O maravilhoso relato e as belas fotografias das férias


escafandro,

Regressa-se de férias e fala-se do tempo que se apanhou (nunca tão mau que tenha arruinado a experiência), dos locais que se visitaram (quase todos pelo menos muito giros), da temperatura da água da praia onde se ficou assim fantasticamente bronzeado (mas só se fala do bronzeado depois de alguém o mencionar primeiro). Evita-se abordar os maus momentos (de chatice, desilusão, irritação, cansaço) que, aliás, são empurrados para um canto escuro do cérebro onde, com sorte, apenas se voltará nas férias do ano seguinte, ao enfrentar momentos de chatice, desilusão, irritação e cansaço exactamente iguais. Trazem-se centenas ou milhares de fotografias que se mostram a familiares, amigos e colegas de trabalho. Noventa e cinco por cento (vêem, sou capaz de ser magnânimo) são más (tortas, desfocadas, tremidas, cheias de ruído digital, mostrando um primeiro plano vazio e um segundo plano desinteressante); pior, há uma média de trinta e oito fotografias por local, sendo que na maioria dos casos duas seriam suficientes (com frequência, uma; por vezes, nenhuma). Trata-se de um massacre que as vítimas (mas vítimas que tendem a pôr-se a jeito) suportam com um sorriso cada vez mais dorido. Ainda assim, toda a gente mantém as aparências.

 

No que me diz respeito, evito fazer longas descrições das minhas férias e quase não mostro fotografias. Explico que nem pensar em apresentá-las assim, por seleccionar. Seria demasiado penoso para quem as visse, acrescento. Não resulta. Ninguém parece ouvir-me. Ninguém percebe a mensagem implícita e toda a gente continua a mostrar-me cada uma das centenas de fotos que tirou nas férias e a repreender-me por não mostrar as minhas. Serei a única pessoa não-masoquista no raio do planeta? Decididamente, regressar de férias sucks. Mesmo quando são os outros a fazê-lo.

Catedral de Siena. Espectacular, é o que vos digo.

Tenho mais vinte e duas, só do interior.

Já sei: vou publicá-las ao ritmo de uma por dia, ok?

 

Adenda: Se alguma daquelas pessoas que costumam mostrar-me centenas de fotografias de férias estiver a ler isto, é favor ter em conta que não estou a falar dela mas das outras pessoas que costumam mostrar-me centenas de fotografias de férias. (A sério: as tuas são super-giras.)

«Espaço Arte» e pénis nas fachadas


escafandro,

Fartei-me de rir ao ler sobre o cancelamento de uma exposição de artes plásticas prevista para o «Espaço Arte» (lindo) de uma seguradora, alegadamente (que é como quem diz, de acordo com os cancelados) por motivos homofóbicos. E fartei-me de rir porque o caso mostra como a parvoíce e o ridículo estão democraticamente disseminados pela nossa sociedade (ou querem espaço mais amplo do que o que vai de um «artista de vanguarda» a um manga-de-alpaca cujo negócio são «condições particulares» de apólices de seguro, passando por jornalistas em busca de polémicas e opinadores politicamente correctos?).

 

O «Espaço Arte» (lindo, lindo) em questão é privado. Está aberto enquanto o proprietário entender e apresenta o que o proprietário entender. Vir falar de censura é ridículo. É tão censura como eu mudar de canal sempre que a Júlia Pinheiro surge no ecrã e abre a boca, preparando-se para falar. Ninguém é obrigado a gostar de desenhos de pénis. Mas na sociedade em que vivemos as empresas têm de ter cuidado e, se decidem fingir que apoiam as artes (já agora, não será discriminação escolherem uma arte em detrimento de outras?), deviam ter o bom senso de definir critérios à partida (tipo não queremos cartazes na parede exterior do edifício com desenhos de pénis; e, já agora, nem no interior) e estar preparadas para negociar quando as coisas descambam (tipo nós não queremos cancelar a exposição e não vamos cancelar a exposição que, aliás, adoramos, mas vamos ter de chegar a um compromisso e pelo menos mudar o cartaz, ok?*). Claro que para isto seria necessário que as empresas portuguesas tivessem pessoas competentes nos lugares onde habitualmente estão yes boys e yes girls (nota quiçá a despropósito: por que é que eu nunca me deparo com yes girls?) entusiastas de «conceitos» e «estratégias» e «posicionamentos» (não confundir com «posições») e «modernidade» e «vanguarda» e «visão» mas, na realidade, não valendo um dos poucos pêlos púbicos que a tendência desenfreada para a depilação ainda permite que sobrevivam.

