Dois casais


escafandro,

E se fizéssemos um exercício teórico muito giro no qual retiramos diferenças de rendimento pré-existentes às análises sobre os apoios sociais? Não? Mas porquê? Vá lá, aprendam a mentir e a fingir entusiasmo (não irão a lado nenhum sem o conseguirem). De resto, não vai demorar mais do que um daqueles inquéritos via telefone ou internet em que uma voz simpática ou um pop-up de cores suaves, respectivamente, nos informa de que se prevêm necessários apenas alguns minutos para responder a tudo. Pode ser então? Vão ver que é simples, talvez até simplista (pedem-me tantas vezes para não complicar que decidi fazer um esforço). Hmmmm, e se no final eu vos contar uma anedota? Óptimo. Comecemos.

 

Cenário. Dois casais, de idades e rendimentos similares. O casal A (ainda um dia hei-de começar pela letra B, ou talvez até por uma do meio do alfabeto) compra um T2 usado recorrendo a cem mil euros de financiamento bancário (cem mil é só para ser um número redondo; cinco vezes redondo, até), um Clio e gasta anualmente dois mil euros (número triplamente redondo) em férias num minúsculo apartamento algarvio. O casal B compra um T3 novo, para o qual obtém um financiamento bancário de duzentos mil euros (mais um número quintuplamente redondo), um A4 e passa férias em locais como St. Moritz e Bora Bora, nunca despendendo menos de cinco mil euros (outro número triplamente redondo). Ao fim de dez anos, o casal A anda a pensar em trocar o Clio que começou a fazer um barulho esquisito sempre que se acelera vigorosamente mas já pagou o apartamento e ainda conseguiu juntar uma pequena poupança. Não tem dívidas a bancos. Por seu turno, o casal B nunca amortizou qualquer empréstimo, trocou duas vezes de carro (e comprou um segundo) e não tem poupança. Pelo contrário, gasta em crédito contraído cerca de dois terços dos rendimentos.

 

Problema. De súbito, o Estado vê-se falido. O governo começa a recolher impostos como se eles fossem uma mercadoria com potencial de valorização. As taxas de juro sobem porque, a nível europeu, há indícios de inflação. Os salários dos elementos dos nossos dois casais são congelados e, alguns meses depois, um elemento de cada casal perde o emprego. As finanças do casal A ficam difíceis, as do casal B entram em colapso.

 

Questão. Deve nesta fase o Estado criar mecanismos de ajuda ao casal B que lhe permitam manter um nível de vida próximo daquele a que se encontrava habituado, à custa do rendimento disponível do casal A?

 

Encaminhamento. Se respondeu «sim», é favor seguir para o parágrafo imediatamente a seguir; no caso de ter respondido «não», queira dirigir os olhos na direcção do parágrafo a seguir a esse.

 

Parágrafo imediatamente a seguir. A sério? É então justo premiar a cigarra à custa da formiga? Que incentivo terá no futuro o casal B (ou qualquer outro casal) para ser financeiramente responsável? (Drible o parágrafo a seguir a esse, que no fundo é o parágrafo a seguir a este, e avance para o remate.)

 

Parágrafo a seguir a esse. Vingativozinhos, hã? Muito bem, o casal B não recebe ajuda e perde o apartamento e os carros, arrenda um pequeno T1 e começa a andar de transportes públicos mas apesar disso não consegue fazer face às despesas, até porque o elemento que ainda tinha emprego também acaba despedido (no fundo, sempre foi pouco produtivo e era visto como demasiado vaidoso por colegas e chefias, cansando-os com longos relatos das férias exóticas). O casal B encontra-se oficialmente na penúria. Pergunta: e agora? Deve o Estado ajudá-lo, usando para isso os impostos do casal A? Para os que responderam «não»: livra, vocês são lixados; para os que responderam «sim»: e que nível de vida lhe deve garantir? Durante quanto tempo? Deve manter os subsídios se os elementos do casal recusarem empregos menos bem pagos (ou menos «dignos») do que aqueles a que estavam habituados?

