Notas de viagem (3/5: Génova)


escafandro,

Génova é a cidade que falhou o Renascimento. Centro mercantil e financeiro tão importante como Veneza ou Florença, uma das quatro principais Repúblicas Marítimas (com Veneza, Pisa e Amalfi), Génova teve durante o século XIII apenas Veneza como rival (em particular depois de, em 1284, destruir a frota de Pisa na batalha de Meloria). Contudo, no século XIV a peste negra reduziu-lhe significativamente a população (se a peste teve efeito similar em Florença, Pisa, Siena e Milão, Veneza conseguiu ir mantendo o nível de habitantes, o que a ajudou a ganhar vantagem sobre as rivais) e no século XV, perdidas muitas colónias para o Império Otomano e o domínio do Mediterrâneo Oriental para Veneza, mostrava claros sinais de decadência. Voltou-se para Oeste. Ligada a Espanha, recuperou poder no século XVI, sendo, em meados desse século, o mais importante centro financeiro do Mediterrâneo. Mas o período áureo do Renascimento já ficara para trás e, seja como for, os banqueiros e mercadores de Génova nunca pareceram mostrar a apetência para as artes dos Medici ou dos Sforza. Isso nota-se. Apesar de, mais de cem anos após o início do Renascimento, artistas como Rubens e Caravaggio terem passado por e trabalhado na cidade, em Génova não nasceram pintores e escultores do calibre de Botticelli, Michelangelo, Leonardo Da Vinci ou Raffaello. Apesar de Génova ter palácios e igrejas, poucos edifícios conseguem ombrear com os seus homólogos de Florença, Veneza ou Roma.  Elementos reveladores da vocação marítima e mercantil da cidade, os genoveses mais famosos são Cristóvão Colombo e o almirante Andrea Doria, e o monumento mais conhecido da cidade será a Lanterna, cuja versão actual é de 1543 e que, com 77 metros, é o segundo mais alto farol «tradicional» do mundo.

 

Mas Génova tem ainda outros monumentos interessantes, como a catedral San Lorenzo, e tem também uma das maiores zonas históricas da Europa, constituída por um emaranhado de ruas estreitas e pitorescas. Por que não é então um destino turístico tão importante como outras cidades italianas? Em grande medida, porque ruas estreitas não conseguem rivalizar com palácios e catedrais (na eterna luta entre cidades italianas, neste tempo em que o turismo é o Santo Graal de qualquer região, a derrota de Génova foi decidida há quinhentos anos). Mas também porque, independentemente da existência de catedrais ou palácios (e, volto a realçar, Génova possui exemplares de umas e outros), o centro histórico de Génova não parece um destino turístico. Os centros históricos de Florença, Pisa e Siena parecem destinos turísticos. Os centros históricos de quase todas as cidades espanholas parecem destinos turísticos. Os centros históricos de Braga e de Guimarães parecem destinos turísticos. As ruas e os canais de Veneza são o expoente máximo de como um centro histórico pode parecer um destino turístico. O centro histórico de Génova, pelo contrário, é um sítio onde pessoas – e pessoas não especialmente organizadas ou cuidadosas – parecem viver.

Onde quero chegar? Na ânsia de atrair turistas, as cidades, e em especial as zonas históricas das cidades, são hoje pouco mais do que museus ao ar livre: em vez de quadros e estátuas, expõem edifícios retocados para parecerem mais bonitos; em vez de uma loja de souvenirs, têm centenas; em vez de se pagar um bilhete para entrar, pagam-se preços inflacionados nas bebidas, refeições e alojamento. São, em muitos casos, locais com muito pouca vida para além da que depende do turismo. São zonas arranjadinhas, limpas, assépticas. Há um par de anos, parado no Cais de Gaia, fui interpelado por um espanhol. Queria saber qualquer coisa, já não me lembro o quê, mas depois continuou a falar e ao fim de minutos estava a dizer-me que a Ribeira, do outro lado, devia ter os prédios mais bem arranjados e que devia haver mais hotéis junto ao rio e outras coisas que também já não recordo. Nem me dei ao trabalho de discordar porque é inútil fazê-lo: mais do que cidades vivas, a maioria das pessoas deseja cenários perfeitos. É a minoria capaz de apreciar um mínimo de realismo (e, como é óbvio, não estou a defender que se facilite a degradação) que apreciará as ruas estreitas e escuras, nem sempre limpas, nem sempre bem cheirosas, nem sempre bem frequentadas, e os edifícios com pintura degradada dos bairros da Ribeira, da Sé ou de Miragaia, no Porto. Ou as ruas do centro histórico de Génova. Onde, descontada a profusão de anúncios luminosos e de cabos eléctricos pendurados, se consegue mais facilmente imaginar como seria a vida há quatrocentos ou quinhentos anos do que nas ruas inegavelmente mais bonitas de muitas outras cidades. 

 

Mas afinal eu também não permaneço em Génova mais do que algumas horas antes de seguir para Pisa e Florença.

5 comentários em “Notas de viagem (3/5: Génova)”

  1. De Génova – é curioso – guardo boas recordações, embora a tenha visitado há muitos anos, mesmo. Poderia a comparação com outras cidades, concretamente entre os respectivos níveis de QT (quociente turístico…) ser ainda equilibrada, nessa altura? Ou menos exigente?
    Mesmo assim, Pisa, Florença, Assis, Veneza, eram já então destinos-museu.
    Devem ter sido os meus olhos indulgentes de portuguesa, embora tenha lá estado muito pouco tempo, também, depois de ter chegado de barco, apanhado em Barcelona. Lembro-me de ter visto coisas lindíssimas, entre as quais o belíssimo e monumental Cemitério de Génova, onde perdi umas horas e é um desfile de riqueza escultural e arquitectónica, cheio de memórias das glórias passadas. – Visitou? É uma das maravilhas genovesas e, como todas as necrópoles, reveladora dos pergaminhos que uma cidade teve, ou não teve na história. Sem ponta de morbidez, é, de facto, esmagadoramente bonito.
    O que só vem comprovar o que diz: – Génova deve estar mesmo morta há quinhentos anos, por decreto…

    1. Laura: ainda bem que guardas (fui avisado logo nos primeiros dias de que nos tratamos por «tu») boas recordações; eu também não guardo más. O meu ponto é apenas que Génova parece menos monumental e mais “normal” do que outras cidades italianas. Mas isso não é necessariamente negativo. Por um lado, a repetição cansa (se visitar várias cidades espanholas de média dimensão umas a seguir às outras, a certa altura já lhes confundo as Praças Maiores*), por outro convenhamos que Veneza, por exemplo, por muito bela que seja, já não parece exactamente uma cidade viva. Génova tem a vantagem de não parecem andar pelas ruas apenas turistas ou pessoas querendo vender coisas a turistas. Quanto ao cemitério, efectivamente com a reputação de ser magnífico (mas construído no século XIX, muito depois do Renascimento), infelizmente não o visitei.

      * Exagero mas só um bocadinho.

  2. Eu gostei de Génova, embora não se possa compará-la em beleza com as cidades-maravilha que enumeras (e muitas outras desse país magnífico). E também visitei o cemitério, que é realmente uma caixinha de surpresas. Mas eu sou suspeita no que toca a Itália. Acho que só Milão me decepcionou, e mesmo assim…

    Promete que continuas a mandar-nos estas crónicas de viagem, é uma forma de viajarmos também.

    1. Ana: como escrevi no primeiro post, já cá estou. Era para publicar isto ainda em Itália mas não consegui arranjar tempo (nem vontade) para escrever muitos posts. Faltam dois – e talvez um epílogo.

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