Ideólogos


escafandro,

Acaba de escrever o post em que ataca Merkel e a Alemanha e recosta-se na cadeira para o reler. Antes, ajusta o ecrã do Mac. Parece-lhe bem. Forte. É inaceitável que tanta gente continue a submeter-se aos diktats do governo germânico, cujo único interesse é proteger os seus bancos e a sua indústria exportadora. A intransigente e nada solidária Alemanha prepara-se para destruir a União Europeia. O que, estando a UE vergada aos interesses do capital, devidamente protegidos pelo lacaio que lidera a Comissão, só pode ser uma coisa boa. Estamos perto, camaradas: a implosão precederá a revolução. Sorri. Puxa as pontas do colarinho da camisa Boss (um tique que não consegue evitar quando se sente merecedor de elogios), empurra para o lado o porta-chaves do BMW e usa o rato para publicar o post. Acede ao blogue para verificar se ficou bem. Está óptimo. Vai gerar imensos comentários, dar imensa luta. Boa. Luta é aquilo de que ele mais gosta. Endireita-se novamente na cadeira. Lembra-se de que ainda não acabou o post sobre a situação na Líbia, no qual acusa a NATO de ingerência e de se vergar aos interesses das companhias petrolíferas. Devia tratar do assunto antes que os idiotas dos rebeldes, apoiados pelos bombardeamentos cobardes dos franceses e dos americanos, tomem Trípoli e deixem o texto desactualizado. Parece que está por dias. Foda-se, mais um regime decente a caminho de ir pelo cano. Tem mesmo de acabar o post mas resolve que, por hoje, basta. Foi um dia péssimo (o conceito para a nova campanha do Continente não convenceu o pessoal do Belmiro) e devia era ir comer que (confirma consultando o Rolex) já passa da hora de jantar e trouxe um paté novo da loja gourmet que deve ser fantástico. Porém, em vez de se erguer, acede a um site de videojogos. O último Call of Duty: Modern Warfare sai dentro de três meses. Não se pode esquecer. Adora a adrenalina dos jogos de guerra. Pensar em tiros e explosões leva-o a começar a delinear um texto contra os Estados Unidos. Detesta a mentalidade militarista dos americanos, pá. Mas já escreveu tantos posts a cascar nos US of A que o difícil é ser original. Ainda assim, é essencial salientar como os interesses americanos se sobrepõem aos interesses da população mundial. Como os Estados Unidos constituem a pior ditadura da planeta. A única verdadeira ditadura, na realidade. Baseada nos interesses financeiros, no petróleo, na indústria do armamento. Como conseguiram implantar na cabeça das pessoas a necessidade do consumo e da posse de bens materiais. Como as fazem perder tempo com futilidades em vez de se dedicarem a coisas verdadeiramente importantes. A felicidade não passa por coisas materiais, pensa ele, enquanto sai do site de jogos e entra novamente no blogue. Nesse momento o iPhone toca. Pega-lhe. Deixou-o cair durante a tarde e repara mais uma vez que o ecrã ficou com um risco. Merda. Detesta coisas deterioradas. É Quim. Atende. «Já viste as notícias? Há confrontos nas ruas de Londres! Milhares de miúdos estão a incendiar e a partir tudo.» Sente um arrepio de prazer. Caramba, pensa, enquanto acede a um site de notícias e liga o televisor com o comando, já era tempo de o pessoal explorado pelo capitalismo e excluído dos seus lucros começar a partir coisas. As notícias são espectaculares e ele vai ficando mais excitado à medida que vê as imagens. Apetece-lhe apanhar um avião para Londres e ajudar na destruição. É fundamental partir tudo o que for possível partir. O iPhone toca de novo. Que merda aquele risco, pá. Vai acabar por trocá-lo por outro, está-se mesmo a ver. «Vou a caminho», anuncia Quim. «Tinha que dar uma aula de mestrado mas telefonei a dizer que estou doente. Temos que pensar num plano de acção.» «OK, entretanto vou começar a escrever um post sobre o assunto.» Mas em vez disso passa vários minutos a acompanhar as notícias e a esfregar o ecrã do iPhone com a ponta do polegar (foda-se, é mesmo um risco, não é sujidade). Quim chega cinco minutos depois. Vem atarefado a teclar mensagens no BlackBerry. «Temos que começar uma coisa parecida por cá», explica. «Atacar a AutoEuropa ou a Sonae.» Deixa-se cair no sofá. Repara no plasma de quarenta e seis polegadas.

«É novo?»

«É.»

«Tem 3D?»

«Foda-se, não! O 3D é coisa de filmes americanos, típica da sociedade de consumo.»

Quim continua a premir as teclas do BlackBerry mas agora a um ritmo mais lento. E depois acaba mesmo por parar. Pigarreia. «Hmmmm, não sei», diz. «Essa posição parece-me um bocadinho reaccionária.»

18 comentários em “Ideólogos”

  1. «Os Estados Unidos constituem a pior ditadura da planeta. A única verdadeira ditadura, na realidade. Baseada nos interesses financeiros, no petróleo, na indústria do armamento. Como conseguiram implantar na cabeça das pessoas a necessidade do consumo e da posse de bens materiais. Como as fazem perder tempo com futilidades em vez de se dedicarem a coisas verdadeiramente importantes. A felicidade não passa por coisas materiais, pensa ele, enquanto sai do site de jogos e entra novamente no blogue. Nesse momento o iPhone toca.»
    Eheheheh. Excelente.

      1. Experimenta escrever sobre o Kadhafi, meu caro. O meu texto de há três dias já vai em 308 comentários, uma grande parte dos quais a roçar o insulto (gosto desta expressão: ‘roçar o insulto’).

  2. Como sempre, gostei deste post. Estás tramado jaa, és uma pessoa interessante. Contudo, estou aqui para te contrariar quando a coisa é mais forte do que eu: e não, os USA não são a pior ditadura do planeta. Tretas. Vê-se que não és do tempo dos caudilhos.

    1. Hmmmm, “interessante” é muitas vezes sinónimo de “um bocadinho chato, um bocadinho feio, mas suportável”. Se bem que talvez mais nas mulheres do que nos homens, por isso, olha, obrigado…

      E não sou do tempo dos caudilhos mas li A Festa do Chibo, do Vargas Llosa. E continuo a dizer que os Estados Unidos são muito piores!

      Ah, espera, o Trujilllo era de direita. Nesse caso, era tão mau como os Estados Unidos.

    1. Obrigado, Samuel. Mas a verdade é que, pessoalmente, não conheço nenhuma personagem assim. Aliás, eu não conheço ninguém pessoalmente – nem os meus colegas de blogue, que é para poder dizer mal deles se for necessário. Mas não deve vir a ser. Ou talvez só no caso de um ou dois…

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