Não sei se convosco é assim. Eu costumo ler vários livros ao mesmo tempo. Sempre fui um leitor voraz. Cheguei até, durante alguns anos, a fazer fichas de leitura detalhadas de todos os livros que ia lendo: a primeira sucedeu quando, deslumbrado, cheguei ao fim de Mau Tempo no Canal — para mim o melhor romance português do século XX e com uma das mais fascinantes personagens femininas de toda a nossa literatura.
Comecei a ler muito cedo, estimulado por uma vasta biblioteca paterna, cheia de títulos incompreensíveis para o miúdo que eu então era. Graças a essa curiosidade difícil de saciar, aprendi a ler livros que ultrapassavam a minha idade à medida que os ia retirando das estantes. A Peste, de Camus. Conversas com Borges, de Georges Charbonnier. As Democracias Populares, de François Fejto. Os Cinco Comunismos, de Gilles Martinet.
E tantos outros, às vezes com autógrafos oferecidos ao meu pai — de Júlio Dantas a Luiz Francisco Rebello, de Pedro Homem de Melo a Romeu Correia, de Armando Cortesão a Fernando Namora. Esses eram os que eu ia desfolhando com maior deslumbramento. Como se a dedicatória e o autógrafo prolongassem a sensação de que ao abrir um livro escancarava uma janela para o mundo. Havia também os que estavam “encadernados em pele de carneira”, como então se dizia com alguma pompa. O Primo Basílio. As poesias completas (sempre incompletas) de Fernando Pessoa. A Lã e a Neve, de Ferreira de Castro — que descobri aos 15 anos, com o mesmo empolgamento de quem lera pouco antes os contos de Jack London com a chancela da editora Civilização, o Robinson Crusoe (da colecção juvenil da Portugália) e o Texas Jack (da Agência Portuguesa de Revistas). Os operários das fábricas de fiação da Covilhã faziam as vezes dos mosqueteiros da rainha, a “minha” Serra da Estrela substituía as Tulherias, o realismo socialista entrecruzava-se com aventuras de capa e espada.
Voltei hoje a ver estes livros — e tantos outros — ao revisitar a biblioteca paterna, agora adormecida: há muito que nenhum novo título ali entra para fazer companhia aos demais. A larga secção de pedagogia — incluindo os Piagets, que nunca me interessaram — foi recentemente doada, vários outros talvez sigam em breve idêntico caminho. Mas há volumes de que nunca me separarei. Bonecos de Luz, com a letra larga e generosa de Romeu Correia na página de abertura — a minha iniciação, ainda infantil, à literatura portuguesa. O livro que Brassai escreveu sobre Picasso — retrato de uma época irrepetível. Goethe e Rilke traduzidos por Paulo Quintela. A primeira edição da biografia de Pessoa escrita por Gaspar Simões, psicanalista improvisado do “Menino de Sua Mãe”.
Parecia-me tão grande, a biblioteca, quando eu era miúdo. Pareceu-me hoje mais pequena quando regressei nesta romagem de saudade: mesmo assim, cheia de obras que nunca terei tempo de ler. Sentei-me num cadeirão durante longos minutos, em silêncio, e senti-me um garoto outra vez. À espera que o meu pai chegasse a qualquer momento para me tirar aquele livro lá em cima, da última estante. Estendi o braço mas não cheguei lá.
Em véspera de Finados, reedito este texto que julgo corresponder ao que me pedem no sempre excelente Escrever é triste.


Caro Pedro Correia,
Sorri ao reler o texto e aqui, junto à minha estante, estendo o braço para pegar um livro. Também eu, apesar de ter crescido, não chego ao topo porque me falta o meu Pai, mas chego a um dos vários livros com uma dedicatória do meu avô.
Coincidência ou não, voltei a ler este seu belíssimo e comovente texto.
Hoje dia 1 de Novembro.
Resto de uma boa noite para si
Obrigado. Não sei quem é mas as palavras são amigas – e é quanto me basta.
Lembro-me bem deste, Pedro. E do “Tempus Fugit” também. Um e outro dos melhores que já vi publicados por aqui. E por aí.
Agradeço-te, meu caro. Há textos que preferíamos não escrever nunca, mas a vida toma essa opção por nós. Um abraço amigo.
Gostei muito de reler este teu texto, tão sentido.
Obrigado, Teresa. Foi muito sentido, sim. Tanto que ainda lembro de cada linha deste texto que escrevi há mais de um ano e me saiu de um jacto, como se alguém me guiasse a mão.
Lembrei-me deste seu texto pelo titulo, que também é a ultima frase, que me tocou muito.
Mas também são esses mesmo braços que crescem com a memória. Como se o tempo que não foi nos prolongasse os dedos para o que tem que ser.
um abraço, Pedro.
É verdade, Cristina. Os braços crescem com a memória – e também com a responsabilidade de passar o testemunho a quem vem depois de nós. Obrigado pelas suas palavras, uma vez mais.
Boa noite,
por o Delito de Opinião ser um dos blogues que mais regularmente visito, e por muito o apreciar, e como as regras do Prémio Dardos referem que devemos indicar os blogues a que atribuiríamos este mesmo prémio, decidi incluir o Delito de Opinião no conjunto de blogues a que atribui o Prémio dardos.
O Prémio pode ser visto aqui: http://utopiarealista.blogspot.pt/2012/1 1/premio-dardos.html.
Deixo ao critério do Delito de Opinião a exibição, ou não, do referido Prémio.
Cumprimentos,
Utópico.
Que boa surpresa, Utópico. Agradeço-lhe em nome de toda a tribo ‘delituosa’.
Um texto muito bem escrito e comovente. Nunca estamos preparados para que nos deixem de tirar os livros da última estante. Fica a memória e os momentos compartilhados que nada, nem a passagem do tempo e o ciclo da vida, conseguem roubar. Um abraço Pedro.
É como dizes, Helena. Nunca estamos preparados. E de alguma forma é salutar que não estejamos. Porque nenhuma morte é natural.
Obrigado pelas tuas palavras amigas.
(e saudações leoninas)
Gosto muito deste teu texto, Pedro.
Beijo.
Sei que o entendes bem, Leonor. Beijo.
(há pouco revisitei Do Palato para a Boca e voltei a vir de lá fascinado com tanta criatividade gastronómica)
‘Alma’, Pedro 🙂 ‘Do Palato para a alma’.
Ehehe. Lapso freudiano, este. O meu subconsciente sussurrava-me que eu tinha ficado de água na boca…
É bom sinal.
Lembro-me bem de teres escrito este texto. Belíssimo, Pedro.
E eu, enquanto o republicava, lembrei-me daquele teu texto sobre o namoro dos teus pais, Ivone. Um dos melhores que li aqui no DELITO (e felizmente tenho lido vários deles tão excelentes que já lhes perdi a conta…)
Há já quinze anos que retiro eu os livros das prateleiras…mas ainda sinto uma sombra, que por cima do meu ombro espreita o que leio e ( de certeza ) aprova a minha escolha…
thanks for the memories
Obrigado eu, amigo Fernando.
Caro Pedro Correia: quero felicitá-lo pela ternura sofrida deste texto. À minha maneira, porque vivo uma situação parecida, revejo-me muito naquilo que você sente. E já percebeu como, apesar de tudo, acabamos por ser bafejados por alguma delicada felicidade, no seio da tristeza? Temos a sorte de ter os livros como âncoras da nossa memória familiar.
É verdade, meu caro. Utiliza uma expressão certeira: ternura sofrida. É isso. E também é verdade que os livros perduram como âncoras do reduto familiar e poderosos elos de ligação entre gerações. Nenhum computador substitui isso.
Muito me sensibilizaram, estas suas linhas. E faço votos para que um raio de sol possa iluminar estes dias mais sombrios.
Por vezes estes dias, não só, mas também, servem para nos recordar de alguém que já não podemos alcançar com a mão. No entanto podemos sempre, enquanto vivermos, alcançá-los dentro de nós e recordar todo um universo de recordações, estados de alma e emoções que, ainda que nostálgicos, nos trazem um sorriso interior (e muitas vezes exterior) ao relembrar todos aqueles mágicos momentos que vivenciámos, e poderemos continuar a nossa vida sabendo que nunca ninguém nos poderá tirar o bem estar desses momentos e das recordações que deles temos.
Abraço.
Utópico
Essa é também a força vital que nos é transmitida por uma biblioteca familiar. Cada livro nos devolve com juros uma memória muito antiga. Agradeço as suas palavras, caro Utópico.
Gostei tanto de reler este teu texto, Pedro. Uma ternura que me desperta lembranças idênticas, da caverna de Ali Babá que foi para mim a biblioteca do meu pai. Igualmente parada no tempo, aliás. Tudo passa, mas ficam as memórias.
Nada mais certo. Não sei quem é, mas as palavras são amigas – e o que conta é isso. Obrigado.
Ups. Era eu, Pedro. Comentei a partir do telefone e saíu anónimo, não sei porquê.
Ah, eras tu! Bem me parecia que era uma voz amiga.
Pedro, este é um post de leitura reconfortante, coisa que nunca se deve negligenciar, sobretudo em tempos difíceis.
Joana
Penso frequentemente nisso, Joana. E como é importante valorizarmos no tempo certo quem nos rodeia. A família, os amigos, as pessoas com quem sentimos afinidades pelos mais diversos motivos. Nunca temos o braço suficientemente comprido para chegarmos ao ponto mais alto da estante. Sinto isso hoje mais que nunca.
Sempre presente; belo texto.
Abraço
Fico-lhe grato, David. Uma vez mais.
Abraço.
Amigo Pedro,
eu, que tive o privilégio de conhecer e conviver com o teu pai, reconheço neste teu texto uma merecida homenagem a um grande Homem.
Obrigado, meu bom amigo. Enquanto não nos reencontramos, segue um abraço por esta via. Extensivo ao teu pai, que há tantos anos não vejo mas de quem guardo excelentes recordações.
Ao reler este teu post, Pedro, penso em como o amor dos que nos criam permanece em nós, e em como esse é um dos verdadeiros legados da vida adulta, consciente. Tanto na forma de tocar os objectos que revisitamos como nos maneirismos, nas tradições que escolhemos transmitir aos que se nos seguem. Privilegiados os que vivemos vidas destas.
Dizes tudo quanto é essencial nessa maneira bonita de escrever que é tão tua, Cláudia. Um beijo.
“cheia de obras que nunca terei tempo de ler” – uma verdadeira biblioteca é inultrapassável.
“Estendi o braço mas não cheguei lá” – tendo herdado de meu pai a melhor metade dos livros que tenho, não duvido que uma verdadeira biblioteca está fora do alcance da mão. Ou seja: tens uma verdadeira biblioteca. Parabéns.
É isso mesmo, meu caro. Muito bem dito.
Caro Pedro,
Não só respondeu lindamente ao meu desafio, como o ultrapassou generosamente com este seu texto pessoal, fiel e verdadeiro. Votos de que possa voltar muitas vezes à sua biblioteca.
Obrigado pelo simpático desafio, ‘Escrever é triste’. Gosto muito do vosso blogue, que nunca roça a mediania e sente alergia à mediocridade. E como nós andamos necessitados de voar acima da mediania…
Obrigado, Pedro, por esta excelente prosa.
Levei para partilhar na minha Praça.
Leva à vontade, João. Com um abraço amigo. E votos de boa saúde.