 

Remate. Responderam a tudo? Muito bem, parabéns, o exercício terminou (não, vocês é que têm de chegar a conclusões) e estamos-vos (eu e todas os outros seres partilhando a minha cabeça) muito agradecidos. Ide em paz e… Esperem. E daí, não. Façam-me um favorzito e respondam de novo às questões considerando que, à partida, o casal B ganhava menos do que o casal A (digamos dois terços ou mesmo metade) e que por isso não andava de A4 e passava férias em Bora Bora mas locomovia-se de Golf e bronzeava-se em Torremolinos. Chegam a respostas diferentes? E se o casal A for Portugal continental e o casal B for a Madeira? E, finalmente, se o casal A for a Alemanha e o casal B for Portugal? Que nível de vida nos deve ser garantido e sob que condições?

 

Anedota. Sabem porque é que inventaram a economia? Para fazer a meteorologia parecer uma ciência.

O mapa


escafandro,

Caminhava pelo passeio, regressando do almoço. Poucas dezenas de metros à minha frente, duas turistas, raparigas de vinte e poucos anos, debatiam-se com um mapa. Uma voltou-se e pediu auxílio a outra rapariga – presumivelmente portuguesa – que se encontrava perto, junto a uma montra. Esta olhou para o mapa, hesitou, chamou uma amiga. Ficaram as quatro a olhar para o mapa, rodando-o, aproximando e afastando a cabeça da sua superfície, olhando para cima uma e outra vez como que para confirmar o local em que se encontravam, fazendo deslizar a ponta do indicador pelo papel. Neste ínterim, cheguei junto delas. Vinha preparado para providenciar ajuda mas nenhuma das quatro ergueu os olhos do mapa. Um pouco desiludido (há o eterno desejo masculino de conseguir salvar a situação com uma facilidade estonteante e, para mais, duas delas – uma turista e uma autóctone – eram bastante atraentes), prossegui caminho. Cinquenta metros depois voltei-me. Continuavam lá, conversando animadamente, cabeças debruçadas sobre a folha de papel.

 

Talvez devesse ter parado e oferecido ajuda. Mas receei que vissem a atitude como presunçosa, quiçá sexista. Foi melhor assim. De resto, posso sempre lá regressar ao fim da tarde. Se continuarem a pedir auxílio apenas a mulheres, há-de lá estar um grupo de dezenas, todas amontoadas em redor do mapa.

A parte do crescimento


escafandro,

Não basta aumentar os impostos e cortar na despesa. Como um montão de gente já explicou, ambas as vias têm efeitos recessivos. Juntas, nem se fala. É também necessário estimular a economia. E desculpar-me-ão o cepticismo mas, por muito que Vítor Gaspar pareça acreditar no poder salvífico do capital estrangeiro, as privatizações e o fim das golden shares não terão impacte significativo. Só há uma medida que pode fazer a diferença. Aquela que Poul Thomsen, do FMI, apelidou de «game changer» e que continua a defender sempre que alguém lhe coloca um microfone à frente: a redução da Taxa Social Única. Por muitas dúvidas que legitimamente suscite, por discutíveis e dolorosas que sejam as contrapartidas necessárias para a implementar, é a única que talvez permita estimular a economia. Mas Thomsen tem razão noutro ponto: o corte não pode ser simbólico. Ou arriscamos aplicar a medida como deve ser ou é preferível ficarmos quietos (um corte simbólico, inútil em termos de crescimento, teria ainda assim de ser compensado, agravando a tendência recessiva). Um aviso, porém: se nada fizermos, depois não vale a pena mostrar surpresa pelo facto de Portugal estar a seguir o mesmo trajecto da Grécia. Nem atirar as culpas para o FMI.

Da condição de adulto


escafandro,

A transição para a condição de adulto ocorre quando pensamos pela primeira vez no passado.

Sherwood Anderson, Winesburg, Ohio.

Edição Ahab, tradução de José Lima.

 

Durante uns tempos achei que esta frase fazia todo o sentido. Li o livro (magnífico) há cerca de um ano e transcrevi-a por achar que fazia todo o sentido. Passamos a adultos quando percebemos que a realidade se alterou, que subitamente dependemos apenas de nós mesmos para muitas coisas e olhamos para trás tentando perceber o que aconteceu. Mas depois lembrei-me de outra teoria, que também devo ter lido algures, provavelmente até em mais de um sítio, segundo a qual a transição ocorre quando pensamos pela primeira vez não no passado mas no mais inevitável momento do futuro – a morte; quando pela primeira vez consideramos seriamente a nossa própria morte e, um tudo-nada surpresos, a vemos como uma possibilidade concreta e menos estranha (menos longínqua, até) do que seria expectável. Fiquei incapaz de decidir a que versão acho mais sentido. Talvez os dois momentos coincidam; talvez seja a consciência da morte que nos leva a pensar no passado – é, no mínimo, a sua sombra: o medo do futuro, a percepção súbita de uma enorme fragilidade. Ou então há várias possibilidades e tudo depende de uma escolha – do modo como quisermos definir o que é um adulto.

Voando pelo céu acima


escafandro,

Tirei a lanterna da mochila e apontei-a para o livro. Vi mapas e desenhos, fotografias de revistas, de jornais e da Internet, fotografias que eu tinha tirado com a máquina do avô. O mundo inteiro estava ali. Por fim, encontrei as fotografias do corpo a cair.

Seria o pai?

Talvez.

Quem quer que fosse, era alguém.

Arranquei as folhas do caderno.

Inverti a ordem, de modo a que a última fosse a primeira e a primeira fosse a última. Quando as desfolhei, parecia que o homem estava a voar pelo céu acima.

E se tivesse mais fotografias, ele teria voado para dentro de uma janela, de regresso ao edifício e o fumo teria entrado no buraco do qual o avião estava prestes a sair.

O pai teria deixado as mensagens de trás para a frente, até o atendedor de chamadas estar vazio, e o avião teria voado para trás, para longe dele, de regresso a Boston.

Ele teria apanhado o elevador para a rua e carregado no botão do rés-do-chão.

Teria caminhado de volta ao metropolitano e o metropolitano teria atravessado o túnel para trás até à paragem da nossa casa.

O pai teria passado pelo torniquete às arrecuas, depois teria passado o passe pela máquina ao contrário enquanto lia o The New York Times da esquerda para a direita.

Teria cuspido o café para dentro da chávena, deslavado os dentes e posto pêlos na cara com uma gilete.

Teria voltado a entrar na cama, o despertador teria tocado do princípio para o fim e ele teria sonhado para trás.

A seguir ter-se-ia levantado de novo no fim da noite antes do pior dia.

Teria entrado a andar para trás no meu quarto, a assobiar «I Am the Walrus» de trás para a frente.

Ter-se-ia metido na cama comigo.

Teria olhado para as estrelas do tecto do meu quarto, que teriam afastado a luz dos nossos olhos.

Eu teria dito «Nada» de trás para a frente.

Ele teria dito «Sim, rapaz», ao contrário.

Eu teria dito «Pai?» do fim para o princípio, o que teria sido igual a dizer «Pai» do princípio para o fim.

Ele ter-me-ia contado a história da Sexta Zona, desde a voz na lata do final até ao princípio, desde «Amo-te» até «Em tempos que já lá vão…»

Teríamos ficado em segurança.

 

Jonathan Safran Foer, Extremamente Alto e Incrivelmente Perto.

Edição Quetzal, tradução de Ana Falcão Bastos.

Rentes de Carvalho e a amizade na política


escafandro,
Rentes de Carvalho sobre a nossa ideia da amizade na política. Brilhante, como sempre. Permito-me – o desplante! – apenas uma achega: nós acreditamos que a amizade (ou aquilo que lhe faz as vezes) é importante na política por estarmos habituados a que seja importante para tudo. Por estarmos habituados a que, neste rectangulozinho deprimido e tantas vezes deprimente, as coisas se resolvam (e a formulação é propositada, já que resolver é especialidade da casa enquanto prever e planear são verbos remetidos a utilização retórica) através da relação pessoal (do favorzinho, do jeitinho, da cunha) e não da competência nem da assumpção de responsabilidades. Já era tempo de crescermos.

Tudo por menos


escafandro,

Na entrevista à SIC, o Ministro das Finanças foi confrontado com uma pergunta que começa a ser frequente: após os cortes orçamentais anunciados, como vai ser possível manter quantidade e qualidade dos serviços prestados? (A pergunta de ontem era sobre o sector da Saúde mas aplica-se a qualquer outro.) O Ministro, em mais uma etapa da esforçada aprendizagem que vem fazendo de como compatibilizar a verdade (campo onde, justiça lhe seja feita, parece preferir mover-se) com a sua nova condição de político, lá falou em rentabilizar recursos, ganhar eficiência, fazer mais com menos, etc. – os chavões do costume. Ora sejamos claros: existindo, como é absurdamente evidente para qualquer pessoa que não tenha passado os últimos anos a curtir uma longa viagem alucinogénica, recursos a rentabilizar e desperdícios a eliminar, a falta de dinheiro levará a que, em quase todos os sectores e certamente naqueles onde, pelo peso que representam, os cortes terão de ser significativos, se verifique mesmo decréscimo da quantidade e/ou da qualidade dos serviços prestados. Exactamente da mesma forma que uma família em dificuldades financeiras obrigada a cortar nas férias, mudar-se para um apartamento mais pequeno ou trocar o carro pelos transportes públicos perde qualidade de vida. É agradável? Pelo contrário: é péssimo. Mas é matemática e não uma questão ideológica. Já as formas de minimizar os efeitos da falta de dinheiro, essas sim, são marcadas pela ideologia e merecem ser discutidas.

Eurojunk


escafandro,

Podendo ter contribuído para deixar os mercados novamente em convulsão, o aviso da Standard & Poors de que os eurobonds receberiam a notação da dívida menos bem cotada de entre todos os países participantes não merece ataques mas agradecimentos. Devia ser um lembrete precioso de que, no limite, qualquer união vale apenas o que vale o seu elo mais fraco. Mas nunca é agradável estragarem-nos as ilusões. Sem uma união política efectiva (e alguém acha possível haver uma união política, ainda que os portugueses estejam mais do que dispostos a trocar soberania por dinheiro?), o euro, tal como existe, está condenado. Resta saber quem irá desligar a máquina e declarar o óbito.

Nunca compreendemos nada a tempo


escafandro,

Começa a ser lugar-comum referir Cormac McCarthy quando se fala de David Vann mas ao ler este livro é difícil escapar à tentação. Mesmo que se ignorem alguns pontos de contacto ao nível do estilo (por exemplo, os diálogos, secos e sincopados, e o modo como se dispensam elementos visuais que os separem do restante texto), a base de partida não pode deixar de fazer imediatamente pensar em A Estrada: um pai, um filho, um ambiente inóspito que é quase uma personagem (outra marca registada de McCarthy), uma presença feminina distante (mas, aqui mais do que em A Estrada, absolutamente fundamental). Num caso como no outro, parece demasiado simples, quase insuficiente para dar origem a um romance. Num caso como no outro, o resultado é uma obra-prima.

 

Um pai convida o filho de treze anos para passar um ano com ele numa ilha isolada do Alaska. O rapaz, Roy, hesita. Mal conhece o pai, que se divorciou há anos da sua mãe e tem vivido com outra mulher. Primeiro diz que não quer ir mas depois acaba por aceitar o convite. Via-se a si próprio ajudando o pai, os dois fazendo caminhadas e pescando e passeando por glaciares brilhando à luz do sol. Sentia já saudades da mãe e da irmã e dos amigos, mas sentia que havia nisto qualquer coisa de inevitável, que na realidade não havia escolha nenhuma. Roy chega à ilha renitente, céptico, já ligeiramente aborrecido, quase certo de ter cometido um erro. Por sua vez, o pai vem todo animado, dizendo que irão passar uns meses fantásticos, só os dois. Vamos fazer uma reserva de salmão seco e fumado, também, e vamos fazer doce e salgar carne de veado. Nem vais acreditar em todas as coisas que vamos fazer. Mas rapidamente Roy começa a perceber que nada será assim tão simples. O contacto com o mundo exterior faz-se através de um rádio e de um hidroavião que, de longe a longe, passa pela ilha. Mais nada. Esta ausência de contacto, agravada pelo facto de as condições climatéricas se apresentarem mais duras e as comunicações mais difíceis do que o previsto, transforma um ambiente aberto, de céu, montanhas, florestas e água, num mundo claustrofóbico que realidades inesperadas (entre outras, a cabana arrendada apresenta falhas imprevistas para uma estada tão longa e, pouco tempo depois de chegarem, um urso destrói grande parte da comida que trouxeram) vêm agravar. Mas é o pai que começa a constituir o maior motivo de preocupação para Roy. Os planos dele revelam-se imperfeitos, há tarefas em que se mostra bastante menos à vontade do que afirmava estar, reage com frequência de forma ilógica e intempestiva. E parece ter ainda outros problemas, mais estranhos e profundos: durante a noite, Roy consegue ouvi-lo a chorar na cama. O que se vai passar é tão inesperado como lógico. E muito duro.

 

Se em A Estrada McCarthy fez dos outros humanos a maior ameaça, Vann quase não precisa deles (e com isto não estou a menorizar A Estrada, que entraria em qualquer top de melhores livros da primeira década deste milénio que eu compilasse). Os outros humanos são essenciais (especialmente, já o referi, as mulheres) mas não são eles a ameaça. Nem a natureza, que serve para expor e intensificar os problemas das personagens. Em A Ilha de Sukkwan, o Mal não vem de fora. De facto, talvez nem exista Mal (uma grande diferença em relação a McCarthy); existem falhas, incapacidades, incompreensões. E se A Estrada é consistentemente mais assustador, Vann consegue por vezes ser mais duro do que McCarthy. No final, por exemplo. Em A Estrada, de forma porventura surpreendente, McCarthy permitiu-se um toque de esperança. Vann não o faz. Mas compreende-se: no fundo, A Estrada é uma história de amor enquanto A Ilha de Sukkwan é uma história de incompreensões. Um livro belíssimo (com uma lógica talvez mais masculina do que feminina), extraordinariamente bem escrito, em que o cenário pode estar afastado do leitor comum (quantos de nós já estiveram no Alaska no pino do Inverno?) mas a conclusão é universal: sim, nunca compreendemos nada a tempo.

  

David Vann, A Ilha de Sukkwan. Edição Ahab, tradução de José Lima.


Adenda: algumas críticas, mais ou menos inadvertidamente, permitem que se suspeite do que acontece no livro. Ainda que talvez se suspeite mal, no caso de pretenderem ler A Ilha de Sukkwan (e não passam de um monte de células patetas se não o fizerem), é capaz de ser preferível evitarem consumir demasiadas. Também por isso não coloco aqui links para duas entrevistas a David Vann publicadas por cá. Se fizerem uma pesquisa online encontram-nas num instante mas continuo a recomendar que leiam o livro primeiro.

Crispados


escafandro,

Ela olhava-me, avaliando-me às claras. Perguntei a mim mesmo o que estaria ela a ver. Senti que lhe devia algumas explicações acerca dos anos decorridos entretanto. Sentia aquele vago pavor que experimentamos quando alguém nos examina atentamente depois de uma longa separação e nos faz pensar que cometemos um pecadilho ao atingirmos este ponto das nossas vidas tão diferentes e tão crispados. Estranhos aos nossos próprios olhos, compreendem. Alcançarmos esta fase de tal maneira indefesos ante os nossos próprios ardis que permitimos que a verdade nos fosse escamoteada.

Don DeLillo, Submundo.

Edição Sextante, tradução de Paulo Faria.

Das escolhas e das calorias (e os estéticos contentores de gordura)


escafandro,

Duas menos pouco da tarde. Caminho pela rua Júlio Dinis e não resisto ao aspecto da montra da Petúlia. Dizendo a mim mesmo que afinal não comi sobremesa ao almoço, entro e peço uma nata. Vou pelo passeio a comê-la quando me cruzo com uma rapariga preenchendo um vestido curto e decotado da forma mais adequada que é possível imaginar. Tem pernas longas, cabelo escuro e não parece possuir um grama de gordura fora daqueles dois locais onde ela, simetricamente distribuída, até fica bem. Como eu, vem a comer. Mas não uma nata; uma maçã. De repente, sinto-me tão consciente das minhas falhas…

 

(Mas mantenho-me firme: depois de passar por ela, não deixo de comer a nata até ao fim. E não olho para trás.)  

