E se fizéssemos um exercício teórico muito giro no qual retiramos diferenças de rendimento pré-existentes às análises sobre os apoios sociais? Não? Mas porquê? Vá lá, aprendam a mentir e a fingir entusiasmo (não irão a lado nenhum sem o conseguirem). De resto, não vai demorar mais do que um daqueles inquéritos via telefone ou internet em que uma voz simpática ou um pop-up de cores suaves, respectivamente, nos informa de que se prevêm necessários apenas alguns minutos para responder a tudo. Pode ser então? Vão ver que é simples, talvez até simplista (pedem-me tantas vezes para não complicar que decidi fazer um esforço). Hmmmm, e se no final eu vos contar uma anedota? Óptimo. Comecemos.
Cenário. Dois casais, de idades e rendimentos similares. O casal A (ainda um dia hei-de começar pela letra B, ou talvez até por uma do meio do alfabeto) compra um T2 usado recorrendo a cem mil euros de financiamento bancário (cem mil é só para ser um número redondo; cinco vezes redondo, até), um Clio e gasta anualmente dois mil euros (número triplamente redondo) em férias num minúsculo apartamento algarvio. O casal B compra um T3 novo, para o qual obtém um financiamento bancário de duzentos mil euros (mais um número quintuplamente redondo), um A4 e passa férias em locais como St. Moritz e Bora Bora, nunca despendendo menos de cinco mil euros (outro número triplamente redondo). Ao fim de dez anos, o casal A anda a pensar em trocar o Clio que começou a fazer um barulho esquisito sempre que se acelera vigorosamente mas já pagou o apartamento e ainda conseguiu juntar uma pequena poupança. Não tem dívidas a bancos. Por seu turno, o casal B nunca amortizou qualquer empréstimo, trocou duas vezes de carro (e comprou um segundo) e não tem poupança. Pelo contrário, gasta em crédito contraído cerca de dois terços dos rendimentos.
Problema. De súbito, o Estado vê-se falido. O governo começa a recolher impostos como se eles fossem uma mercadoria com potencial de valorização. As taxas de juro sobem porque, a nível europeu, há indícios de inflação. Os salários dos elementos dos nossos dois casais são congelados e, alguns meses depois, um elemento de cada casal perde o emprego. As finanças do casal A ficam difíceis, as do casal B entram em colapso.
Questão. Deve nesta fase o Estado criar mecanismos de ajuda ao casal B que lhe permitam manter um nível de vida próximo daquele a que se encontrava habituado, à custa do rendimento disponível do casal A?
Encaminhamento. Se respondeu «sim», é favor seguir para o parágrafo imediatamente a seguir; no caso de ter respondido «não», queira dirigir os olhos na direcção do parágrafo a seguir a esse.
Parágrafo imediatamente a seguir. A sério? É então justo premiar a cigarra à custa da formiga? Que incentivo terá no futuro o casal B (ou qualquer outro casal) para ser financeiramente responsável? (Drible o parágrafo a seguir a esse, que no fundo é o parágrafo a seguir a este, e avance para o remate.)
Parágrafo a seguir a esse. Vingativozinhos, hã? Muito bem, o casal B não recebe ajuda e perde o apartamento e os carros, arrenda um pequeno T1 e começa a andar de transportes públicos mas apesar disso não consegue fazer face às despesas, até porque o elemento que ainda tinha emprego também acaba despedido (no fundo, sempre foi pouco produtivo e era visto como demasiado vaidoso por colegas e chefias, cansando-os com longos relatos das férias exóticas). O casal B encontra-se oficialmente na penúria. Pergunta: e agora? Deve o Estado ajudá-lo, usando para isso os impostos do casal A? Para os que responderam «não»: livra, vocês são lixados; para os que responderam «sim»: e que nível de vida lhe deve garantir? Durante quanto tempo? Deve manter os subsídios se os elementos do casal recusarem empregos menos bem pagos (ou menos «dignos») do que aqueles a que estavam habituados?
Remate. Responderam a tudo? Muito bem, parabéns, o exercício terminou (não, vocês é que têm de chegar a conclusões) e estamos-vos (eu e todas os outros seres partilhando a minha cabeça) muito agradecidos. Ide em paz e… Esperem. E daí, não. Façam-me um favorzito e respondam de novo às questões considerando que, à partida, o casal B ganhava menos do que o casal A (digamos dois terços ou mesmo metade) e que por isso não andava de A4 e passava férias em Bora Bora mas locomovia-se de Golf e bronzeava-se em Torremolinos. Chegam a respostas diferentes? E se o casal A for Portugal continental e o casal B for a Madeira? E, finalmente, se o casal A for a Alemanha e o casal B for Portugal? Que nível de vida nos deve ser garantido e sob que condições?
Anedota. Sabem porque é que inventaram a economia? Para fazer a meteorologia parecer uma ciência.

O meu Clio está a fazer uns barulhos esquisitos…
Alice: não serão manifestações de prazer pela forma como o conduz?
Ahahahahahah
Muito bom, jaa, espero que quando o meu começar a fazer esses barulhinhos seja pela mesma razão 🙂
Será certamente, Leonor. É assim como o ronronar de um gato, só que mais metálico.
Nesta parábola, o casal A é o contribuinte, típico trabalhador por conta de outrém, e o casal B os bancos. Certo?
Não. Ainda que alguns bancos também tenham sido bastante irresponsáveis – especialmente, no caso dos portugueses, por terem embarcado nas loucuras do investimento público (incluindo PPP), da compra de dívida pública e da concessão de crédito individual a quem não tinha condições para pagar os empréstimos.
Embora apeado, a caminho de Siracusa disse Pitágoras aos seus netos: o quadrado da hipotenusa é igual à soma do quadrado dos catetos; ou seria a caminho de Atenas e seria uma pena? ou uma cena?
Ao seu imbróglio académico-realista contraponho o de quem não pediu crédito aos bancos, nem aos amigos nem a ninguém, arrostou com as consequências dos seus, por vezes, supérfluos gastos , ouviu barulhinhos e barulhões no seu carro e deixou andar, chapinhou-se nas praias alentejanas, viu e vê TV num aparelho do século passado, etc…
Mas porque porra tenho eu de sustentar, com parte dos meus impostos de trabalhador dependente, a futilidade e o ócio alarve dos novos e velhos ricos que compram o que não deviam nem podem, ostentam o que não têem?
Bendita crise que separou as águas e trouxe à tona os marmanjos que ora recorrem à DECO, ora tentam vender por meia-tuta os acessóriois fúteis da moda em “sites” da net, que comem sardinha de lata em vez do peixe no carvão à beira-tejo.
Pena mesmo é que eu também tenha de pagar a conta!
Bendita crise, não. Mas é verdade: pagar, temos todos. Os que merecem e os que não merecem.
E se algum membro do casal A ficar desempregado, quem irá descontar mais impostos para ajudar?
E se ficarem os dois, quem irá premiar a formiguinha?
Quem quer comprar um Clio com um barulhinho esquisito?
Na universo político (também podia ser “na cabeça”) dos seres que nos têm governado, há-de sempre haver quem pague.
Se for o RS, mesmo com um barulhinho esquisito, troco-o por uma XBox360.
Excelente, JAA. Mais um texto para a futura antologia Delito de Opinião. Muito do que já escrevemos aqui dava um livro. E espero que venha a dar mesmo.
Obrigado, Pedro. Mas não me deixes nervoso – tremo só de pensar poder vir a partilhar um escaparate com livros de auto-ajuda ou “A Viagem de Luz e Quim”, de Fátima Lopes.
Mim, acima assinada, descendente de uma longa linhagem de casais A, declaro que não me compadeço nadanadanada com os BB deste mundo, que acham que o dinheiro aparece sempre. Dixit.
Dixieste (ai o meu latim) bene. Embora me pareça que a referência ao Baptista Bastos não vem muito a propósito. Já ao Soares, tudo bem.
Para a próxima ponho ‘bês’, no lugar de BB, para não pensares que isto é um subsídio para o estudo do uso do fato com papillon, prontos.
Também não tenho compaixão alguma com o casal B, só te esqueceste de dizer que desdenham do casal A por viver de acordo com o que tem, mas penso nos outros que não são nem o A nem o B e vivem literalmente ‘à rasca’ com ordenados terceiro-mundistas. Esses é que me preocupam.
Eu já estava a incluir na minha linhagem dos A (os meus pais viveram assim na infância, durante o racionamento, durante a II Guerra) essa sombra bem real de que falas, Leonor. Porque os nossos A sempre tiveram muito que transpirar para daí sair…
Há pior que o casal A, Ana Cláudia, e é neles que penso. Todos os dias, em especial incidência quando vou ao supermercado e trago meia dúzia de coisas por um dinheirão. Como é que as pessoas vivem?
É que nem todos viveram acima das possibilidades. Quem vive com a loucura do ordenado mínimo ou pouco mais, já não tinha muito antes, agora está na miséria. E isso incomoda-me e também que sejam esquecidos.
Leonor: tens toda a razão. Optei, aliás, por descrever pessoas sem grandes dificuldades à partida para evitar a questão de quem ganha, e sempre ganhou, muito pouco. Mas, já agora, há imensa gente que, ganhando pouco, também se endividou para além de qualquer razoabilidade (ajudadas por empresas de crédito fácil como a Cofidis e outras que tais) para comprar televisores e telemóveis. A quantidade de pessoas com parte do ordenado penhorado (e falamos do ordenado mínimo ou pouco mais) é impressionante, pele menos aqui no Norte.
Errata: “parte do ordenado penhorada”
Pois, haverá, jaa, mas também há quem não tenha nada disso. Ser professora dá-me uma outra perspectiva. Há gente com necessidades, há gente a atravessar momentos muito difíceis. Não nos podemos esquecer disso. Eu sei que não te esqueceste. O teu post apontava outra direcção e muito legítima.
O casal A devia ganhar muito bem, para ter pago o empréstimo de 100.000 € em 10 anos…
Como se diz no post, ganhava o mesmo que o casal B. Se preferir, pode reduzir todos os valores (excepto o prazo) para metade. O exercício manter-se-á válido (bom, convém também riscar St. Moritz e Bora Bora) e ficará com números ainda bastante redondos.