Momentos em que é impossível não estremecer (literal e figurativamente)


escafandro,

Ao escutar o órgão do Duomo de Milão – um dos maiores do mundo, com 250 registos e 15350 tubos.

O órgão (principal, dado existir um mais pequeno) foi alterado várias vezes desde 1397, ano de entrada em actividade da primeira versão. As mais significativas, para além do facto de ter crescido sempre, tiveram a ver com o tipo de transmissão (ligação entre os teclados e a abertura dos tubos): de mecânica para pneumática para, já no século passado, eléctrica. Entre 1760 e 1762, teve como organista Johann Christian Bach, filho mais novo (de um total de onze) do mais famoso Johann Sebastian. E, ainda assim, a história do órgão é bastante menos complicada do que a do próprio Duomo. Quarta maior catedral europeia em termos de área, a seguir à Basílica de São Pedro, em Roma, à Catedral St. Paul, em Londres, e à Catedral de Sevilha, teve a construção iniciada em 1386 e terminada a 6 de Janeiro de 1965 (o que é o século e pouco em que vai a da Sagrada Família, em Barcelona, ao lado disto?). As alterações ao projecto foram constantes e nem sempre ocorreram apenas por capricho dos arcebispos ou dos arquitectos mas também porque a História as tornava recomendáveis – por exemplo, na segunda metade do século XVI, na sequência do Concílio de Trento e da subida de Carlo Borromeo ao posto de Arcebispo de Milão, privilegiou-se um estilo mais românico e menos gótico, uma vez que este tinha passado a ser visto como «estrangeiro» (contudo, no século XVII voltaram a introduzir-se elementos góticos no projecto da fachada). Houve também impulsos à construção vindos de onde talvez não se esperasse: em 1805, Napoleão, prestes a ser coroado rei de Itália (cerimónia que ocorreria no próprio Duomo a 26 de Maio desse ano), ordenou que a fachada fosse terminada, a expensas do tesouro francês. (Diga-se que, após um século de domínio austríaco, o qual se seguira a dois de domínio espanhol, os lombardos até viram com bons olhos a invasão Napoleónica de 1796 mas o entusiasmo desvaneceu-se quando o baixote francês começou a levar tesouros artísticos para Paris*.) O tempo que a construção demorou e todas as alterações que o projecto foi sofrendo tiveram uma consequência, talvez inevitável: se ninguém contesta a imponência do Duomo, muita gente ao longo dos séculos questionou-lhe beleza e coerência arquitectónica. Oscar Wilde terá sido o  detractor mais famoso: considerou-o um falhanço monumental, salientando que os pormenores mais atraentes estão a altura excessiva para poderem ser devidamente apreciados. Já Mark Twain, outro autor com queda para as tiradas corrosivas, adorou-o. Eu, que não passo de uma alma simples, sempre disponível para ser maravilhado, concordo mais com Twain. Mas não deixo de perceber o ponto de vista de Wilde. Que, se calhar, nem chegou a ouvir o órgão.

 

* Entre os quais o Codex Atlanticus, recolha de apontamentos e esboços de Leonardo da Vinci, que foi mais tarde devolvido e se encontra actualmente na Biblioteca Ambrosiana, onde os turistas podem apreciar algumas páginas.

 

P.S.: Façam os comentários que entenderem mas não esperem que eu responda. 🙂

Confesso:


escafandro,

Custou-me, a derrota. Do Federer.

 

De resto, foi toda a gente cordata (excepto aquela jornalista que questionou Sócrates sobre os processos judiciais; o respeito esvai-se tão depressa, caramba), Louçã engasgou-se apenas uma vez (nada mau, atenção, para quem teve aqueles resultados), Jerónimo lá conseguiu arranjar maneira de poder reclamar um bom resultado (começo a pensar que não é por acaso que os circos dos países comunistas têm sempre excelentes contorcionistas) e se Passos Coelho pensar bem no assunto talvez conclua que não é pior depender dos deputados do CDS para garantir a maioria absoluta do que seria depender dos deputados do PSD eleitos pela Madeira.

Dez pontos que tenho como assentes e um que nem por isso


escafandro,

1. No limiar da bancarrota só estão disponíveis gradações de dor. É precisamente nestas circunstâncias que dificilmente deixaria de votar ou votaria em branco. Antes o mal menor. 

 

2. Não concordo, nunca concordei e nunca concordarei com todas as posições de um partido – coisa, aliás, impossível quando eles se esforçam por evitar explicitá-las.

 

3. Não voto num partido liderado por José Sócrates. Estivesse a economia a crescer a bom ritmo, ainda assim eu não votaria neste PS. A arrogância, a mentira, a incapacidade de admitir erros, a confusão entre o interesse público e o partidário, o desrespeito por elementares regras de funcionamento da democracia – das mais simbólicas, como informar ou não de algo o Presidente da República, às mais substantivas, como contornar entidades cujo objectivo é fiscalizar a acção do governo – não mo permitiriam. Na velha dicotomia entre liberdade e bem-estar, opto (pelo menos enquanto não cair na indigência) pela liberdade.

 

4. Não voto num partido que utilizou o poder do Estado para se espalhar tentacularmente por quase todos os sectores da economia e para beneficiar meia dúzia de grupos empresariais. Se a tendência já é antiga, nos últimos seis anos Portugal transformou-se oficialmente numa oligarquia – autofágica, ainda por cima (se é que há outros géneros). Isto também serve como aviso para o futuro.

 

5. Não voto num partido que, apesar de reiterados alertas, prosseguiu no rumo que nos conduziu à bancarrota. Sim, também é a economia, estúpido.

 

6. Na outra velha dicotomia, entre liberalismo e socialismo, e porque tendo a preferir liberdade a igualdade, escolho o primeiro. Não deixo por isso de concordar com muitos aspectos do «Estado Social» – ou, tentando ser mais exacto mas ficando ainda assim longe de um conceito evidente, do «Modelo Social Europeu». Porém, não concordo com um modelo de Estado que, por boas ou más razões, asfixia a economia e, em última análise, se autodestrói.

 

7. Gosto de utopias mas não acredito que elas me alimentem ou vistam. Acho bem que se tente acabar com os off-shores e nada tenho contra sistemas de regulação mais fortes, desde que independentes. Mas não voto em programas que dependam disso.

 

8. Receio que tenhamos de vir a renegociar a dívida mas não acredito que, neste momento, por muito que os países do norte da Europa desejem evitar o colapso do euro, tenhamos condições para o fazer sem acabarmos sozinhos, com uma nova (velha?) moeda, uma desvalorização de trinta ou quarenta por cento e uma implosão financeira e social. Considero, pois, fundamental que o acordo com FMI/UE/BCE seja cumprido. Não acredito que quem falhou tantas vezes e ainda mente sobre os compromissos que assumiu tenha qualquer hipótese de o cumprir.

 

9. Gostei da clareza do programa do PSD, apesar de existirem pontos em que não me revejo e outros em que receio se vá demasiado longe no futuro (por exemplo: sou contra a privatização da Águas de Portugal e, se sou a favor da concorrência, por questões de garantia de acesso e de tratamento considero importante a manutenção de um forte sistema público de saúde). Desconfio de muitas pessoas que rodeiam Passos Coelho e detesto os aparelhistas e os caciques do partido. Não gosto da falta de clareza que o CDS manteve durante a campanha em relação a vários assuntos delicados, incluindo possíveis cenários de coligação. Considero que nos últimos anos fez uma oposição mais coerente do que do que a do PSD e prefiro, apesar de tudo, a equipa que rodeia Portas, por inexperiente que seja – ou talvez por causa disso.

 

10. Os próximos anos vão ser muito, muito difíceis.

 

11. Até Domingo decidirei em que partido voto.

Dívida privada e visão de curto prazo


escafandro,

Introdução. Estando-se quase no rescaldo da campanha, este post pode vir um bocadinho fora de tempo mas não resisto à oportunidade de fingir por uns minutos que sou economista (não sei porquê, em criança optei sempre por imaginar-me outras coisas). Há por aí opiniões segundo as quais, sendo privada a maioria da dívida externa nacional, mais do que o governo deveriam ser responsabilizados pela situação a que chegámos indivíduos e empresas. É pena que, sendo a premissa verdadeira, a conclusão não o seja, uma vez que tal significaria pelo menos que o papel do Estado era menos fulcral na tomada de decisões de qualquer entidade neste país. Quatro passes e um remate:

 

1. Ainda que a dívida privada seja realmente superior à pública, foi o crescimento exponencial desta nos últimos anos a criar os actuais problemas de financiamento e a obrigar-nos a fazer o pedido de resgate. Se os bancos tiveram dificuldades não ligadas à acção do Estado (enfim, pelo menos directamente) na sequência da crise financeira de 2008, os problemas actuais têm tudo a ver com a crise da dívida pública.

 

2. À dívida pública é necessário acrescentar a dívida das empresas e institutos públicos e os encargos com as parcerias público-privadas. O tema tem sido discutido até à exaustão mas ninguém parece saber qual o valor exacto em causa, especialmente no caso das PPP. Usando dados da Direcção-Geral do Tesouro e Finanças, o professor Álvaro Santos Pereira indica no seu recentemente publicado livro Portugal na Hora da Verdade (edição Gradiva, 2011) encargos com as PPP rondando os 1,2% a 1,5% do PIB anuais entre 2011 e 2021. Mas será só isto? (Enfim, só…) A propósito das cartas de Eduardo Catroga, o governo garantiu que sim, que as contas são transparentes e estão disponíveis online. Excelente. Para ter exigido uma auditoria externa, a «troika» devia estar com dificuldades de acesso à net.

 

3. Uma parte significativa da dívida das empresas privadas resulta de decisões (ou talvez fosse mais correcto chamar-lhes incentivos) governamentais. Como Santos Pereira explica aqui e demonstra de forma mais aprofundada no livro, muitas empresas (como aliás, muitos particulares) contraíram créditos para acorrer às privatizações (a maioria das quais ocorreu antes da governação Sócrates, é certo, mas no tempo de outro socialista, menos dado a queimar calorias) e outras (ou as mesmas, que vivemos num país em que tudo passa por meia dúzia de grupos) fizeram-no para aproveitar os projectos de investimento público (obviamente, o vencedor do concurso para a construção de uma auto-estrada necessita de recorrer a financiamento para concretizar o projecto – aliás, não é acaso que os consórcios costumem incluir bancos). Deve ainda considerar-se que a aposta governamental em determinados sectores também gerou dívida privada: as empresas que se lançaram em projectos ligados às energias renováveis, por exemplo, muitas vezes em estreita colaboração com o governo (cof, cof, Martifer, cof, cof), endividaram-se alegremente.

 

4. Por fim, quanto ao nível de endividamento de famílias e indivíduos, já se discutiu bastante como a inacção do governo ao nível da lei do arrendamento (é irónico lembrar que, naqueles quatro meses caóticos do final de 2004, o governo de Santana Lopes tinha pronto um projecto de lei de arrendamento que talvez tivesse ajudado a estimular o mercado) e a concessão de benefícios fiscais no crédito imobiliário (usados pelos promotores para subirem preços) levaram muita gente a comprar casa em vez de a arrendar. Um pormenor de delicioso humor negro é verificar como, em 2008, Portugal estava em quarto lugar na lista de países europeus com mais elevada percentagem de proprietários: cerca de 75% dos agregados familiares possuía casa própria. Onde está o humor negro? Aqui: à nossa frente, com ainda mais elevadas percentagens, estavam a Irlanda, a Itália e a Espanha; imediatamente atrás de nós, a Grécia. Pode ser apenas coincidência, é claro. (Dados da European Mortgage Federation, retirados do livro do professor Santos Pereira.) E nada impedia o governo (em teoria, vá) de ter aumentado os impostos que incidem sobre a compra de casa (afinal, aumentou os que incidem sobre tudo o resto). Mas suponho que ninguém se lembrou.

  

Conclusão. Independentemente de acharmos que as privatizações eram inevitáveis (eram, e também geraram efeitos positivos ao aumentar a eficiência das empresas), de que a aposta nas energias renováveis terá retorno no longo prazo (esperemos que sim) ou de que é melhor viver em casa própria do que em casa arrendada (talvez mas, para além da questão do endividamento, isso aumenta a rigidez do mercado laboral, ao prender as pessoas a um sítio), um governo – qualquer governo – deveria ter como uma das suas principais preocupações a análise dos factores de risco da economia a médio e longo prazo. É em grande medida para isso que ele existe. Para, directamente ou através da criação de entidades reguladoras eficazes, contrabalançar os interesses de curto prazo que tendem a dominar indivíduos e empresas privadas. Os nossos governos (não apenas os de Sócrates mas especialmente os de Sócrates – em 2002, Durão Barroso, num esforço para implementar algumas tímidas mudanças, falou num «país de tanga» e foi crucificado, tendo-se aliás constatado, sete anos mais tarde, que quase quarenta por cento dos portugueses continuava a recusar-se a acreditar nele) não só não o fizeram como andaram a dar exactamente os estímulos errados. Sabemos, porque ele no-lo tem dito uma e outra vez, que Sócrates fez o seu melhor. É possível. Teria então… bah, acrescentem vocês a punch line. É tão óbvia.

 

(Em complemento, leiam os seguintes textos no blogue do professor Santos Pereira: dívida externa, dívida das empresas públicas, consumos intermédios do Estado, parcerias público-privadas. E comprem o livro, que vale a pena: tem tantos gráficos espectacularmente assustadores que até apetece ‘scanerizá-los’ e montar uma espécie de filme-catástrofe em Powerpoint.)

O regresso das palavras claras


escafandro,

A prova de que já ninguém tem ilusões sobre Sócrates pode constatar-se pelo modo como o termo «inverdade» desapareceu do léxico político nas últimas semanas, substituído pelo velhinho e muito mais claro «mentira». É certo que «inverdade» era mais usado pelos próprios socialistas, sublimes utilizadores do ataque-que-nunca-é-pessoal-nem-excessivo. Seja como for, das ruas ao comentário televisivo, passando por aqui mesmo, já ninguém se dá ao trabalho de evitar dizer que Sócrates mente. O que, na minha opinião, é saudável, para além de exacto. Ou melhor: é saudável porque exacto. Recolocar um mentiroso compulsivo no lugar de Primeiro-Ministro é que seria pouco saudável.

O ponto em que os governos de José Sócrates mostraram indesmentível e gratificante previdência


escafandro,

Há um óptimo motivo para que os bancos portugueses não tenham cometido os exageros que os bancos americanos, islandeses e irlandeses cometeram – através das obras públicas, das PPP e de algumas opções «de futuro» (a política energética e os investimentos a ela associados, por exemplo), o nosso governo garantiu-lhes sempre uma excelente rentabilidade. Chato é pensar que se o Estado tiver mesmo de reestruturar a dívida pública, deixando de pagar vinte ou trinta ou cinquenta por cento desta (ou pagando-os muito mais tarde), os bancos nacionais, atulhados dela, entrarão em colapso na mesma. O que significa que afinal talvez tenham cometidos exageros tão maus como os dos bancos americanos, irlandeses e islandeses. Bolas. E esqueçam também o título.

Blogue da semana


escafandro,

Com atraso (mea culpa; ainda estou a aprender as regras da casa e, num terrível indício de inadequação aos dias que correm, tenho tendência para me esquecer de verificar caixas de correio electrónico), cabe-me escolher o blogue da semana. Após aturado período de reflexão (dez segundos, que afinal estava atrasado), optei pelo blogue de um rapaz chamado Henrique Manuel Bento Fialho, que se esforça por vender livros a pessoas que fazem pedidos esquisitos e também escreve alguns (este é muito bom). Ele escreve tão bem, aliás, que eu sinto-me forçado a confessar que discordo frequentemente do que ele escreve sobre política mas nunca da forma como o escreve. (Detesto que isto aconteça porque é como gostar de alguém que sabemos ser totalmente errado para nós.) Felizmente (para mim), ele escreve mais sobre livros e outras coisas de similar grau de inutilidade. O blogue chama-se Antologia do Esquecimento e (tinha de haver uma piada de efeito fácil para rematar, não?) é um verdadeiro blogue das Caldas (mas só porque Fialho reside lá). Vão espreitá-lo. Se tiverem sorte, o Henrique estará de bom humor.

O essencial e o acessório (e o acessório e o acessório e o acessório)


escafandro,

A nossa obsessão por discutir os pequenos casos da campanha é já mais cansativa do que exasperante. Com o país à beira do colapso financeiro, com a soberania significativamente limitada, com medidas muito duras e ainda mal compreendidas no horizonte, entretemo-nos com uma pletora de «factos» acessórios. Não deixa de ser curioso reparar como quase todos os que adquirem relevância noticiosa, dos «pintelhos» ao «querem proibir o aborto», são negativos para o PSD. Os socialistas parecem nada dizer de inconveniente. Por não dizerem mesmo? Não, apenas por ninguém estar a usar com o PS a táctica que o PS está a usar com o PSD (de vez em quando há quem tente mas falta a convicção que só experiência e dissociação da realidade permitem) e por, como já foi dito e redito, o PS ser insuperável no uso dos meios de comunicação social. Sócrates, esse, transmutado em menos de dois anos de vendedor de ilusões em instigador de medos, livre de ter de defender ideias concretas por obra e graça de um programa eleitoral em que elas não existem, mostra-se chocado três dúzias de vezes por dia, acusando de cada uma delas o PSD de pretender acabar com tudo o que de bom tem o Estado Social (numa versão anterior àquela que ele mesmo amputou). É compreensível. Ao fazer propostas ou ao rebatê-las, Sócrates sempre operou com base em chavões e ideias simples. De resto, sempre foi elogiado por isso – não é uma das críticas que fazem a Passos Coelho, ser demasiado palavroso, não apresentar apenas uma ou duas ideias fortes? Claro que o facto desta táctica ter resultado antes diz muito acerca dos portugueses e claro que dirá ainda bastante mais se resultar novamente. E diz também imenso acerca do papel que a comunicação social, com a inestimável ajuda de dezenas de comentadores, aceita desempenhar, ao dedicar horas à discussão destas minudências (para fugir ao termo de Eduardo Catroga) em vez de focar as atenções nos pontos realmente importantes: as medidas constantes do memorando de entendimento com FMI, UE e BCE e a forma como cada partido se propõe (ou não) implementá-las. Mas, como Philip Roth escreveu em O Animal Moribundo a propósito de algo totalmente diferente, a TV está a fazer o que faz melhor: o triunfo da banalização sobre a tragédia. Com o PS a orquestrar e muita gente a dar uma mãozinha.

Duas perguntas desagradáveis


escafandro,

Assaltam-me duas perguntas quando vejo as notícias acerca das iniciativas do Banco Alimentar contra a Fome. Não gosto do que elas revelam sobre mim e sobre a minha relação com este país mas recuso fugir-lhes. São muito simples:

1. Quantas destas pessoas que vejo na televisão a entregar, imbuídas de genuína e louvável boa vontade, pacotes de bolachas e de cereais aos voluntários do Banco Alimentar fogem aos impostos sempre que podem? Por exemplo: quantas aceitam não pagar IVA ao contratar serviços ou não o cobrar, ao prestá-los? Sendo certo que uma coisa não substitui a outra, quantas percebem o conceito de caridade mas não o de responsabilidade?

2. Com o Estado que temos, especialista em malbaratar recursos, será essa a atitude mais sensata?

Prosas Apátridas – o livro, o blogue e o livro do blogue


escafandro,

Julio Ramón Ribeyro nasceu em Lima, no Peru, em 1929. Estudou letras e direito mas abandonou direito no último ano do curso, depois de começar a escrever. Viajou pela Europa durante a década de 50, desempenhando tarefas tão variadas como porteiro e vendedor de produtos de impressão. Voltou ao Peru em 1958 mas em 1960 fixou-se em Paris, onde trabalhou como tradutor e redactor da France Press. Foi adido cultural e embaixador peruano junto da UNESCO e regressou ao Peru de forma definitiva apenas em 1993. Menos famoso do que outros autores latino-americanos surgidos no terceiro quartel do século XX (por exemplo, o seu conterrâneo Vargas Llosa), é ainda assim reconhecido como um dos principais nomes das letras peruanas, tendo recebido em 1994, poucos dias antes de falecer, o prémio Juan Rulfo. Escreveu maioritariamente contos mas Prosas Apátridas, editado agora em Portugal pela Ahab, não é bem um livro de contos. São duzentos textos numerados, quase todos bastante curtos, que incluem aforismos, divagações e análises de acontecimentos e atitudes observados nos sítios mais variados. Por exemplo, no número 57 pode ler-se: As únicas pessoas civilizadas da praia de Albufeira são estes campónios que às vezes descem das suas quintas de figueiras e amendoeiras, trajados de negro sob um sol abrasador, com a sua estranha maneira de usar o chapéu, muito descaído sobre os olhos e levantado na nuca, e que ficam a apreciar em silêncio, um tanto espantados, mas com dignidade e indulgência e sabedoria, os turistas que, disfarçados de rãs, esfolados vivos na soalheira, embrulhados nas suas toalhas, lubrificados como armas de fogo, desembarcaram de veículos rolantes vindos do Norte e agora rebolam alegremente na areia, lendo Die Welt, The Times, Le Monde e introduzindo, sem se aperceberem, nesse espaço belíssimo, os primeiros sinais da barbárie. Isto terá sido escrito na década de setenta do século passado e serviu-me de grande conforto. Primeiro, porque corpos «lubrificados como armas de fogo» é uma imagem que ficará comigo para sempre e que me fará olhar de outra forma para praias sobrelotadas já nos próximos meses. Depois, porque o texto demonstra que a degradação do Algarve como, decerto, todas as restantes degradações portuguesas, foi afinal culpa de estrangeiros (atente-se, logo à cabeça, na referência aos alemães – e aos alemães conservadores, ainda por cima – através do Die Welt). Tivessem os estrangeiros ficado a tomar banho no Báltico ou no Canal da Mancha, o Algarve ainda seria um paraíso e nós continuaríamos, cheios de estilo, a usar roupa preta e chapéus tombados sobre os olhos.

 

Mas voltemos ao livro. O facto de ser constituído por textos curtos, sempre maravilhosamente escritos, refira-se, é uma das suas forças (lê-se com grande facilidade e despoleta sorrisos, trejeitos e murmúrios regulares) mas permite a ocasional sensação de insubstancialidade. No fundo, Prosas Apátridas é um blogue avant la lettre, como José Mário Silva salientou aqui. Ou melhor: Prosas Apátridas é como o livro extraído de um blogue – objecto de utilidade duvidosa mas muito comum hoje em dia – só que, neste caso, o blogue nunca existiu. E esta circunstância, para além de tornar inesperadamente difícil responder à até agora nada polémica questão: «Quem nasceu primeiro: o blogue ou o livro do blogue?», suscita a possibilidade de Prosas Apátridas, o livro, ser um objecto indefinido e incompleto, uma entidade cuja essência  não é clara. Matutava eu nesta inesperada questão existencialista que desconheço se Sartre ou Camus alguma vez abordaram (como noutros objectos de fabrico artificial, precede a essência dos livros a sua existência ou estaremos perante objectos tão humanos que as coisas funcionam exactamente ao contrário?) quando, numa hiperligação fulminante, me surgiu uma ideia fantástica, passe a rara imodéstia, que permitiria resolver o problema e só não coloquei de imediato em prática por medo de vir a receber uma carta dos advogados da Ahab (nem sempre os editores de livros percebem as intenções de um artista buscando o sentido total de uma obra). Mas posso contá-la, até para que alguém mais corajoso do que eu a aproveite. Trata-se de dar início a um blogue chamado Prosas Apátridas, o qual teria exactamente duzentos posts, publicados ao ritmo de um por dia. Isso mesmo: os duzentos posts deste livro-de-blogue-sem-blogue, desvendados durante os próximos duzentos dias. Mas não se deveria ficar por aqui ou o exercício confinar-se-ia a um gesto vácuo e vacuidade é algo que, estou certo, todos detestamos (sim, mesmo quem leu até este ponto). Considerando que a intenção seria completar o livro, criando a posteriori (por não ter existido a priori) um blogue com tudo aquilo a que ele não consegue chegar (a flexibilidade e a interactividade permitidas pela internet e interditas ao papel impresso), o blogue Prosas Apátridas incluiria imagens e vídeos (ah, o material que se poderia obter para ilustrar os corpos «lubrificados como armas de fogo»), hiperligações (vá, cliquem na capa do segundo livro, infelizmente esgotado há muito) e comentários (sorrio ao pensar na espontaneidade e elegância das reacções a nacos de prosa como o texto número 57 transcrito acima ou o número 77, acerca dos hábitos dos machos mediterrânicos que, frustrados de somente conseguirem roçar-se em mulheres atraentes nos autocarros e no metro, se masturbam como «orangotangos enjaulados»). E talvez Prosas Apátridas, o blogue, pudesse depois ser editado em livro, dando origem a um verdadeiro livro de blogue – cumprindo a visão que Ramón Ribeyro certamente teria tido se há trinta anos já existissem blogues e unindo existência e essência num único volume compacto. Para evitar confusões e marcar a diferença, o novo livro poderia receber o título Prosas Apátridas v2.0. Maior e melhor do que o original, ainda que sem uma única ideia nova, como qualquer sequela que se preze. Que tal, Ahab, vamos a isto?

 

Julio Ramón Ribeyro, Prosas Apátridas.

Edição Ahab (2011), tradução de Tiago Szabo.

Vício


escafandro,

E aqui estão, exactamente como os deixámos, livros, jornais e discos, e maços de cartas, e embrulhos, revistas e manuscritos. É impossível ter a correspondência em dia. Oscar Wilde dizia ter conhecido um jovem promissor que se arruinara com o vício de responder a cartas. Não me é possível ver todo este amontoado de papéis, mais os dois ou três livros que chegam todos os dias.

Saul Bellow, Jerusalém – Ida e Volta.

Edição Tinta-da-China (2011), tradução de Raquel Moura.

 

Hoje já não se escrevem cartas. Escrevem-se mensagens de telemóvel e de correio electrónico, posts e comentários. O vício são os blogues, o Facebook e o Twitter. Quantos jovens promissores se arruinarão andando por aqui?

Incómodos e esquecimentos


escafandro,

Incomodam-nos imenso as críticas vindas de fora. É como se os nossos defeitos apenas se tornassem graves quando um estrangeiro os aponta (ia escrever «visíveis» em vez de «graves» mas nós conseguimos vê-los, recusamos é admitir a sua gravidade e, mais ainda, fazer algo para os corrigir). Incomodam-nos imenso as tiradas de Angela Merkel, por exemplo. Assustam-nos, também, porque sentimos estar nas mãos dela e de outros que pensam como ela; gente fria, sem a nossa tendência para adiar a aplicação de medidas difíceis. Acusamo-los então de demagogia, de não nos conhecerem, de terem visões erradas de como somos e dos esforços que já fazemos. Esquecemos (ou fingimos esquecer) que, em grande medida, esses esforços resultam de más políticas nossas, de conluio entre o nosso governo e meia dúzia de grupos económicos (o caso que Luís M. Jorge refere mais abaixo é apenas o último de uma longa série), da nossa incapacidade para fazer contas e interpretar correctamente os resultados obtidos. Esquecemos também que, independentemente do que vier a acontecer, há mudanças que temos de implementar, com Merkel ou, mais ainda, sem ela. E esquecemos que, sendo certo que na semana passada, por exemplo, Merkel exagerou, ao sugerir que se cortassem dias de férias e subisse a idade da reforma em Portugal, retórica para eleitor ouvir não é exclusivo dela nem dos alemães. Afinal, temos por aí um candidato a Primeiro-Ministro, homem sobejamente conhecido por falhar objectivos, líder de um dos partidos mais bem colocados para ganhar as eleições, declarando não ter de fazer exactamente o que se comprometeu a fazer, mesmo quando o seu ainda Ministro das Finanças e «amigo para sempre» diz o contrário. Algo que deve tranquilizar imenso a Sra. Merkel, os restantes alemães e todos os outros que desconfiam de nós. Seria bom que ao menos nos lembrássemos de que as notícias viajam em ambos os sentidos.

Da incubadora ao pulmão mecânico


escafandro,

Quando ouço Sócrates acusar a oposição de ter provocado a crise, penso em Santana Lopes. (O que é chato porque em quase todas as circunstâncias prefiro pensar em pessoas com níveis mais elevados de estrogénio.) Se Santana se queixava dos companheiros de partido darem pontapés na incubadora onde o seu jovem governo lutava pela sobrevivência, Sócrates não faz mais do que acusar, vociferante, direita e esquerda de terem desligado a máquina que mantinha a respirar o seu velho governo exangue. Mas Santana obteve 28,7% dos votos em 2005. Ganhe ou perca, Sócrates deve conseguir mais. Parece que preferimos berros a lamúrias.

Capacidade de autocrítica


escafandro,

É precisamente sobre isso que converso um dia com A., um velho inglês que vive aqui há muitos anos: a força da Europa e da sua cultura reside, ao contrário do que acontece com outras culturas, na capacidade crítica, sobretudo de autocrítica. Na sua capacidade de analisar e pensar, numa busca e numa insatisfação constantes. O espírito europeu reconhece as suas limitações, aceita a sua imperfeição, é céptico, duvida, põe tudo em causa. Há outras culturas às quais falta este espírito crítico. Mais ainda – têm tendência para a superioridade, para considerarem que tudo o que as distingue é perfeito; por outras palavras, não conseguem ser autocríticas. Estão constantemente a responsabilizar outras pessoas e outras forças (maldições, diversas formas de domínio estrangeiro) pelas desgraças. Os representantes destas culturas vêem na crítica uma ofensa pessoal, uma tentativa consciente de os humilhar, uma forma de os maltratar. Se lhes disser que a sua cidade está suja, é como se lhes dissesse que eles próprios estão sujos, ou têm as orelhas mal lavadas, o pescoço e as unhas carregadas de sujidade. Em vez de estarem disponíveis para a crítica, arrastam atrás de si todo o tipo de traumas, complexos, sentimentos de ódio, indignação, insatisfação e manias. Isto leva a que cultural e estruturalmente eles não sejam capazes de desbravar o terreno do progresso, e sejam incapazes também de ter em si vontade para a mudança e o desenvolvimento.

Será que as culturas africanas (em África, há tantas como religiões) pertencem a estas culturas inatingíveis e sem poder de crítica? Africanos como Sadig Rashid começaram a reflectir sobre isso, pois querem encontrar uma resposta para a pergunta: por que razão é que África está a ficar para trás na grande corrida dos continentes?

Ryszard Kapuscinski,  Ébano – Febre Africana.

Edição Campo das Letras (2001), tradução de Maria Joana Guimarães.

 

A pergunta aplica-se a outras zonas do mundo, não apenas a África. Em grande medida, aplica-se a Portugal. E a possível explicação também. Kapuscinski, um dos maiores repórteres de sempre, talvez exagerasse ao considerar a capacidade de autocrítica europeia assim tão elevada. Ou, pelo menos, talvez se referisse a uma Europa um pouco diferente da actual, uma Europa próspera e optimista, onde as razões para medos e nacionalismos estavam historicamente baixas. Seja como for, se, ao pensar em «Europa», Kapuscinski incluía Portugal, então enganava-se redondamente. Sempre encaixámos mal as críticas e raramente fazemos autocrítica (dizer que as coisas estão mal, como se fosse apenas culpa alheia, não é autocrítica). Talvez a nossa ligação a África (se aceitarmos – e poucas pessoas sabiam tanto sobre África como Kapuscinski – que os africanos também são assim) tenha algo a ver com o assunto. Ou talvez nos seja inato. Seja como for, nos últimos anos esta característica agravou-se. Viu-se reforçada por um Primeiro-Ministro que encara as críticas como ofensas pessoais (ainda por cima, julgando-se um líder insuperável, toma-as como ataques ao país) e é totalmente incapaz de admitir erros. Perante o aplauso de muitos, que lhe elogiaram e ainda elogiam as tácticas, Sócrates reforçou a nossa incapacidade para a autocrítica, a ideia que temos de que reconhecer enganos é sinal de fraqueza. Ao fazê-lo, tornou-nos menos evoluídos, menos disponíveis para aprender e melhorar. Esperemos que não o suficiente para estarmos já incapazes de o perceber.