 

Ou então as empresas devem perceber que não vale a pena. Que os riscos são hoje demasiado elevados. Que, assim como assim, ninguém liga peva ao mecenato cultural a menos que inclua um piquenique com concerto do Tony Carreira, mas que um só escândalo pode ter efeitos bastante negativos para a imagem da empresa. E que o que há mais por aí são «artistas» preparados para transformar em escândalo o mais pequeno desaguisado, em especial, claro, se fizerem parte de uma «minoria». Afinal, o escândalo é excelente para o negócio. Para o negócio deles, bem entendido.  

 


* E mudado o cartaz tudo ficaria bem porque, convenhamos, quantas pessoas é que entram no «Espaço Arte» em questão para ver o que quer que seja?

Quando chegarmos aos 100% de taxa efectiva podemos parar?


escafandro,

Reconhecendo que também há aspectos negativos em fazê-lo (diminuição da liquidez nos mercados, perda de elementos de alerta, eliminação de importantes fontes de rendimento para regiões sem grandes alternativas, etc.), sou favorável ao fim do short selling e dos off-shores. Primeiro, por razões de nivelamento do campo de jogo; depois, por dois factores que andamos a clamar serem importantes para governos falidos e cidadãos remediados e que, por conseguinte, também deviam sê-lo para empresas poderosas e cidadãos ricos: transparência e uma correspondência mais real entre as folhas de cálculo e o mundo físico. Não reterei o fôlego e até vou arranjar uma cadeira bem ergonómica que me permita esperar confortavelmente sentado mas gostava de deixar isto claro

 

Estabelecido o ponto anterior, deve ser fácil perceber que esta coisa do imposto extraordinário a pagar pelos ricos me parece bem. Contudo, não por razões de fundo. Apenas porque se é preciso tirar ainda mais a alguém, que seja aos ricos, uma vez que isso, para variar, me deixa de fora. Mas há um pormenor que me faz espécie: alguém acredita mesmo que os problemas em que a Europa se encontra poderão ser resolvidos (ou teriam sido evitados) sacando a ricos cumó catano (ainda que – oh, almas caridosas – eles estejam disponíveis para «devolver à comunidade» parte do dinheiro que se esqueceram de fazer passar por off-shores) ou gente assim-assim na vida ainda mais impostos? A sério? Já agora, quanto mais? De modo a que o Estado possa crescer até representar exactamente que percentagem da economia? Setenta, oitenta por cento?  As exportações – a nossa única esperança de ir equilibrando as contas, não é o que nos dizem? – disparariam certamente. Mas não será preferível nacionalizar tudo e dividirmos irmãmente o rendimento disponível? Acaba-se com os ricos (eu estou-me nas tintas; já perdi as esperanças de poder vir a comprar o Aston), resolve-se o problema.

Vendem-se t-shirts


escafandro,

Perfeitas para poupar saliva a quem regressa de férias. De cor branca ou preta, disponíveis em todos os tamanhos de adulto, com uma das seguintes frases estampada na parte frontal:

Versão 1: «O tempo esteve excelente e a água um espanto!»

Versão 2: «Ainda apanhámos um bocadinho de chuva mas esteve quase sempre bom.»

Versão 3: «Oh, assim como assim, o importante é descansar.»

Preço: €15,00 cada. Desconto de 10% na compra das três versões (aproveite: as que não usar este ano, usa nos próximos).

Ideólogos


escafandro,

Acaba de escrever o post em que ataca Merkel e a Alemanha e recosta-se na cadeira para o reler. Antes, ajusta o ecrã do Mac. Parece-lhe bem. Forte. É inaceitável que tanta gente continue a submeter-se aos diktats do governo germânico, cujo único interesse é proteger os seus bancos e a sua indústria exportadora. A intransigente e nada solidária Alemanha prepara-se para destruir a União Europeia. O que, estando a UE vergada aos interesses do capital, devidamente protegidos pelo lacaio que lidera a Comissão, só pode ser uma coisa boa. Estamos perto, camaradas: a implosão precederá a revolução. Sorri. Puxa as pontas do colarinho da camisa Boss (um tique que não consegue evitar quando se sente merecedor de elogios), empurra para o lado o porta-chaves do BMW e usa o rato para publicar o post. Acede ao blogue para verificar se ficou bem. Está óptimo. Vai gerar imensos comentários, dar imensa luta. Boa. Luta é aquilo de que ele mais gosta. Endireita-se novamente na cadeira. Lembra-se de que ainda não acabou o post sobre a situação na Líbia, no qual acusa a NATO de ingerência e de se vergar aos interesses das companhias petrolíferas. Devia tratar do assunto antes que os idiotas dos rebeldes, apoiados pelos bombardeamentos cobardes dos franceses e dos americanos, tomem Trípoli e deixem o texto desactualizado. Parece que está por dias. Foda-se, mais um regime decente a caminho de ir pelo cano. Tem mesmo de acabar o post mas resolve que, por hoje, basta. Foi um dia péssimo (o conceito para a nova campanha do Continente não convenceu o pessoal do Belmiro) e devia era ir comer que (confirma consultando o Rolex) já passa da hora de jantar e trouxe um paté novo da loja gourmet que deve ser fantástico. Porém, em vez de se erguer, acede a um site de videojogos. O último Call of Duty: Modern Warfare sai dentro de três meses. Não se pode esquecer. Adora a adrenalina dos jogos de guerra. Pensar em tiros e explosões leva-o a começar a delinear um texto contra os Estados Unidos. Detesta a mentalidade militarista dos americanos, pá. Mas já escreveu tantos posts a cascar nos US of A que o difícil é ser original. Ainda assim, é essencial salientar como os interesses americanos se sobrepõem aos interesses da população mundial. Como os Estados Unidos constituem a pior ditadura da planeta. A única verdadeira ditadura, na realidade. Baseada nos interesses financeiros, no petróleo, na indústria do armamento. Como conseguiram implantar na cabeça das pessoas a necessidade do consumo e da posse de bens materiais. Como as fazem perder tempo com futilidades em vez de se dedicarem a coisas verdadeiramente importantes. A felicidade não passa por coisas materiais, pensa ele, enquanto sai do site de jogos e entra novamente no blogue. Nesse momento o iPhone toca. Pega-lhe. Deixou-o cair durante a tarde e repara mais uma vez que o ecrã ficou com um risco. Merda. Detesta coisas deterioradas. É Quim. Atende. «Já viste as notícias? Há confrontos nas ruas de Londres! Milhares de miúdos estão a incendiar e a partir tudo.» Sente um arrepio de prazer. Caramba, pensa, enquanto acede a um site de notícias e liga o televisor com o comando, já era tempo de o pessoal explorado pelo capitalismo e excluído dos seus lucros começar a partir coisas. As notícias são espectaculares e ele vai ficando mais excitado à medida que vê as imagens. Apetece-lhe apanhar um avião para Londres e ajudar na destruição. É fundamental partir tudo o que for possível partir. O iPhone toca de novo. Que merda aquele risco, pá. Vai acabar por trocá-lo por outro, está-se mesmo a ver. «Vou a caminho», anuncia Quim. «Tinha que dar uma aula de mestrado mas telefonei a dizer que estou doente. Temos que pensar num plano de acção.» «OK, entretanto vou começar a escrever um post sobre o assunto.» Mas em vez disso passa vários minutos a acompanhar as notícias e a esfregar o ecrã do iPhone com a ponta do polegar (foda-se, é mesmo um risco, não é sujidade). Quim chega cinco minutos depois. Vem atarefado a teclar mensagens no BlackBerry. «Temos que começar uma coisa parecida por cá», explica. «Atacar a AutoEuropa ou a Sonae.» Deixa-se cair no sofá. Repara no plasma de quarenta e seis polegadas.

«É novo?»

«É.»

«Tem 3D?»

«Foda-se, não! O 3D é coisa de filmes americanos, típica da sociedade de consumo.»

Quim continua a premir as teclas do BlackBerry mas agora a um ritmo mais lento. E depois acaba mesmo por parar. Pigarreia. «Hmmmm, não sei», diz. «Essa posição parece-me um bocadinho reaccionária.»

Velhice


escafandro,

Pela janela da sala de jantar, Bunny conseguia ver o Old John estendido no alpendre das traseiras com a cabeça sobre as patas negras. John estava velho e decrépito. No Inverno, ficou com reumatismo nas patas e tinha de ser transportado para dentro e para fora de casa. Passava metade dos seus dias à procura de ossos que há muito tinha desenterrado. E, muitas vezes, abanava afectuosamente a cauda sem ver ninguém.

[…]

Quando abriu a porta das traseiras, o céu lá no alto estava límpido, o ar rarefeito e sem calor. Old John ergueu-se e estendeu as patas, algo instável. Bunny reconheceu o gesto como um desejo de o seguir. Mas, tendo feito o gesto, Old John não conseguiu mais. Caiu debilmente no seu quadrado recortado de um tapete.

William Maxwell, Vieram como Andorinhas (Páginas 30 e 37).

Edição Sextante, tradução de Rita Almeida Simões.

Ideias para blockbusters


escafandro,

Tendo ficado subjugado pela magnífica ideia de juntar cowboys e aliens no mesmo filme (não será altura de arranjar uma classificação Menores de 18 anos?), permito-me avançar umas quantas sugestões para futuros êxitos de bilheteira:

 

Monstros & Agentes Secretos;

Gladiadores & Super-Heróis;

Feiticeiros & Navy Seals;

Nerds & Bodybuilders;

Motoqueiros & Motoristas de Camião;

Cossacos & Pigmeus;

Piratas & Tuaregues;

Anacondas & Cães Super-Inteligentes;

Padres & Artistas de Cabaret;

Índios & Trabalhadores da Construção Civil;

Cartoons & Doentes Mentais;

Ilusionistas & Especialistas em Kung-Fu;

Médicos & Mentirosos Compulsivos;

Vírus Mortais & Lulas Gigantes;

Monges Tibetanos & Pregadores da Igreja Universal do Reino de Deus;

Freiras & Participantes em Gay Parades;

Alpinistas & Pilotos da Primeira Guerra Mundial;

Ladrões & Cegos, Surdos e Mudos;

Polícias & Deuses Gregos;

Bebés & Vampes;

Cozinheiros & Homens do Lixo;

Robots & Rednecks;

Lésbicas & Exploradores Subaquáticos;

Tetraplégicos & Hiperactivos;

Banqueiros & Pintores de Graffiti;

Economistas & Tarólogos;

Formigas Gigantes & Elefantes Bebé;

Pugilistas & Especialistas em Feng Shui;

Espadachins & Pauliteiros de Miranda;

Jornalistas & Escritores de Best-sellers;

Produtores de Hollywood & Prostitutas.

 

Hmmm, pensando bem, risquem as duas últimas – estão demasiado vistas.

