Ora…


José Maria Gui Pimentel,

…sejamos francos e cinjamo-nos ao que interessa.

 

A responsabilidade do Governo no estado a que as coisas chegaram é essencialmente uma, que terá uma gravidade tão grande que ficará para a História, se se confirmar, mas deixará o Governo numa posição de bode expiatório se não se comprovar.

 

Refiro-me à acusação de que o governo Governo (leia-se, Passos e Gaspar) é de uma ortodoxia obstinada, um “lacaio” da Alemanha. Por outras palavras, a ideia de que o Governo não faz ver à troika quão contraproducente é obrigar o país a tomar medidas pró-cíclicas que não sejam de carácter estrutural porque não quer, e não porque não pode.

 

Infelizmente, a questão de se o Governo tem, ou teve alguma vez, latitude para persuadir as instituições internacionais a mudar de rumo, é algo que permanece (quiçá permanecerá para sempre) envolto em incerteza. Sobretudo, não se percebe se esta ortodoxia aparentemente convicta é um disfarce, no sentido de ganhar leverage sobre os credores, ou antes a própria pele da ideologia do Governo. De uma coisa podemos estar certos: se o Governo tem tentado, de facto, tomar passos nesse sentido, disfarça-o muito, muito bem.

 

Regressando à premissa (oculta) inicial, a culpa do Governo seria/será apenas esta na medida em que, um, a situação actual não lhe é imputável, dois, um ano e quatro meses não são suficientes para fazer mudanças estruturais na economia, e três, as dificuldades que têm surgido na execução do plano derivam muito mais do modo deficiente como este foi arquitectado pela troika (e da própria conjuntura externa) do que da ineficiência do Governo em cumpri-lo.

 

Começando pelo último ponto, o plano, como o próprio FMI reconheceu recentemente (antes de, esquizofrenicamente, ter feito ouvidos de mercador em vez de tomar a posição que se impunha), pressupunha que o impacto da austeridade sobre a actividade económica seria muito mais moderado do que aquilo que efectivamente se observou. Esta divergência levou, como se sabe, automaticamente a um aumento  da despesa e a uma diminuição da receita do Estado, deitando consequentemente por terra os objectivos estabelecidos no programa.

 

Relativamente ao segundo ponto, importa compreender que, enquanto as medidas do lado da receita são extremamente fáceis de levar a cabo (basta “primir um botão”, se descontarmos a dificuldade, nao despicienda, em diminuir a fuga ao fisco), as políticas de diminuição da despesa do Estado sao extremamente difíceis de implementar. Senão vejamos: i) os contratos das PPP têm que ser renegociados; ii) as fundações estão quase na sua totalidade na prática fora das mãos do Estado; iii) institutos, centros regionais e outros organismos estão, muitas vezes, protegidos constitucionalmente; iv) não são permitidos despedimentos no sector público. Trata-se apenas de alguns exemplos que não consideram sequer o facto de o sector Estado ser hoje uma estrutura mastodôntica, cujas peças é dificílimo mover.

 

Em suma, é ainda muito cedo para avaliar a capacidade reformadora deste Governo. O escrutínio público deveria concentrar-se, isso sim, em perceber se o Governo está a fazer tudo o que pode no sentido de persuadir as instituições internacionais a estabelecer condições mais razoáveis, que assegurem, sim, a tomada de medidas de carácter estrutural, contudo escudando-as de uma conjuntura que é por inerência exógena.

4 comentários em “Ora…”

  1. Pois.
    Este Governo não teve culpa porque a bomba explodiu. O outro governo ia gerindo a coisa de forma magnânimeE e o anterior do anterior também. E o anterior do anterior também. E anteriormente também. Chamaram-lhe DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO e SOCIAL. Tudo a crescer seja em direitos, seja em powerpoints ou linguagem arrevezada para acéfalos abrir a boca.
    Agora…pum!

    É fácil governar com a economia a crescer 4% no PNB, os Mitterand, os Delors, os Gonzalez, os Cavacos, …enfim os “grandes governantes”.
    Mas eram estes mesmos que apostavam num poqueriano “till the Sky”(o céu é o limite)

    Em suma, é fácil dizermos o que era bom quando havia dinheiro. Eram bons os direitos, os fazedores de coretos e de bancos de jardim, ou os timoneiros das grandes vias e aplicadores de crescimentos salariais, eram bons…e queremos mais…desejamos mais…

    Mas, a entrega de tarefas NÃO ESSENCIAIS ao Estado como a educação, ou a saúde veio dizer que o contribuinte paga também os benefícios dos outros, e tudo era calmo, sereno…; só havia uns grunhos, uns velhos do restelo, ou reaças que chamavam à atenção da fadiga despesista. Mas… … …a formatação do desejo…afastava-os do espaço público.

    Surgiu o discurso da “tanga”, e já apareceram alguns na TV…mas para serem ridicularizados….
    …e eis os desejosos cidadãos a cortar fitas juntos dos seus “melhores” a baterem palmas….

    Agora, agora a discussão vai ser violenta. Ninguém tira o osso da boca do cão sem resistência.

    A Constituição é problema ? Se quisermos…
    Se a nossa Constituição por hipótese fosse adoptada no Uganda …, como era?

    É que a Conbstituição tem a norma máxima anterior, norma essa que comanda todas as condutas e é a evidente: só é possível…o possível.
    É a reserva do possível que não obsta a que sejam extintas câmaras (só 18, as dos distritos p. ex.), é a alteração das circunstâncias que impõem um ultimato à renegociação das PPPs, …

    …já chega pois de falar dos socialistas pois nao leva a lado nenhum.
    O que dizem pois os “sociais” para se cortar na despesa? Educação ou Saúde? Saúde ou Educação? Prestações sociais ou Autarquias? Autarquias ou Saúde? Saúde ou Prestações Sociais?
    A reserva do possível…

  2. Está-se mesmo a ver, só no fim do mandato é que o governo vai revelar toda a sua sanha reformadora.

  3. Que há uma conjuntura exógena já nós sabemos. Basta olhar, para além da realidade económica, às políticas, estas também exógenas, que nos têm imposto. O que não é normal é que se some a essas realidades exógenas outras de natureza endógena. E aqui é que está o buzilis. Sim, é de natureza ideológica o que se está a passar.

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