Nove e vinte e cinco. Os cães ladram inquietos. Eles vêm aí. Sei que são eles. Espreito pela janela do quarto e vejo-os. Desço as escadas a tempo de lhes abrir a porta. Dizem ao que vêm sorridentes para soltar um lamento de seguida ‘Está tudo na missa. Ninguém nos abre a porta’. E o outro ‘e ele tem de se ir embora às dez’. Sempre achei que a religião é como o amor ainda em que numa proporção diferente, em demasia matar-nos-á e agradeço aos meus deuses por me terem arredado de sacristias e outros lugares estranhos de santos em esgares e sofrimentos, não nos bastasse já a vida. As crianças terão doces. Abrem-me os sacos de pano e para lá vou despejando com a supervisão dos dois a mesma, a mesmíssima quantidade de guloseimas: chupas, rebuçados, moedas de chocolate. Foram as primeiras das últimas crianças que vieram a minha casa pedir Pão-por-Deus. Acabou este ano com uma garota sorridente de sobrancelhas ralas que me inquiriu à saída ‘Posso fazer uma pergunta?’ Claro!’ ‘Esta árvore que tem aqui chama-se como?’ ‘Azevinho.’ ‘É isso’ diz-me. E a conversa corre solta sobre o azevinho e as bolinhas vermelhas numa manhã de sol brilhante indiferente ao país que anoitece. Quando voltei para dentro e a minha porta fechou-se pela derradeira vez. Dentro dela anoiteci. Estranho país o que mata as tradições. Estranho país o que nos matará a todos.
Também aqui.

A Leonor tem alma de poeta.
Olhe que o poeta é uma espécie rara de animal,
tipo selvagem, mas daqueles que não mata.
É isolado e solitário, alimenta-se de sensações e tem o dom de gerar emoções,
trabalha com as palavras, usa-as para esculpir sua obra, é talvez por obrigação, por amor ou apenas por dedicação. Será maldição?
A vida do poeta é ingrata,
restando-lhe o consolo do alivio na partilha do que lhe vai no coração.
Elogia-me demasiado, português. Como diria Florbela Espanca ‘Ser poeta é ser mais alto / é ser mais do que os homens’, mas concedo que tenho dias em que sinto animal solitário, outros mais selvagem 🙂 Estou a brincar claro.
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
” estranho país o que nos matará a todos ”
Já António Machado o dissera
“…Españolito que vienes
al mundo te guarde Dios.
una de las dos Españas
ha de helarte el corazón. …”
Ai o meu castelhano
Este país já nos está a matar.
Tem toda a razão, estranho país que mata as tradições!
Este ano pela primeira vez, pelas 22:30 do dia 31 de outubro, tocaram-me á campainha os seguintes dizeres ” Doce ou Travessura “…
Eu que estava na altura a passar pelos braços de Morfeu, só consegui balbuciar : Quem? o quê? e apressando o cérebro ao raciocínio lá tentei decifrar o sentido.
O rapaz entretanto lá se foi embora, agastado pelo silêncio da resposta…
O que aconteceu ao ” Pão por Deus ” ? pensei eu já refeita do impacto …
Aqui na região saloia ainda impera o Pão-por-Deus, cr. Como moro numa aldeia as crianças são muitas. Gosto de as receber em minha casa e ver algumas crescer ao longo dos anos. Ontem foi o último.
Leonor, Porquê «o último»? (Espero que esteja tudo bem, e que não seja o meu sentido paranóico – deve ser o 8º sentido – que esteja a ler coisas nas entrelinhas, neste «último»… «as primeiras das últimas crianças»… Ou houve algum post que me escapou?) Cumps, André
Olá André,
Muito obrigada pela preocupação e as minhas desculpas por te (posso tratar-te por tu, não posso?) ter induzido em erro. Está tudo bem. O problema é que acabando este feriado acaba a tradição, já que o Pão-por-Deus é/era no Dia de Todos os Santos. Fiquei angustiada com isto.
Espero que esteja tudo bem no lado civilizado da Europa 😉
Cumprimentos.
É um belo retrato do país que hoje nos é servido. Mata-se a cultura, mata-se a tradição, mata-se tudo o que mexe em nome, segundo dizem, da nossa bela imagem “lá fora”… e já agora suspenda-se lá a democracia só para provar que Manuela Ferreira Leite afinal tinha razão. Um destes dias ainda alguém vai escrever o livro com a “História de um País outrora chamado Portugal”.
Artur Anselmo, esse título é muito bom. Tem toda a razão. Não há nada que esteja a salvo. Obrigada.
Como admiro a força sugestiva da tua escrita, Leonor… Voltei a sentir isso, uma vez, mais com este texto.
Obrigada, Pedro. Vou reconstruindo e escrevendo.
E viste como está lindo e frondoso o meu azevinho?
Está, sim.
Que belo texto, Leonor. Já estava com saudades de ler uma das tuas crónicas aqui no Delito.
Obrigada, Teresa.
A menina “amanda-lhe” bem com as palavritas. Não sei se é por Deus ou pelos deuses, mas amanda-lhe. Parabéns. 🙂
Obrigada 🙂