Teoria dos limites do potencial humano ou como tentar conferir respeitabilidade a um texto pateta através da utilização de uma citação e de um título pomposo


escafandro,

– Queria dizer que o trabalho cerebral debilitava a virilidade, razão por que tantos pintores vivem períodos de depressão profunda.

– E os escultores, não?

– Todos – resmungou Guido. – Todos os loucos que esforçam o cérebro que não sabem quando é tempo de parar.

Cesare Pavese, A Praia.

Edição Ulisseia, tradução de Ana Tomás.

 

Muito bem, isto explica por que motivo tantos intelectuais estão longe de parecerem monstros de virilidade e de optimismo. Pensam demais, logo f…azem outras coisas de menos e isso, naturalmente, entristece-os. Mas não deixa de ser curioso constatar como o inverso também é verdadeiro – como tantos rapazes musculados e raparigas pulposas transmitem a ideia de nunca terem aberto um livro na vida. Vai-se a ver e pode estimular-se cérebro e corpo até ao máximo do potencial de cada um deles mas não até ao máximo de ambos em simultâneo. 100% de intelectualidade exigem 0% de virilidade e 100% de virilidade têm como contrapartida só saber contar com o auxílio dos dedos e perceber o significado de «estúpido» mas não de «mentecapto» ou de «néscio». Se esta teoria estiver certa (e porque haveria de não estar, sendo Pavese um autor digno do maior crédito, mesmo em tempos de crédito difícil?), a maioria das pessoas será uma mistura de intelectualidade com virilidade (dois terços de uma para um terço da outra, por exemplo), sendo que muitas (nem deve ser preciso referi-lo, excepto ao Zezé Camarinha) nem à média de 50% conseguem chegar. Dois ou três exemplos, para além do já indicado? Nah, não vale a pena ferir susceptibilidades que o cérebro, especialmente nos indivíduos com reduzido teor de intelectualidade, é órgão cheio de ilusões. Convém é mencionar as inevitáveis excepções à regra, casos pouco frequentes de gente capaz de furar a escala e de chegar mesmo aos 60% ou aos 70% do potencial teórico, e que configuram o que poderá ser tecnicamente designado por anomalias genéticas ou sacanas com sorte (também poderia usar-se o termo «génios» mas para tal seria necessário que outra pessoa estivesse a escrever isto). Tudo indica que a proporção entre intelecto e virilidade se altera ao longo da vida mas, sem ajuda de comprimidinhos azuis ou de almofadas de silicone, não no melhor sentido. Por seu turno, o dinheiro é um excelente substituto tanto de virilidade como de intelectualidade, permitindo a algumas pessoas com índices corriqueiros viverem como se fossem efectivamente especiais (sim, it’s an injustice, it is). 

 

Porém, estabelecida a teoria, tem de ser considerado facto estranho existirem intelectuais: levando em conta aquilo de que se prescinde, qualquer humano com dois neurónios funcionais evitaria tão activamente quanto lhe fosse possível desenvolver os restantes. Por que aceitam então alguns fazê-lo? Talvez a explicação seja simples, ainda que não simpática: ser intelectual é sempre um refúgio, um último recurso. É, no fundo, imaginar uma virilidade.

 

Adenda: julgo que este post é suficientemente idiota para deixar claro que eu estou muito longe de ser um intelectual.

O Jardim socialista


escafandro,

Este texto de Teresa Ribeiro salientando a reacção temerosa do Ministro das Finanças às perguntas de Judite de Sousa sobre a situação da Madeira faz todo o sentido. Eu também me senti incomodado. A direita, e em especial o PSD, sempre recusou enfrentar Alberto João Jardim (excepto, até certo ponto, Cavaco, e por isso Jardim o detesta). A Madeira é o mais óbvio e escandaloso feudo existente no país. O epítome do caciquismo. Mas o poder de Jardim resulta de duas vertentes. Por um lado, temos os métodos autocráticos. O desprezo pelas opiniões adversas, a colocação de sequazes, as perseguições políticas. São inegáveis e deviam ser inaceitáveis. Quem os denuncia, da esquerda à direita, tem toda a razão em fazê-lo. Mas há outra parte da questão. As vitórias eleitorais de Alberto João Jardim resultam em grande medida do investimento público e da distribuição de benesses. Da forma como ele tem ignorado os constrangimentos da dívida pública para continuar a construir estradas e túneis. Da forma como tem usado os sistemas de subsídios públicos para fazer depender do seu governo milhares de madeirenses. Ora é neste ponto que eu não percebo a esquerda. Partido Comunista e Bloco garantem-nos que a austeridade não resulta; que é indispensável relegar défice e dívida para segundo plano e (vá-se lá saber com que dinheiro) continuar a apostar no investimento público e nas transferências sociais. Ou seja, fazer exactamente o que Jardim tem feito. Ainda que atacando estilo e métodos (mas são assim tão diferentes dos de Hugo Chávez, por exemplo?), PC e Bloco deviam antes elogiar a obra de Alberto João Jardim. Ele não faz mais do que aplicar as «soluções» que preconizam. Jardim devia ser um símbolo para a esquerda e não um embaraço para a direita.

Bronze


escafandro,

Vejo milhares de pessoas nas praias trabalhando afanosamente para o bronze e não consigo deixar de pensar que esta falta de ambição nos define. Apontamos baixo. Porque não trabalhamos para o ouro ou, no mínimo, para a prata?

XY


escafandro,

Pergunta de algibeira: por que será que estes «manifestantes» que partem montras e saqueiam lojas em nome de mais justiça social são quase todos do sexo masculino? As mulheres não sentem problemas similares, talvez piores?

 

Pista: pela mesma razão que também não se vêem muitas mulheres nas claques de futebol que vandalizam áreas de serviço em nome de um clube.

Vaidade


escafandro,

Quando sabemos que não valemos nada, só mesmo jogar à roleta russa com a morte é que pode satisfazer a nossa vaidade.

Don DeLillo, Submundo. Edição Sextante, tradução de Paulo Faria.

 

Mas há quem lhe chame outras coisas. Desejo de justiça, por exemplo. E, claro, a culpa de não valermos nada (ou, mais exactamente, de pensarmos não valer nada) é sempre alheia. Dos nossos pais, dos nossos professores, do governo, de realidades difusas como a globalização, de pessoas tentando defender as suas lojas.

Da revolta


escafandro,

A destruição é atraente. Ver carros desfeitos e prédios a arder. Uau. Qualquer justificação é desnecessária, excepto a oportunidade. Subitamente, pode-se fazê-lo. Talvez não se deseje matar alguém mas não se pensa nisso. Se acontecer, acontece. E se for um polícia, nem conta. Dificilmente os polícias podem ser considerados «alguém». São o factor de risco. O acréscimo de adrenalina. Os filhos da puta e os soldados dos filhos da puta. São a justificação formal, juntamente com a sociedade de consumo, o capitalismo, a injustiça social. Não importa. O que importa é deixar marca. Destruir coisas. Ver prédios a arder e saber que se fez aquilo. Uau. Duplo uau. É a coisa mais fantástica que já se fez na vida – a mais fantástica que provavelmente alguma vez se virá a fazer (mas não se pensa nisso; o futuro é uma entidade abstracta que nada significa). A emoção de ser um fora-da-lei, de conseguir deixar zonas da cidade a ferro e fogo, de obrigar toda a gente a prestar atenção e a borrar-se de medo. E ainda de ver especialistas na televisão e nos jornais explicando que há motivos válidos para os actos. Que estes são cometidos por pessoas que devem ser ouvidas. Que têm ideias. Uau. Fucking uau.

 

Mas já agora, que estamos numa de vandalizar e assaltar lojas, que sejam de material electrónico, de modo a poder levar-se para casa um iPad ou uma PS3. No fundo, é o que verdadeiramente se deseja.