OS EXTRATERRESTRES ESTÃO NO MEIO DE NÓS
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“A prova mais evidente de que existem outras formas de vida inteligente no universo é que nenhuma delas procurou alguma vez contactar-nos.” A frase, dita por Calvin a Hobbes, é bem reveladora de um certo cinismo fin de siècle. Quando eu tinha a idade do Calvin, vivia-se a última das três décadas prodigiosas do pós-guerra, marcadas pelo maior crescimento económico de que há registo na História – uma era de pleno emprego e de expansão do Estado-providência, pouco propícia a cinismos. Fiz parte da primeira geração formada e formatada pelos ecrãs de televisão, ainda sem reality shows. A ficção televisiva moldava-nos o imaginário: tão depressa cavalgávamos nas pradarias norte-americanas, à semelhança dos heróis do Bonanza, como viajávamos ao encontro de novos universos, tal como víamos em Espaço 1999 ou O Caminho das Estrelas. Éramos crentes, éramos crédulos: o impossível estava ali ao virar da esquina. A banda desenhada que líamos compulsivamente e os filmes de Steven Spielberg indiciavam-nos isso. Ao contrário do que viria a dizer Calvin ao seu tigre, nem púnhamos em causa que os extraterrestres nos visitassem: bastava-nos estar no lugar certo e à hora certa para os recebermos em festa e júbilo.
Pensei nisto tudo enquanto via Super 8, de J. J. Abrams. E como poderia não ter pensado se eu tinha a idade daqueles adolescentes em 1979, ano em que decorre a acção do filme, e também andava de câmara super 8 em punho? Também eu tive um grupo de cinema onde havia apenas uma rapariga entre vários rapazes, também eu vivi pelo menos um ano inteiro a pensar de manhã à noite na realização de um filme de ficção do qual só acabariam por restar alguns fragmentos.
Super 8 — produzido por Spielberg, não por acaso — é isto: um filme em que toda a verosimilhança fica suspensa, numa espécie de pacto implícito entre o realizador e os espectadores. O que vemos resulta da imaginação frenética e galopante de um adolescente que confunde a vida real com um episódio de Twilight Zone. O desfecho, empolgante para alguém da minha geração, pode parecer pueril e absurdo para quem cresceu já após a ressaca dos 30 anos mais prodigiosos da História da Europa e dos EUA, adolescentes da era Calvin que olham para E. T. e só conseguem ver água com açúcar.
Não foi o meu caso: J. J. Abrams fez-me voltar aos 15 anos e reviver o grupo Focus, que fundei, fez-me trautear de novo aquela saborosa canção do Chico Buarque (“agora eu era o herói / e o meu cavalo só falava inglês…”), fez-me sentir uma vontade irreprimível de procurar aquelas velhas bobinas amarelas da Kodak onde estão registadas em super 8 as minhas incipientes tentativas de candidato a George Lucas. Ficção e realidade interpenetram-se a tal ponto que é necessário permanecermos mais dois minutos na sala escura, enquanto decorre o genérico final, para percebermos definitivamente que tudo aquilo é apenas um filme.
E se quase tudo na vida dava um filme porque não também a matéria de que são feitos os nossos sonhos?
Super 8 (Super 8, 2011). De J. J. Abrams. Com Joel Courtney, Kyle Chandler, Elle Fanning, Riley Griffiths, Ryan Lee, Gabriel Basso.


É uma aventura saborosa, que nos conduz com eficácia à nossa adolescência, tenhamos ou não brincado com uma super 8. A marca de Spielberg é evidente.
Achei o filme delicioso, Teresa. Um episódio gigante do ‘Twilight Zone’, também uma das minhas séries favoritas quando era miúdo.