O bode expiatório


José Maria Gui Pimentel,

 

Faz-me alguma impressão assistir aos protestos recentes e ver as pessoas chamar todos os nomes possíveis a Passos Coelho, e restantes membros do Governo (para já não falar da troika, que só está cá porque foi chamada). Embora perceba que se está numa situação muito difícil, custa-me que não se perceba que os criticados são apenas o bode expiatório de um problema com (muitos) outros responsáveis. O Governo actual tem feito menos do que o esperado em algumas frentes, é certo, e poderá estar a ser demasiadamente rígido noutras. Porém, é preciso ter em conta que o caminho está, na melhor das hipóteses, a um terço do percurso de uma legislatura de quatro anos. Este governo está em funções, por exemplo, há apenas 13% do tempo que o actual presidente da república passou como primeiro-ministro. Quer se acredite que o país começou a cavar a cova em que se encontra no guterrismo, no cavaquismo, no 25 de Abril, em 1910 ou até em 1143, é preciso entender que o actual terço de legislatura representa uma fina lasca do bolo de má governação que deu origem ao momento actual. Este governo não pode falhar, e por isso é legítimo ter expectativas altas. Mas é preciso não esquecer que as contas só se fazem no fim. É legítimo e desejável que se pressione o governo a cortar a sério na despesa e a arrepiar caminho na redução da TSU às empresas. Mas os protestos do último fim-de-semana procuram, e podem alcançar, muito mais do que isso.

22 comentários em “O bode expiatório”

  1. Muito bem, muito oportuno.
    “…Porém, é preciso ter em conta que o caminho está …”
    minado. Ou já se esqueceram das blindagens, made in Sócrates, e para benefício de “terceiros” ?.

    1. Está minado, de facto. Assim sendo, o mesmo estado (não posso em consciência usar “E”) que impune e unilateralmente rasgou o seu contrato comigo, englobando-me até bizarramente no campo dos funcionários públicos (quando trabalho numa SA , de que por acaso o estado é accionista; mas é Sociedade Anónima), mandando às urtigas o princípio de “pacta sunt servanda” que afirma ser inatacável para PPPs e afins, deveria talvez:

      – recordar que há princípios que equilibram esse a que tanto se agarra, de que os contratos são para ser honrados. Coisas – pelos vistos inutilidades académicas – como a alteração superveniente das circunstâncias, ou a sindicabilidade de um contrato que aparente cláusulas leoninas;

      – considerar a responsabilização penal de quem subscreveu por parte do estado esses contratos, assim lesando – e tudo indica com impenitente dolo – o interesse público. Essa gente vive em plena impunidade, seja ainda por conta do estado, seja com recursos menos bem explicados. E vomita toda a sorte de insultos sobre nós, agindo como se fosse uma virgem ofendida. Ora a mim, se falho por um dia o pagamento de um imposto, logo são enviados gentis lembretes do fisco a informar-me de consequências nada saudáveis para mim e para o meu património. E tenho logo que pagar o jurozito da ordem, claro. Um módico de moralidade, não resolvendo o que fosse no plano material, introduziria honradez na conduta do estado (um conceito, creio, absolutamente estranho a coisas como “estados gerais”, “universidades de Verão”, “conselhos nacionais”, “comissões permanentes”, “congressos”, etc., etc).

      Mas nada disso, nada disso. E como nada disso se passa, não posso ter para com essa gente que lá está agora no poleiro – e em quem votei – nem um vestígio de tolerância. Essa gente, não a tem para comigo e impõe-se a reciprocidade.

      Costa

  2. Muito sensato o seu post . Relativamente ao último parágrafo, espero muita inteligência e ponderação na análise que os nossos políticos, inevitavelmente, vão ter que fazer.

  3. Na mouche! Os portugueses têm memória curta. Não concordo com as medidas do governo, mas sensatamente não posso deixar de atribuir culpas a quem as merece. A troika está cá porque precisámos dela, não está propriamente a pedir-nos favores como por vezes parece pelas atitudes dos portugueses. Revoltar-nos SIM, mas não esquecer nem porque nem como chegámos aqui.

