Ainda Londres, umas semanas depois


escafandro,

Escreveu-se muito sobre as diferenças como direita e esquerda viram os «motins» ou «manifestações» (os termos fazem toda a diferença) no Reino Unido. No fogo cruzado, creio que são misturados pelo menos três níveis de análise.

 

O primeiro passa por tentar perceber se havia motivações ideológicas por trás dos acontecimentos. De forma geral, a direita respondeu que não. Que aqueles jovens aproveitaram uma oportunidade (a morte de um cidadão às mãos da polícia) para destruir e roubar o que se lhes apresentava à frente (quase apenas lojas de pessoas que dificilmente podem ser consideradas ricas). Por seu turno, muita esquerda (não toda) preferiu ver nos acontecimentos uma manifestação de opções políticas. Aqueles jovens, ainda que de forma atabalhoada, estavam a querer transmitir uma mensagem política e não era por aproveitarem a oportunidade para roubar LCDs e telemóveis que a mensagem não devia ser ouvida. A minha opinião foi, e continua a ser, que todo o enquadramento ideológico é obra externa. O que se passou em Londres foi essencialmente o aproveitamento de uma oportunidade para destruir propriedade (à semelhança do que fazem elementos das claques de futebol nas áreas de serviço) e ganhar dinheiro. Quase todas as declarações de jovens envolvidos tendem a reforçar esta posição e é perfeitamente possível que alguns refiram motivações políticas sem que estas realmente tenham existido pois constituem agora a melhor justificação disponível para quem deseja parecer algo mais do que vândalo e ladrão. Mas avancemos: não me custa admitir que este seja o nível de análise menos importante.

 

No segundo plano de análise pode discutir-se se, independentemente das motivações concretas da maioria daqueles jovens, as condições de vida que têm servem de justificação para actos de protesto, e especialmente actos de protesto envolvendo violência. A esquerda acha que sim: inseridos em comunidades pobres, muitas vezes ostracizados por questões étnicas, com reduzidos níveis de escolaridade, alvo de cortes de subsídios, estes jovens, tenham ou não consciência plena do facto, representam uma insatisfação que se estende a muito mais gente do que eles – aos pais deles, por exemplo – e são um símbolo da falência do capitalismo. Como tal, para a esquerda eles não só podem como devem manifestar-se e, de forma similar ao que se passa nos protestos anti-globalização e anti-G20, a violência é tolerada, quando não aplaudida. Por seu turno, a direita considera que os desequilíbrios existentes são menos graves do que nos querem fazer crer (afinal, a maioria brande telemóveis de última geração e vive melhor do que, por exemplo, os pais deles alguma vez viveram), que parte da responsabilidade é dos próprios (muitos terão desperdiçado oportunidades para estudar e/ou trabalhar, preferindo viver de subsídios públicos) e das suas famílias (por não lhes incutirem valores «correctos»), e que, acima de tudo, nada justifica a violência. «Nada» é, evidentemente, demasiado definitivo e também demasiado teórico. Há situações que justificam violência – mas nem o Reino Unido é a Síria (as decisões governamentais estão validadas por eleições bastante recentes) nem a violência indiscriminada pode alguma vez ser aceite, ocorra onde ocorrer (também na Síria seria inaceitável que, em protesto contra o governo, se destruíssem lojas de cidadãos anónimos). Quanto ao resto, haverá parte de verdade tanto nas posições da esquerda (claro que as condições sociais em que eles vivem não são as melhores) como da direita (sim, em muitos casos parte da responsabilidade será deles e/ou das suas famílias e não vale a pena estar sempre a desculpar as pessoas só porque são pobres).

 

Finalmente, há um terceiro nível de análise, que não depende das circunstâncias concretas daqueles jovens londrinos e das suas famílias, e que passa por definir se pessoas com dificuldades económicas devem ser ajudadas pela comunidade e, em caso de resposta afirmativa, em que moldes. Franjas radicais exceptuadas, creio ser consensual da esquerda à direita que uma sociedade minimamente coesa e saudável tem de apoiar os seus elementos em dificuldades. É uma questão de ética e de bom senso (de segurança, se preferirem). As dificuldades prendem-se com saber identificar esses elementos, estabelecer (ou não) condições para a ajuda e definir montantes mas também formas de a prestar (descontos no acesso a bens e serviços, entrega de géneros em vez de apenas dinheiro, etc). Sendo este um debate complexo, em que a esquerda tende a ver como positivo o aumento dos apoios sociais e a contestar dúvidas sobre o merecimento de algumas pessoas que os recebem, permitam-me algumas notas:

a) Na sequência dos problemas orçamentais, em grande parte atribuíveis ao crescimento exagerado das próprias despesas sociais nas últimas décadas, cortes são inevitáveis, por muitos impostos extraordinários que ainda possam vir a inventar-se, incidindo sobre os ricos, os remediados ou os canídeos de porte altivo;

b) A única forma de melhorar as condições de vida da generalidade dos cidadãos (numa perspectiva materialista, que é aquela com que quase toda a gente se preocupa) é através do crescimento económico;

c) Um Estado que precisa de muito dinheiro para obras, empresas e institutos públicos de utilidade duvidosa dificilmente terá dinheiro suficiente para fazer justiça social sem afundar a economia;

d) O dinheiro gasto em apoios sociais gera algum consumo mas muito pouco investimento (isto é, os subsídios sociais –  e, na realidade, não só os sociais – pouco ajudam o crescimento económico);

e) Os apoios sociais são sempre uma transferência daqueles que poupam (ou seja, daqueles que ainda têm dinheiro disponível para entregar ao Estado) para aqueles que não o fazem (e não se trata necessariamente de uma questão de falta de recursos à partida: imagine-se uma família de classe média atolada em dívidas e que perde tudo – deve ser ajudada da mesma forma que uma família que, apesar dos seus esforços, nunca conseguiu ganhar o suficiente para chegar a ter hipótese de poupar o que quer que fosse?);

f) Com ou sem ameaça de violência nas ruas, smartphones e ténis de marca não constituem bens de primeira necessidade;

g) Aqueles que, mesmo ganhando pouco, trabalham e pagam os impostos que legalmente lhes são exigidos sentem-se com frequência explorados (de forma tanto mais intensa quanto mais altos forem os impostos) por quem parece viver, muitas vezes tão bem ou melhor do que eles, sem mexer uma palha;

h) A raiva das pessoas referidas na alínea anterior também dá azo a uma situação potencialmente explosiva; o crescimento dos partidos de extrema-direita em vários países europeus devia servir-nos de aviso.

 

Conclusão? Uma muito simples: é importante procurar que toda a gente tenha um mínimo que lhe permita viver com dignidade (o que provavelmente não incluirá iPhones) e, acima de tudo, que tenha oportunidades de melhoria das suas condições de vida (através de acesso a estudos e de uma economia que cresça) mas a ameaça de violência não pode levar-nos a pagar chantagens, até porque ao fazê-lo estaríamos a abrir a porta a consequências económicas e sociais no mínimo tão assustadoras como as que estes jovens, sejam meros ladrões ou utópicos revolucionários, podem despoletar.

4 comentários em “Ainda Londres, umas semanas depois”

  1. O JAA estava a ir bem, mas não conseguiu abstrair-se do mantra mediático. As alíneas denunciam-no:

    a) houve uma reforma da segurança social recente do PS que deu sustentabilidade à Seg. Social. Isso nunca esteve sequer em causa durante a última campanha eleitoral, e só é agora posto em causa pelo PSD com a muleta do CDS;

    c) depende do que a economia produz e de como o Estado é gerido;

    d) é o consumo que gera investimento (ninguém produz para colocar eternamente em stock…);

    e) não é de quem poupa, é de quem, ou de que entidade, produz. E não é para quem não produz, é para quem já produziu ou para quem não pode, consegue ou quer produzir. – englobar estas categorias todas numa única é uma das “desonestidades intelectuais” que mais se vê nos media, e misturar alhos com bogalhos dá mau resultado;

    f) na sociedade actual, em que se incute desde cedo que as pessoas devem vestir-se todos os dias para o emprego que desejam e não para o que têm, de repente querem que os miúdos e os jovens deixem de dar atenção aos símbolos de estatuto social? A sociedade é assim: de consumo. E tem o que criou…

    1. Comecei bem e depois descarrilei? Story of my life . Mas vejamos:

      a) Mesmo assumindo que as declarações grandiosas da altura (tão típicas dos governos Sócrates e sempre tão perenes) valiam alguma coisa, a reforma da SS (diabos, em sigla fica a parecer uma entidade sinistra) foi feita em tempos diferentes, com perspectivas de crescimento económico (logo, de receitas) bastante diferentes. Houve também muitas aposentações nos últimos anos, de pessoas que receavam perder regalias ou ter de trabalhar mais anos, já para não falar que o desemprego disparou. Mas as transferências sociais também ocorrem por descontos no acesso a serviços e bens (transportes, medicamentos, sistema de saúde e de educação); por pagamento do rendimento social de inserção e de pensões para as quais não ocorreram contribuições; por subsídios vários a indivíduos e instituições; etc. Parte disto nem tem a ver com a SS. E depois ainda há coisas como a tarifação de certos produtos abaixo do preço real (energia, por exemplo) que, não sendo direccionadas apenas para pessoas com rendimentos mais baixos, também são custos para o Estado e também são muito difíceis de mudar porque fazê-lo atinge toda a gente mas de forma mais grave quem tem menos rendimentos. É neste bolo todo (e isto foi apenas aquilo de que me lembrei enquanto escrevia a resposta) que vai ter de se mexer porque ele pesa demasiado. Aliás, os próprios governos Sócrates começaram a fazê-lo, alterando regras de comparticipação nos medicamentos e do subsídio de desemprego, taxas moderadoras na Saúde, etc.

      c) Eu escrevi: “Um Estado que precisa de muito dinheiro para obras, empresas e institutos públicos de utilidade duvidosa”. Mas é verdade que, genericamente, sou favorável a um Estado que não exija demasiados recursos porque, especialmente num país como Portugal, em que o interesse público é quase sempre misturado com o interesse partidário e com interesses privados, um Estado grande tende a asfixiar a economia.

      d) No caso português, com a economia anquilosada, o crédito difícil e o Estado monstruoso que temos a retirar dinheiro das mãos de quem podia investir, o consumo gera investimentos nos países que produzem os produtos que consumimos.

      e) Certo. Mas isso não muda o fundamental da questão. É uma transferência de quem gera riqueza para quem não a gera (embora possa já ter gerado). Misturar ou não as categorias é irrelevante (embora existam importantes diferenças éticas entre algumas delas, claro).

      f) Se quero? Não me importava. Se acho que vai acontecer? Não. Ou seja, concordo consigo. Mas o Estado não tem de atribuir subsídios a contar com isso.

  2. Eu penso que o que aconteceu em Inglaterra está em parte relacionado com tudo aquilo que escreveu. Mas tenho para mim que o problema é muito mais profundo que isso. A questão é complexa mas simples de colocar. Em Inglaterra, especialmente nas grandes cidades e entre as camadas jovens há uma total ausência de autoridade. Isto não é de agora. Isto é de há anos. Isto não tem a ver com a raça, com o ser preto ou branco ou amarelo, e nem tem nada a ver com problemas económicos. É um problema social e de educação. Os jovens ingleses não têm perspectivas de futuro porque muitos deles nascem em meios onde desde muito cedo são expostos a álcool e sexo. Como eu disse, isto não é de agora. Desde há anos que o RU é um dos países com uma maior taxa de gravidez na adolescência. Não há quem tenha mão deles. Tornaram-se complemente “dettached” do resto da sociedade. O ensino inglês “público” estabeleceu que qualquer criancinha é simultaneamente um atrasado mental que é preciso “proteger” e alguém a quem deve ser dado a hipótese de escolha. Logo, os miúdos optam a maior parte das vezes por aquilo que é fácil. Há imensa violência nas escolas. Quase todos os dias é esfaqueado ou é espancado um miúdo numa escola qualquer.

    A questão que se põe é: Onde estão os pais destas crianças? Nos riots de Londres participaram miúdos de 11 anos, (ONZE ANOS)e professores com 30 e 40. Isto é literalmente parte do problema. A sociedade inglesa apresenta cada vez mais uma ausência de valores. É claro que aqui posso estar a generalizar e há muita gente – muitos jovens – que não são assim. E o povo inglês no geral não é assim, pelo contrário. Mas isto é um começo. E para mim, muito mais do que um sinal de problemas económicos é um sinal de uma crise de valores, de formação, grave que se avizinha e que inevitavelmente se vai estender ao resto da Europa. O que se passa em Inglaterra está relacionado com a falta de noção, a falta de “perigo” a falta de limites. Eles acham realmente, porque foram habituados a achar, que podem fazer tudo que nunca há consequências, que podem mandar vir com o condutor do autocarro que podem mandar à mer***o pai e a mãe, que podem bater no colega da escola que lhe podem roubar o almoço, que não vai acontecer nada. Isto começa assim.

    1. Daniela: sim, a demissão dos pais (que abordei de raspão) e da escola (que não abordei) das responsabilidades de educar terão tido um papel fundamental na siatuação a que se chegou. Mas ela é hoje a que é (lá como, diga-se de passagem, cá, porque também em Portugal existe essa mentalidade) e o post versava essencialmente a questão das transferências sociais. Que o sistema de educação tem de ser alterado para que os professores possam passar a exigir respeito aos alunos e aos respectivos pais, isso parece-me claro. Mas não vai ser fácil; já não basta educar os miúdos: é tambem preciso educar os pais.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *