O editor de livros, esse expoente do capitalismo, visto pelo intermediário (ou, vá, por um funcionário do intermediário com tendência para a simplificação)


escafandro,

Fim da tarde, livraria num centro comercial em Gaia. «Repare!» Ergo os olhos de Vieram como Andorinhas, de William Maxwell (adorei Adeus, Até Amanhã). O funcionário, rapaz de trinta anos, se tanto, pega num livro do expositor de forma aparentemente aleatória, consulta a etiqueta do preço e estende-o, com a etiqueta para cima, a um homem com cerca do dobro da idade dele. «Dezanove euros! Não custa mais do que dois ou três a produzir! Mesmo tirando os trinta por cento para o vendedor, é um negócio da China!»

Because the night


escafandro,

 

Porque é um momento fantástico, ocorrido no Madison Square Garden em Outubro de 2009, e porque acabei de ler Apenas Miúdos, de Patti Smith (o preâmbulo pode ser lido aqui), a história dos anos nova-iorquinos em que ela e Robert Mapplethorpe partilharam, entre outras coisas, o pouco dinheiro que iam arranjando (mais ela do que ele), quartos (incluindo dois no famoso Hotel Chelsea), comida (e fome), roupa, acessórios, música, amigos e sonhos. Os anos em que gravitaram em torno do círculo de Andy Warhol sem verdadeiramente nele entrar, em que conheceram e choraram a morte de Janis Joplin, Jimi Hendrix e Jim Morrison, em que ele tentou perceber se era homossexual, em que ambos tentaram descobrir o que podiam fazer na vida, sendo certo que apenas a arte era opção. Smith queria escrever mais do que cantar e acabou a cantar o que escrevia. Mapplethorpe dedicou-se à fotografia, tendo causado polémica com nus masculinos e incursões no mundo do sadomasoquismo (e um dos pontos mais interessantes do livro é constatar a inocência com que mergulhou nele). Morreu de SIDA em 1989. O livro resulta de uma promessa que Patti lhe fez e é muito bom.

 

Adenda: E estes ainda estão todos vivos, Pedro.

O trolha delicado


escafandro,

Hora de almoço. Após um início de manhã enevoado, o Sol brilha. Sentados no passeio, costas contra a parede de um edifício, encontram-se uns quantos trabalhadores da construção civil. Uma mulher (trinta e poucos anos, vestido leve, casaquinho pendurado no braço esquerdo), caminhando na minha direcção, passa-lhes à frente. As cabeças dos homens vão rodando devagar. De súbito, ela leva a mão à boca e espirra. Imediatamente, um dos homens diz: «Biba!» (Estamos no Porto.) Ela sorri e agradece. Enquanto se afasta, os colegas do homem que falou desatam a rir e a gozar com ele. Alguns sugerem coisas muito mais adequadas para se dizer numa situação daquelas. Ideias para impedir que ela se constipe, por exemplo. O homem, ligeiramente embaraçado, aguenta uns segundos e depois manda-os executar uma variante do acto que alguns deles se propunham levar a cabo com a mulher. Eu, que abrandara o passo, volto a acelerar. Ninguém parece reparar em mim mas sinto comichão no nariz e detestaria espirrar neste momento.

Himenoplastia


escafandro,

É giro ver tanta gente que andou anos a aplaudir as mentiras de Sócrates (que nunca subiu impostos, que tomou sempre decisões inatacáveis no imbróglio BPN, que nunca meteu amigos em empresas controladas pelo Estado, etc., etc., etc., etc., etc., etc., etc., etc., etc., etc., etc.*) sendo intransigente com a mais pequena inconsistência do actual governo. Ainda bem. Eu também considero existirem indícios preocupantes. Mas não deixo de achar piada às reacções. É como se certos actos que até há dois meses eram sexo consentido (e, ooooooh, tão agradável) fossem agora violação. Se precisarem de lubrificante, digam.

 

* Pelas minhas contas faltam trezentos e vinte e oito mas, para não tornar o post muito repetitivo, vou ficar por aqui.

De Oslo ao deserto americano ou a sensação de irrelevância nas sociedades saudáveis


escafandro,

Sim, há o medo do outro, especialmente quando ele é diferente, e a ameaça a valores «tradicionais», encarados como definidores de uma certa pureza, e haverá também distúrbios psiquiátricos que outras pessoas abordarão com mais propriedade do que eu, apesar de frequentemente a teoria explicar muito pouco. A mim, a Noruega fez-me voltar a Ballard. Numa sociedade totalmente saudável, a loucura é a única liberdade possível. Aparentemente, não existem sociedades mais saudáveis do que as nórdicas. Nível de vida invejável, civismo exemplar, protecções sociais generosas. Contudo, os nórdicos são conhecidos pela taxa de suicídios (ainda que, à la Liberty Valance, o mito possa ter-se sobreposto à realidade), e, com certa frequência, surgem da Escandinávia notícias de matanças aparentemente aleatórias ou, como no presente caso, na sequência de planos minuciosos. A violência, que em países menos saudáveis tende a surgir associada à luta pela sobrevivência, a conflitos étnicos ou religiosos com dezenas ou centenas de anos (transformados eles mesmos em tradição) ou à raiva pelas injustiças sociais, é nos países ocidentais (no sentido lato de «ocidentais») uma recusa da conformidade. É uma consequência da sensação de que não se é mais do que um elemento irrelevante numa gigantesca engrenagem funcionando de acordo com uma lógica cada vez mais asfixiante e impossível de alterar. Ballard avisava que os actos «inexplicáveis» de violência continuarão a aumentar. É a única liberdade possível. Enfim, talvez não seja bem a única: o suicídio, um acto de violência dirigido para dentro (note-se como a taxa tem aumentado nas últimas dezenas de anos), será outra. E depois há paliativos. Dos mais corriqueiros – o consumismo desenfreado, a modificação do corpo, os hobbies tornados obsessão, a pintura de frases de protesto em paredes – aos mais perigosos. Por exemplo, a adesão a posições extremistas, que oferecem um conjunto de regras totalmente diferente. Mas os extremistas são confrontados com o facto de nas sociedades «saudáveis», da Europa do Norte ou de qualquer outra zona geográfica, não ser suficiente adoptar certas posições e alardear o facto. Escrever  na internet comentários xenófobos, racistas ou contra uma determinada religião gera apenas umas quantas respostas inflamadas. Organizar uns encontros ou umas marchas pacíficas é notícia para rodapé de noticiário. Não há mudança. Ninguém liga. Continua-se irrelevante. Resta subir a parada. Tornar as marchas violentas ou (solução especialmente adequada para solitários, em número cada vez mais elevado nas sociedades «saudáveis») chamar a atenção por meios mais bombásticos (no pun intended). E é então que a sociedade, atingida no seu âmago, na sua sanidade, presta finalmente atenção. Um tipo que mata setenta e tal pessoas já não é um «idiota» que coloca coisas na internet. É um «monstro», alguém que abala certezas, que obriga a pensar. As sociedades «saudáveis» são sociedades anestesiadas e só a morte – e já não basta a morte de uma ou duas pessoas, a menos que sejam famosas – é suficientemente forte para dissipar o efeito da anestesia. Durante uns dias.

 

Ligada a esta sensação de manietação e irrelevância, há pelo menos um outro factor que talvez possa ser abordado analisando a pergunta: por que são quase todos estas pessoas, estes assassinos, estes «monstros», do sexo masculino? (Como os suicidas, de resto.) Ballard outra vez: Nós não somos os seres racionais que pensamos ser. Somos selvagens. Os nossos sistemas nervosos centrais, os nossos cérebros, os nossos instintos, os nossos reflexos estão adaptados à vida de caçador solitário. Ou Cormac McCarthy. Por um motivo completamente diferente, Ana Cristina Leonardo levou-me a retirar Meridiano de Sangue da estante. Reli algumas das dissertações filosóficas que o juiz Holden faz aos seus companheiros, nos intervalos entre matanças e recolha de escalpes (sim, é ficção mas frequentemente aprende-se mais na boa ficção do que em herméticos manuais científicos). Eis a natureza da guerra, cujo prémio é a um tempo o jogo e a autoridade e a justificação. Vista desta maneira, a guerra é a forma mais genuína de adivinhação. É pôr à prova a nossa vontade e a vontade de outrem no quadro daquela vontade mais vasta que, pelo facto de vincular todas as vontades individuais, é obrigada a escolher. A guerra é o jogo supremo porque representa, em última análise, o romper da unidade da existência. A guerra é deus.[…] Quando um homem cai morto num duelo, isso não demonstra que as suas ideias estavam erradas. O facto de ele se ter envolvido numa tal prova apenas atesta uma nova e mais vasta perspectiva. A vontade dos duelistas de renunciar a quaisquer novas discussões, reconhecendo o carácter trivial de todo e qualquer debate, e de apelar directamente às instâncias do absoluto histórico indica claramente a pouca importância de que se revestem as opiniões e a grande importância das divergências em torno dessas mesmas opiniões. Pois a discussão é efectivamente trivial, mas o mesmo não se pode dizer das vontades opostas que a discussão pôs em relevo.* A guerra enquanto jogo último. Enquanto necessidade masculina (ah, a testosterona) de conquista de poder e de testar limites – os do outro e os próprios. Antes, os homens caçavam e lutavam e, numa fase em que isso já não era bem visto, ainda entravam em duelos. Mas nas sociedades «saudáveis» (em parte, sinónimo de mais femininas) não se luta – não verdadeiramente, pelo menos. As lutas são mal vistas e as que existem têm de permanecer dentro dos limites entendidos como aceitáveis. Uma discussão num bar não pode acabar em pancadaria, da mesma forma que um desaguisado entre vizinhos não pode acabar em tiros ou em facadas. Nas sociedades «saudáveis» apenas as claques de futebol guerreiam (por vezes, sob falsos pretextos: de que forma a paixão a um clube, só por si, justificaria vandalizar áreas de serviço?). Ballard, aliás, defendia que se tornassem os desportos mais violentos e não menos. Até o trânsito – um escape em sociedades um pouco menos «saudáveis», mais dadas à troca de insultos, como a portuguesa – foi em muitos países civilizado à força de radares e pressão social. Esta luta contra os instintos tem consequências. Deixa latente uma sensação de cobardia, de insignificância, pronta a manifestar-se. Pronta a agarrar qualquer pretexto.

 

Ainda por cima, numa reacção natural mas, em parte, contraproducente, a resposta política e social a casos como o da Noruega é envidar esforços para aumentar o grau de sanidade. Lançar programas para ensinar tolerância. Perseguir ou regular sectores que não parecem tão «saudáveis» quanto deviam (heavy metal e jogos de vídeo, por exemplo). Proibir o acesso a armas de fogo. Criar mecanismos de vigilância mais intrusivos. Tudo em nome de uma lógica inatacável. Sensata. Civilizada. (E isto não é ironia; eu não me importava de viver na Noruega e é evidente que não devemos andar por aí aos tiros uns aos outros, até porque a minha pontaria deixa um bocado a desejar – e este último ponto, sim, é ironia.) Mas, afirmem Rousseaunianos e outras almas bem intencionadas o que afirmarem, o homem não é um ser «saudável». Ainda não. Talvez daqui a uns milhares de anos – ou umas dezenas, com manipulação genética (hurrah). Nos próximos tempos, ajudada pelo declínio económico, a pressão aumentará. Desconfio que em breve voltarei a Ballard.

 

* Edição Relógio d’Água, 2004. Tradução de Paulo Faria. Páginas 295 e 296.

Notas de viagem (Adenda: poses ou o segundo plano e o ioga de Pisa)


escafandro,

A pose típica do turista é de costas para o que quer que seja – igreja, praça, quadro, paisagem – que o levou até ao local. A putativa atracção fica assim por trás, mais ou menos focada, mais ou menos bem exposta, consoante a capacidade do fotógrafo, as características do sensor de imagem e a inteligência dos algoritmos da máquina. Para quase toda a gente, o importante é a própria presença – cá estou eu em frente àquilo. É ser capaz de provar a si mesmo e aos outros ter estado lá – junto daquele segundo plano.

 

Depois há uma variante mais divertida mas, por muito que as pessoas pensem o contrário, não muito mais original, que um pouco conhecido blogger português irá chamar dentro de instantes – três, dois, um – Ioga de Pisa. (Mas vocês já sabiam porque leram o título, não é verdade?) Em Pisa, o ioga de Pisa significa posicionar corpo e mãos de modo a fingir que se impede a queda da torre enquanto outra pessoa tira uma fotografia; junto a estátuas de nus masculinos em Pisa, Paris ou Provideniya (se é que existem estátuas de nus masculinos num sítio tão frio como Provideniya), significa colocar o indicador e o polegar de tal forma que pareçam medir o tamanho do pénis da estátua enquanto outra pessoa tira uma fotografia; em Pisa, Paris, Provideniya ou qualquer outro ponto do planeta em que ocorram pores-do-sol (mas especialmente à beira-mar), significa colocar os dedos, as mãos ou os braços de modo a parecerem agarrar o Sol enquanto outra pessoa tira uma fotografia. And so on and so on. A nossa originalidade é a originalidade de milhões mas isso pouco importa: como o mesmo blogger escreveu um dia (também pode ter sido uma noite), um cliché fica totalmente diferente quando é o nosso cliché.

RIP


escafandro,
Detesto Lady Gaga. Mas há umas semanas, num segmento que o Sixty Minutes lhe dedicou e no qual teve atitudes tão ridículas como aparecer ao repórter quase nua porque naquele dia «não lhe apetecera vestir-se», admirei a consciência que ela tem da forma como é encarada ao afirmar que os media e muito público lhe seguem os passos esperando assistir à sua queda. Querendo estar lá quando exagerar, quando algo de horrível lhe acontecer. Quando morrer. Mas, acrescentou, sabe perfeitamente o que faz e não lhes (nos) vai dar essa satisfação. Admirei-a pela lucidez (sim, somos vampiros desejosos do sangue – real ou metafórico – dos famosos que não apreciamos) mas pensei que é por este calculismo, pelo modo como a música parece nela apenas um meio para atingir o verdadeiro objectivo – a fama – que não a aprecio. São os genuínos que ficam para a história. Os que, cantem, dancem, escrevam ou pintem, não parecem fingir. Os que mostram sentimentos em que se pode acreditar. E destes – é duro admiti-lo –, especialmente os que morrem cedo e de forma violenta. Porque não se tornam banais e porque provam que todas as fragilidades eram verdadeiras. Descansa em paz, Amy.

A funny mind


escafandro,

The love of a woman with a funny mind is the definition of paradise, he thought.

Norman Rush, Mortals. Edição Jonathan Cape.

 

Inteiramente verdade. Bom, também não faz mal que a mulher possua outros atributos, incluindo aqueles mais tridimensionais. O próprio Ray Finch, a personagem que tem este pensamento, adora outras características de Iris, a mulher com quem está casado. Mas a funny mind é, de facto, a mais importante (mais do que a pura inteligência, que frequentemente a acompanha). A funny mind não é banalizada pela familiaridade, permite surpresas regulares, momentos de distensão em que se é recordado do motivo por que se gosta daquela pessoa. Nenhuma característica física tem este poder, ou pelo menos não o tem eternamente. Degenerescências médicas à parte, ainda que por vezes abalada pelas dificuldades da vida, a funny mind consegue resistir à passagem do tempo. Mais: nas mulheres como nos homens, revela-se extremamente útil para aprender a relativizar os seus efeitos, limitando-os ao plano físico.

Deutschland uber alles? Nah, só queremos o dinheiro.


escafandro,

Da esquerda à direita lamenta-se a inexistência de líderes «fortes» na Europa. Acusa-se Merkel de afundar o «projecto europeu». Defendem-se os eurobonds e a desvalorização do euro. Acho piada (o meu humor é com frequência negro). Ponto um: em tempo de paz, os grandes líderes são quase sempre aqueles que têm a sorte de estar no poder quando a economia cresce e os eleitorados andam satisfeitos (terem memória de uma guerra recente também ajuda). Merkel é fraca? Pelo contrário, é tão forte que resiste tenazmente às nossas pretensões. Mais importante: estamos mesmo convencidos de que Delors, Mitterrand ou Kohl (não vale a pena recuar mais; a realidade dos anos cinquenta e sessenta era tão diferente que é como se fosse outro planeta) fariam melhor nas actuais circunstâncias? Provavelmente estamos: somos sebastiânicos, sempre à espera de líderes providenciais, e preferimos imaginar mundos alternativos perfeitos a enfrentar a realidade. Afinal, foram Delors, Mitterrand e Kohl que puseram tudo isto em marcha ao delinearem o Tratado de Maastricht. Mas – ponto dois – se entre nós o anseio por líderes com capacidades sobre-humanas é antigo, também a tendência para desvalorizar a moeda está longe de ser recente. Desvalorizar é a via de quem não sabe ou consegue mais. Momentaneamente útil, permanece uma ilusão caso não sejam criadas condições para a tornar desnecessária no futuro (mas, lá está, preferimos ilusões). Se, por si, a desvalorização resolvesse alguma coisa seríamos há muito um país rico. Os alemães sabem-no, vacinados que ficaram com a hiperinflação do início da década de vinte do século passado. E a verdade é que, mesmo antes da introdução do euro, saíam-se bastante bem. Irrelevâncias, todavia. Nós é que estamos certos. Queremos ainda obrigá-los, através dos eurobonds, a garantir o nosso nível de despesa (ah, desculpem: ponto três). Em troca, prometemos continuar a comprar carros alemães (e, caramba, como eu desejo uma Leica M9). Ao aceitar o euro, a Alemanha aceitou várias novas reunificações mas não assegurou o poder de definir as regras. Erro crasso. Fê-lo porque ninguém aceitaria que fosse de outra forma e porque não queria o trabalho, os custos e a responsabilidade de organizar a Europa. (É irónico mas, desta feita, com quase toda a Europa disponível para ser conquistada, a Alemanha não deseja conquistar a Europa.) Porém, os desejos germânicos também esbarram na realidade e Merkel só tem duas hipóteses: pagar e pagar e pagar e voltar a pagar e pagar mais um pouco ou, percebendo que nunca nos conseguirá disciplinar, deixar falir os países que tiverem de falir, aceitando as consequências para o euro, para a União Europeia e para a própria Alemanha. Será suficientemente forte para isto? Se não for e decidir caucionar o endividamento dos países periféricos, precisa obviamente de garantir que eles controlam as contas públicas e implementam as reformas necessárias para subirem os níveis de produtividade. Tem de impor uma união fiscal e política e preparar-se para governar efectivamente toda a Europa, impondo as políticas que os governos grego e português e italiano e espanhol não conseguem implementar eficazmente. Não seria bonito de ver mas está amplamente demonstrado que, deixados a nós mesmos, somos incapazes de resolver a situação. É verdade que, com líderes «fortes», eurobonds, desvalorização do euro e demais paliativos que se venham a engendrar, durante uns tempos talvez não precisássemos. Mas a prazo nem a Alemanha seria competitiva (como, ainda assim, pode vir a não ser). Que importa? É mais fácil nivelar por baixo. Exigimos da Alemanha que siga os nossos padrões e, como qualquer rufia cheio de razão, encaramos mal manifestações de resistência. Compreende-se: os desmancha-prazeres são do mais irritante que existe. Anda lá, Angela, oferece-me a Leica.

Notas de viagem (5/5: Roma)


escafandro,

Com a imagem de um homem utilizando um velho Fiat Seicento como se fosse uma scooter numa auto-estrada entupida de veículos ainda fresca na cabeça, faço questão de entregar o automóvel na Hertz imediatamente após entrar na cidade. Enquanto arrasto a mala pelas ruas constato que poucos passeios têm rampas e que a cor dos semáforos é apenas uma sugestão de comportamento. Ainda não o sei mas esta primeira e nada original imagem de Roma vai marcar tudo o resto.

Roma é um caldeirão de contradições. Essencial na evolução política e cultural do ser humano, está em relação ao seu passado um pouco como Portugal em relação aos Descobrimentos: não se percebe bem como pôde atingir tais alturas. Ou talvez perceba mas a explicação não é simpática: tanto no período Clássico como no Renascimento, quase tudo passou pela decisão de meia dúzia de indivíduos com demasiado poder. Mais do que o povo «comum», mais do que os artistas e/ou os teóricos do pensamento, terão sido os humores, as preferências, as crenças e as invejas de líderes muito pouco escrutinados a empurrar Roma (como, nos séculos antes do e durante o Renascimento, também Florença e Veneza) para a glória. É aliás curioso pensar que, enquanto turistas, admiramos hoje um pouco por todo o mundo os efeitos da autocracia política e religiosa. (Não que ela seja indispensável: mesmo em democracia, e porque as arenas para lutas de gladiadores são agora de outro tipo, é sempre possível construir estádios de futebol.)

Mas a aparente dissonância entre as capacidades dos romanos actuais e a obra dos seus antecessores não é a única contradição em Roma. Há outra, mais prosaica: sendo uma cidade com tantos pontos de interesse e tão voltada para o turismo, a que se chega com as imagens de Audrey Hepburn e Gregory Peck andando de scooter em torno do Coliseu e de Anita Ekberg tomando banho na Fontana di Trevi, é também uma cidade que se sente estar farta de visitantes. Ao contrário do que afirmam os guias de viagem, quase não há jardins ou parques; para descansar, os turistas sentam-se na beira dos passeios e em qualquer degrau da Scalinata di Spagna que se encontre à sombra. Apesar da quantidade de visitantes, não há casas de banho públicas e os restaurantes limitam o acesso às suas a clientes; para urinar, muitas mulheres e alguns homens (é sempre mais complicado para as mulheres) fazem fila junto às casas de banho dos McDonald’s. Não se estando à espera de perfeição na organização e limpeza, as tendas no Campo di Fiori são tão numerosas que é impossível ter uma visão adequada da praça; Giordano Bruno parece perdido no alto do pedestal, olhando para a face superior dos toldos. Roma é uma cidade que se sujeita ao turismo (entraria em colapso sem ele) mas que recusa preocupar-se com o bem-estar dos turistas. E se isso por um lado é bom (o visitante não se sente num cenário erguido em sua homenagem), por outro é com frequência exasperante. Mas há mais: se conseguirmos esquecer o peso da História (nada fácil, é verdade) e apesar de todas as igrejas, praças e monumentos, em poucas zonas Roma é verdadeiramente bonita. Pelo menos não no sentido em que capitais europeias como Paris, Viena, Amesterdão ou Lisboa o são.

Talvez o exemplo mais flagrante de como certas experiências potencialmente sublimes são arruinadas pelo excesso de turismo, que não é culpa dos romanos, e pela falta de organização, que é, seja a visita aos Museus do Vaticano. As salas de Raffaello são magníficas (por uma qualquer razão obscura, atrai-me particularmente a aula prática de Euclides no fresco A Escola

de Atenas.) Há na Pinoteca obras de Caravaggio e Da Vinci. A galeria dos mapas é simultaneamente grandiosa e delicada. Porém, a existência da Capela Sistina e o percurso necessário para a atingir transformam o interior dos museus num gigantesco mal-entendido. O exemplo mais notório talvez ocorra nas salas imediatamente antes da capela, onde se encontram expostas obras de artistas ‘modernos’ como Van Gogh, Chagall, Gauguin, Kandinsky, Dali e Bacon. As pessoas passam aos magotes, atiram um olhar rápido às paredes mas, com raras excepções, nem sequer abrandam no percurso entre a porta de entrada e a de saída. Podem existir não sei quantos quilómetros de galerias nos Museus do Vaticano mas tudo o que a maioria dos visitantes deseja ver é a Capela Sistina. Que, aliás, é uma maldição para ela mesma (é impossível apreciá-la condignamente quando nos sentimos um cordeiro tentando manter a cabeça erguida no meio de um rebanho em movimento) e para o resto dos museus (como apreciar a galeria dos mapas, por exemplo, se não se pode deambular calmamente de uma pintura para outra sem ser arrastado pela massa de gente a caminho da porta de saída?) Deveria ser arranjada uma entrada directa para a capela ou então (como na Galleria Borghese) limitar-se o número de admissões. Poupar-se-ia muita exasperação a quem deseja apreciar outras áreas e facilitar-se-ia a vida àqueles que apenas pretendem, regressados a casa, poder afirmar terem estado no interior da Capela Sistina. Nem Michelangelo, nem Rafaello, nem Caravaggio, nem Pinturicchio (que decorou os aposentos Bórgia), nem Van Gogh nem dezenas de outros merecem ter as obras apreciadas por gente exasperada.

Mas também é nesta aparente indiferença pela lógica que se encontra muito do melhor de Roma. Na igreja de Santa Maria della Vittoria estão cinco ou seis turistas e eu quase lanço os braços ao ar e grito «milagre». Depois penso que, a ser, será ligeiramente profano. O meu principal objectivo ao visitar a igreja é ver O Êxtase de Santa Teresa, de Bernini. E a questão surge, inevitável: como diabo (perdão, «diabo» não – ou, se calhar, sim) alguém autorizou que se colocasse uma obra destas no interior de uma igreja? Para mais, em meados do século XVII? Eu sei que, dois séculos antes, já houvera o David de Donatello e que entre David e Santa Teresa existiram outros casos, entre os quais a miríade de referências aos deuses «pagãos» da Grécia e Roma clássicas a que o Renascimento deu origem. Mas este é um caso especial. Está numa igreja e, por muitas interpretações politicamente correctas que se tentem, por muito que esteja de acordo com os escritos da própria Santa Teresa de Ávila, segundo os quais foi uma noite visitada por um anjo que a trespassou com uma flecha, levando-a a mergulhar num êxtase de dor e prazer, por muito boa vontade que Bernini garantisse junto do clero do século XVII (apesar do papa da altura ter prescindido dos seus serviços), por muito que alguns estudiosos defendam que Bernini não o via como tal, como foi possível ignorar que isto é um orgasmo? Não pode ter sido. Pelo que só encontro duas explicações. Se, como Woody Allen afirmou, masturbação é fazer amor com a pessoa de quem mais gostamos, um orgasmo espontâneo, ocorrido durante o sono, só pode ser fazer amor com Deus. E ainda que, ao contrário do que sucedia com os tais deuses clássicos, o Deus cristão não seja conhecido por se permitir contactos com os humanos, talvez os papas e os cardeais do século XVI Lhe percebessem as necessidades melhor do que nós pensamos. Melhor do que nós, na realidade. Ou então – segunda hipótese – limitaram-se a esconder um sorriso e a encolher os ombros. Quando em Roma sê romano não passa afinal de um conselho para adaptar as regras às conveniências e aceitar todas as contradições.

(Releio este texto e ele parece-me longo, desconexo, contraditório. Deve estar pronto.)

Notas de viagem (4/5: Florença)


escafandro,

O calor não ajuda, os magotes de outros turistas também não. Na Piazza della Signoria sou incapaz de visualizar Botticelli queimando as suas obras «pagãs» durante o período de Savonarola (apesar de ter lido existirem dúvidas quanto a ele o ter efectivamente feito, nos Uffizi, diante d’O Nascimento de Vénus e d’A Primavera – pinturas mais escuras e baças do que esperava, talvez porque nos vamos habituando ao brilho excessivo dos ecrãs de computador – dou graças por já terem saído das mãos dele nessa época). No baptistério, não consigo imaginar a cena em que, n’A Divina Comédia (Inferno, Canto XIX), Dante relata como salvou uma criança de morrer afogada numa pia baptismal. Na Ponte Vecchio, pejada de ourivesarias (e, embora sejam hoje lojas de aspecto cem por cento turístico, a existência de ourivesarias neste local não constitui uma adulteração do passado, pelo menos desde que em 1593 os talhantes, ferreiros e curtidores que o ocupavam foram expulsos por causa do mau cheiro), páro, obrigando pessoas com mapas e máquinas fotográficas a desviarem-se, e ergo os olhos para o corredor Vasariano mas também não me é fácil imaginar os membros da família Medici usando-o para evitar o contacto com a população (ainda que – garanto – os entenda melhor neste instante do que alguma vez no passado). É incrível estar no epicentro do Renascimento (e não só, que Giotto, Dante, Petrarca, Boccaccio, Donatello e muitos outros lhe são anteriores) mas torna-se impossível imaginar a realidade de há quinhentos anos. Diabos, torna-se impossível imaginar Hannibal Lecter passeando por estas ruas sem cortar a artéria femural de vinte ou trinta pessoas em cada trajecto. Lamento, Thomas Harris, mas afinal a trepanação não é o único ponto de Hannibal a que falta verosimilhança.

E esta não é a única impossibilidade: também é impossível abarcar tudo. Há demasiada informação. Demasiados edifícios relevantes a visitar, demasiados nomes imortais a recordar, demasiadas pinturas e estátuas a ver, demasiadas intrigas e traições a estudar. O problema é antigo, claro. Como assimilar a História de um local? Como sentir a grandeza de um quadro ou de uma estátua? E de dezenas? Fica quase sempre uma sensação de incapacidade, de que devia sentir-se mais. Talvez a forma correcta de abordar um local seja sem expectativas, com a cabeça vazia. Não ter antes lido Florença, Um Caso Delicado (Asa, 2004, tradução de Teresa Casal), onde David Leavitt escreveu: «A promessa de um destino, tendendo por um lado para o erótico e, por outro, para o artístico, parece ter estado sempre associada a Florença na imaginação do estrangeiro, atraindo-o para a cidade não só para que ele possa ver, mas também para que ele possa ser ou tornar-se algo mais do que é. Ou talvez fosse mais exacto dizer-se que ele espera recuperar uma qualidade que lhe é endémica mas cuja expressão foi inibida pelo seu ambiente de origem.» Mas eu li. E por isso caminho pela cidade e percebo que estou a falhar. Que não pareço conseguir apreciar devidamente o que vejo e que, em consequência disso, sou incapaz de encontrar a tal qualidade que me seria endémica. Pergunto-me se a culpa será exclusivamente minha ou se a devo partilhar com os milhares de outros turistas. Destruiremos mutuamente a hipótese de atingir a plenitude? Mas então penso que Leavitt também classificou Florença como a cidade dos suicidas (e dos homossexuais) e que a propensão para o suicídio se pode dever precisamente ao facto de, com ou sem turistas, Florença mostrar ao visitante que este dificilmente estará à altura do desafio que lhe coloca. Certos locais – como certas pessoas – atraem mas expõem insuficiências. Magnífica, Florença consegue ser uma cidade cruel.

 

(Apesar de poder confirmar a crueldade, retiro algum consolo do olhar de Botticelli em A Adoração dos  Magos. Na extremidade direita da tela, junto de elementos da família Medici passando por reis magos, Botticelli examina os que lhe vieram admirar o génio – quem disse que o pós-modernismo é coisa recente? – com uma mistura de enfado e irritação. Apetece-me dizer-lhe que, pelo menos a ele, aqui, o vejo e compreendo.)

Grão a grão…


escafandro,

No último editorial que escreveu enquanto director da Ler, Francisco José Viegas anuncia para Setembro a implementação do acordo ortográfico na revista. É pena. Mas estamos em crise. E se, por falta de opção, pode vir a existir um momento em que eu comece a comprar livros, jornais e revistas escritos segundo o acordo, esse momento não será em Setembro de 2011. Para mim e por enquanto, a decisão da Ler representa uma poupança de cinco euros por mês.

Investigação científica ou depois não digam que ninguém avisou


escafandro,

Na sequência de aturado estudo envolvendo complexos modelos matemáticos, uma calculadora de telemóvel, uma esferográfica Bic roubada numa repartição de finanças (única participação de fundos públicos no projecto), uma folha de papel milimétrico extraída discretamente do interior de uma papelaria (é fundamental que a iniciativa privada colabore nos projectos de investigação científica) e um cartão de débito a servir de régua, informa-se que, a manterem-se os actuais ritmos de crescimento da altura dos portugueses e dos saltos dos sapatos femininos, mais de metade das portuguesas terão de se baixar (ou descalçar) ao passar pelas portas já em 2028. Prevê-se também um acréscimo ainda não quantificado (preciso de mais folhas de papel milimétrico) de casos de pernas partidas e traumatismos cranianos nos hospitais, o qual teria consequências bastante negativas para as contas do Serviço Nacional de Saúde se ele ainda existisse nessa altura.

 

Adenda: a sola do magnífico sapato apresentado acima é feita de (como é que ainda ninguém pensara nisso?) bosta de elefante. Este material confere um inegável toque de refinamento ao produto que seria impossível de conseguir com a utilização de uma sola normal ou de um tipo de bosta mais comum. Aconselham-se as interessadas (e os interessados, que também os deve haver) a escolherem cuidadosamente o perfume a usar com estes sapatos.

Notas de viagem (3/5: Génova)


escafandro,

Génova é a cidade que falhou o Renascimento. Centro mercantil e financeiro tão importante como Veneza ou Florença, uma das quatro principais Repúblicas Marítimas (com Veneza, Pisa e Amalfi), Génova teve durante o século XIII apenas Veneza como rival (em particular depois de, em 1284, destruir a frota de Pisa na batalha de Meloria). Contudo, no século XIV a peste negra reduziu-lhe significativamente a população (se a peste teve efeito similar em Florença, Pisa, Siena e Milão, Veneza conseguiu ir mantendo o nível de habitantes, o que a ajudou a ganhar vantagem sobre as rivais) e no século XV, perdidas muitas colónias para o Império Otomano e o domínio do Mediterrâneo Oriental para Veneza, mostrava claros sinais de decadência. Voltou-se para Oeste. Ligada a Espanha, recuperou poder no século XVI, sendo, em meados desse século, o mais importante centro financeiro do Mediterrâneo. Mas o período áureo do Renascimento já ficara para trás e, seja como for, os banqueiros e mercadores de Génova nunca pareceram mostrar a apetência para as artes dos Medici ou dos Sforza. Isso nota-se. Apesar de, mais de cem anos após o início do Renascimento, artistas como Rubens e Caravaggio terem passado por e trabalhado na cidade, em Génova não nasceram pintores e escultores do calibre de Botticelli, Michelangelo, Leonardo Da Vinci ou Raffaello. Apesar de Génova ter palácios e igrejas, poucos edifícios conseguem ombrear com os seus homólogos de Florença, Veneza ou Roma.  Elementos reveladores da vocação marítima e mercantil da cidade, os genoveses mais famosos são Cristóvão Colombo e o almirante Andrea Doria, e o monumento mais conhecido da cidade será a Lanterna, cuja versão actual é de 1543 e que, com 77 metros, é o segundo mais alto farol «tradicional» do mundo.

 

Mas Génova tem ainda outros monumentos interessantes, como a catedral San Lorenzo, e tem também uma das maiores zonas históricas da Europa, constituída por um emaranhado de ruas estreitas e pitorescas. Por que não é então um destino turístico tão importante como outras cidades italianas? Em grande medida, porque ruas estreitas não conseguem rivalizar com palácios e catedrais (na eterna luta entre cidades italianas, neste tempo em que o turismo é o Santo Graal de qualquer região, a derrota de Génova foi decidida há quinhentos anos). Mas também porque, independentemente da existência de catedrais ou palácios (e, volto a realçar, Génova possui exemplares de umas e outros), o centro histórico de Génova não parece um destino turístico. Os centros históricos de Florença, Pisa e Siena parecem destinos turísticos. Os centros históricos de quase todas as cidades espanholas parecem destinos turísticos. Os centros históricos de Braga e de Guimarães parecem destinos turísticos. As ruas e os canais de Veneza são o expoente máximo de como um centro histórico pode parecer um destino turístico. O centro histórico de Génova, pelo contrário, é um sítio onde pessoas – e pessoas não especialmente organizadas ou cuidadosas – parecem viver.

Onde quero chegar? Na ânsia de atrair turistas, as cidades, e em especial as zonas históricas das cidades, são hoje pouco mais do que museus ao ar livre: em vez de quadros e estátuas, expõem edifícios retocados para parecerem mais bonitos; em vez de uma loja de souvenirs, têm centenas; em vez de se pagar um bilhete para entrar, pagam-se preços inflacionados nas bebidas, refeições e alojamento. São, em muitos casos, locais com muito pouca vida para além da que depende do turismo. São zonas arranjadinhas, limpas, assépticas. Há um par de anos, parado no Cais de Gaia, fui interpelado por um espanhol. Queria saber qualquer coisa, já não me lembro o quê, mas depois continuou a falar e ao fim de minutos estava a dizer-me que a Ribeira, do outro lado, devia ter os prédios mais bem arranjados e que devia haver mais hotéis junto ao rio e outras coisas que também já não recordo. Nem me dei ao trabalho de discordar porque é inútil fazê-lo: mais do que cidades vivas, a maioria das pessoas deseja cenários perfeitos. É a minoria capaz de apreciar um mínimo de realismo (e, como é óbvio, não estou a defender que se facilite a degradação) que apreciará as ruas estreitas e escuras, nem sempre limpas, nem sempre bem cheirosas, nem sempre bem frequentadas, e os edifícios com pintura degradada dos bairros da Ribeira, da Sé ou de Miragaia, no Porto. Ou as ruas do centro histórico de Génova. Onde, descontada a profusão de anúncios luminosos e de cabos eléctricos pendurados, se consegue mais facilmente imaginar como seria a vida há quatrocentos ou quinhentos anos do que nas ruas inegavelmente mais bonitas de muitas outras cidades. 

 

Mas afinal eu também não permaneço em Génova mais do que algumas horas antes de seguir para Pisa e Florença.

Sinais e o segundo canal da RTP


escafandro,

É cedo mas os sinais são contraditórios. A questão do imposto extraordinário merece-me poucos comentários: não gosto mas admito a sua necessidade e aprecio o anúncio atempado. Outras coisas são mais preocupantes. O adiamento da privatização da RTP 1, por exemplo, é inaceitável. Por mau que seja o momento para a levar a cabo e por negativas que viessem a ser as consequências para os canais privados (e até para a restante comunicação social).

 

Aliás, quanto à RTP a minha única dúvida é saber se vale a pena manter público o segundo canal (vou ignorar os canais regionais e internacionais que, de qualquer modo, poderiam provavelmente funcionar apenas com conteúdo de operadores privados). No Público de Sexta-feira passada, Jorge Mourinha explicava que estivera a analisar a programação da RTP 2 e que chegara à conclusão de que a grelha é boa mas similar à de um canal generalista que evitasse novelas e reality shows (o texto pode ser lido aqui). De facto, a programação da RTP 2 é constituída por documentários, séries de qualidade razoável, um ou outro filme, dois ou três magazines, um par de programas de humor. Nada de particularmente descabido (apenas alguns horários) mas eu ainda me lembro (raios, tenho de aprender a evitar estas formulações) de como nos anos oitenta a RTP 2 passava ciclos de cinema (vi pela primeira vez os filmes de Fred Astaire e Ginger Rogers nas tardes das férias de Verão e muita gente ainda se lembrará de programas como o Cinco Noites, Cinco Filmes) e constato que esses ciclos desapareceram. Pergunto-me porquê. Pergunto-me também por que razão a RTP 2, não tendo que se preocupar com audiências ou receitas de publicidade, quase não passa teatro, ópera, bailado, concertos de música clássica; porque não tem um programa sobre livros, outro sobre música (tempos houve em que foi capaz de criar objectos míticos como o Pop-Off), outro sobre cinema, outro sobre artes plásticas, etc. Seriam caros? Provavelmente uma revista como a Ler não se importaria de colaborar no programa sobre livros, em troca da publicidade gratuita. Há por aí, e os blogues demonstram-no, muita gente apaixonada pelos mais variados temas que talvez aceitasse colaborar de graça ou em troca de valores pouco mais do que simbólicos. Independentemente de quais fossem as soluções encontradas, não teria de ser um canal caro – apenas diferente. Suponho que muitas pessoas estarão neste momento a resmungar que desejo um canal «elitista» e que um tal canal (no pun intended) teria audiências ainda mais reduzidas. Bom, mas que público consegue a RTP 2 captar hoje? Aquele que tem acesso às mesmas séries nos canais por cabo? Aquele que, tendo ou não televisão por cabo, prefere de qualquer modo as novelas e os reality shows da TVI e da SIC? Aquele que já quase não vê televisão por preferir a internet? Ou o que, apesar de tudo, vai assistir ao Câmara Clara, ver os filmes de Sábado à noite e espreitar um ou outro documentário? Não seria melhor assumir o «elitismo»? Dizer às pessoas: têm aqui uma verdadeira alternativa, aproveitam-na se quiserem. Vale a pena manter a RTP 2 para o que, como Mourinha refere e eu concordo, pouco mais é que um canal generalista sem preocupações de audiências?

Notas de viagem (2/5: Mónaco)


escafandro,

O Mónaco é patético a diversos níveis. É desde logo, com duas ou três excepções (o «Rochedo» e a praça do Casino e do Hotel de Paris, por exemplo), feio. É, depois, um sítio de ostentação muito para lá da fronteira do ridículo. E, lamento, não são as pessoas que têm muito dinheiro as mais ridículas. As que se aperaltam para ficar junto à porta do casino vendo outras entrar ou as que alugam Ferraris ou Porsches descapotáveis (interessados podem dirigir-se aqui ou aqui) para dar voltas ao principado a quarenta à hora, acelerando apenas ligeiramente à entrada do túnel sob o hotel Fairmont porque os Fórmula 1 também o fazem e o eco torna o ruído dos motores mais impressionante, estas sim, são dignas de pena ou então de servirem de inspiração a um conjunto de contos mostrando as fragilidades, inseguranças e ilusões do ser humano.

Mas o Mónaco é ridículo precisamente por viver das fragilidades, inseguranças e ilusões do ser humano. O Mónaco depende da imagem de glamour. Para a manter, atrai os muito ricos com um sistema fiscal que não taxa o rendimento (excepto o dos franceses residentes no principado há menos de cinco anos e o das empresas que obtenham os seus proveitos a partir de patentes e direitos intelectuais). Mas será eticamente aceitável permitir que os muito ricos fujam a um mínimo de responsabilidade para com a comunidade? Desde logo, a comunidade local, do próprio Mónaco: um sistema fiscal que não taxa os rendimentos é um sistema que não redistribui ou, para ser mais preciso, que o faz apenas na medida em que, ao consumirem produtos mais caros, os muito ricos pagam mais IVA. O Mónaco tem assim um sistema fiscal que não se preocupa com a redistribuição (e valerá a pena salientar que nem toda a gente no Mónaco é rica mas provavelmente também não convém que seja: afinal, nos hotéis alguém tem que estacionar os Ferraris e limpar os quartos). Mas pior: trata-se de um sistema fiscal que, ao sugar recursos de outros países, também nestes prejudica a redistribuição de rendimentos. Para quem como eu considera que o IRS é o único imposto verdadeiramente justo (além de, por norma, ser progressivo, tudo o resto – incluindo outros impostos – é pago com o que resta depois de retirar o IRS), este sistema é obsceno. Mas para o Mónaco é fundamental: sem a publicidade gratuita que os meios de comunicação social lhe fazem ao referir que o actor X e a tenista Y vivem lá e ao mostrar imagens do casino (onde as pessoas parecem estar sempre à espera de ver Bond, esse ícone do prazer, do bom gosto e até da cultura geral, apesar de nunca se ver a ler um livro), dos carros de alta cilindrada e da vida dos príncipes (não se esqueçam de que o casamento é este fim-de-semana!), o Mónaco correria o risco de perder o encanto. As pessoas ‘normais’ poderiam aperceber-se da fealdade dos prédios. Poderiam deixar de ir para a frente do casino na esperança de ver gente rica e famosa. Poderiam reparar que a relação preço-qualidade de muitos restaurantes e hotéis é discutível. Poderiam chegar à conclusão de que quase todas as povoações das redondezas são mais interessantes (Nice, por exemplo, a meros vinte quilómetros, é, na sua mistura de beleza arquitectónica e paisagística, zonas históricas e modernas, vida normal e turismo, incomparavelmente mais agradável). Felizmente para o Mónaco, gente com muito dinheiro quererá sempre fugir aos impostos e gente com algum dinheiro desejará sempre visitar o sítio onde as pessoas famosas vivem (pelo menos oficialmente) e o luxo parece imperar. Ainda que alguns Bentleys e Aston Martins possam estar estacionados junto aos hotéis porque os próprios hotéis lá os colocaram.

Notas de viagem (1/5: Zermatt)


escafandro,

Preâmbulo

Estou de volta (estejam à vontade para festejar porque, por muito que goste de vocês – especialmente de ti; sim, tu, com o Toshiba cor-de-rosa –, não serei eu a fazê-lo). Tendo rabiscado umas quantas notas que não cheguei a publicar, vou desfazer-me delas durante os próximos dias. Depois talvez comece a prestar atenção ao novo governo. Ou não: estados de graça não combinam comigo.

Não me perguntem porquê mas o Matterhorn fascina-me. Há um ano passei uma semana e tal na Suíça mas não tive oportunidade de chegar tão a Sul. Por isso este ano conduzi de Milão até Zermatt, passando pelo lago Como, pelo Ticino e pelo vale de Domodossola, em grande medida para o ver. A minha opinião sobre a Suíça continua a ser extremamente positiva e não, o Federer nada tem a ver com o assunto – ou talvez apenas um pouco mas não mais do que o chocolate. A circunstância de ter nascido junto ao sopé da Serra da Estrela poderá ser mais relevante (acredito que há uma espécie de genética do local de nascença) mas, acima de tudo, gosto na Suíça da mistura de natureza agreste com civilização. E do facto de as temperaturas raramente atingirem valores excessivos (o meu cérebro entra em default quando os termómetros sobem dos vinte e cinco graus). Claro que em férias também não convém que esteja muito frio nem que chova nem que a paisagem se encontre por trás de um manto de neblina. Felizmente, apanhei um tempo espectacular. Tão espectacular que apenas o topo do Matterhorn se manteve permanentemente encoberto. Juro que aprecio a ironia. Seja como for, o resto mais do que justificou a deslocação. E sempre posso fazer novo desvio para o ver quando for, sei lá, à Sicília.

Em Zermatt não circulam veículos com motor de combustão interna. Os automóveis têm de ser deixados em Täsch, a cerca de cinco quilómetros e meio. A partir daí, usa-se o comboio. Os hotéis de Zermatt enviam pequenos veículos eléctricos à estação recolher hóspedes e bagagem. São veículos curiosos, paralelepípedos toscos com rodas. O condutor do veículo do hotel Mirabeau (o buffet de pequeno-almoço tem pães e bolos sublimes) usa uma plaquinha com o nome “Jorge”. É português. Explica que se encontra em Zermatt há cerca de quatro anos e que está longe de ser o único português ali. Ouviu dizer – não sabe se é verdade – que são perto de três mil ou quarenta por cento da população. Sei que há muitos portugueses na Suíça mas ainda assim fico surpreendido. Rapidamente constato que os números de Jorge não devem andar longe da realidade. No hotel, um Avelino leva a bagagem até ao quarto. Mal regressado à rua, cruzo-me com um homem vestindo uma camisola do Futebol Clube do Porto. Grupos passam a falar em português. Crianças com trotinetes gritam em português. No dia seguinte, a funcionária de uma loja, rapariga louríssima, explica em português que, não sendo portuguesa, como tem amigas que o são já consegue falar a língua. Digo-lhe que a fala muito bem (é verdade). Torna-se simultaneamente gratificante e desconfortável estar rodeado de tantos portugueses. Gratificante porque, apesar de me encontrar no coração dos Alpes, é como se não se estivesse verdadeiramente num lugar estranho. Desconfortável porque sinto ter usurpado um poder que não condiz comigo: tão português como os restantes, por que diabo gozo do privilégio de ser turista? Mas ei – isto sou eu. Felizmente muitas pessoas não têm pruridos deste género (desconfio que algumas até gostarão de poder sentir-se superiores) e, de qualquer modo, questões existenciais não devem dissuadir quem quer que seja de ir até Zermatt ou qualquer outro ponto da Suíça. Aliás, vai-se a ver e é por serem confeccionados por portugueses que os pães e os bolos são tão bons.

O sorriso do são bernardo


escafandro,

Em Gronergrat, no Sul da Suíça, a 3089 metros de altitude, recordo-me de como, em Milão, na Pinoteca Ambrosiana, um quadro de um velho e um cão me chamara a atenção. Apropriadamente, chamava-se (bom, chama-se, que ainda lá deve estar) Vecchio com cane. Trata-se de um pequeno óleo sobre tela de 45 por 54 centímetros, pintado por Domenico Induno (1815-1870), alguém que permanece quase desconhecido para mim, visto nem a informação na Pinoteca nem a internet terem sido de grande utilidade. Há na Ambrosiana obras de gente muito mais famosa, como Botticelli, Raffaello, Tiziano, Caravaggio, Da Vinci ou Jan Brueghel, o Velho, defronte das quais se é forçado a parar quase religiosamente, nem que seja para depois se poder dizer tê-las visto. Ainda assim, se apreciei muitas das obras destes mestres (La Madonna del Padiglione, de Boticelli ou umas fantásticas Allegoria dell’acqua e Allegoria del fuoco, de Jan Brueghel, por exemplo) não deixei de ficar durante um par de minutos em frente à pequena tela de Induno. É uma situação simples, sem grande carga alegórica, mas qualquer coisa me fez parar. Lembrei-me, meio a despropósito, de um conto de Tchékhov em que um velho se tenta livrar de um cão e de um cavalo por (como ele, no fundo), estarem velhos e só lhe darem despesa. Mas o conto de Tchékhov tem um final triste e nada neste quadro indica que o homem planeia desfazer-se do cão. Parece haver cumplicidade entre ambos: o homem olha o cão com ar de bonomia enquanto este come, decidido mas sem urgência. É como se o velho tivesse acabado de chegar a casa (a forma como está vestido sugere-o) e tivesse ido imediatamente alimentar o cão. Como se vê-lo comer fosse a coisa que mais prazer lhe dá. Claro que não lhe deve ser fácil alimentá-lo – o velho tem aparência de pobre e o cão, um são bernardo, é enorme, deve comer bastante. Ao escolher um cão tão grande e ao pintar cão e velho nesta pose e não noutra, Induno só podia estar a tentar dizer-nos algo sobre as dificuldades e a força da relação entre ambos.

 

Lembro-me do quadro e deste confuso processo mental na Suíça, a 3089 metros de altitude, porque na pequena estação onde o comboio de cremalheira larga os turistas há um fotógrafo que tenta convencer as pessoas a posarem junto a um par de são bernardos. Os cães, com o barrilzinho típico (como o do quadro, afinal) são belíssimos e têm um ar pachorrento. Apetece fazer-lhes festas. Mas de repente um desata a correr e abocanha uma mochila pousada no chão. Sacode-a energicamente de um lado para o outro. Um rapaz – o dono da mochila – solta um grito, corre para o cão, agarra-lhe a trela e puxa. O são bernardo pára de sacudir a mochila, roda a cabeça, olha para o rapaz e sorri (eu sei, eu sei, mas «sorrir» é de longe o termo que melhor descreve a expressão do animal). Sorri como se comprovasse mais uma vez como os humanos são tontos. Depois volta a dedicar a atenção à mochila, tentando enfiar o focinho lá dentro, enquanto o rapaz puxa com mais força. É apenas quando o fotógrafo acorre que o são bernardo percebe não ir conseguir chegar à sanduíche ou ao que quer que seja de apetitoso que o rapaz transporta dentro da mochila (relembre-se que uma das características da raça é um olfacto apuradíssimo, que lhes permitia cheirar pessoas enterradas na neve) e desiste. Sim, penso então, lembrando-me do quadro da Pinoteca, por bem alimentado que pareça estar, um são bernardo tem de ser um cão de muito alimento. Mas é também um cão de boa índole. Perdida a sanduíche, aquele reassume sem protestos o seu papel de apoio à criação de recordações turísticas.

Horas depois, regressando a Itália, conduzo em direcção ao Col du Grand-Saint-Bernard e pondero seguir pela histórica passagem, subir ao local do mosteiro onde os monges criaram a raça há cerca de trezentos anos. Mas é tarde, ameaça escurecer. Opto pelo túnel de quase seis quilómetros inaugurado em 1964. Enquanto o percorro, e por muito ilógico que seja, não consigo evitar a sensação de que, ao evitar o esforço, estou de alguma forma a trair os simpáticos mastodontes helvéticos. A ser um bocadinho o velho do Tchékhov.