Homem fotografa o próprio blusão no interior do Centro Nacional de Fotografia (ex-Cadeia da Relação), Porto. Foto tirada em Fevereiro.
Pós-modernismo
escafandro,
Quem vê desporto na televisão e compra jornais desportivos? Quem até, provavelmente, compra a maioria dos restantes jornais? Os homens. As mulheres não ligam a desporto. Pelo menos o bastante para se sentarem à frente de um televisor ou comprarem um jornal. (Generalizo, obviamente.) De quando em quando, as mulheres podem pensar, com um carinho inteiramente sincero, que os campeonatos para-olímpicos são uma coisa bonita, podem espreitar uma prova de ginástica ou de patinagem artística, mas ver mesmo desporto – não vêem. Preferem a Oprah, séries, filmes, telenovelas, o What Not to Wear e o Rachel Zoe Project. Se as mulheres gostassem tanto de patinagem artística como gostam de roupa, maquilhagem e decoração, a SIC Mulher apresentaria patinagem artística duas vezes por dia, existiriam revistas e jornais só acerca de patinagem artística e rapidamente os canais generalistas de televisão teriam programas de debate em que se analisaria a qualidade dos triplos Axel realizados nas provas do fim-de-semana anterior. Hélas, as mulheres não gostam assim tanto de patinagem artística nem de qualquer outro desporto. Isso faz com que sejam os homens a definir que desportos se vêem na televisão e sobre que desportos se lê nos jornais. Ora os homens são seres simples, de gostos limitados e com tendência para a conformidade (continuo a generalizar). A partir do momento em que as mulheres lhes deixam o campo livre pode dizer-se adeus aos para-olímpicos na televisão. E até à patinagem artística. Para a sensibilidade masculina (nem sempre é oxímoro), as provas para-olímpicas são um mau espectáculo televisivo e a patinagem artística não é muito melhor. E como é o gosto pelo futebol que é inculcado nos homens desde criança e o futebol é que dá para discutir durante a pausa para o café por ser o que vêem todos os outros homens (menos uns tipos esquisitos como eu), vê-se futebol. As televisões (como as rádios e os jornais) não podem então fazer outra coisa senão ir atrás do consumidor-tipo (que, neste caso, é um consumidor-gajo) e, numa espécie de pescadinha de rabo na boca, começam a passar apenas futebol.
De qualquer modo, nenhum destes factores invalida a tese, pelo que a conclusão é inevitável: a culpa de se prestar pouca atenção a desportos que não o futebol nos meios de comunicação (e, por conseguinte, na sociedade) é essencialmente das mulheres. E, pronto, um bocadinho – mas só um bocadinho – dos homens.
Dois amigos encontram-se. Um deles exclama: «Ei, ouvi dizer que tinhas morrido!» O outro solta uma gargalhada. «Não, como vês estou bem vivo.» «Impossível. O tipo que me contou é muito mais fidedigno do que tu.»
Tchan-tchan. Obrigado, vocês são o melhor público do mundo. O homem era mesmo estúpido, hã? Mas vamos à parte sem graça. Obviamente, esta anedota não foi inventada em Portugal. O primeiro tipo (o que não acredita nem nas palavras do outro nem nos próprios olhos) nunca poderia ser português – nós só somos assim brutalmente honestos com inimigos declarados ou pessoas com quem contraímos matrimónio há mais de cinco anos (er, não, agora não vou desenvolver este ponto). Todavia, há algo em que bastantes portugueses são iguaizinhos a ele e basta analisar as sondagens para o constatar. Por cá, trinta e tal por cento das pessoas (ou para aí metade desse valor depois de retirar militância e clientelas) também recusam a realidade que têm à frente dos olhos. Com a subtil agravante de que parecem continuar a acreditar (ou, no mínimo, a querer acreditar) num dos homens menos fidedignos que já nasceram neste país. E todos os trinta e tal por cento menos um (o próprio; ou talvez menos dois – convém não esquecer Silva Pereira) sabem que assim é.
Vi o final do jogo. E percebi por que motivo o Porto foi buscar o João Moutinho ao Sporting: é sempre conveniente ter no plantel pelo menos um jogador português.
(E para evitar uma série de comentários desnecessários: parabéns ao Porto. E ao Braga.)
Hoje é um dia histórico. Reportagem no aeroporto Francisco Sá Carneiro. Um adepto do Porto comprou o bilhete há meses porque tinha «fé». Um adepto do Braga chegou às três da manhã para apanhar um avião que sai às nove. Regresso ao estúdio. Excerto de It’s a Beautiful Day, dos U2. Ligação a Dublin onde, afinal, chove. Reportagem com o tio de Domingos Paciência, que prepara uma sardinhada num pavilhão de Matosinhos. Vai levar entre duzentos e trezentos pães mas não apanhei o número de sardinhas.
É possível que o noticiário (?) das oito da TSF tenha incluído notícias (?) ainda mais bonitas mas eu, que admito ter uma relação complicada com a paciência (com o Paciência não tenho problemas, pelo menos enquanto ele não for treinador do Sporting), saí do carro antes de se chegar, sei lá, à informação (essa sim, seria relevante) de que hoje as strippers minhotas oferecem lap dances gratuitas aos sócios do Braga. (Aos do Porto parece que já ofereciam – ou era só aos dirigentes?) Enfim, acima de tudo, não esquecer de repetir pelo menos dez vezes durante o dia: hoje é um dia histórico.
No debate desta noite, com Pedro Passos Coelho, Francisco Louçã atacou o PSD, ignorando quase sempre o PS. Não percebo porquê. O Bloco não disputa eleitorado com o PSD. Disputa-o (e disputa-o ferozmente) com o PS. Jerónimo de Sousa, que tem as mesmas preocupações, mostra um imenso cuidado em abranger PS e PSD na maioria das críticas que faz. De os tentar tornar quase iguais. Louçã escolheu atacar apenas o PSD. Sócrates agradece.
Se o Bloco tiver um mau resultado, a liderança de Louçã poderá ficar em risco. Mas, sem Louçã, o Bloco afundar-se-á ainda mais depressa. A menos, talvez, que Miguel Portas (teria uma certa piada, assistir a um frente-a-frente entre os dois irmãos) ou, eventualmente, Rui Tavares avancem para a liderança.
Tenho de ser sincero: quando recebi a mensagem do Pedro Correia, hesitei. Fazer parte da equipa do ‘Delito de Opinião’? Eu, que comecei um blogue há dois anos mais como forma de organizar ideias sobre paixões (n) e ódios (n+1) do que de participar nas grandes questões nacionais – a terminologia usada por Eduardo Catroga; as perguntas «giras» das entrevistas de Judite de Sousa; a capacidade de Sócrates centrar o debate nas políticas alheias mesmo depois de andar seis anos a aplicar as dele, com os magníficos resultados para os portugueses em geral e para os accionistas da Mota-Engil em particular que se conhecem? (As minhas desculpas por ter permitido que, no último dos três pontos, o meu cérebro deslizasse para um assunto quase irrelevante mas é melhor admitir já que isso sucede amiúde, como facilmente comprovará quem se der ao trabalho de ler os posts que aqui hei-de colocar – e, porque estamos em tempo delas, isto é uma promessa.) Mas depois pensei: «Bah» (também penso «bah» com frequência), «ele está a ser simpático mas inconsciente. Aposto que nem falou com os outros colaboradores do ‘Delito’. Logo que fale, eles vão dizer-lhe para ter juízo. Vão explicar-lhe que nunca um gajo com um blogue em tons de azul e laranja» (eventuais associações partidárias tão subliminares que só agora percebi poderem existir) «estará à altura do ‘Delito’.» E, com um sorrisinho sardónico, respondi-lhe que sim, que estava disponível. Vinte e sete horas depois (mas o que é isto, um país evoluído?) chegou a mensagem de que a minha entrada era oficial. Consultei o calendário para comprovar que não estávamos no primeiro de Abril, belisquei-me duas vezes (a segunda apenas por prazer) e depois fiquei imóvel a olhar para o ecrã do computador durante vários minutos. Assustado, confesso. Por mim e, mais ainda, por eles. Decididamente, esta gente é menos sensata do que eu pensava. E – o que não julgava possível – eu também. Afinal, parece que aceitei aderir a um clube que me aceita como membro.
Mas talvez tudo acabe por correr bem.
(Obrigado pelo convite, meninas e meninos.)