Notas de viagem (Adenda: poses ou o segundo plano e o ioga de Pisa)


escafandro,

A pose típica do turista é de costas para o que quer que seja – igreja, praça, quadro, paisagem – que o levou até ao local. A putativa atracção fica assim por trás, mais ou menos focada, mais ou menos bem exposta, consoante a capacidade do fotógrafo, as características do sensor de imagem e a inteligência dos algoritmos da máquina. Para quase toda a gente, o importante é a própria presença – cá estou eu em frente àquilo. É ser capaz de provar a si mesmo e aos outros ter estado lá – junto daquele segundo plano.

 

Depois há uma variante mais divertida mas, por muito que as pessoas pensem o contrário, não muito mais original, que um pouco conhecido blogger português irá chamar dentro de instantes – três, dois, um – Ioga de Pisa. (Mas vocês já sabiam porque leram o título, não é verdade?) Em Pisa, o ioga de Pisa significa posicionar corpo e mãos de modo a fingir que se impede a queda da torre enquanto outra pessoa tira uma fotografia; junto a estátuas de nus masculinos em Pisa, Paris ou Provideniya (se é que existem estátuas de nus masculinos num sítio tão frio como Provideniya), significa colocar o indicador e o polegar de tal forma que pareçam medir o tamanho do pénis da estátua enquanto outra pessoa tira uma fotografia; em Pisa, Paris, Provideniya ou qualquer outro ponto do planeta em que ocorram pores-do-sol (mas especialmente à beira-mar), significa colocar os dedos, as mãos ou os braços de modo a parecerem agarrar o Sol enquanto outra pessoa tira uma fotografia. And so on and so on. A nossa originalidade é a originalidade de milhões mas isso pouco importa: como o mesmo blogger escreveu um dia (também pode ter sido uma noite), um cliché fica totalmente diferente quando é o nosso cliché.

7 comentários em “Notas de viagem (Adenda: poses ou o segundo plano e o ioga de Pisa)”

  1. Gostei do post e da última frase. É isso mesmo: ‘um cliché fica totalmente diferente quando é o nosso cliché.’ Ver se consigo mandar alguns de Berlim proximamente.

  2. Odeio máquinas fotográficas, perco-as todas ou esqueço-me sempre delas. Decididamente, os telemóveis 2G foram a minha salvação (- Queres jantar aqui? #foto# -Compro-te esta camisa? #foto# – Não acredito neste graffitti !! #foto# – Eu bem te disse que o energúmeno vinha, mas tu não acreditavas… #foto# . Em suma, uma revolução de vida pela positiva, no capítulo das ‘ practicalities ‘.
    Mas, sobretudo em viagem, a câmara é mesmo o objecto mais dispensável que há. A não ser que se destine a isso mesmo: capturar imagens.
    De resto, qualquer agitação, qualquer intencionalidade barulhenta é incompatível com a verdadeira memória dos sítios. Para além de requerer uma disciplina férrea, outro inimigo jurado do viajante.

      1. Sou um bocado viciada em tirar fotografias quando viajo, mas já fui mais. O problema é quando gosto mesmo de um sítio ou de um monumento e me cruzo com ele várias vezes. Fico um bocado obsessiva. Estive em Moscovo há pouco e tenho uma colecção imensa de fotografias da Praça Vermelha e da Catedral de S. Basílio.

  3. Nunca (ou quase nunca, vá lá) trago fotografias minhas de viagem. E depois tenho pena. Mas estou de acordo com a Laura: o telemóvel abriu-me todo um mundo desconhecido no que toca a “apontamentos” de viagem. É que nem sequer tenho máquina fotográfica…

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