Tentativa de inspirar a comissão recentemente constituída para definir a coisa


escafandro,

Susannah York, Sarah Miles, Susan George, Julie Christie, Charlotte Rampling, Jenny Agutter, Jane Birkin, Dominique Sanda,  Sandrinne Bonnaire, Nathalie Baye, Isabelle Huppert, Carole Bouquet, Valérie Kaprisky, Victoria Abril, Maria Schneider, Hanna Schygulla, Barbara Sukowa, Carole Laure, Geneviève Bujold, Liv Ullmann, Monica Vitti, Ornella Muti… Isso sim, era serviço público.

 

(Ah, a RTP2 em mil nove e oitenta e poucos…)

Ainda Londres, umas semanas depois


escafandro,

Escreveu-se muito sobre as diferenças como direita e esquerda viram os «motins» ou «manifestações» (os termos fazem toda a diferença) no Reino Unido. No fogo cruzado, creio que são misturados pelo menos três níveis de análise.

 

O primeiro passa por tentar perceber se havia motivações ideológicas por trás dos acontecimentos. De forma geral, a direita respondeu que não. Que aqueles jovens aproveitaram uma oportunidade (a morte de um cidadão às mãos da polícia) para destruir e roubar o que se lhes apresentava à frente (quase apenas lojas de pessoas que dificilmente podem ser consideradas ricas). Por seu turno, muita esquerda (não toda) preferiu ver nos acontecimentos uma manifestação de opções políticas. Aqueles jovens, ainda que de forma atabalhoada, estavam a querer transmitir uma mensagem política e não era por aproveitarem a oportunidade para roubar LCDs e telemóveis que a mensagem não devia ser ouvida. A minha opinião foi, e continua a ser, que todo o enquadramento ideológico é obra externa. O que se passou em Londres foi essencialmente o aproveitamento de uma oportunidade para destruir propriedade (à semelhança do que fazem elementos das claques de futebol nas áreas de serviço) e ganhar dinheiro. Quase todas as declarações de jovens envolvidos tendem a reforçar esta posição e é perfeitamente possível que alguns refiram motivações políticas sem que estas realmente tenham existido pois constituem agora a melhor justificação disponível para quem deseja parecer algo mais do que vândalo e ladrão. Mas avancemos: não me custa admitir que este seja o nível de análise menos importante.

 

No segundo plano de análise pode discutir-se se, independentemente das motivações concretas da maioria daqueles jovens, as condições de vida que têm servem de justificação para actos de protesto, e especialmente actos de protesto envolvendo violência. A esquerda acha que sim: inseridos em comunidades pobres, muitas vezes ostracizados por questões étnicas, com reduzidos níveis de escolaridade, alvo de cortes de subsídios, estes jovens, tenham ou não consciência plena do facto, representam uma insatisfação que se estende a muito mais gente do que eles – aos pais deles, por exemplo – e são um símbolo da falência do capitalismo. Como tal, para a esquerda eles não só podem como devem manifestar-se e, de forma similar ao que se passa nos protestos anti-globalização e anti-G20, a violência é tolerada, quando não aplaudida. Por seu turno, a direita considera que os desequilíbrios existentes são menos graves do que nos querem fazer crer (afinal, a maioria brande telemóveis de última geração e vive melhor do que, por exemplo, os pais deles alguma vez viveram), que parte da responsabilidade é dos próprios (muitos terão desperdiçado oportunidades para estudar e/ou trabalhar, preferindo viver de subsídios públicos) e das suas famílias (por não lhes incutirem valores «correctos»), e que, acima de tudo, nada justifica a violência. «Nada» é, evidentemente, demasiado definitivo e também demasiado teórico. Há situações que justificam violência – mas nem o Reino Unido é a Síria (as decisões governamentais estão validadas por eleições bastante recentes) nem a violência indiscriminada pode alguma vez ser aceite, ocorra onde ocorrer (também na Síria seria inaceitável que, em protesto contra o governo, se destruíssem lojas de cidadãos anónimos). Quanto ao resto, haverá parte de verdade tanto nas posições da esquerda (claro que as condições sociais em que eles vivem não são as melhores) como da direita (sim, em muitos casos parte da responsabilidade será deles e/ou das suas famílias e não vale a pena estar sempre a desculpar as pessoas só porque são pobres).

 

Finalmente, há um terceiro nível de análise, que não depende das circunstâncias concretas daqueles jovens londrinos e das suas famílias, e que passa por definir se pessoas com dificuldades económicas devem ser ajudadas pela comunidade e, em caso de resposta afirmativa, em que moldes. Franjas radicais exceptuadas, creio ser consensual da esquerda à direita que uma sociedade minimamente coesa e saudável tem de apoiar os seus elementos em dificuldades. É uma questão de ética e de bom senso (de segurança, se preferirem). As dificuldades prendem-se com saber identificar esses elementos, estabelecer (ou não) condições para a ajuda e definir montantes mas também formas de a prestar (descontos no acesso a bens e serviços, entrega de géneros em vez de apenas dinheiro, etc). Sendo este um debate complexo, em que a esquerda tende a ver como positivo o aumento dos apoios sociais e a contestar dúvidas sobre o merecimento de algumas pessoas que os recebem, permitam-me algumas notas:

a) Na sequência dos problemas orçamentais, em grande parte atribuíveis ao crescimento exagerado das próprias despesas sociais nas últimas décadas, cortes são inevitáveis, por muitos impostos extraordinários que ainda possam vir a inventar-se, incidindo sobre os ricos, os remediados ou os canídeos de porte altivo;

b) A única forma de melhorar as condições de vida da generalidade dos cidadãos (numa perspectiva materialista, que é aquela com que quase toda a gente se preocupa) é através do crescimento económico;

c) Um Estado que precisa de muito dinheiro para obras, empresas e institutos públicos de utilidade duvidosa dificilmente terá dinheiro suficiente para fazer justiça social sem afundar a economia;

d) O dinheiro gasto em apoios sociais gera algum consumo mas muito pouco investimento (isto é, os subsídios sociais –  e, na realidade, não só os sociais – pouco ajudam o crescimento económico);

e) Os apoios sociais são sempre uma transferência daqueles que poupam (ou seja, daqueles que ainda têm dinheiro disponível para entregar ao Estado) para aqueles que não o fazem (e não se trata necessariamente de uma questão de falta de recursos à partida: imagine-se uma família de classe média atolada em dívidas e que perde tudo – deve ser ajudada da mesma forma que uma família que, apesar dos seus esforços, nunca conseguiu ganhar o suficiente para chegar a ter hipótese de poupar o que quer que fosse?);

f) Com ou sem ameaça de violência nas ruas, smartphones e ténis de marca não constituem bens de primeira necessidade;

g) Aqueles que, mesmo ganhando pouco, trabalham e pagam os impostos que legalmente lhes são exigidos sentem-se com frequência explorados (de forma tanto mais intensa quanto mais altos forem os impostos) por quem parece viver, muitas vezes tão bem ou melhor do que eles, sem mexer uma palha;

h) A raiva das pessoas referidas na alínea anterior também dá azo a uma situação potencialmente explosiva; o crescimento dos partidos de extrema-direita em vários países europeus devia servir-nos de aviso.

 

Conclusão? Uma muito simples: é importante procurar que toda a gente tenha um mínimo que lhe permita viver com dignidade (o que provavelmente não incluirá iPhones) e, acima de tudo, que tenha oportunidades de melhoria das suas condições de vida (através de acesso a estudos e de uma economia que cresça) mas a ameaça de violência não pode levar-nos a pagar chantagens, até porque ao fazê-lo estaríamos a abrir a porta a consequências económicas e sociais no mínimo tão assustadoras como as que estes jovens, sejam meros ladrões ou utópicos revolucionários, podem despoletar.