  4. Deixa cá ver se eu entendi:

    – Devemos aguentar-nos, porque o banquete destes senhores ainda agora começou.
    – Os probezitos estavam convencidos que o jantar ia ser volante e que dava para de vez em quando virem à janela atirar-nos um ou outro pastelinho e foi só por isso é que nos prometeram o que prometeram.
    – Afinal foi-lhes servido um jantar sentado, uma maçada para eles e má sorte a nossa.
    – Há que ter paciência porque o repasto ainda vai na sopa (só tem ainda 3,8% do tempo que Salazar levou a mastigar).
    – No fim, depois das contas – que é quando elas se devem fazer -, os criados hão-de vir sacudir a toalha e o que caír é nosso.
    – É legítimo e desejável que ladremos a ver se entretanto vem algum ossito, mas devemos fazê-lo à porta da cozinha para não incomodar os senhores da troika.

  5. “1.- O CDS-PP reuniu-se no fim-de-semana para “analisar” a posição do PSD sobre as medidas de austeridade a inscrever no Orçamento de Estado de 2013;
    2.- o PSD vai reunir hoje a Comissão Permanente, e quarta-feira a Comissão Política Nacional, para “analisar” a posição do CDS-PP sobre as medidas de austeridade a inscrever no Orçamento de Estado de 2013;
    3.- o presidente da República vai reunir o Conselho de Estado, na sexta-feira, para “analisar” a posição do CDS-PP e a posição do PSD sobre as medidas de austeridade a inscrever no Orçamento de Estado de 2013;
    Se os resultados não forem conclusivos vão todos pedir contra-análise.
    E nós a pensarmos que o Governo era sustentado por uma coligação estável e coesa.
    Coesa já se percebeu que não é, nem vai ser.
    Ainda será uma coligação?”
    http://hojehaconquilhas.blogs.sapo.pt/1323873.html

  6. Se ele for parvo ficará lá até fazer o trabalho sujo e depois será corrido. A maioria que não faz contas julga que ele está ir mais além do que devia – quando na verdade nem fez metade -e que voltará ser tudo como dantes.
    Não percebem que o mundo do passado já não volta e algo estrutural com dívida e demografia estão aí para ficar.

    1. Exactamente. Em todo o caso, esta onda de contestação transversal (leia-se, não apenas da extrema esquerda) surge precisamente pq pela primeira vez o governo aumentou os impostos não para diminuir o défice, ou seja não porque era obrigado, mas sim para estimular um sector da economia.

  7. Portugal esta entregue aos bichos. O Governo não presta contas aos Portugueses, não informa daquilo que correu bem ou mal, para onde vai o dinheiro, quais as dividas que temos de suportar etc. Limita-se a comunicados mal escritos, mal articulados a…informar uma chico-espertice financeira que não agrada nem a empregadores nem a empregados. Ao invés, continuam por resolver as PPP´s, o deficit das empresas publicas, as rendas, tudo coisas prosaicas. Alguns comentadores continuam a insistir na patranha de que “as familias endividaram-se”, “Portugal endividou-se”, não dou para esse peditorio; as familias que se endividaram pagam as consequencias (ficam sem casas, sem dinheiro, sem nada), que comparado com aquilo que o Estado se endividou são “peanuts”. O PSD como sempre, devora-se a ele mesmo, com varias figuras laranjinhas a descredibilizarem completamente o PM. Com amigos destes, ninguem precisa de inimigos. O CDS é igual a si mesmo – traiçoeiro. Sendo Paulo Portas especialista em apunhalar companheiros pelas costas. O seu discurso é patético, sendo que a historia dos submarinos anda mal explicada, basta lembrar que na Alemanha alguns intervenientes estão presos. Quanto ao Seguro e o Seu PS não vale a pena falar.Um deserto, nem uma ideia para Portugal, nada. Apenas aquele ar de betinho irritante ofendido com tudo o que se passa, onde vai debitando trivialidades sem conteudo nenhum.
    Com gente deste calibre acho que não chegamos a lado nenhum. Lamentavelmente.

    1. É claramente a eficácia na diminuição das ditas “gorduras” que ditará como este governo ficará na História. Tem feito alguma coisa, tem feito menos do que se exigia, mas, repito, o caminho ainda vai a meio (aliás, a um terço).

      E olhe que o endividamento das famílias e empresas é maior do que o do Estado. O problema é que o Estado é só um…

      1. Caro Senhor, agradeço a correcção.
        No entanto, as familias que se endividaram estão a pagar as consequencias desse endividamento, chegando a perder tudo quanto têm. Podemos dizer que muitos se deslumbraram com tanta facilidade, mas o “dinheiro” estava á disposição e muitos aproveitaram na esperança de um futuro mais risonho. Inocentes? Não sei, muitos acredito que sim. Já a postura de quem “ofereceu o dinheiro” não é de todo inocente. Ainda me lembro de receber dezenas de telefonemas, sms e mails de bancos a oferecer toda a especie de facilidades. Ainda há pouco tempo, não dava dois passos num qualquer centro comercial que não oferecessem a porcaria de um cartão de credito. A cultura economica / financeira em Portugal é nenhuma e muita gente não percebeu onde se estava a meter. Hoje já sabem e sofrem com isso, e os bancos ? Sofrem? Acho que não.
        E o Estado, que bem diz “é só um”, o que faz com empresas como o Metro, CP, RTP, REFER, que têm prejuizos recorrentes de tantos milhões ? Como é que todos os Ex-Ministros das Obras Publicas dos ultimos governos estão em cargos de topo das empresas beneficiadas das PPP’s que tanto nos lezam a todos. Como é que ninguem (Estado) é responsabilizado por permitir estas maravilhas? Como é que meia-duzia de privados “entram” com 20% do valor total da Ponte Vasco da Gama e ficam com a concessão da dita por não sei quantos anos? Com a descaramnto de, se alguem quiser fazer mais alguma travessia do Tejo tem de pagar royalties a essas sanguessugas. Como é que ninguem sofre as consequencias de entalar duas gerações de Portugueses ?
        Um Estado forte com os fracos e fraco com os fortes não me merece o minimo de respeito. Cumprimentos.

  8. Este título tinha de estar em itálico, já que é uma expressão idiomática! Assim parece o contrário do que pretende ser…
    Já outros que eu cá sei não desmereceriam a falta do dito.
    (itálico)

  9. Como é que o povo pode pressionar o bode, perdão, o Passos, a cortar a sério na despesa e a arrepiar caminho na TSU sem ser com manifestações?
    A mim parece-me muito difícil que este primeiro-ministro ainda possa, já não digo fazer algum corte que se veja nas PPP, nas rendas excessivas da energia, nos institutos e fundações, nas gorduras… enfim, cumprir minimamente as suas promessas eleitorais, mas sequer chegar ao fim do seu mandato.
    Mal comparando, este primeiro ano e pico faz lembrar o arranque do Sporting no campeonato. Em qualquer dos casos, será necessário ter muita fé para acreditar em finais felizes…
    Quando a credibilidade se perde de forma tão estrondosa, é muito difícil, para não dizer impossível, recuperá-la.
    A mim, parece-me um caso flagrante de falta de preparação para o desempenho do cargo.
    Acho mesmo que o PSD deveria convencê-lo a ir-se embora, arranjando alguém com credibilidade para o substituir e mantendo a coligação com o CDS.
    Caso contrário, será o próprio PSD a sofrer as consequências.
    Tomara que me engane…

  10. Que sorte sr. Gui Pimentel, faz-lhe impressão os protestos, morre de pena da troika, ah e não se pode chamar nomes ao mentiroso do 1º. ministro (ou também acha que é injusto?) você é mesmo um português fofinho…
    Claro que deve ter nascido uma dúzia de anos depois do 25 de Abril de 74…
    Fique por aí sozinho com mais 500 jotinhas a defender o indefensável, porque um dia (espero que não) a ” tragédia ” vai bater-lhe a porta e aí verá que a música é outra…talvez seja tarde para ” acordar ” para a realidade…

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