Incomodam-nos imenso as críticas vindas de fora. É como se os nossos defeitos apenas se tornassem graves quando um estrangeiro os aponta (ia escrever «visíveis» em vez de «graves» mas nós conseguimos vê-los, recusamos é admitir a sua gravidade e, mais ainda, fazer algo para os corrigir). Incomodam-nos imenso as tiradas de Angela Merkel, por exemplo. Assustam-nos, também, porque sentimos estar nas mãos dela e de outros que pensam como ela; gente fria, sem a nossa tendência para adiar a aplicação de medidas difíceis. Acusamo-los então de demagogia, de não nos conhecerem, de terem visões erradas de como somos e dos esforços que já fazemos. Esquecemos (ou fingimos esquecer) que, em grande medida, esses esforços resultam de más políticas nossas, de conluio entre o nosso governo e meia dúzia de grupos económicos (o caso que Luís M. Jorge refere mais abaixo é apenas o último de uma longa série), da nossa incapacidade para fazer contas e interpretar correctamente os resultados obtidos. Esquecemos também que, independentemente do que vier a acontecer, há mudanças que temos de implementar, com Merkel ou, mais ainda, sem ela. E esquecemos que, sendo certo que na semana passada, por exemplo, Merkel exagerou, ao sugerir que se cortassem dias de férias e subisse a idade da reforma em Portugal, retórica para eleitor ouvir não é exclusivo dela nem dos alemães. Afinal, temos por aí um candidato a Primeiro-Ministro, homem sobejamente conhecido por falhar objectivos, líder de um dos partidos mais bem colocados para ganhar as eleições, declarando não ter de fazer exactamente o que se comprometeu a fazer, mesmo quando o seu ainda Ministro das Finanças e «amigo para sempre» diz o contrário. Algo que deve tranquilizar imenso a Sra. Merkel, os restantes alemães e todos os outros que desconfiam de nós. Seria bom que ao menos nos lembrássemos de que as notícias viajam em ambos os sentidos.
Incómodos e esquecimentos
escafandro,

Incomodam porque, na sua maioria, são certeiras.
Por vezes quem está fora consegue ver as coisas de outro prisma e obter uma percepção que o pântano em que estamos metidos não permite.
Precisamente, André. E o pior é que nós sabemo-lo mas não queremos admiti-lo. É um pouco como quando falhamos no emprego e, em vez de assumir o erro, tentamos escondê-lo e ficamos irritados quando nos chamam a atenção para ele. Talvez até seja mais o facto dos nossos esforços para esconder o erro terem falhado do que o próprio erro que nos irrita. Mas intimamente sabemos que cometemos o erro. (Bom, e daí nem sempre: há uns quantos casos-limite, como José Sócrates, que nunca admitem, nem perante eles próprios, terem cometido erros.)
A teoria da conspiração nunca beneficia quem a formula. É sempre mais inteligente concentrarmo-nos em fazer a nossa parte.
Esse é um dos nossos grandes problemas, Rui. Preferimos queixar-nos dos erros e inconsistências alheias (que existirão sempre) a fazer a nossa parte.
O problema é que a merda da imprensa que temos não ajuda. No caso BES/Mota-Engil-Estradas de Portugal o desfalque oscila entre os 600 milhões de euros e os 10 mil milhões de euros, dependendo do jornal que se lê. Os jornalistas são os primeiros a não saberem fazer contas, quando não protegem explicitamente uma das partes. Hoje no Público, por exemplo, conseguiram falar da Ascendi e fazer uma notícia de 2 páginas com chamada de capa sem referirem uma única vez o grupo BES.
A imprensa portuguesa é muito fraca – e «fraca» aplica-se a várias áreas mas, neste caso, talvez a mais importante seja a debilidade financeira. Afrontar um grupo poderoso tem consequências: há a publicidade das empresas do próprio grupo que se perde, as «notícias» e entrevistas que deixam de se conseguir, o acréscimo de dificuldades de financiamento se o grupo em questão for do sector financeiro, o desconforto que se causa noutros grupos que temem ser alvo de notícias similares, etc. Por alguma razão Paes do Amaral (nunca percebi se se escreve com ‘e’, se com ‘i’) prefere uma TVI globalmente mais «cordata».
Na mouche. Quem esta de fora tem uma distancia que permite uma analise racional do que passa em Portugal. Depois ha uma outra dimensao do problema que e a dificuldade em aceitar as criticas e ver nelas um impulso de mudanca.
PS-Nao tenho acentuacao no
teclado…
Obrigado, Helena. É agradável receber um elogio de quem, sendo portuguesa, conhece bem a realidade alemã. Já agora, aproveito para acrescentar que li e concordo com o que escreveu na semana passada sobre a polémica em torno das declarações de Merkel. (Aqui, para outras pessoas interessadas: http://camalees.wordpress.com/2011/05/1 9/merkel-e-a-fabula-dos-portugueses-preg uicosos/)
PS: E esta desculpada quanto a questao da acentuacao… 😉
“Esquecemos (ou fingimos esquecer) que, em grande medida, esses esforços resultam de más políticas nossas, de conluio entre o nosso governo e meia dúzia de grupos económicos”
Não resultam. Os sucessivos Orçamentos de Estado não demonstra que o desastre se deva a conluio com “grupos económicos”. São uma peça mais pequena do desastre.
Existe um conluio mais importante – pois representa mais dinheiro – conluio entre os Governos e o Povo.
Dinheiro por Votos.
Logo vai-se ao Crédito para os comprar.
Mais 20% do que gasta o Estado é pedido emprestado.
É esse o défice real- não o equiparado ao PIB.
E a mentira que satisfez o presente de ambos Governo e Povo leva ao faz de conta permanente que forma uma bolha.
Bolha que rebentará no futuro e o futuro chegou.
Lucklucky: no essencial estamos de acordo. As “más políticas nossas” incluem, obviamente, os exageros com medidas sociais que até podem ser simpáticas mas são insustentáveis. De facto, o mais importante é não sabermos fazer contas ou, mais exactamente, recusarmo-nos a aceitar o resultado destas. Ainda assim, o conluio entre o governo e os grupos económicos é um factor importante:
1. Pelo dinheiro que apesar de tudo representa;
2. Pela simbologia (num país em que a maioria das pessoas ganha muito pouco, é importante denunciar estes conluios e mostrar a hipocrisia socialista, que gosta afinal tanto de certos grupos privados);
3. Pelo facto de ter ‘ajudado’ a economia a não crescer (não tendo o investimento sido produtivo, teria sido melhor – provavelmente você dirá que é sempre melhor; eu não vou tão longe – deixar o dinheiro no bolso dos cidadãos).