Dr. Attenborough não me deixa outra alternativa senão ter que largar sob anonimato mais um comentário brutal e desumano (sorry, Patrícia).

      1. Lamento, eu acho que é precisamente o tipo de discurso que baralha tudo numa mixórdia de conceitos e sentimentos baratos que não deixa chegar a conclusão nenhuma. Talvez aqui seja necessário invocar a ideia de “gnose” vs “conhecimento” para se perceber onde quero chegar.

    1. Se me for permitida a ‘indelicadeza’, também abomino –literalmente– o citado.
      Aliás, tais ideias de uma demagogia biológica, com algumas nuances de antropológica, sempre me criaram uma profunda irritação.
      Admito que valorizo bastante o estoicismo, principalmente em tema como o retratado, e mais não fosse por isso mesmo condeno uma visão demasiado influenciada por propaganda de idealismo verde.

      É que sejamos honestos, isso soa a fraca retórica quando no próprio meio-ambiente existem espécies que tal como o Homem fomentam a auto-destruição. Elefantes com as florestas e o abate de árvores, sapos-touro com a dizimação da cadeia alimentar, algas invasoras que destroem todo um ecossistema, plantas, como o eucalipto, que sobrevivem à base da “destruição” alheia, etc.; no fundo sejamos honestos, a visão literária e cinematográfica de um Mundo sem humanidade mas com a óbvia presença da Natureza é por demais evidente. Somos produto de adaptação, sendo ela própria definição de evolução e de sobrevivência – não será o Meio que acabará destruído antes de nós, simples produtos da Natureza.

      No fundo, elevamos em demasiado a nossa própria visão de agentes naturais. Somos um mero instrumento de selecção natural, não uma divindade de Gaia.

      1. Desculpe lá CeC. Mas nós humanos, somos seres conscientes e com consciência daquilo que se passa à nossa volta. Podemos mudar muita coisa para o bem de todas as espécies. Ou pelo menos tentar o melhor.

        1. Andrea, compreendo a retórica mas, ela própria, não deixa de perder ‘consciência’ negativista – e sejamos honestos, a critica tendencialmente tem uma carga pejorativa.
          No final, é a própria consciência, pseudo-omnipotente, que nos cria a tendência dogmática. Sendo, neste caso, demasiado critica.

          Ao longo dos anos temos adoptado mediadas e comportamentos saudáveis e conscientes do Meio, mas mesmo assim figura a aura de inegável maldade-consciente.

  2. Que texto mais abjecto de alguém que apoia a mais mortífera exportação europeia.

    Até parece que os animais não morrem de fome, não morrem de doença , não se matam uns aos outros – só os casos de aves que que matam os filhos no ninho , aliás podemos aí fazer o paralelo com o aborto pago –

    O homem sim é o único animal que quer controlar os outros animais, impedi-los de ser.

  3. Não se pode perpetuar uma asneira só porque se fazem outras asneiras. Sim, os seres humanos são cruéis e destrutivos: isso vê-se perfeitamente nas touradas, no prazer e alegria que alguns retiram do facto de se torturar um animal preso numa arena. A questão das touradas é apenas um sinal e é pelos sinais que se vê o fundo das questões. Um sinal de sadismo, arrogância e prepotência de um animal supostamente racional sobre outro.
    ~inês

  4. Quase chego à conclusão que as touradas são a grande culpa…….da fome que grassa pelo Mundo! Acabando as touradas parece que a fome acaba! Exemplo? Portugal tem tourada e a consequência é a fome.
    Não seria mais honesto a preocupação com a fome no mundo do que preocupar com as touradas. Lendo os comentários a impressão com que se fica é que…quero lá saber da fome no Mundo! Acabem é com as touradas. Quero lá saber da fome no mundo desde que a mim não me falte! Isto é o que deduzo depois de ler os comentários. O importante é acabar com as touradas! A fome? Essa? Fica para depois! SE já se iça a Bandeira de pernas para o ar, porque não se há-de ver a fome também de pernas para o ar?

    1. E desde quando um mal (a fome) legitima a prática de outro mal (as touradas) que nem sequer serve para, admitindo uma hierarquia entre males, atenuar o primeiro?

      É o vício de raciocínio em regra usado para desconsiderar quem se indigna com o sofrimento dos animais. Apontando que o mundo está cheio de seres humanos com fome. Como se uma coisa – a fome humana (inquestionável tragédia, de que o Homem e só o Homem é culpado) – legitimasse a outra – os maus tratos infligidos aos animais ditos irracionais – sem mais. Desculpabilizando e diabolizando aqueles (e os recursos nisso aplicados) que se batem pelo bem estar dos animais.

      Porque um homem sofre, não pode isso significar que se ignore o sofrimento de um “bicho”. Mais não seja porque somos, deveríamos ser, dotados de razão.

      Costa

      1. Gosto de Touradas! Gosto de todo aquele aparato, cavalo, cavaleiro, toiro! Gosto da beleza do espectáculo. Gosto da coragem dos forcados. Tourada, sim! Não invalida que por isso, não goste de animais! Da mesma forma que quem gosta de cães não gosta de touradas e mantém um cão prezo num apartamento. Sofrerá um cão por viver num apartamento? Sofrerá um cão ao ser abandonado, quando o dono vai de férias? O Touro é criado para ser lidado numa praça. É para isso que existe! Acabando a tourada não há razão para a existência do Touro! Claro que a fome não legitima a prática de outro mal, nem falei nela para desconsiderar quem não gosta de ver os animais sofrer. Apenas quis lembrar que para além das touradas, dos touros e dos cães, existem pessoas, seres humanos que morrem por não terem com que se alimentar, e nós, egoístas, preocupamo-nos com touradas, coisas menos importantes. O Touro, sofre sim! O Cão também e é tão giro ter um num apartamento, mesmo sabendo que ele requer espaço, para se poder movimentar. Só que o Cão não é criado para viver em apartamentos e o touro é criado para ser toureado. Só que a existência do touro, até ser lidado, nos 4 ou 5 anos que antecedem a lide, é vivida em liberdade. E o cão? O cão e o toiro servem só de exemplo, haverá outros animais. O sofrimento não se mede. Quem não gostar de touradas…pois bem, não gosta, dá a conhecer que não gosta, lutar para que acabem com as touradas é um direito que lhes assiste. Aquilo que não é de direito é não me deixarem ver uma tourada, irem para a porta da praça de touros criar problemas a quem lá vai, provocar quem gosta. Mas isto não passa de uma opinião e esta vale o que vale. Não interfiram com a minha liberdade. Gosto de touradas!

        1. Lá está a justificação de um mal com outro: a tourada justifica-se, assim, com o cativeiro em apartamento de um cão feito para correr demoradamente em espaço aberto, ou com a imposição de um cativeiro medido pelo comprimento da corrente que o prenda.

          E todo o caso, meu caro, permita-me notar que se esse cativeiro preso a uma corrente, tantas vezes em locais verdadeiramente tenebrosos e adicionado de outros maus tratos é uma verdadeira barbaridade, absolutamente repugnante, ter um cão num apartamento não é necessariamente um mal, se esse animal for estimado, se puder com frequência ter acesso a um lugar onde corra, onde goze dessa liberdade que para ele invoca. Desde logo se esse animal foi recolhido de um abandono que lhe seria fatal, ou de um canil onde estivesse “depositado” em condições terríveis, tendo encontrado nos seus donos cuidados e ternura.

          Convém contextualizar as coisas. É aborrecido, mas convém.

          Afirmar que o touro existe para ser toureado, isso sim, é que é um disparate monumental. Uma manifestação de um egoísmo deslumbrado e sem limites. Então a Mãe Natureza, no seu percurso evolutivo de milhões e milhões de anos, criou um animal especificamente para satisfazer o sadismo de uns tantos humanos?! Que importantes que eles são, verdadeiros demiurgos, os ditos “aficionados”…

          Costa

          1. “A história da tauromaquia ou da corrida de toiros remonta a tempos imemoráveis. O homem primitivo não compreendia a razão para que houvesse doze horas de luz e doze horas de obscuridade. Temia sempre que as trevas da noite não permitisse o renascer do dia. Talvez, por essa razão, os antigos persas começaram a adorar a Mithra , deus da luz. Segundo a tradição, Mithra matou o toiro divino, cuja morte era necessária para a renovação do mundo. Do corpo da besta brotaram todas as plantas e animais dos quais dependem o homem. Com o passar dos anos, a cor branca, a luz, chegou a representar o bem e o bom, e o negro, a obscuridade, o mau e o mal, conceitos convencionais que, até aos dias de hoje, são com frequência utilizados em relação ao conflito e à eterna luta entre as forças do bem e do mal. É interessante observar, que a moderna festa dos toiros começa ás cinco ou seis da tarde, quando metade da praça está ao sol e a outra metade à sombra ( mais recentemente até já noite fechada). Além disso, o toureiro leva vestido o chamado traje de luzes, que poderá simbolizar o bom, enquanto o toiro, geralmente negro, simboliza o mau.”
            Touro ou toiro é o macho adulto combativo e corpulento destinado frequentemente para lutas com os seus semelhantes ou às touradas. Antes dos combates e das touradas, são inteiros ou não castrados. Depois das touradas, são destinados ao abate.
            Boi é uma palavra derivada do vocábulo latino bove- Designa os machos destinados aos trabalhos agrícolas ou para a produção de carne. A maior parte dos machos mansos destina-se ao abate e não passa de bezerros ou de vitelos.
            Este conjunto de coisas vem de certa forma, justificar o meu gosto pelas touradas. Admito que gosto, como dizia no comentário anterior. Não condeno quem não gosta, como digo anteriormente é um direito de cada um. A quem é contra as touradas só peço que seja coerente e defenda tanto o touro como outro animal qualquer e não interfira com a minha liberdade de escolha! Não é justificar um mal com outro mal é apenas não interferir com a minha liberdade de escolha. Não vi ninguém não deixar entrar pessoas num apartamento onde existe um cão. Mas já vi agressões a pessoas que iam ver uma tourada. Tal como é um direito que assiste a cada um não gostar de touradas o inverso também é verdadeiro.
            O que já não é tão verdadeiro é condenar tourada só porque se condena e é de bom tom, deixando os outros animais, incluindo aqueles que nos alimentam de fora da defesa.
            Veja só, meu caro, “então a Mãe Natureza, no seu percurso evolutivo de milhões e milhões de anos, criou um animal especificamente para satisfazer o sadismo de uns tantos humanos?!” deixando estes matá-lo para a sua alimentação, acrescento eu (aqui não falo de toiros ou cães, se bem que alguns também sirvam de alimento).

          2. Não confundamos as coisas, meu caro. Mais uma vez lhe peço. Uma coisa é matar para comer – e, pouca sorte, nós somos, parece, fundamentalmente omnívoros – e mesmo assim é aflitiva a forma como se criam e abatem animais para consumo humano, sujeitando-os a enclausuramentos aberrantes, alimentações brutais e a regimes de reprodução inenarráveis (você, come o seu bifezito ou a sua posta de peixe de quando em vez, suponho; e ainda que o não faça, será capaz certamente distinguir entre matar para comer e matar, ou torturar, por pura diversão mascarada de “cultura”).

            Volto ao que lhe escrevi: contextualizemos e comparemos o comparável, por favor.

            Quanto ao seu relato mitológico, enfim, que dizer: não hão-de faltar fundamentos nesse campo para a pena de morte, a guerra, a tortura do humano, a escravidão, a submissão da mulher. A ir por aí, a respeitar acriticamente a tradição, o passado, tanto do que hoje abominamos seria absolutamente aceitável, se não imposto… É ver o que se passa em certas partes do mundo, por exemplo, com a condição feminina, em nome de fundamentos religiosos. Suponho – devo supor? – que aceitará tudo isso, pois será manifestação de respeito por um legado ancestral.

            Contextualizemos, meu caro contextualizemos.

            Olhe, nesta nossa amigável argumentação, fico por aqui. As nossas posições são conhecidas e não me parece que um ou outro nos consiga demover do que neste assunto tomamos por correcto. Concordemos civilizadamente que discordamos. E talvez nos vejamos, em campos opostos, à porta de uma praça de touros (embora a única que eu frequente seja a do Campo Pequeno; é que depois do longo caos daquelas obras, o parque de estacionamento dá-me jeito; para ir ao barbeiro, calcule você… De resto bem podia ser encerrada e preservada, como testemunho de arquitectura de época e de uma prática indesculpável em bom tempo banida).

            Costa

  5. Se pelo seu critério, “massacre” se verifica ou não em função de toureiros, cavaleiros e forcados resultarem ocasionalmente feridos (donde, não se verificando), não nos esqueçamos de uma simples coisa: eles – toureiros, cavaleiros e forcados estão lá PORQUE QUEREM (perdoe-me o recurso às maiúsculas, mas esta é uma cristalina verdade, por norma ignorada por quem defende essa barbárie inominável que é a tourada).

    Touros (e cavalos) não estão lá por, de sua livre vontade – se não mesmo invocando não sei que demente chamamento de ordem mística -, pretenderem esse “combate”. Estão lá à força; não têm escolha.

    Combate que nem é entre iguais. O homem, se algo correr menos bem, tem, na arena, todo um sistema de apoio para o ajudar: isto depois de, à partida, ter enfraquecido as defesas naturais do touro (aqui se vê a coragem da coisa…). O touro, não. Fica ali, a ser torturado, sem escapatória, até as bestas humanas se darem por satisfeitas. Depois ou o matam logo, ou o sujeitam a mais umas horas, se não dias, de agonia, até esse desfecho aparentemente sublime.

    Uma “arte”, diz-se…

    Costa

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *