Sinais e o segundo canal da RTP


escafandro,

É cedo mas os sinais são contraditórios. A questão do imposto extraordinário merece-me poucos comentários: não gosto mas admito a sua necessidade e aprecio o anúncio atempado. Outras coisas são mais preocupantes. O adiamento da privatização da RTP 1, por exemplo, é inaceitável. Por mau que seja o momento para a levar a cabo e por negativas que viessem a ser as consequências para os canais privados (e até para a restante comunicação social).

 

Aliás, quanto à RTP a minha única dúvida é saber se vale a pena manter público o segundo canal (vou ignorar os canais regionais e internacionais que, de qualquer modo, poderiam provavelmente funcionar apenas com conteúdo de operadores privados). No Público de Sexta-feira passada, Jorge Mourinha explicava que estivera a analisar a programação da RTP 2 e que chegara à conclusão de que a grelha é boa mas similar à de um canal generalista que evitasse novelas e reality shows (o texto pode ser lido aqui). De facto, a programação da RTP 2 é constituída por documentários, séries de qualidade razoável, um ou outro filme, dois ou três magazines, um par de programas de humor. Nada de particularmente descabido (apenas alguns horários) mas eu ainda me lembro (raios, tenho de aprender a evitar estas formulações) de como nos anos oitenta a RTP 2 passava ciclos de cinema (vi pela primeira vez os filmes de Fred Astaire e Ginger Rogers nas tardes das férias de Verão e muita gente ainda se lembrará de programas como o Cinco Noites, Cinco Filmes) e constato que esses ciclos desapareceram. Pergunto-me porquê. Pergunto-me também por que razão a RTP 2, não tendo que se preocupar com audiências ou receitas de publicidade, quase não passa teatro, ópera, bailado, concertos de música clássica; porque não tem um programa sobre livros, outro sobre música (tempos houve em que foi capaz de criar objectos míticos como o Pop-Off), outro sobre cinema, outro sobre artes plásticas, etc. Seriam caros? Provavelmente uma revista como a Ler não se importaria de colaborar no programa sobre livros, em troca da publicidade gratuita. Há por aí, e os blogues demonstram-no, muita gente apaixonada pelos mais variados temas que talvez aceitasse colaborar de graça ou em troca de valores pouco mais do que simbólicos. Independentemente de quais fossem as soluções encontradas, não teria de ser um canal caro – apenas diferente. Suponho que muitas pessoas estarão neste momento a resmungar que desejo um canal «elitista» e que um tal canal (no pun intended) teria audiências ainda mais reduzidas. Bom, mas que público consegue a RTP 2 captar hoje? Aquele que tem acesso às mesmas séries nos canais por cabo? Aquele que, tendo ou não televisão por cabo, prefere de qualquer modo as novelas e os reality shows da TVI e da SIC? Aquele que já quase não vê televisão por preferir a internet? Ou o que, apesar de tudo, vai assistir ao Câmara Clara, ver os filmes de Sábado à noite e espreitar um ou outro documentário? Não seria melhor assumir o «elitismo»? Dizer às pessoas: têm aqui uma verdadeira alternativa, aproveitam-na se quiserem. Vale a pena manter a RTP 2 para o que, como Mourinha refere e eu concordo, pouco mais é que um canal generalista sem preocupações de audiências?

Um comentário em “Sinais e o segundo canal da RTP”

  1. Talvez fosse altura para assumir que as “élites” também têm direito à vida… e que dar ao “povo” oportunidade de ver (se quiser) certos programas “elitistas” talvez contribua para a respetiva educação/formação/qualificação de que tanto se fala.
    Digo eu…

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *